terça-feira, 14 de março de 2017

O ato de criação do Mercado Central de Pelotas e outros atos



                                                                   A.F.Monquelat



         Em entrevista concedida ao jornal A Opinião Pública sobre a Pelotas do passado, disse o longevo Francisco Nunes Garcia, no ano de 1945, aos 119 anos de idade, que antes da instalação do Mercado Central na área adquirida em 1846, para tal propósito, ali funcionava uma pequena casa de comércio, que fornecia mercadorias aos moradores das redondezas.
         Embora a área tenha sido adquirida em 1846, sua construção deu-se entre os anos de 1849 e 1853.
         O ato de criação do Mercado Central de Pelotas ocorreu através do Projeto de Lei Nº 27, no qual “A Assembléia Legislativa Provincial decreta:
         Artigo 1º - O Presidente da Província fica autorizado a despender a quantia de dez contos de réis para a compra de um terreno na cidade de Pelotas, em que deve ser edificada uma Praça de Mercado.
         Artigo 2º - A compra será realizada por intermédio da Câmara Municipal daquela cidade.
         Artigo 3º - A mesma Câmara será obrigada a apresentar na futura sessão legislativa não só a planta, e orçamento daquela obra, como também os meios, que julgar convenientes à pronta construção da dita obra.
         Artigo 4º - Fica revogada qualquer disposição em contrário. Sala das Sessões, 13 de março de 1846”.
         Na obra “Colleção das Actas da Camara Municipal D’esta Cidade no Anno de 1853. Impressão oferecida à mesma por Cândido Augusto de Mello” lê-se a página 6, com o título de “Obras municipais”, que: aplicou a camara as sobras da sua receita à edificação da praça do Mercado. Este edifício de abóbada e soteia, elegante vasto e bem construído (citarei com louvor o nome do empresário o Sr. Theodolino Farinha) não tem comparação com alguma das praças da província, e é mesmo superior o da capital do império, segundo a opinião de pessoas habilitadas.

Quanto à cisterna do Mercado e sua importância para a cidade
         Os gastos da Câmara com o edifício foram de 70:452$920 réis, incluindo a sua cisterna para 900 pipas de água. Obra sem dúvida digna da praça em que está colocada.
         No capítulo “Fontes de água potável”, é dito que: à exceção das denominadas cacimbas do mato, e de algumas que a câmara mandou abrir na direção das ruas que correm de Este para Oeste, nenhuma outra existe, não se tendo podido aproveitar a do tanque feito em 1848, junto daquelas cacimbas. Suponho que só com grande despesa se poderá obter água potável suficiente para abastecer a cidade, e é por isso que disse ser de muita utilidade e valor a cisterna do Mercado.

O Código de Posturas e o Regulamento da Praça do Mercado         Como consequência ainda da edificação do Mercado Central, surgiu, propositalmente, ao Código de Posturas do Município da Cidade de Pelotas, o 1º Regulamento da Praça do Mercado da Cidade de Pelotas, compilado em 1850 e editado em 1865 na Typographia do Commercio.
Quanto aos negros
         Dentre os artigos contidos naquele Regulamento, constava no Artigo 15 que: Fica proibido andarem pretos de ganho [negros contratados ou alugados por dia ou tarefa, geralmente escravos] dentro da praça e os escravos que forem ali mandados por seus senhores às compras, não se deverão demorar além do tempo necessário para efetuá-las: o fiscal os mandará dispersar.

Quanto aos animais
         Segundo o Artigo 16: Fica proibido entrarem pessoas a cavalo dentro da praça, bem como quaisquer animais, ainda mesmo puxados pela rédea, ou por outra qualquer coisa: também fica proibido amarrar-se nos portões. Os infratores serão multados em 6 réis, e o animal apreendido e posto em depósito até a satisfação da multa.

Quanto aos ajuntamentos
         Dizia o Artigo 17 que: É absolutamente proibido todos e quaisquer ajuntamentos, tocatas, danças, jogos, palavras ofensivas à moral pública. Os infratores incorrerão nas multas do artigo 77 das posturas.



O mercado e os quitandeiros antes da construção do Mercado
         Na Planta do Rio de São Gonçalo, levantada pelo segundo-tenente da Armada, Pedro Garcia da Cunha, em 1838, é visto, com a denominação de “lugar destinado para praça da quitanda”, onde, de acordo com o vereador Nascimento Filho, em sessão realizada em 11 de junho de 1849, estavam localizados os quitandeiros e quitandeiras, geralmente negros, em Pelotas.
         Propunha aquele edil à câmara, que os quitandeiros instalados no limitado espaço de terreno [localizado próximo à Igreja Matriz] em que estava colocado o “chamado mercado”, e bem assim ao exorbitante preço que estes, ali instalados, eram obrigados a pagar mensalmente pelo chão que ocupavam as pequenas barracas que construíram, para se abrigarem do rigor da estação e os objetos que vendiam: que a Câmara ordenasse  ao Fiscal desta para que, no improrrogável prazo de trinta dias, fizesse mudar o “dito mercado” para o terreno comprado por essa “para semelhante fim”, permitindo que no mesmo construíssem barracas de 15 palmos [em torno de 3 metros] de frente, e os fundos que quisessem os mencionados quitandeiros, os quais deveriam ficar dez palmos para o interior das ruas de São Miguel [atual 15 de Novembro] e Martins Coelho [atual Tiradentes] para onde fariam fundos; cobrando-se dois mil réis mensais por aluguel do terreno que ocupasse cada barraca, que passaria a fazer parte da renda mensal, tornando-se pública tal resolução para que as partes interessadas tivessem tempo de efetuar sua mudança.
         Apesar de aprovada a proposição, com alguma alteração, tal não ocorreu, pois a Câmara suspendeu a mudança antes desta ser posta em prática.

Outros atos
         O Mercado Central de Pelotas, hoje com seus 171 anos de idade, desde o ato da sua criação até os dias atuais, tem sido guardião e palco de ações e cenas que compõe a memória da cidade.
          Nele se desenvolveu muitas cenas, desde grandes espetáculos públicos, quanto de violência e degradação humana.
         Em seu interior, bem como em seu em torno, ocorreram diversas cenas de barbárie. Foi ele palco de perseguições e capturas de escravos por parte de capitães do mato e soldados a soldo dos senhores de escravos, agressões a negros, escravos ou não, quitandeiras, pobres, prostitutas, boêmios e até mesmo viajantes estrangeiros, que ali procuraram abrigo junto às bancas do peixe nas noites frias ou por bebedeira. Também foi palco de contravenções e apreensões, por jogatina em suas bancas, tentativa de estupro em uma menor por parte de um de seus comerciantes, ou até mesmo ponto de caftinagem. Em fim, ocorrências que, considerada a sua natureza fizeram e fazem parte do cotidiano de um mercado.
         Para exemplificar o que dissemos, selecionamos quatro entre centenas de episódios envolvendo o Mercado Central e seus atores, dentre esses os que envolveram quitandeiros:
A atividade quitandeira, pelo menos em Pelotas, era exercida geralmente pelas negras minas, fossem elas livres ou escravas de ganho.

Atenção Sr. Subdelegado , estão bulindo com as quitandeiras no Mercado
O jornal Onze de Junho fora informado que na Praça do Mercado, cotidianamente, se davam cenas vergonhosas entre “algumas pretas quitandeiras e uns sujeitinhos dali, que se divertem à custa das infelizes”.
Ainda na véspera, seis de junho de 1883, uma daquelas pobres fora vítima da estupidez e grosseria de um indivíduo, que além de lhe comer parte da quitanda julgou-se com direito de esbofeteá-la.
E, como era de se esperar, a quitandeira não podendo apelar para a força muscular, recorreu à da língua, proferindo uma longa cantiga pouco adequada para lisonjear ouvidos acostumados ao lírico.
Tais cenas, dizia o jornalista, não eram de hoje.
Quem frequentasse o Mercado Público pela manhã, seguidamente presenciava cenas idênticas.
Até então havia muita tolerância para com aqueles fatos; mas, já era hora de reprimi-los.

“Quando o macaco anda infeliz, não há galho que o aguente”
É o que achava o jornal Rio-Grandense com relação ao capitão Tibério, em sua edição de sete de julho de 1885, isto porque aquele domingo tinha sido um dia azarento “para esse herói”.
Logo pela manhã, no Mercado, sofrera ele um descalabro terrível. O caso foi que Tibério, querendo exercer as funções de fiscal da Câmara, proibira que as quitandeiras falassem em voz alta; as filhas da África, não satisfeitas com a determinação deram-lhe uma vaia, que o obrigou a sair dali apressadamente; e tão apressadamente saiu que no portão que dava para a Rua São Miguel (atual 15 de Novembro) esbarrou com “um pobre preto” que vendia mondongos, derrubando o vendedor e os mondongos no chão.

A morte da quitandeira
         Aos 26 de abril de 1890, o jornal Correio Mercantil publicava sob o título de “Morte súbita” que, no dia anterior pela manhã, morrera repentinamente a preta Maria, moradora em uns quartos da Rua Independência [atual Rua Uruguai] nº5, quando se preparava para, como de costume, vender as suas quitandas no Mercado Público.

O espancamento do quitandeiro
         O Sr. Dr. Antero Moreira Leivas, promotor público da comarca de Pelotas apresentou, em 17 de maio de 1921, denúncia contra Carlos Peters, o violento fiscal do Mercado Central, e Ataíde Bonifácio da Silva, Henrique Augusto Prates e Jacinto Rossalvo dos Santos, soldados da polícia administrativa, mandante e autores do bárbaro espancamento de que fora vítima o quitandeiro Silvino Moreira da Silva.

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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV e Mercado Central Pelotas 1846-2014, Klécio Santos – Pelotas, Fructos do Paiz, 2014.

 Revisão do texto: Jonas Tenfen

Postagem: Bruna Detoni

terça-feira, 7 de março de 2017

Eusébios: três feiticeiros da pequena África pelotense

(parte 3)


                                                                                                          A.F. Monquelat




         O jornal O Dia aos 11 dias do mês de setembro de 1916 anunciava, como reportagem sensacional, “Uma digressão ao mundo dos exploradores”, com o intuito de mostrar aos seus leitores como se vivia em Pelotas à custa da ingenuidade religiosa dos incautos.
         Para tal finalidade a redação daquele jornal foi “Ver” e “Colher” nos esconsos [escorregadios, ocultos, esconderijos] sítios de Pelotas, nos quais centenas de pessoas, de boa fé, eram asquerosa e miseravelmente exploradas, e onde se tramavam as maiores intrigas contra a tranquilidade das famílias, quiçá, contra a honra e a vida privada, segundo o redator.
         Além das provas circunstanciais, o jornal dizia ter recolhido, também, as de ordem material, para levá-las, oportunamente, à presença da polícia.
         A sociedade pelotense, que vivia despreocupadamente em família, confiante nela própria, não sabia que no bas-fond da cidade, elementos de fora gravitavam criminosamente em torno das suas presas, nelas saciando a ganância que os movia.
         Parecendo tratar-se de um assunto irrelevante, aos poucos os leitores iriam se convencendo de que o tema era de extrema importância, urgindo, por parte da polícia, uma rápida e enérgica medida, no sentido de varrer do nosso meio uns tantos “patifes lombrosianos” que, vivendo fartamente, iam fazendo as suas vítimas.
         Dando início à sua proposta, diz-nos o jornalista que, há dias conversando com uma senhora idosa e da boa fé, relatou-lhe ela que, entre outras penas do passado, tivera ela um filho, já moço, forte, que lhe era toda a razão de existir.
         O filho adoeceu e, depois de ter sido tratado por vários médicos, fora, a conselho de alguém, consultar a uma mulher que praticava “criminosamente a feitiçaria”.
         O rapaz, “espírito fraco, educado sob o pavor dos augustos mistérios que os professores de catecismo mandam decorar”, mas não sabiam explicar, entregando-se inteiramente às benzeduras e aos exorcismos da “bruxa”, passou depois a medicar-se com umas beberagens.
         Dias depois, morria o infeliz, vitimado, talvez, pelo charlatanismo e exploração da velha mandingueira.
         Diante daquele relato, é que resolveu o jornalista de O Dia, então, ir pessoalmente aos muitos “templos” onde se explorava a ingenuidade religiosa de muita gente, inclusive de pessoas que, pela sua posição social e aparência moral, deveriam estar fora do alcance dos exploradores da credulidade pública, no entendimento do repórter.
         Visitou ele então, um a um, os antros obscuros nos quais os mandingueiros, com o maior cinismo e despudor, teciam as suas intrigas e fabricavam as suas poções suspeitas.
         Assim, dizia o repórter ter coletado grande série de fatos e não menor número de provas.
         Conseguira saber nome por nome de pobres senhoras e cavalheiros que, habitualmente, frequentavam os “templos” dos manipansos, ali deixando dinheiro, saúde, segredos da vida, habilmente colhidos pelos exploradores para fins inconfessáveis e, prestando-se ainda, a infeliz clientela a papéis pouco edificantes.
         Havia, em Pelotas, feiticeiros espíritas falsificados, falsos sacerdotes, médicos charlatães, etc. que, agindo com o maior descaramento e com a mais deslavada pouca vergonha.  Iam ganhando fartamente a vida, à revelia da polícia e, por consequência, da justiça.
         Havia, também, no bas-fond de Pelotas as feiticeiras denominadas de fazedoras de anjos, as quais se dedicavam ao caftismo e também as que se encarregavam de provocar abortos.
         Todos eles, dizia o jornalista, estavam incursos nas penas da lei.
         Havia, em poder do jornalista, garrafas de “remédios” fornecidas pelos intrujões, das quais análise química ele iria mandar proceder.
         O artigo 157 previa a prática do espiritismo, magia, uso de talismãs e cartomancias, para despertar sentimentos de ódio e amor        , a aplicação das penas de um a seis meses de prisão e multa de 100$000 a 500$000.
         Para levar a cabo a completa reportagem, prestou-se o repórter a fazer o papel de cliente de toda a espécie.
         E assim, vamos encontrá-lo:


No “templo” do famoso explorador Eusébio

         Um mulatão nédio [reluzente], moço, forte, que tinha a sua tenda à Rua 3 de Maio nº254, da qual extraía os maiores e melhores proveitos em dinheiro e os mais fartos pitéus em nome e benefício dos “santos”, os quais ele tinha de sustentar todas as sextas-feiras.
         Parado em frente ao número indicado da 3 de Maio, deparou-se o repórter com uma casa de boa aparência, limpa por fora e aparentando uma agradável residência, o que o deixou indeciso quanto a ser ou não, ali, o “antro do mandingueiro”.
         Bateu ele de forma decidida. Instantes de espera, e depois atendido.
         Ao encontro do jornalista veio uma mulher negra, de idade avançada, gorda, flácida, reluzente, expressão tranquila e irônica na fisionomia patusca [divertida, cômica, brincalhona], limpa, tirando grandes tragadas de um cigarro de papel, procurando estender a frase “com o acento demorado das lendárias senhoras de engenho”.
         - É aqui que mora o Sr. Eusébio? – indagou o jornalista.
         - Que quer com o Sr. Eusébio? – perguntou a interlocutora, sem ter respondido a pergunta, mas que, de forma indireta, o deixou com a certeza de que não se enganara de endereço.
         E, com toda a habilidade, transformou-se ele, aos olhos da mulher, em um dos muitos ingênuos que formavam a vasta clientela do feiticeiro.
         Fazendo-se de vítima de um mal secreto que o atormentava e fazendo crer que ali estava convencido de que todos os manipansos conhecidos e por conhecer é que os haviam inspirado a procurar o sacerdote dos mistérios insondáveis “da magia e da canalhice”.
         Não demorou muito para que ela o julgasse, de fato, um cliente sincero, e confessou que o Eusébio que ele buscava era o que ali morava, capaz de com suas orações e exorcismos lhe tirar o “bruxedo” do corpo.
         Mas, o famoso curandeiro não estava em casa, pois havia viajado para a cidade vizinha, Rio Grande, para atender a um chamado.
         A fama do intrujão era conhecida, também, na cidade de Rio Grande.
         Paciencioso, o jornalista disse a ela que voltaria no dia seguinte.


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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
 Revisão do texto: Jonas Tenfen

Postagem: Bruna Detoni

quarta-feira, 1 de março de 2017

Eusébios: três feiticeiros da pequena África pelotense
 (parte 2)


         Cândida e sua filha Brandina acusaram Eusébio de praticar a feitiçaria e de viver à custa da exploração feita a pobres mulheres, que moravam em sua companhia.

        
      Acrescentaram elas que o dinheiro ganho por aquelas mulheres, em seus empregos, era por ele usufruído.
         Segundo as duas “pretas”, a casa de Eusébio Silva era um verdadeiro “museu de feitiçaria”.
         De acordo com informações colhidas pelo jornalista, na casa de Eusébio, que ficava no centro da cidade, realizavam-se seguidamente batuques, os quais, não raro, acabavam em grosso sarilho.
         Cândida tinha mais duas filhas menores, Palmira e Maria Emília, as quais se achavam em companhia de Eusébio.
         Em seguida que as filhas de Cândida estiveram no 1º posto, este comunicou a denúncia ao 3º posto, a cuja circunscrição estava afeto o caso.
         Na Rua General Argolo nº 456, estiveram dois guardas do 3º posto, para tomarem conhecimento do fato.
         Cândida foi intimada a prestar depoimento naquele posto policial.
         No dia seguinte ao ocorrido, voltava o jornal A Opinião Pública a trazer  novas notícias sobre o fato. Informava que o “preto Eusébio”, morador à Rua Andrade Neves nº861 e contra quem a “infeliz preta” Cândida Silva se queixara de tê-la espancado brutalmente, fora preso pelo Sr. tenente Francisco Vernetti, subintendente do 1º distrito.
         Na residência de Eusébio, foi encontrado um verdadeiro arsenal de bugigangas que serviam, segundo o jornal, para confirmar as informações recebidas de que “aquele indivíduo exercia a feitiçaria”.
         Entre esses objetos achavam-se dois bonecos, aos quais Eusébio dava o nome “de São Cosme e São Damião”, além de outro, maior, chamado Santo Antônio.
         O Sr. tenente Vernetti apreendeu tais objetos, fazendo recolher o “feiticeiro” ao 3º posto.
         Dali, foi Eusébio removido para o 6º posto policial, no Areal.
         São Cosme e São Damião que o valessem, finalizava o jornalista.
         Aos 20 dias do mês de dezembro de 1912, o jornal a Opinião Pública referindo-se a Eusébio, denominando-o de curandeiro manque [fracassado, charlatão], dizia que este estava se tornando cada vez mais célebre pelas suas façanhas, arvorando-se em curandeiro.
         Informava a matéria, que há algum tempo, enfermava no lugar conhecido como Passo do João Padre, pouco além do Monte Bonito, a mulher do pardo Paulo de tal, empregado na turma de operários da estrada da colônia Santo Antônio.
         Agravando-se os padecimentos da referida mulher, Paulo trouxe-a para a cidade, a fim de consultar um médico.
         Aqui chegando, Paulo foi levado à casa do “patife curandeiro”, o qual lhe pediu a importância de 40$000 [réis], uma cabrita e uma ovelha, bem gordas, dizendo que com o sangue destes animais ele faria o remédio para curar a enferma.
         Paulo tratou, em seguida, de providenciar, conseguindo com grande sacrifício a importância, a cabrita e a ovelha.
         Eusébio, segundo o jornalista, naturalmente guardou os bichos para festejar o Natal, realizando em sua casa batuques, que tanto incomodavam a vizinhança.
         Depois de ingerir o remédio fornecido pelo “explorador”, a infeliz mulher” começou a manifestar sintomas de loucura.
         O fato foi levado ao conhecimento do capitão Francisco Vernetti, subintendente, que mandou intimar Eusébio, que viajara para Rio Grande.
         Com aquele ocorrido, dizia o jornal, era o terceiro ou quarto fato grave, cometido por Eusébio, a quem aquela autoridade deveria dar o castigo merecido.
         A última notícia encontrada sobre o nosso personagem, nos vem através do jornal O Rebate de 21 de dezembro de 1917, na qual sob a denominação de “Queixa”, nos é informado que o Sr. Gabriel Barcellos, residente à Rua Marquês de Caxias [atual Rua Santos Dumont] nº 570, apresentara, naquele dia, queixa na delegacia de polícia contra o “curandeiro” Eusébio Silva dizendo que, tendo “há dias” falecido um homem de “cor preta”, que morava próximo a sua residência, o qual durante a sua enfermidade fora cliente do “referido curandeiro” e este, como uma formalidade da sua “maneira de tratar”, despiu o cadáver e jogou todas as vestes deste, bem como roupa de cama, colchão e travesseiros, em um poço ali existente, e de onde todos os moradores daquelas imediações se abasteciam de água.
         Dias depois, por acaso, descobriram “essas imundícies” no citado poço, pois, tendo caído um balde ali e alguém tratando de apanhá-lo, ao invés de pegar o balde começou a recolher as vestes que pertenceram ao cliente de Eusébio, vindo então a descobrirem o ocorrido.
         Já era muita falta de escrúpulo, dizia o jornal.
                                                                                                      
                                                                                                                                                                                                     Continua...
                           
        
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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
 Revisão do texto: Jonas Tenfen

Postagem: Bruna Detoni

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Eusébios: três feiticeiros da pequena África pelotense

 (parte1)

                                                                                                          A.F. Monquelat

         As manifestações religiosas de matriz africana estiveram presentes no cotidiano de Pelotas desde muito cedo, sem que tenhamos notícia ou registro de sua primeira ocorrência.Além disso, raros são os relatos, pelo menos conhecidos, sobre tal assunto e, quando existentes, são tratados de forma preconceituosa ou através de registros de ocorrências policiais.
         Com o intuito de contribuirmos de alguma forma sobre tal tema, estamos, desde há muito, coletando material para, se possível, o publicarmos em forma de livro com o título de As feiticeiras e feiticeiros da Princesa .
         O registro mais antigo que encontramos, pelo menos até agora, aconteceu quando em pesquisa feita na hemeroteca da Bibliotheca Rio-Grandense onde constatamos que o Diário do Rio Grande, de 27 de agosto de 1857, publicava uma coluna sob a denominação de Semanário, cuja função era a de informar aos seus leitores sobre os fatos ocorridos em Pelotas durante a semana. Pois, nesse dia, dia 27, era dito que constava ao Semanário que em um casebre, “perto do quartel da polícia”, morava uma preta forra, que pelos seus “feitiços” atraía todos os domingos uma quantidade de negros e negras, que iam consultar a nova Pitonisa. Alguns homens brancos, segundo o redator da coluna, também faziam ali suas visitas, atraídos talvez pelos oráculos ou efeitos mágicos da feiticeira africana. Segundo ele, seria fácil encontrar-se na mesma casa, com alguma paciência, muitas raízes, ossos, sapos, e bugigangas, indispensável arsenal de semelhantes embusteiros.
         Garantia o Semanário que se encontraria naquele local a pedra filosofal, aquela milagrosa formação que transformava as palavras em ouro e algumas bebidas perniciosas em prata. Os fregueses daquele covil deviam saber, por experiência, quanto custavam às consultas e os resultados obtidos.
         Embora fosse por gosto e vontade, que para aquele local se dirigissem, era conveniente uma rigorosa averiguação, e um exemplar castigo, se alguma coisa de suspeito fosse ali encontrada.
         E se, na ocasião dessa busca, a polícia encontrasse alguns daqueles homens brancos na cor e de sentimentos tão baixos, que não receavam pôr-se a disposição de um impostor ou impostora africano, muito apreciaria o Semanário. Tal prisão ele [o jornalista] até chegaria a ir visitar na cadeia, para conhecer tão insignes crédulos ou velhacos.
         Ao completar a notícia, o Semanário nos revela um fato anterior, sobre este assunto, na qual é dito que desde que o Sr. delegado de polícia, recebera a denúncia que havia uma casa “destes”, e, dando uma batida no local encontrou uma porção de miudezas, que foram inutilizadas, e os donos levados à cadeia onde foram castigados devidamente, não se repetira mais a experiência de enganar certa classe do povo. Como aquele fato ocorrera há muitos anos, julgavam-no caído em esquecimento, e por isso lembraram-se, considerando o presente muito pouco animador para especulações que requeressem capitais, era oportuno tentar um negócio que precisasse unicamente de astúcia e audácia, além de muita credulidade “nos fregueses que são sempre abundantes para isso”.
         Quanto ao início das manifestações religiosas de matriz africana em Pelotas, é pouco provável que venhamos a saber a partir de quando ocorreram, mas que fizeram parte do cotidiano da cidade, e principalmente dos seus arrabaldes, não resta a menor dúvida, ainda que tais manifestações se dessem de maneira oculta dada as proibições e repressões sofridas.
         Em Pelotas, dentre tantos feiticeiros, curandeiros, mandingueiros ou outra denominação qualquer que tenham tido os que aqui praticaram tal atividade, três Eusébios se tornaram bastante conhecidos, principalmente, através da imprensa pelotense. E assim, vamos encontrar nosso primeiro Eusébio, o Eusébio Silva, nas páginas do jornal Correio Mercantil de 12 de julho de 1905. Sob o título de O Lufá – Feitiçarias, somos informados que, há tempos, a polícia judiciária prendera um crioulo de nome Eusébio, e conhecido nesta cidade e no Rio Grande pela alcunha de Lufá.
         Diariamente, dizia o jornal, “esse patife” era visto entrando em uma casa à Praça Constituição [20 de Setembro], onde, de acordo com informações, havia uma moça que dele recebia benzeduras.
         A jovem, “filha de um pobre homem”, dizia entre as companheiras que ia passando bem com as benzeduras do Lufá.


         Segundo declarações do próprio Eusébio, a incauta jovem estava apaixonada e sofrendo a ausência do rapaz com quem pretendia casar-se.
         Tais informações haviam sido fornecidas à reportagem do Correio Mercantil por um “cavalheiro de inteiro crédito”.
         O jornal levava o fato ao conhecimento do Sr. subchefe interino de polícia, a autoridade que, em boa hora, prendera “esse explorador das crendices da ignorância de pobre gente”.
         Dia 15 de junho de 1905, noticiava o Correio Mercantil que o Sr. subintendente municipal, considerando o que noticiara o jornal acerca do conhecido “feiticeiro” Lufá, ordenara ao comissário do 4º posto, que investigasse a respeito das falcatruas “dessa ave”.
         Mas a “ave” batera asas e voara em direção ao Rio Grande, era o que constava ao jornal.
         Decorridos alguns anos desde a primeira notícia encontrada sobre Eusébio da Silva, voltamos a encontrá-lo, novamente envolvido em ocorrência policial nas páginas do jornal A Opinião Pública de 21 de agosto de 1911, na qual era dito que às 18 horas, do dia anterior, estiveram no 1º posto policial, duas crianças de “cor preta” e de nomes Abelardo da Silva e Brandina Silva, filhos de Cândida Silva.
         Chorando, as referidas crianças disseram aos ajudantes que ali estavam que sua mãe aparecera em casa, ensanguentada, queixando-se de que fora cruelmente maltratada por Eusébio Silva, morador à Rua Andrade Neves nº861.
         Um repórter que conversava com os ajudantes, tratou de averiguar o que havia de verdade na queixa das duas crianças, seguiu em seguida para a casa onde se encontrava Cândida Silva, localizada à Rua General Argolo nº456.
         No local residiam às mulheres América Alves dos Santos e Jovita Alves dos Santos, irmãs, que informaram ao jornalista, que às 8 horas da manhã entrara Cândida Silva com as vestes rasgadas e completamente ensanguentada, queixando-se de que fora cruelmente maltratada por Eusébio Silva, de cuja casa fugira espavorida.
         O repórter, ouvindo o relato de Cândida, ouviu desta que Eusébio depois de tê-la maltratado com palavras, deu-lhe forte bofetada, deixando-a sem sentidos.
         Acrescentou Cândida, não saber o que se passou depois, podendo, entretanto afirmar que fora muito maltratada.
         O corpo de Cândida não apresentava, porém, ferimentos, apesar de suas vestes encontrarem-se muito ensanguentadas.
         Disse ela também, que se sentia mal e, se porventura viesse a falecer, culpassem unicamente, como causa de sua morte, “o preto Eusébio”.

                                                                                              Continua...
                                                                          
        
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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
 Revisão do texto: Jonas Tenfen
Postagem: Bruna Detoni



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O dia em que Pelotas conheceu a primeira fila







         Existem acontecimentos na história de uma comunidade que são motivo de orgulho e que, por isto, merecem ser comemorados por seus habitantes; outros, como o ocorrido em 9 de novembro de 1946, servem tão somente para anunciar tempos difíceis e incertos.Foi este o dia em que Pelotas conheceu a primeira fila, ou bicha como a elas o povo costumava se referir.
         Naquela época, as famosas filas eram assunto tão comentado e explorado pela imprensa dos grandes centros do país. Serviam de motivo de humorismo e anedotas espirituosas por parte do povo, que é quem mais sofre com estas, mas que, apesar de tudo com verdadeiro “espírito de heroísmo” sabia enfrentar o momento difícil pelo qual passava o país.
         Essas filas, que serviam de motivo de humorismo para uns e de sacrifício para a maior parte da população, eram até aquele dia, 9 de novembro de 1946, conhecidas pelos pelotenses somente através dos comentários da imprensa.
         Entretanto, desde então, a população de Pelotas começou a tomar conhecimento mais direto com as famigeradas filas.
         Naquela manhã, o fotógrafo Ramão Barros colheu o flagrante que ilustra esta matéria, quando aproximadamente cem pessoas, formando extensa fila na rua principal, Rua 15 de Novembro, esperavam pacientemente, recebendo em cheio o forte sol que se fazia sentir àquela hora, cada um a espera de sua vez, para receber o minguado meio quilo de pão, para levá-lo para casa.
         E assim, Pelotas proporcionou o doloroso espetáculo, quando, defronte à Confeitaria Nogueira uma centena ou mais de pessoas, formando longa fila, aguardava a oportunidade de adquirir o que, daquele dia em diante a imprensa passou a chamar de ouro branco, o pão, pois que, da forma em que as coisas estavam se encaminhando, com diversas padarias da cidade estando por fechar suas portas, por falta de matéria-prima.Dessa forma, indiscutivelmente, o pão, alimento de primeira necessidade, ia, aos poucos, se tornando coisa rara.
         No entanto, parece que, aqui em Pelotas, a coisa começara com uma intensidade quase desesperadora, pois, se a primeira fila proporcionou  a muitos a satisfação de, mesmo com algum sacrifício, conseguir meio quilo de pão, nem todos, porém, tiveram a mesma sorte. Depois de duas longas horas de espera, mais ou menos 40 daquelas pessoas tiveram de passar pela triste decepção de voltarem a suas casas com as mãos vazias. Nessa altura lhes fora comunicado que já havia sido vendido todo o pão em estoque.
         Ao final da tarde, daquele mesmo dia, a população pelotense teve oportunidade de assistir a espetáculo talvez mais expressivo ainda que o primeiro, quando grande número de pessoas parava defronte à Confeitaria Gaspar, em busca do pão, enquanto que o estabelecimento se encontrava com as portas fechadas até ficar pronta a fornada que estava sendo cosida.
         Assim, a cidade de Pelotas, começou a conhecer, desde aquele dia, outra face do momento difícil e incerto em que se encontrava o país.
         E, como as filas vieram para ficar, infernizando a vida daqueles que a elas são obrigados a se sujeitarem, a partir daquele dia se tornaram frequentes no cotidiano da cidade.
         Eram tempos inflacionários nos quais as filas passaram a constituir um pesadelo contínuo.
         Em 1947, por exemplo, o povo desejando tecidos baratos, sujeitava-se a longas filas a espera de vales com os quais podia adquirir tecidos mais baratos, já que os demais tecidos eram inacessíveis às posses dos menos favorecidos pela “sorte”, segundo o jornalista de A Opinião Pública.
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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
 Revisão do texto: Jonas Tenfen
Postagem: Bruna Detoni

         

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Simões: a fuga para o pampa

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Luís Borges

                                                                                                                             “À memória de meu pai.
                                                                                                                                                             Saudade”
                                                                                                                                                                  J.S.L.N.          


“UM ESCRITOR MOVIDO A SONHOS”?

Em “Baús revelam poemas de Simões Lopes Neto”, o jornalista Klécio Santos, quando da proximidade do aniversário da morte do escritor, na Revista ZH de 26 de maio de 1996, disse que a comunidade de Pelotas estava remexendo baús, buscando novos escritos e fotos históricas para lembrar os 80 anos de morte do rapsodo bárbaro, falecido no dia 14 de junho de 1916.
Na longa e excelente matéria sobre Simões, foram republicados os poemas “Réve” e “Dúvida”, e, parcialmente, o conto urbano de Simões “Na Lagoa... do Fragata”. Dentre outras fotos que ilustraram aquela matéria, está a do casamento de Simões, em março de 1892, com Francisca Meirelles Leite, conhecida por “Dona Velha”.
A foto do casamento de Simões Lopes foi publicada pela primeira vez na imprensa no artigo “Tributo a Simões Lopes Neto” (DP, 10.06.1995, p.17), que é parte integrante do que se denominou de “Álbum Simoniano”, conforme artigo publicado no DP de 27 de Julho de 1997.
Klécio Santos, na referida matéria jornalística, disse que “Simões era um escritor movido a sonhos”. Diante disso, foi-lhe perguntado o que, exatamente, na época, quis dizer com aquilo, e, se ainda hoje, ele manteria o dito. A resposta de Klécio foi a seguinte: “Ele sempre foi um visionário com os projetos ao mesmo tempo em que produzia alta literatura. Só alguém nas nuvens, gênio, etc., é capaz de conciliar tudo”.
Voltei a indagar: O que é tudo?
Tive por resposta: “Os projetos frustrados com a produção literária...”.
O interesse nas respostas do jornalista Klécio, de imediato, sem a intenção de concordar ou discordar, foi despertado quanto ao que ele dissera sobre Simões ser um “escritor movido a sonhos”, porque entendemos, isto sim, que ele foi um escritor movido pelas frustrações.
Explicando: partindo do pressuposto de que sonhos são as manifestações de nossos desejos (serão mesmo?) e que, à noite, durante nosso sono saem da imensidão do inconsciente para povoar os invisíveis territórios de nossas mentes, podemos inferir que Simões Lopes Neto, como um frustrado homem de negócios malogrado empreendedor, ou capitão de indústria, por deslocamento transferiu sua necessidade de ser um homem bem sucedido - alguém importante dentro de seu contexto social - para a criação literária. Deste modo, é possível especular se o artista Simões não foi a resultante do malogrado empreendedor. É difícil dizer o que leva alguém à arte. Talvez todos nós no confronto com as rudezas da vida, de uma forma ou de outra, neste ou naquele momento, desejemos empreender fuga cada um ao seu próprio pampa. Teremos, os que admiram e estudam seu legado, inventado o escritor, quando o que estava diante era apenas a trágica sombra de um exilado da vida?  


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  A fuga para o pampa
É possível, então, pensar Simões Lopes Neto dentro de suas limitações históricas. Todo homem é, de alguma maneira, prisioneiro de seu tempo. Creio que quando se diz que Simões estava à frente de seu tempo, se queira apenas afirmar que ele era um visionário, como disse o Klécio. E isso ele era.
Evidentemente, considerações tão profundas quanto às motivações artísticas e as defesas psicológicas são questões deveras complexas e não podem ser simplificadas a respostas unifatoriais.  Todavia, no percurso do que disseram Ivete Massot e Hildinha Simões Lopes, respectivamente, em Simões Lopes Neto na intimidade (1974) e Entre sonhos e charqueadas (1999), que procuram explicar os “bons negócios” do Capitão, para utilizar a expressão de Guilhermino César, por meio de um mecanismo inconsciente que, na vontade de ser escritor, o “forçava” a fracassar nas atividades econômicas.
Num caso como esse, não se deve isolar uma explicação, ainda mais se circunscrita à psicologia (que acreditamos não seja suficiente para dar cabo da abrangência da questão), uma vez que se deve levar em consideração os mais diversos aspectos que envolvem o problema. Todavia, é evidente a ambivalência de Simões Lopes Neto diante de seu respeitado avô. Não conseguindo reproduzir o modelo ditado pelo visconde da Graça, ele se refugiou no pampa. Ali, numa eterna cavalgada lúdica, habitava a figura do pai, um fanfarrão cujas histórias e vivências lhe restaram como referência para, via literatura, enfim, transfigurá-lo em um tipo heroico, valente... um verdadeiro gaúcho guapo! Eis, pois, o substitutivo perfeito para os sonhos não realizados.
            Simões Lopes Neto, a exemplo de outros intelectuais que cultivaram a literatura regionalista, era homem da cidade, escritor urbano que, à exceção dos “Contos Gauchescos”, tratou em sua obra quase que inteiramente de assuntos citadinos. Aliás, essa é uma aparente contradição, primeiro porque quase não se fala nas relações entre sua alta literatura de temática rural e a obra secundária, do ponto de vista artístico, não ficcional, majoritariamente de temática urbana. Depois ainda, porque nos grotões do Brasil, onde vivia a população camponesa, retratada na literatura regionalista, a cultura letrada praticamente não havia chegado. Portanto, mesmo que ali se encontrasse alguém de talento literário e que conhecesse, pela imersão, os elementos a serem estilizados na representação de sua própria realidade; essa pessoa, ser por si só já um fato muito raro, simplesmente não dispunha dos meios mínimos necessários para cumprir a tarefa: não sabia ler nem escrever.
Outra coisa: todos os regionalistas brasileiros eram homens de cidade, apesar de terem, em geral, algumas vivências campeiras. Isso não era uma excentricidade, particularidade ou contradição de Simões Lopes Neto. O interesse desses intelectuais citadinos pelo campo era basicamente ideológico, tendo buscado no regionalismo, esse viés do Naturalismo, sua expressão político-literária.
O fato de suas crônicas e dramaturgia se aterem a temas urbanos é fruto também de um contexto socioliterário de época. O único autor teatral a dedicar-se a temas rurais foi Martins Pena, e isso, durante o Romantismo. Os autores posteriores, sob a poderosa e sedutora concepção do “Roman expérimental” (1880), de Zola, que no Brasil receberá um variado influxo de pensadores (Max Nordau, Oscar Wilde, entre outros) vão procurar descrever as mazelas da sociedade, seus vícios, enfim, o submundo.  Mas não é o que faz o Capitão na “Mandinga” (1893) ou nos “Inquéritos em Contraste” (1913), sua urbaníssima coluna?
            Do ponto de vista prático, que saibamos, Simões Lopes Neto, como homem de negócios, não praticou empreendimento algum relacionado com a vida campeira, apesar disso, tinha uma marca de gado registrada!
            A obra máxima de Simões Lopes não é, em sua essência, fruto de um homem do campo. Nem poderia ser. Os letrados eram muito poucos na sociedade de então e não estavam, evidentemente, na zona rural. De outro lado, o campo, em geral, era visto como lugar de atraso e barbárie, como se pode ver inclusive na literatura simoniana, que reproduz a violência e a fala dos incultos. A virtude que exala da idealização do universo rural está ligada à saga de valores, de algum modo, dando continuidade ao ideário político-filosófico romântico que via na natureza a pureza, o refúgio, a sinceridade – e também,  principalmente,  nos autores regionalistas, a crueza da vida, que devia ser enfrentada com audácia, coragem, honra e honestidade.
            Segundo Carlos Reverbel, Simões Lopes Neto em sua obra maior, os “Contos Gauchescos”, que o consagrou entre os grandes escritores do país, foram inspirados na figura de seu pai, cuja reconhecível representação está no personagem Tandão Lopes, do conto “Juca Guerra”.
            Acreditamos que Simões tenha ido mais longe que do desenhar Tandão Lopes para homenagear seu pai, pois Catão Bonifácio se faz presente no livro desde a dedicatória, que aqui nos serve de epígrafe. Lembremos: o nome Bonifácio também está inscrito em um de seus contos mais famosos: “O negro Bonifácio”. Nestas circunstâncias é possível conjecturar que o narrador, vaqueano Blau, seja a homenagem maior de Simões e represente o próprio Catão Bonifácio Lopes, memória querida e libertadora, contra a opressão familiar e social, associada à figura dominadora do avô, o visconde da Graça.

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Revisão do texto: Bruna Detoni

Foto: A. F. Monquelat