quarta-feira, 28 de março de 2018

Praça dos Enforcados ou Praça dos Suicidas?

Praça dos Enforcados ou Praça dos Suicidas?


A.F. Monquelat

       
Detalhe do chafariz da Praça Cipriano Barcelos
       
       É cada vez mais recorrente a afirmação de que a popularmente chamada de “Praça dos enforcados” deve tal nome ao fato de ali ter sido o local onde foram enforcados escravos, e por mais de uma vez.
       Em princípio, poderíamos creditar tal afirmação ao sem número de outras lendas da cidade que carecem de fundamentação histórica. Em Pelotas, o que não se sabe e tampouco se pesquisa, se inventa. E assim, de invenção em invenção, veio a Princesa do Sul a formar o seu manancial de mitos e lendas; ou seja: uma história mitômana. História esta que não poucas vezes ocupa na fala e até mesmo na escrita, o lugar de uma história mais verossímil e mais próxima da realidade. Uma história baseada em fatos acontecidos e não em fatos inventados.
       Antes de vermos o porquê de nosso título, vejamos como nasceu a Praça Cipriano Barcelos, nome oficial da conhecida Praça dos Enforcados.

Possível origem da Praça Cipriano Barcelos

       O Jornal do Commercio em sua edição de 31 de março de 1876, publicando parte do Relatório enviado pela Câmara Municipal à Assembleia Provincial, reproduz no item PRAÇAS o seguinte: 
 
      “Sendo esta cidade muito escassa de praças públicas, como tendes ciência, seria muito conveniente que lhe concedêsseis para uma praça o terreno aquém do arroio Santa Bárbara, cuja planta já se enviou, e do qual tratamos no relatório anterior.
Assim legislando prestareis um real serviço a esta cidade e atendereis a um melhoramento palpitante [...]”.

       Cremos não haver dúvida alguma ter sido esta manifestação da Câmara de Pelotas o embrião para o surgimento da praça que, não muito depois, veio a ser a Praça Henrique d’Ávila, hoje Cipriano Barcelos. 

Nascimento da atual Praça Cipriano Barcelos

       Em sessão extraordinária ocorrida em 2 de setembro de 1880, presentes na Câmara Municipal o Sr. presidente Dr. Leopoldo e demais vereadores, foi lida a Circular do Sr. presidente da província, Henrique d’Ávila, na qual se encontrava uma cópia do ato de 25 de agosto de 1880, pelo qual fazia cessão à Câmara do terreno situado na margem esquerda do arroio Santa Bárbara, para que nele fosse instalada uma praça pública. A Câmara, tomando ciência, resolveu denominá-la de Praça Henrique d’Ávila.

O presidente Henrique d’ Ávila e a nova praça

       Sob a presidência do Dr. Leopoldo Antunes Maciel, presentes os demais vereadores, foi realizada uma sessão extraordinária em 7 de outubro de 1880, na qual foi lida a portaria da presidência da província onde esta se congratulava com a Câmara de Pelotas pelos melhoramentos do município, bem como agradecia pela prova de adesão que manifestara, denominando a nova praça pública com o seu nome.
       Ora, considerando o ano de 1876 como o pontapé inicial para o surgimento da praça, esse acontecimento por si só, caso os “inventores” pelotenses dele soubessem, bastaria para desacreditar a lenda de que ali tivesse havido enforcamento de escravos, pois desde muito antes dessa data já não havia enforcamentos em Pelotas, e, muito menos haveria em uma praça que sequer existia. Considere-se, ainda, que o último enforcamento no Brasil imperial foi o do escravo Francisco, ocorrido na cidade de Pilar, Estado de Alagoas, aos 28 dias de abril do ano de 1876.

A Henrique d’Ávila troca de nome

       Depois de submetida à ideia ao Sr. Dr. vice-intendente de trocar o nome da Praça Henrique d’Ávila para o de Praça Floriano Peixoto, aquele, após pronunciar algumas palavras “cheias de patriotismo”, declarou concordar, jubiloso, à vontade do povo.
       Da reunião de pessoas que solicitaram tal mudança, diz o Correio Mercantil de 12 de março de 1893, terem partido entusiásticos vivas à República, ao governo do estado, ao Marechal Floriano, ao Dr. Piratinino de Almeida, ao partido republicano e à cidade de Pelotas.

O início dos suicídios

       É possível, sem que tenhamos certeza, que o primeiro dos suicídios ali ocorrido tenha acontecido dia 11 de março do ano de 1920, dando assim início a uma série de outros fatos dessa natureza que acabaram determinando o apelido de Praça dos Enforcados.

Praça Cipriano de Barcelos

O suicida

       Na manhã daquele dia 11, foi encontrado pendente de uma corda em volta do pescoço, em uma árvore da “praça Marechal Floriano”, um moço de “tez morena” e bem trajado.
       A autoridade judiciária compareceu assim que alertada. Depois  de cortada a corda que o sustinha, procurou-se algum indício sobre a identidade do enforcado. Fora encontrada apenas,  em um dos bolsos, uma carta que dizia: “Pelotas, 10-03-1920. Quarta-feira, 11h30m.
       O motivo de eu dar, hoje, fim na minha existência é ter em meu corpo várias moléstias, sendo uma delas incurável, já fui desenganado por um médico, e para não viver sofrendo achei melhor terminar com a minha vida, assim peço não culpar a ninguém”.
       Em vista de não ser ele conhecido, procurou a polícia descobrir o nome do suicida, conseguindo então saber tratar-se do jovem Pedro Gonçalves da Silva, branco, solteiro, empregado no comércio e natural da República Oriental do Uruguai.
       Era ele o amparo de duas irmãs, as quais se encarregaram do sepultamento, que aconteceu às 17 horas, saindo do necrotério da Santa Casa.
       Não muito depois daquele ocorrido, Ercínio Padilha, solteiro de 33 anos, enforcou-se usando um fio de arame naquela praça.
       Para finalizarmos este artigo, sem com isto esgotar tal assunto, trazemos a matéria do jornal A Opinião Pública de 6 de novembro de 1936, confirmando nossa afirmação quanto ao número de suicídios por enforcamento na praça Cipriano Barcelos, quando nos diz que, a Praça Cipriano Barcelos, mais conhecida por “Praça do Pavão”, e que já há algum tempo fora chamada “Praça dos Enforcados”, nome que lhe veio, pelos vários suicídios nela verificados, por meio de enforcamento, foi teatro de mais um triste drama, de impressionante característica:

       Foi encontrado ali, na madrugada do dia 6 de novembro de 1936, suspenso por uma corda, o corpo de um homem, o qual, num gesto de incontido desespero, deu cabo da existência, enforcando-se.
       Verdadeira multidão rodeava o corpo do suicida, que às 7 horas, ainda continuava na mesma trágica posição em que fora encontrado.
       Soube-se, ali, que, desde as 4 horas, as autoridades haviam sido notificadas do ocorrido.
       Somente às 8h30, compareceu, ao local, o Sr. capitão César Brisolara, delegado de polícia. Com a sua presença, o corpo foi retirado da posição em que se encontrava, sendo removida para o necrotério.
       4 horas e meia durou o triste espetáculo, até que a polícia desse às caras.
       A árvore escolhida por José Severo Gonçalves, era esse o nome do suicida, para o seu trágico fim, foi uma das que ficavam situadas à margem do arroio Santa Bárbara.
       A corda utilizada por Gonçalves era feita de inúmeros fios de barbante.
       Amarrando-a num dos galhos da árvore, ele deixou cair o corpo, sofrendo o estrangulamento. A árvore era pouco alta, tanto assim que os pés do suicida tocavam na relva do canteiro.
       José Severo Gonçalves contava 32 anos, era solteiro e natural de Portugal, sendo proprietário, juntamente com o Sr. José Aires, do Restaurante Buenos Aires, localizado no Mercado Central.
       O suicida não deixou declaração alguma sobre os motivos que o levaram àquele gesto.
Trabalhara no seu restaurante, até às 3 horas da madrugada.
       Vestia com decência, no momento em que foi encontrado, segundo informava o jornalista.
O corpo foi removido para a residência de sua família, à Rua General Osório, nº 69, de onde saiu o enterro, naquele mesmo dia, às 18 horas, a cargo da Casa Lima.

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Fontes de pesquisa: CDOV-Bibliotheca Pública de Pelotas / “As praças de Pelotas e suas histórias”, Livraria Mundial, A.F. Monquelat.
Revisão do texto e postagem: Jonas Tenfen
Imagens: arquivo digital de A.F. Monquelat

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Theatro Avenida, Pelotas

 (parte 1)



                                                                                                          A.F. Monquelat





         Dentre os cinemas de Pelotas, da década de 50 em diante, o que mais esteve presente na minha vida foi, sem dúvida alguma, o Avenida.
Durante algum tempo, aquele cinema foi a minha rodoviária, aeroporto e ferrovia; e seus guichês, o local onde eu retirava as entradas para viajar pelo mundo. Foi dessa forma que conheci lugares e gente famosa. Verdadeiros astros, estrelas, mocinhos e bandidos, estes últimos, mais tarde percebi que não eram tão bandidos quanto Hollywood os fazia parecer. John Wayne, por ter matado tantos índios maus não teve lugar no meu panteão.
    Quando de sua construção, ano de 1927, o Theatro Avenida viria, segundo a imprensa, preencher uma lacuna existente naquela parte da cidade, que era a de levar um dos principais - se não o principal - entretenimento para os moradores daquela região.

    A pedra fundamental e a importância, na época, da construção do Avenida
             Aos 21 dias do mês de novembro de 1926, a imprensa noticiava que o esforçado Sr. Francisco Santos, proprietário do Theatro Apolo e arrendatário do Theatro 7 de Abril, submetera a aprovação da Diretoria de Obras da Intendência Municipal o projeto para a edificação de mais uma casa de diversões que teria o nome de Theatro Avenida, e seria situada à Avenida Bento Gonçalves.
             O futuro estabelecimento teria majestoso aspecto e obedeceria a todos os requisitos exigidos nas modernas casas daquele gênero, vindo certamente contribuir destacadamente para o embelezamento da parte da cidade a que iria servir.
             As obras do Theatro Avenida estavam a cargo do conhecido construtor Anacleto Perazzo.
             Poucos dias após aquela divulgação, dia 11 de dezembro de 1926, com a presença de um grande número de pessoas, apesar de não ter sido em caráter oficial, ocorreu o lançamento da primeira pedra para a edificação do Theatro, que a empresa Xavier & Santos mandou levantar em vasto terreno que adquirira â Avenida Bento Gonçalves esquina da Rua Paysandu [atual Barão de Santa Tecla].
              O ato, que decorreu entre o mais franco júbilo da assistência, teve como padrinhos os jovens Homero Santos e Carlos Xavier, filhos respectivamente, dos Srs. Francisco Santos e Francisco Vieira Xavier, diretores da empresa.
             Pela planta da bela construção, que esteve exposta na vitrina da Casa Americana, constatava-se ficar aquela populosa zona da cidade, atendida por casa de espetáculos de primeira linha, com o conforto moderno e nas condições indispensáveis para as pessoas que, na época, tinham de percorrer longo trecho, em busca das casas de “diversões cinematográficas”.
             Com a construção do Avenida, ficaria preenchida uma grande lacuna, graças a iniciativa da empresa Xavier & Santos.

    A inauguração da cumeeira do Avenida
             Depois de seis meses do lançamento da pedra fundamental, a empresa Xavier & Santos já pode inaugurar, dia 14 de maio de 1927, a cumeeira do majestoso Theatro Avenida, que estava construindo à Avenida Bento Gonçalves esquina da atual Barão de Santa Tecla.
             Seguindo rigorosamente o projeto, cuja planta esteve por vários meses exposta na vitrina da Casa Americana, a construção da nova casa de diversões, que assinalaria mais um passo “no progresso da cidade graças a elogiável iniciativa” da empresa Santos & Xavier, fora confiada ao hábil construtor Sr. Anacleto Perazzo, sob imediata direção do Sr. Francisco Vieira Xavier.
             Com um número, em média, de 40 operários e a conjugação de muitos esforços, podia-se após tão curto espaço de tempo, avaliar o que seria, em conforto e beleza, o belo prédio que em muito iria contribuir para o aformoseamento daquele local.
             Edificado em terreno próprio, o Theatro Avenida media 54 metros de fundo por 24 de largura, tendo o corpo do edifício 12 metros de altura.
             O palco, amplo e confortável, tem a altura de 17 metros, facilitando a subida dos cenários abertos, o que economizaria tempo e não inutilizaria o material, tem 9 metros de boca e 15 de fundo, possuindo 8 camarins de cada lado, em dois andares, servidos por escadas cômodas e completo serviço de água em cada andar; banheiros, ampla varanda para a locomoção de cenários.
             A plateia, que seria provida de ótimas poltronas, comportaria 1.600 pessoas, havendo à entrada, sob as galerias, 7 frisas de cada lado com assentos para 35 pessoas.
             As galerias, cobrindo todo o saguão e parte da plateia, com um piso de concreto, comportariam 650 espectadores comodamente sentados, ficando ao centro das galerias o aparelho cinematográfico, instalado em alemã, das fábricas Krupp, o mais aperfeiçoado no gênero.
A fachada do prédio, de belo estilo, contém 19 aberturas térreas e 9 superiores.
À esquerda ficavam as bilheterias, servidas por 3 guichês externos e 2 internos; a secretaria no segundo piso e a enorme copa, para onde e passava depois de penetrar no amplo saguão.
À direita ficava situado um guarda-bengalas, os banheiros da galeria e da plateia, independentes, toalete para mulheres, a escada de acesso para as gerais e a porta de saída destas.
         A cobertura, de zinco, repousava sobre sólido vigamento de aço encomendado à firma porto-alegrense Gustavo Hugo, este sustentado por colunas de ferro colocadas sobre sólidas bases de concreto, sendo o forro de madeira.
         O amplo saguão, que seria ornamentado moderna e discretamente, ostentava fortes colunas que seriam revestidas de fina escaiola.
         Pensava a empresa Xavier & Santos inaugurar o Theatro Avenida na segunda quinzena de unho, exibindo um grande filme.
Visitado pelo Sr. Dr. Ewbank da Câmara, diretor das Obras Públicas do município, este funcionário só teve elogios para o novo teatro, já pela competência evidenciada nessa construção, já pelo excelente serviço sanitário que ia o mesmo sendo dotado.
Comemorando o fato, a empresa ofereceu naquele sábado, 14 de maio, às 16 horas, um suculento churrasco regado a chope aos seus operários, tendo para aquele ato convidado a imprensa e grande número de pessoas amigas.
O Sr, José Inghes [Júlio José Inghes, fotógrafo pelotense] apanhou vários aspectos da agradável festa, durante a qual reinou a mais franca alegria e cordialidade.

                                                                                                                                                                                                                                                                 Continua...     
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          ___________________________________________

Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
Foto: Acervo A.F. Monquelat.
Revisão do texto e postagem: Bruna Detoni


segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A revolta dos negros Minas

parte 4 e última





         Nas cozinhas senhoriais, tanto dos palacetes quanto dos casarios, urbanos ou rurais, a preocupação das sinhazinhas era a mesma: evitar que fossem envenenadas. Tal preocupação tinha lá os seus motivos, pois, não há pouco uma família inteira fora envenenada.
         A coisa toda se passou mais ou menos assim, conforme carta enviada de Pelotas para um redator de um periódico da cidade de Rio Grande.   Segundo o remetente, dada a importância da família envolvida, a carta deveria ser divulgada nas colunas daquela folha: uma comadre do Sr. José Vieira Viana, delegado de polícia em Pelotas mandou-lhe de presente do Rio Grande um prato de camarões, que o delegado Viana mandou temperar à sua vista. Quando servido à mesa e logo após serem ingeridos, todos que deles comeram ficaram de tal maneira indispostos, que logo suporam um envenenamento.
O delegado, segundo o autor da carta, tinha a saúde demasiado débil e, em seguida lhe sobreveio uma dejecção alvina e vômitos terríveis.
A mulher do delegado Viana, que se achava em estado grave, fizera tanto esforço para vomitar que lhe saíram pela boca duas bacias de sangue. Enfim, 5 foram as pessoas da família do delegado a comerem dos “malditos camarões”, sofrendo todos de cólicas fortíssimas, acompanhadas de sintomas de envenenamento.
Dois médicos, um de nome Xavier, trataram dos doentes, que os considerou sem perigo.  
Era ainda de ser notado, segundo o missivista, o fato de que um fâmulo da família Viana ter usado a mesma vasilha para nela fazer outra comida, além do uso de outros utensílios de cozinha em que haviam servido os camarões, ficara também gravemente indisposto.
Na confusão provocada pelo incidente, ninguém teve a ideia de juntar algumas das matérias vomitadas, para que fossem submetidas a uma séria análise da natureza delas; porém, informava, isso não obstaria para que fossem empregadas as mais severas averiguações a fim de descobrir-se o autor de tão horrível atentado.
A carta encerrava informando que todos os amigos do delegado Viana, que era o mesmo que dizer toda a cidade de Pelotas, receberam com extremo pesar semelhante notícia, e davam graças a Deus por haver preservado de iminente perigo a uma família tão digna de estima de todas as pessoas honestas, e de benevolência geral.
Os viandantes ou até mesmo os tropeiros que chegavam à cidade eram vistos com desconfiança, tanto pelas autoridades quanto pela população branca, pois circulava pela cidade a informação que agentes secretos vindos do Rio da Prata estarem residindo em muitos distritos da província.
         Um tropeiro recém-chegado a Pelotas e que de lá, do Estado Oriental, viera havia dado notícia ao delegado Viana que, passando em Arroio Malo há poucos dias, ali lhe informaram que os escravos daquele município haviam se insurgido, saqueando a cidade passando para o lado dos Blancos, no sobredito Estado.
         Atendendo ao ofício enviado pelo delegado Viana no qual este pedia força policial e providências com o propósito de prender um grupo de escravos que se achavam reunidos no 2º distrito de Pelotas, mandara o tenente-coronel Serafim Ignacio dos Anjos, chefe da legião da guarda nacional, na mesma hora em que recebera o ofício, ordem para se reunirem os guardas nacionais da Costa da Serra, nos pontos de Monte Bonito e Passo do Retiro, onde amanheceram do dia 09 para 10 mais de 100 homens reunidos e bem dispostos; e que seguira, no mesmo dia, pela costa do Arroio Pelotas acima, a perguntar onde é que estava a reunião de escravos, mas que não lhe fora possível descobrir, e tampouco constava tivessem se evadido escravos das charqueadas daquela Costa, e que ali, estavam todos acautelados. Dera ele, então, as providências para que a Costa fosse patrulhada pelos moradores da mesma, ao que todos se propuseram com muita disposição.
         No distrito do Cerro da Buena, não havia movimento algum de escravos; à vista do que, fez retirar os guardas nacionais para que estes voltassem para suas casas, ficando, porém, prontos para qualquer ameaça que surgisse.
         Encerrava o ofício, dizendo estar enviando um escravo de nome João Bitencourt, apanhado no Monte Bonito Este escravo afirmava andar fugido há dois meses, e que pertencia ao grupo dos revoltosos.
         Ele, Viana, em uma de suas correspondências, dizia julgar ter sufocado o mencionado plano de insurreição, com as providências que tomara, e com os recursos da cidade: mas, a confirmarem-se aquelas suspeitas, eram esses recursos demasiado pequenos para que ficasse em segurança e tranquilidade um município em que existiam mais de 3.000 escravos, e muitos desordeiros.
         Na cadeia os açoites eram em número cada vez maiores, mas não conseguiam abafar os gritos de dor que se espalhavam pelas ruas da cidade.
         Em virtude das notícias que pela campanha se espalharam, quanto à insurreição dos escravos, o general comandante de armas Caldwel apressou sua ida de Jaguarão para Pelotas, a fim de tomar as providências que estivessem ao seu alcance, porém, quando em Pelotas e a par da situação, ficou ele convencido de que o maior barulho fora devido ao susto de que foram acometidas as autoridades policiais.
Também sobre o episódio, recebeu o redator de certo periódico rio-grandino, alguns ofícios que ele, prontamente, pôs à disposição dos leitores.
O primeiro dos ofícios divulgados pelo jornalista de Rio Grande, foi o do comandante superior interino, Sr. Thomaz José de Campos, endereçado ao sr. José Fernandes dos Santos Pereira, brigadeiro e comandante da 1ª brigada do exército e da fronteira do Chuí, no qual dizia o comandante Thomaz José de Campos, que de acordo com o ofício dirigido ao brigadeiro, pelo delegado de polícia de Pelotas, José Viana, pedindo providências  em face de haver no município de Pelotas mais de 3.000 escravos e tantos elementos de desordem pela sua posição aberta, temendo que a tentativa de insurreição referida fosse promovida por indivíduos do Estado vizinho, o Uruguai, cumpria-lhe informar que, apesar de ter estado nessa cidade e, ausente dela há 12 dias, a par agora das ocorrências e pelas ideias que já tinha a respeito, não concordava em parte com as opiniões do delegado Viana; sendo induzido a crer que as tentativas dos escravos abrangiam somente os da nação mina; e que o temor de haver aliciadores do Estado vizinho, não era bem fundado, e muito menos o da presença de elementos de desordem. Não obstante, considerava e concordava com a opinião do delegado Viana, de que o município de Pelotas reclamava uma força efetiva, segundo sua posição, a bem de policiá-lo convenientemente.
    Há quem diga que os insurgentes, se vitoriosos, e o seriam sem dúvida alguma (pois a “escravatura das xarqueadas, calejada no trabalho, endurecida na faina de matar e esfolar as boiadas, habituada a usar e destramente, a faca, o machado, os paus do serviço; vivendo em contato com os capatazes e os seus senhores, sem dúvida levaria de vencida o atrevido lance”) iriam em direção ao Rio de Janeiro e contariam com a proteção e o auxílio dos ingleses.
         Dentre outros fatos é também referido, que fora oficiado ao Dr. juiz de direito da comarca do Rio Grande, que em 14 do corrente se oficiara sobre os acontecimentos do dia 06, dos quais nenhuma informação oficial havia naquela data, e que o Presidente da província mandara por a disposição a canhoneira Caçapava.
         Deplorava o Presidente que, sendo do conhecimento das autoridades, desde princípios de janeiro, a conspiração dos negros, de tão sério acontecimento não tivessem comunicado; e, não podendo elas contar com a solução de tão grave problema, tomassem a responsabilidade dele sobre si; lamentava ainda mais que, depois de conhecido e manifestado o plano do dia 06 e, depois de superada a dificuldade, dissessem que era pouca a força simultânea de 1ª linha e de polícia, e que era necessário, além disso, armar de imediato a guarda nacional do município de Pelotas. Quanto a isso já havia ele feito de tudo o que era possível; a comarca estava armada em parte; e novas ordens expedira para continuar o armamento. E que, distando tão pouco de Pelotas à cidade do Rio Grande, podiam, em caso urgente, requisitarem mais força, inclusive à guarda nacional daquele município, que estava completamente armada.
         E assim, sem sabermos exatamente como tudo se passou, pois não conhecemos versão ampla ou contada pelo lado dos insurgentes, entendemos ser mais lógico pensarmos que a rebelião conhecida como a insurgência dos Nucas-Rapadas, não fosse a delação sofrida, vitoriosa iria em direção ao estado vizinho, a República Oriental del Uruguai, onde usufruiriam da liberdade que o império brasileiro não lhes permitia.
         E pensar que o sonho de liberdade de centenas de escravos, fossem ou não eles somente da nação Mina, deixou de se realizar por delação de três outros escravos que resolveram denunciar a conspiração por que por seus senhores sentiam grande amizade. Estes senhores sempre os trataram com cordialidade, os quais, em troca de suas insignificantes liberdades, considerado o projeto maior, não se lembraram do que aconteceria aos seus irmãos de cativeiro, que por tal infâmia foram aprisionados, açoitados e até mortos.
         Será que o negro Procópio, de nação Mina, ao qual foi dada a “liberdade de hoje para sempre”, - para que ele fosse tratar de sua vida como liberto que ficava sendo, em razão de ter seu senhor, Luiz Manoel Pinto Ribeiro, em três de março de 1848, recebido do ilustríssimo senhor José Vieira Viana, delegado de polícia desta cidade, a quantia de noventa e sete mil réis, que mandou agenciar pela alforria do dito escravo, por haver o mesmo denunciado uma insurreição que estava sendo projetada entre os negros de sua nação, aos quais denunciou e entregou àquela autoridade, que mandou prender e corrigir, pergunto novamente, será que o negro Procópio - o faria sem lembrar o que causara a seus irmãos?
         E, por verdade do expedido, e para que o dito escravo possa gozar de sua inteira liberdade, declaramos aqui hoje e para todo o sempre que:
Os cães espreitavam à entrada das charqueadas
 O barulho das correntes se ouvia fora e dentro das senzalas
As águas do Santa Bárbara corriam, lentamente, em direção ao São Gonçalo
As tias Minas, de tantos saberes, já não entoavam seus cantos
A escravidão abortara cruelmente o grito da liberdade.
                                                                                       
Revisão do texto: Jonas Tenfen
Postagem: Bruna Detoni

sábado, 13 de janeiro de 2018

A revolta dos negros Minas

(parte 3)







         Por mais que as autoridades tentassem esconder aquela agitação, aquele corre-corre, o prende-prende, o pega-pega daqueles que buscavam escapar em direção aos matos, ao campo, enfim, a algum lugar que lhes pusesse a salvo dos policiais, do chicote, do castigo, das torturas, da morte. Morte é, o que já acontecera a mais de uma dezena de homens envolvidos naquela afronta ao regime estabelecido: o crime de tentarem livrar-se do trabalho forçado, do açoite, dos maus tratos, da insalubridade daquilo que os senhores lhe davam como moradia, das correntes, das gargalheiras e outros tantos instrumentos que lhes causavam dores e cicatrizes quando punidos pelo crime de buscarem suas liberdades; era tarde demais, pois, já não se ouvia mais o barulho da água correndo pelo Santa Bárbara nem o canto das tias Minas, as roupas não mais iam de encontro as pedras do arroio, o medo tomara conta de tudo e de todos.
         Entre os revoltosos uma indagação: como teriam sido descobertos? Se traídos, quem os delatara? Se fora algum de seus irmãos de desgraça, em troca de quê?
         No tronco da charqueada, à beira do Arroio Pelotas, o pardo Vicente, recém-açoitado 50 vezes por ordem de seu Senhor, que suspeitara que aquele escravo soubesse de algo sobre o motim, via o seu sonho de liberdade desfeito. Sonho que começara a ser construído através das palavras do capataz, um castelhano, de voz mansa, que lhe falara de uma tal de Guerra Grande, que estava acontecendo não muito longe dali, uma guerra que envolvia vários países. E lá, um lugar entre as tropas do comandante Oribe lhe aguardava, onde, em troca de seus serviços, receberia sua liberdade. Quantas vezes se imaginou como soldado.Soldado das tropas da República Oriental do Uruguai, um país onde todos os homens eram livres.
         A morte em combate não lhe assustava.
         A morte, para Vicente, era algo que não temia. Muitas vezes pensara nela como uma forma de liberdade. Fazê-lo de maneira rápida, como se estivesse sangrando uma rês, uma facada rápida e segura, e pronto. Quem sabe agora, assim que se livrasse daquele tronco, daquele castigo, quem sabe...
         Enquanto isso, na vizinha cidade de Rio Grande, o delegado da cidade lia um ofício encaminhado pelo delegado de Pelotas, onde era dito que: 
 Ilmo. Sr. – Como o termo [subdivisão de um território ; comarca] em que V. S.ª exerce o emprego de delegado de polícia divide com em que eu exerço o mesmo emprego, julgo conveniente comunicar-lhe que, desde princípios do mês de janeiro último tive suspeitas e denúncias de que havia um plano entre os negros minas desta cidade, das charqueadas e olarias e de suas imediações, para uma insurreição, a qual, pela última e mais bem fundada das ditas denúncias, deveria acontecer no último domingo, 06 do corrente mês; em consequência, tomei desde o início as medidas de prevenção que julguei necessárias: no sábado, véspera da insurreição, dei as mais terminantes providências para evitar a projetada, que seria de terríveis resultados, se não a houvesse sufocado a tempo.
Têm sido presos perto de 50 escravos, todos de nação mina, que estão sendo castigados, entre os quais há somente um forro, que está igualmente preso, mas sem processo, por não ter denunciado o que depois confessou saber.
Das indagações que tenho feito pessoalmente, e de outras que tenho mandado apurar, está exuberantemente provado o plano de insurreição, que era nada menos do que matar brancos, ficarem forros e fugirem para o estado vizinho [território uruguaio].
Por ora, não há certeza em confissão de ter participado no referido plano pessoa nacional ou estrangeira, nem tampouco notícia de que ele se estendesse para além deste município; contudo, V. S.ª com a perspicácia e zelo que lhe são próprios, e que tantas vezes tem empregado a bem da tranqüilidade pública, tomará as medidas necessárias para que o contágio não se espalhe.
Nos apuros em que me vi, valeu-me a presença do sr. major Pecegueiro, com a tropa de seu comando, e a atividade do sr. comandante de  polícia que, com os seus soldados fizeram todas as prisões e desempenharam as minhas ordens; só tenho a lamentar a escassez destes recursos, para impor respeito em um município de mais de 3.000 escravos e onde, diariamente, entra grande quantidade de peões e gente de todos os pontos da campanha. Deus guarde a V. S.ª/ Pelotas, 09 de fevereiro de 1848.
Próximo à cancha, uma matilha aguardava esperançosa que lhes jogassem as vísceras ou até mesmo alguns ossos das reses, que seguiam sendo abatidas na charqueada do Sr. Chaves.
    Ao centro da cancha, pelo trilho de ferro, uma zorra conduzia os ossos e gorduras à graxeira, empurrada pelo negro Malaquias, de nação mina, 40 anos de idade, estatura baixa, e que conhecia muito bem o país vizinho, levado que fora pelos Chaves e que, com a prisão de seus companheiros naquela insurreição, via frustradas suas aspirações de voltar a ver o Cerro, em Montevidéu.
    Se, de um lado, os negros envolvidos ou não na conspiração dos negros minas de nucas rapadas debandaram aterrorizados, principalmente em direção à Serra dos Tapes, o pânico dos brancos, por outro lado, parece não ter sido menor, pois: na noite de 08 para 09 de fevereiro, na charqueada de Joaquim Faria Corrêa, subdelegado de polícia de Pelotas, o respectivo capataz, que havia proibido jogos no estabelecimento, às duas horas da madrugada, decidiu, de maneira inesperada, fazer uma ronda, que acabou surpreendendo em certo canto da propriedade alguns escravos jogando. Quando estes escravos pressentiram a inesperada chegada do capataz, imediatamente puseram-se em fuga, ficando apenas dois dos que ali estavam, os quais investiram, armados de faca, contra o capataz. Este, em defesa, disparou-lhes dois tiros. Um dos escravos morreu na hora, e o outro ficou estendido, mortalmente ferido.
Circulava também na cidade as notícias que, devido aos açoites aplicados nos envolvidos, dez deles já haviam morrido e que alguns charqueadores estavam se recusando a entregar seus escravos às autoridades, que os havia requisitado.
A polícia destacada pelo delegado Viana para retirar os negros, diziam ainda, como forma de cumprir as ordens, diante da recusa dos senhores cercou uma das charqueadas, da qual retirou cerca de 14 escravos.


                                                                               Continua...
  
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Revisão do texto: Jonas Tenfen

Postagem: Bruna Detoni

sábado, 6 de janeiro de 2018

A revolta dos negros Minas

(parte 2)


  A.F.Monquelat 




                     
Na manhã de sábado, véspera da projetada insurreição, algumas lavadeiras, no arroio Santa Bárbara, alheias às ações do delegado Viana, trabalhando e cantando, diziam entre si:
-Hoje lavamos para os brancos, e não tarda que os brancos lavem pra nós.
Já haviam sido presos, logo após as ações do Sr. Delegado de polícia, uns 60 ou 80 escravos. Dentre esses, dois sabiam mais a fundo sobre o plano do levante, e conheciam certo lugar onde se achava depositado – ou escondido – algum armamento de que se haviam premunido.
 Porém, não tinham eles, até então, feito confissão alguma satisfatória, apesar da violência sofrida, e estavam incomunicáveis na cadeia.
Escondidos em um celeiro, próximo a Pelotas, ainda não tinham sido descobertos 200 mosquetes, semelhante número de carabinas, espadas e pistolas, com uma grande quantidade de munição, que seriam utilizados para o levante que, mais ou menos 1.500 escravos, já iniciados e preparados, estavam de sobreaviso desde o mês de janeiro daquele ano, e prontos para agirem no primeiro aviso.
Seria, segundo fontes diplomáticas inglesas, uma reencenação de São Domingos, ou pelo menos o maior levante de escravos que a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, teria notícia.
Somado a isso, ganhava corpo o boato de que todo o plano fora arquitetado e manipulado por alguns partidários de Manuel Oribe, que se achavam disseminados por Pelotas.
Dizia-se também, que o Sr. delegado Viana já mantinha prisioneiro na cadeia de Pelotas um tenente-coronel de Juan Manuel de Rosas, segundo outros, esse mesmo tenente-coronel no exército de Oribe,quando a conjura foi descoberta, fugira  para a cidade fronteiriça de Bagé, estando já a polícia ativamente engajada em sua captura; por outro lado, outros dois espanhóis do Rio da Prata, estavam presos na cadeia da cidade, além do coronel residente em Pelotas e um nativo de Buenos Aires, que eram  destacadamente suspeitos de envolvimento com aquela conjura.
Pela Rua São Domingos era avistado duas ou mais carruagens cujos cocheiros, sob o estalar do chicote, apuravam seus cavalos, pois, não muito longe dali, no cais, já estava atracada a barca a vapor, no aguardo dos passageiros.
No meio de todo aquele alarido, pois a notícia de um possível levante de escravos já corria de boca em boca pela cidade, não deixaria de zarpar do porto a barca Brasileira, cujo destino era a cidade vizinha, Rio Grande.
As pessoas que se diziam bem informadas, e que estavam a bordo da barca, fizeram daquela notícia o motivo de suas conversas durante todo o percurso. E, ao desembarcarem em Rio Grande, asseguraram que tal imputação ou desconfiança não tinha fundamento algum de exatidão, acrescentando ainda que todos os negros de nuca rapada que fossem vistos pela cidade de Pelotas eram imediatamente capturados pela polícia.
Os negros de nuca raspada que não foram apreendidos pela polícia, estavam sendo chicoteados e torturados pelos senhores, até a confissão dos nomes de seus companheiros envolvidos na conspiração.
    Alguns dos chefes mais envolvidos naquela insurgência eram negros livres ou da Nação Mina e, ainda segundo fontes da diplomacia inglesa na província, a mão mestra que vinha guiando e encorajando aquele levante, há algum tempo, empregando os capatazes, na sua maioria espanhóis, das diferentes charqueadas, para aliciar os escravos, prometendo-lhes que seriam levados para a Banda Oriental, onde a liberdade os esperava nas fileiras do exército do general Oribe.
Dois dias depois do desembarque, a vizinha cidade de Rio Grande permanecia sem novidades outras se não aquelas levadas pelos passageiros da Brasileira.  Quando então um respeitável cidadão rio-grandino deu a conhecer um trecho da carta recebida de Pelotas, enviada por um amigo, onde a certa altura lia-se o seguinte: “Temos por aqui estado incomodados com a insurreição dos negros, dos quais já estão presos mais de 100. Ao que parece, eles se propunham a evadir-se de seus senhores e, segundo dizem, irem em direção ao estado vizinho Uruguai. Ontem oito de fevereiro de mil oitocentos e quarenta e oito,começaram a castigá-los com a intenção de descobrirem o plano de insurreição e evasão, mas nada se tem conseguido saber.
Parece que todos os implicados na insurreição tinham, por sinal, rapada uma parte da cabeça à maneira dos frades.
Veja vosmecê em que condições não deveria de estar todo este povo se fosse a noite que acontecesse a rebelião, e que consequências não se seguiriam!
Felizmente tudo foi descoberto por denúncia de um negro, que nos livrou desse garrote.
    Naquele mesmo dia, em Pelotas, correu a notícia, por denúncia, de que havia na Serra dos Tapes em torno de 200 negros, os quais supunham terem para lá fugido, em consequência de saberem do fracasso do plano de insurreição, ou aterrorizados pelos castigos que estavam aplicando aos insurretos, que já estavam presos.
O delegado Viana, na impossibilidade de dispor de qualquer força de cavalaria, oficiou imediatamente à autoridade competente e logo rumou à Serra dos Tapes.
Ainda no mesmo dia, às três horas da tarde, o tenente-coronel da guarda nacional de cavalaria, Serafim Ignacio dos Anjos, com uns 40 ou 60 cidadãos a cavalo, se reuniram para fazerem o que consideraram ser  um importante serviço, visto que ainda não estava nem organizada ou fardada a guarda nacional naquele período.
Até a saída da barca do dia dez, com destino a Rio Grande, e que poderia levar novidades sobre a expedição à Serra dos Tapes, não sabiam do resultado da incursão que partira de Pelotas no encalço dos fugitivos.

                                                                                         Continua...


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Revisão do texto: Jonas Tenfen
Postagem: Bruna Detoni

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

A revolta dos negros Minas

 (parte 1)


         A.F. Monquelat




         A Província de São Pedro depois da malograda tentativa de alguns fazendeiros, comerciantes e charqueadores de tentarem impor seus interesses pessoais ao império brasileiro, através de um movimento de sedição que com o tempo passou a ser conhecido como Revolução Farroupilha, recém retomara suas atividades.
         A todos os sediciosos, exceto Neto que se retirou da Província, foram concedidos benefícios, cargos ou patentes militares.
         Aos negros sobreviventes, escravos no império escravocrata brasileiro, restava o retorno ao desumano trabalho que os Senhores da Carne lhes impunham.
         Ao sul do sul da Província, no lugar outrora conhecido como os campos das pelotas, alguns charqueadores que durante a revolta farroupilha haviam deixado o lugar e se dirigido ao país vizinho, o Estado Oriental del Uruguay, levando seus escravos e pondo-os a trabalharem em seus novos estabelecimentos ou terceirizando-os aos saladeristas montevideanos, já haviam retornado. Isso depois de uma enorme demonstração de desrespeito com as autoridades do país que os recebera, ao descumprirem o compromisso de entregarem alguns de seus escravos para se engajarem ao exército uruguaio, mesmo sendo indenizados por aquele governo e, através de tal ato, privando homens de suas liberdades, pois o Uruguai já abolira a escravidão, trazendo-os novamente para as insalubres senzalas de suas charqueadas no território pelotense, onde lhes esperava o desumano trabalho e a barbárie do chicote.
         Nas ruas desta, que o viajante passara a chamar de Pérola do Sul, a um caminhante mais atento não passaria despercebido certo ar de conspiração.
         Pela Rua Augusta, ao longe, se avistava dois negros, certamente escravos, em direção a uma das cacimbas do mato que a Câmara mandara abrir para o abastecimento de água dos habitantes da cidade.
         Quem os visse de perto, talvez notasse em suas nucas a parte recém-raspada, muito embora não viesse, a saber, o significado daquela linha reta de orelha a orelha.
         O movimento nas ruas era ainda muito pequeno, a cidade despertara a pouco, um que outro cavaleiro, uma carreta ou outra, talvez em direção ao local determinado onde os colonos poderiam vender seus produtos.
         Naquela mesma Rua Augusta, via-se, saindo de uma bodega, dois tropeiros desamarrando seus cavalos com a intenção de montá-los e partirem em direção aos seus pagos, depois de terem passado pedaço da noite anterior bebendo, jogando e se divertindo com as pensionistas da bodega, que ali tinham seus quartos para atenderem seus clientes.
         Nas proximidades das ruas da Horta e do Padeiro, algumas negras com pesadas trouxas de roupa na cabeça, cantarolando algo ininteligível, se encaminhavam em direção ao arroio. Eram elas, sem dúvida, as lavadeiras do Santa Bárbara. As negras Minas, as tias Minas, de tantos saberes e igual número de histórias.
    Caso alguém as seguisse até o arroio e ali as escutasse, ouviria, ao som da água e a batida das roupas nas pedras, cantando enigmático verso:     -Hoje lavamos para os brancos, e não tarda que os brancos lavem pra nós.
    Mas, quem as escutaria se aquele enigmático cantarolar era abafado pelo badalar do sino da Igreja Matriz ou pelo vozerio dos negros e negras, escravos de ganho, os já tradicionais quitandeiros e quitandeiras, que aos brados ofereciam seus quitutes desde a Praça da Quitanda?
Adiante, quem passasse pela Rua do Poço em direção a Rua Alegre veria, entre dois sobrados ali existentes, um monturo de imundície.
Já na Praça do Theatro, que não era nada além de um campo aberto, relegada ao descaso, à disposição dos animais da vizinhança, pastavam tranquilamente algumas vacas, outras cabras e até mesmo uma mula.
    Em outro terreno, ali próximo, adquirido há pouco para a construção de um mercado, uma pequena casa de comércio funcionava fornecendo mercadorias aos moradores das redondezas, enquanto a Câmara da cidade mobilizava-se em projetos e verbas que lhe permitisse a edificação do já projetado Mercado Central.
    Em casa do Sr. Luiz Manoel Pinto Ribeiro, um de seus escravos, um negro da Nação Mina, “inquestionavelmente reconhecidos como a mais inteligente da raça negra”, que por seu senhor sentia grande amizade, pois aquele sempre o tratara com cordialidade, insistia em dizer-lhe que havia uma conjura em andamento, coisa que seu senhor não achou que fosse de se levar a sério.
    Soubesse o Sr. Luiz Manoel Pinto Ribeiro, que a cidade, para sua guarnição e defesa contava apenas com um destacamento de 70 ou 90 homens do 8º batalhão de Caçadores e uma meia dúzia de policiais, criançolas na sua quase totalidade; além do que, em casa do Sr. Francisco Manoel dos Passos, o primeiro que ouvira da boca de um escravo de sua propriedade, tal informação já fora dita e com insistência, assim como também na casa do Sr. Antônio de Oliveira Castro, outro cativo, de Nação Mina, informava haver um projetado levante de escravos por acontecer, certamente teria dado maior atenção ao que lhe dizia aquele escravo.
O que, em resumo, disseram os escravos aos seus senhores foi: que eles haviam sido convocados para esse levante; que os principais aliciadores do levante eram os escravos do Sr. Manoel Rodrigues Valadares e, em especial os da charqueada do Sr. Manoel Batista Teixeira, e que alguns outros escravos da cidade, inclusive um, de certo cuteleiro e outro, de certo ferreiro, estavam também envolvidos, inclusive se comprometendo a abrirem, na hora aprazada, as portas da casa de seus senhores a fim de que os revoltosos se abastecessem de armas que ali houvesse em condições para o evento. E acrescentaram que todos os negros conjurados deviam ser conhecidos pela nuca rapada, que era o sinal distintivo que usavam os envolvidos na rebelião.
Todas essas informações, fornecidas pelos delatores da conspiração dos Minas aos seus senhores, foram, dias depois de ouvidas, levadas ao conhecimento do Sr. delegado Vieira Viana que, sem titubear, imediatamente expediu circulares a todos os charqueadores que de imediato se puseram de sobreaviso, tratando de encerrar à noite seus escravos, que a tal não se opuseram nem tampouco ofereceram resistência alguma.
                                                                                       
                                                                                        Continua...


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Revisão do texto: Jonas Tenfen
Postagem: Bruna Detoni