quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Dominguinhos, o mais que centenário

pelotasdeontem.blogspot.com

A. F. Monquelat



Certa feita, publiquei uma série de artigos sobre alguns dos muitos tipos folclóricos e ou populares da cidade de Pelotas, dentre esses, propositalmente, deixei de fora o mais que centenário e popular Dominguinhos, cujo nome é Domingos Moreira. O motivo que me levou a tal decisão foi o fato de não haver muitos dados sobre o nosso personagem e os poucos que por aí circulam, além de pouco confiáveis, são preconceituosos.

Em meados do ano de 1911 o jornal Diário Popular de Pelotas publicou em suas páginas fotos e dados, ainda que poucos, sobre alguns personagens mais que centenários da cidade, e lá se encontrava o nosso Domingos Moreira, o popular Dominguinhos.

Dominguinhos, assim como outros apontados pelo jornal, na ocasião estava recolhido ao Asilo e gozava de boa saúde.

Ao lado da foto, em uma espécie de moldura, era dito que aquela figura era a do popular e muito conhecido Dominguinhos, o qual, não poucas vezes, fora visto nas ruas da cidade dançando, cantando e rindo com a rapaziada, que o apreciava muito, pelo caráter alegre que possuía.

Recolhido ao Asilo há mais ou menos um ano, “conta 130 anos”. Natural do Congo foi para a Bahia, já casado. Sendo vendido como escravo para o Rio Grande, veio, depois para Pelotas, onde casou pela segunda vez.Passava os dias ao sol, cantando e comendo rapaduras, das quais muito gostava.

Diante da precariedade de dados expostos na matéria publicada pelo Diário Popular, sobre alguns personagens centenários da cidade, podemos dizer e lamentar que o jornalista, perdeu, naquela ocasião, a oportunidade de nos legar uma importante reportagem sobre um vulto de tão longa e experiente vida.

Não muitos meses após a publicação da matéria, voltava o Diário Popular a falar sobre Dominguinhos, mas, desta vez, na coluna “Necrologia”, para informar aos seus leitores que falecera, nesta cidade, Domingos Moreira, africano e contando 110 anos de idade.

Observe o leitor que o próprio jornal ao noticiar a morte de Domingos Moreira, em 13 de junho de 1912, que antes dissera ter Dominguinhos 130 anos, dizia agora ser este, africano, contando 110 anos.

Antes de prosseguirmos com a leitura de outras fontes sobre a morte de Dominguinhos, é preciso considerar que, embora de forma bastante sucinta, podemos considerar a reportagem do Diário Popular, sobre os tipos centenários de Pelotas, a principal responsável pela divulgação e permanência entre nós desta popular figura que, inclusive, virou um dos inúmeros cartões postais da Editora Meira, com circulação aérea desde o ano de 1911 e, posteriormente, incorporado ao livro A cidade de Pelotas, em 1922.

O autor da obra, Fernando Osório, não somente utiliza os mesmos dados publicados pelo Diário Popular, bem como reproduz o postal da Meira com a foto de Dominguinhos, e dá asas a sua fértil imaginação,  ao acrescentar: “(...). Como o carneiro do batalhão, cheio de guizos e fitas, surgia o vulto grotesco, minúsculo, quase invisível, do Dominguinhos, trovador da cor inconfundível do carvão, dançarino incansável que atravessou a vida sempre carreando o peso da desventura, constantemente a rir, a cantar e a dançar, para ver se a boa sorte despertava do sono que para ele seria eterno...”

“Aquele metro de gente durou mais de um século (107 anos), a esperar a morte. Pobre alma! Nasceu quando o século XIX tinha apenas oito anos; o século expirou e ele sobreviveu; o século foi das luzes, morreu numa apoteose de grandezas e ele viveu sem luz para morrer numa apoteose de misérias; a morte parecia ter se esquecido de o levar na onda, o século viveu numa orgia de sol e ele, sempre negro, atravessou-o na ignorância profunda, e quando o novo século surgia numa alvorada polar bizarra, cortada pelo jato dos holofotes e pela asa leve e ligeira dos aeroplanos, o Dominguinhos desceu à terra, e nem os sete palmos clássicos os seus  despojos ocuparam, que tanto não tinha ele de altura, mas a memória de cinco gerações está cheia dessa figura de preto que se fez branco para viver na tradição.”

Deixando de lado a fértil criatividade e os gongóricos preconceitos do autor de A cidade de Pelotas, vejamos duas notícias mais sobre a morte de Domingos Moreira, sendo que o jornal A Opinião Pública de 13 de junho de 1912, sobre o ocorrido diz que no dia 11 daquele mês falecera o conhecido Dominguinhos que se achava internado há tempos no Asilo de Mendigos e contava 130 anos de idade.

Domingos Moreira, como se chamava, era um tipo popular, alegre, sempre pronto a servir de brinco, principalmente das crianças, que ele sempre recebia carinhosamente.

O Dominguinhos era africano e, segundo o jornal, guardou sempre, apesar de encanecido pela longa idade, nítidas recordações da era primitiva de Pelotas, para onde viera com tenra idade.
Concluía o jornalista desejando paz aos seus manes [ancestrais].

E por último o jornal A Tribuna, de 13 de junho, que nos informando que: no asilo de Mendigos onde se achava recolhido falecera anteontem o popular preto velho Dominguinhos.

Domingos Moreira contava para mais de um centenário de existência e só recolheu se ao leito daquela instituição nos últimos dias de sua longa vida, quando se sentiu desalentado para prosseguir no labutar constante da luta pela existência.

Dominguinhos, prossegue o jornal, sempre a cantar, tendo sempre um riso franco para os que dele se acercavam, era amigo de todos e por isso não conhecera inimigos.

As crianças, então, eram o seu predileto entretenimento e só elas faziam, muitas vezes, o Dominguinhos parar por momentos na rua para responder-lhes ao ser interpelado: “Quantos anos tens? – Só dois dias, o dia em que nasci e o dia em que vou morrer.”

Que descansasse em paz o Dominguinhos, concluía o jornalista.



Fonte de pesquisa: CDOV- Bibliotheca Pública Pelotense
Revisão do texto e postagem: Jonas Tenfen

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Pelas ruas de Pelotas


    
A.F. Monquelat

                                                                                Jonas Tenfen


Pelotas, a exemplo de outras cidades, viu circular por suas ruas diversos tipos de pregoeiros de mercadorias em domicílio, desde o aguadeiro, quitandeiro, cabungueiro, engraxate, vendedor de aves, carvoeiro, verdureiro, leiteiro, padeiro, ervateiro, afiador e tantos e tantos outros ambulantes que, ao decorrer dos anos, foram sofrendo influências e se readequando aos novos tempos. Ou simplesmente desaparecendo.
     De toda essa miríade de saberes e fazeres que está na constituição da cidade, iremos aqui nos ater a dois exemplos de profissionais que exerceram seus labores pelas ruas de Pelotas.

     O afiador



     
Um desses tipos chegou até a década de 80 do século XX: o afiador, que ainda fazia rodar sobre o calçamento da cidade as suas primitivas máquinas, que costumávamos ver em nossa infância.
     Ainda que todos, ou quase todos, os ramos da atividade humana tivessem sofrido, naquelas últimas décadas, várias influências do progresso, as máquinas de afiar, acreditamos, continuavam seguindo as mesmas linhas e oferecendo o mesmo aspecto do passado.
     Esses prestimosos servidores das populações das cidades percorriam as ruas, diariamente, fazendo soar a sua gaita típica.
     O som daquela gaita anunciava, tanto à dona da casa ou à empregada doméstica, que se encontrava em dificuldade para cortar com a faca “cega” a carne do almoço, como ao açougueiro, ao barbeiro, ao alfaiate, enfim, a todos que diariamente eram forçados a utilizar-se, para o desempenho de suas atividades, de instrumentos perfurocortantes, que o homem que poderia resolver o problema estava chegando para dar melhor gume aos seus instrumentos de trabalho.
     Uma das particularidades interessantes a ser assinalada era da inexistência de descendentes de outras nacionalidades na atividade de afiador que não a espanhola, pois todos os profissionais vistos pelas ruas da cidade, empurrando pacienciosamente suas máquinas de madeira, ruas à fora, eram, em Pelotas como na maior parte das cidades brasileiras, filhos da terra de Cervantes.
     Na década de 50, existiam seis ou sete afiadores, todos oriundos da Espanha. Um destes, exercendo aquela árdua profissão em Pelotas há mais de vinte anos ininterruptos, era, provavelmente, o mais antigo afiador da cidade. Chamava-se ele José Fernandes Gonzalez, que viera para o Brasil via Cuba e outros países da América Central, há coisa de mais de trinta anos.
     Em Pelotas, Gonzalez exerceu, de início, outra profissão antes de adotar aquela em que se ocupava na época. Trabalhara como capataz no serviço de esgotos.
     Deixando essa função, tornou-se afiador e não mais abandonou a máquina que, por sinal, era a mesma com a qual se iniciara na “arte”.
     Apesar da fama de comedidos nos gastos eram os espanhóis, de maneira geral bastante limitados nas despesas e procurando reunir, a todo custo, um “pé-de-meia”, fosse qual fosse a atividade em que se ocupavam.
     Entretanto, Gonzalez, que era natural da Galícia, certa feita, quando entrevistado, disse ao repórter que mal conseguia obter o estritamente necessário para o seu sustento e o de sua família, que não era muito numerosa.
     Cobrava ele, na ocasião da entrevista, três e quatro cruzeiros por faca ou tesoura que lhe confiavam para afiar, mas apesar de trabalhar de sol a sol, nunca conseguira reunir economias, nem mesmo uma casa para morar pôde ele adquirir.
     Gonzalez morava em casa alugada e teria que desocupá-la, pois fora vendida.
     Contava Gonzalez com 60 anos, cinco filhos, sendo um deles casado. Sua esposa, ele a conhecera em Pelotas, onde se casou pouco depois de sua chegada a cidade.
     Pelotas inteira o conhecia. Era comum que desconhecidos a ele confiassem instrumentos das mais variadas espécies para dar fio ao gume.

Doutores das ervas



Dizia ele também que entre os frequentadores da tal casa notavam-se vários índios peruanos, “desses que por aí andam de sacola às costas vendendo  remédios”.
                                                                             Pelotas dos Excluídos


         A referência acima, retirada da obra Pelotas dos Excluídos, diz respeito a um episódio registrado pela imprensa da cidade, no ano de 1875, ao denunciar as atividades de uma “feiticeira” (proto-mãe de santo), cuja casa era também frequentada por esses peruanos, vendedores de ervas que andavam pelas ruas da cidade.
         Dentre as conotações de desprezo manifestas pelo jornalista no corpo do fato, salta aos olhos o descaso e descréditos atribuídos ao uso de ervas como “remédios”, quando não por serem estes empregados por uma negra africana em suas atividades.
            De qualquer forma, e cada vez mais presente na medicina popular e caseira, tanto as ervas quanto aqueles que se dedicam ao seu comércio, sobreviveram aos tempos, ainda que raramente sejam vistos oferecendo “remédios”. Como era o caso do Sr. Carlos Alves, negro quase centenário - retrato de um infame e cruel passado- que, ao ser abordado e perguntado sobre a eficácia de seus “remédios”, respondeu: “Pra tal di pinicilina eu tenho catinga di mulata, que cura até calo arruinado”. Hoje sabemos que, dentre outras propriedades, erva citada serve para amenizar dores articulares e reumáticas.
         Curioso com a informação dada pelo Sr. Carlos Alves, resolveu o jornalista ouvir aquele negro teso, quase centenário, sorridente, sustentando um saco de “ervas curativo” às costas, ministrar ensinamentos sobre a arte de curar, sobre os efeitos de suas drogas e as consequências que elas provocavam:
         - Curam as dores do corpo meu filho – disse-lhe o Sr. Alves, mostrando os farrapos de sua indumentária, acariciando um galho de carqueja - e acrescentando: - Estou assim de faceiro, gosto muito da profissão. Eu sou “doutor” há não sei quantos anos...
         Carlos Alves disse ter um passado muito sinuoso, tão repleto de episódios que na revolução de todos aqueles acontecimentos sentia lhe faltar, com frequência, a memória e se dizia ser “hoje um homem do presente”.
         - Não lembro bem o que passou. Vivo o dia de hoje. O passado é uma coisa que não me interessa. Gosto mais do instante. Gosto mais do instante, de vender minhas ervas, de curar meus irmãos.
         Disse o repórter ser Carlos Alves possuidor de uma filosofia muito própria, humana, e ser também um dos últimos representantes dos tempos do “pajé curandeiro”. Ia arrastando seus anos com paciência, divertido, às vezes engolindo um trago de aguardente de cana.
         E, pondo o ponto final na entrevista com o jornalista, disse ele:
         - Tenho curado muita gente. Agora quero que me deixem morrer em paz. Acho que o pessoal não precisa mais de mim. Antigamente a coisa era diferente. Hoje até se morre menos...






quarta-feira, 11 de julho de 2018

Peludiando com Simões Lopes Neto






        
         Quando, às 12h53min do dia 21 de novembro de 2014, me deparei no jornal A Opinião Pública com o texto denominado de “Peludices”, não tive dúvida alguma tratar-se de mais um dos Joões postos em cena por Simões Lopes Neto.

         Neste texto, ainda que não sejamos especialistas da obra do autor de A família Marimbondo, notam-se muitos sinais que nos levam a crer que tal pseudônimo trata-se de mais um João a engrossar as fileiras da Companhia de Joões, que Simões Lopes Neto fez desfilar pelas páginas dos jornais da cidade, qual seja: o de João Peludo.

         E, considerando o velho ditado: o apressado come cru, resolvi amadurecer a ideia antes de entregá-lo aos leitores. O que faço tardiamente, já que pouco ou nada acrescentaria tal texto à já consagrada, visitada, revisitada e nunca completa obra de Simões Lopes.

          

 
“Peludices


         Andei por Canguçu, a ver se conseguia explorar alguma mina de ouro, azougue [o mesmo que mercúrio] ou mesmo ferro, porém, esses minérios, não querendo compartilhar da assaz decantada crise que assola esta santíssima terra, sumiram-se, aprofundaram-se, como que fugindo espavoridos da furiosa algibeirite aguda [escassez de dinheiro] que tantos males tem causado.

         Não conseguindo o que almejava, vim, como “a folha que o vento da fortuna impele” [verso do poema A Judia, de Tomás Ribeiro], sondar a Princesa ... [referência à cidade de Pelotas, a princesa do sul].

         E não me arrependo.

         Estou, posso contar como certo, rico, muito rico, podre de rico!

         Ó ventura!

         Ferro, ó ferro!

                   Vou contar como consegui saciar a minha desmedida ambição, mas, por enquanto, peço muita reserva.

         Fui convidado para assistir a uma sessão espírita; e, na sala, repimpado [bem sentado, bem acomodado], numa cadeira de pau, observei boquiaberto, o estupefaciente evento que se desenvolvia entre o meu olho (uso do singular, por ter um olho só; o outro saiu preso à catarata, quando me operaram) e fiquei gostando da sessão, de tal maneira, “que não conheço coisa que mais queira”. Permita-me o querido irmão-chefe que eu narre algumas das muitas merveilles [maravilhas] que presenciei.

         Um irmão, já meio velhote, a quem os outros chamavam de seu Chico, evocou um espírito, e, entre outras amargas recriminações, censurou-o por ter andado a passear de bonde.

         O espírito, que não pude distinguir se era o do Castro Malta [João Alves de Castro Malta, caso que se tornou famoso no Rio de Janeiro em meados dos anos de 80 do século XIX] ou o do Castro Urso [um dos tipos populares do Rio de Janeiro no século XIX e que foi morto por um “perverso” em 21 de setembro de 1889], desfazendo-se em pranto, “sentido e santo” [alusão a Missa de Cristo Rei], protestou que não entraria mais em bondes, indenizou o Chico da despesa, fez umas piruetas e evaporou-se.

         Um outro irmão evocou um Espírito que, ao aparecer, bradou com voz de trovão:

         - Vamos!

         - Onde? balbuciou o pobre rapaz.

         - A...

         Não, não digo o nome que o invocado disse, porque é tão feio, tão feio...

         Conquanto se trate de uma coisa comum ao reino animal, com exceção do carrapato, eu não devo repeti-lo, para não arranhar os delicados tímpanos de vossos mimosos ouvidos.

         A base, pois, de minha próxima opulência, está firmada:

         Vou abrir a concorrência pública uma agência espírita, que substitua, com vantagem, o telégrafo, a navegação aquática e aérea, telefone, etc., etc., por módico preço...

                                                                     
      João Peludo.”


 Nota: As informações contidas dentro de colchetes são explicações do pesquisador. 
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Fontes de pesquisa:
Bibliotheca Pública de Pelotas-CDOV
Acervo documental e iconográfico de A.F. Monquelat
Postagem: Bruna Detoni

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Cinema Universal – Pelotas


A.F. Monquelat

Dentre os vários cinemas que a cidade de Pelotas inaugurou e hospedou durante o decorrer de sua história, pelo menos um deles, ao que nos parece, não foi percebido pela lupa daqueles que se dedicaram e se dedicam a escrever sobre estas casas de entretenimento e diversão, ainda hoje, tão ao gosto de muitos, que foi o Cinema Universal.
Anúncio do Cinema Universal na imprensa pelotense

Das poucas notícias que encontramos sobre o Cinema Universal, a primeira delas foi a do dia 29 de dezembro de 1916, na qual era dito que a nova casa de entretenimento seria inaugurada no domingo próximo, dia 31 de dezembro daquele mesmo 1916, no salão situado à  Rua 15 de Novembro nº 728,  quadra entre as ruas Dr. Cassiano e Voluntários.

O estabelecimento, segundo notícia de época, estava montado com gosto e decorado de forma singela, mas elegante, dispondo de vários ventiladores, sendo que um deles possuía aparelho de sucção para extração do ar quente da sala.

Possantes lâmpadas elétricas forneceriam farta iluminação. A cabine era forrada de zinco, a fim de prevenir qualquer acidente, e o aparelho projetor, completamente novo, como não havia igual no Estado.Havendo ainda uma sala de espera, entre duas portas que davam para o salão.

A inauguração do novo cinema estava marcada para as 14h30, com uma soberba matinê dedicada ao mundo infantil.

À noite aconteceriam novas sessões com filmes desconhecidos do público, mas segundo a direção de apurado trabalho artístico.

Durante as projeções, seria ouvida uma afinada orquestra.

Em 30 de dezembro era anunciado que, dia seguinte, às 14h30, seria inaugurado o novo Cinema Universal, no salão à Rua 15 de Novembro nº 728.

Àquela hora, haveria atraente matinê e a noite, novas sessões com selecionadas películas.

A entrada custaria 1$000.

Sobre o ato de inauguração, não encontramos registro algum nos jornais da cidade.

É provável que a inauguração tenha ocorrido dias depois da data prevista, pois, segundo notícia encontrada no Diário Popular: inaugurou-se anteontem [07-01-1917] o novo salão Cinema Universal, a Rua 15 de Novembro nº 728.

Nas duas sessões, à tarde e à noite, foram passadas interessantes fitas, que agradaram ao numeroso público que ali acorreu.

A próxima nota sobre o novo cinema, publicada em 9 de janeiro de 1917, diz que prometiam grande sucesso as sessões daquela noite.

Seria exibida a empolgante fita “Essas mulheres”, em 10 longas partes.

Aos 17 dias do mês de janeiro de 1917, o jornal O Rebate   comentava que “A Caixa Misteriosa” era uma concepção cinematográfica pertencente ao gênero dos dramas policiais e, dividida em 30 partes, repetidas por 15 séries.

Era no ramo a que se propunha o trabalho mais completo até então saído das fábricas cinematográficas.

O Cinema Universal, “ainda de curta vida, mas de largo conceito”, querendo oferecer aos seus habitués um filme, como esse de real valor, embora com sacrifício, mostrava assim o desejo que tinha de servir ao público da melhor maneira.

A breve exibição de “A Caixa Misteriosa”, era disso prova incontestável.

O público, por certo, saberia retribuir os nobres intentos da empresa do Universal. Filme este cuja exibição fora uma homenagem ao “valoroso Clube Brilhante”.

Não muitos meses depois de sua inauguração, as notícias sobre o Cinema Universal na coluna dos jornais da cidade, “Theatros e Cinemas”, cessaram por completo. O que nos leva a supor que a vida do Cinema Universal tenha sido curta.



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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
 Revisão do texto: Jonas Tenfen
Tratamento de imagem e postagem: Jonas Tenfen

quarta-feira, 25 de abril de 2018

15 esquina 7: encontro do café com o cinema (parte 2 e última)

                                                                                                                                                                        A.F. Monquelat



       O café seria inaugurado em fevereiro e o cinema em fins de março de 1912. Dando-se, assim, a inauguração geral da casa.

A frente do prédio em que funcionaria o Ideal-Concerto estaria feericamente iluminada por dois grandes focos de luz elétrica, com a força de mil velas cada.

Um dos referidos focos seria colocado à Rua 15 de Novembro; e o outro, à Rua Sete de Setembro.

Como bem poderia imaginar o leitor, afirmava um dos jornalistas, o Ideal-Concerto seria um estabelecimento importantíssimo, para onde convergiria, certamente, a elite da sociedade pelotense.

Em meados do mês de março, sem que tivesse acontecido a inauguração prevista para o mês de fevereiro, a imprensa local noticiava que em “mais alguns dias” estaria aberto ao público o Ideal-Concerto. Este seria, incontestavelmente, o primeiro estabelecimento, no gênero, do Estado e um dos primeiros do Brasil.

Para que a inauguração se realizasse, esperavam tão somente que fossem liberadas pela Alfândega as cadeiras destinadas ao salão de cinematógrafo, que haviam sido importadas da Áustria.

O Ideal-Concerto contaria também com um magnífico serviço de restaurante à la minuta, instalado em salão exclusivamente preparado para tal finalidade.

Os preparativos para a definitiva instalação daquele estabelecimento modelo prosseguiam ativamente, de modo que, dentro de poucos dias, acreditavam estivesse ele aberto ao público.

A seção de cinematógrafo, a cargo do Sr. João Salvi, mereceria especial cuidado da empresa Ideal-Concerto, a qual já contava com grande e seleto repertório de fitas, até então desconhecidas em Pelotas.

Era agente daquela empresa o Sr. Ignacio Accioly, que, na ocasião, estava na cidade e era o único distribuidor no Estado das fitas Dinamarquezas, Cines, Ambrosio, Ítala e outras.

Dia 25 de março de 1912, o Ideal-Concerto feericamente iluminado foi, à noite, visitado por um grande número de famílias pelotenses.

O estabelecimento, com todas as suas dependências iluminadas, apresentava um lindo aspecto.

Poucos dias após a visita daquele grande número de pessoas, a imprensa anunciava que estava próxima a hora da sociedade chique de Pelotas gozar a delícias de ver realizada uma grande expectativa, que a dominava desde que fora falado na fundação do Ideal-Concerto, e isso porque estava definitivamente marcada para dia 30 daquele mês a abertura do importante estabelecimento.

A inauguração dar-se-ia à noite. À frente do prédio onde estava instalado o Ideal-Concerto, uma banda de música abriria os festejos.

Os homens encontrariam no Ideal-Concerto, além de atraentes diversões, um serviço completo, bem atendido, a tempo e à hora, de café, bar, cigarraria, restaurante, engraxataria, etc.

Dia 30, após a abertura, haveria no amplo salão destinado às diversões cinematográficas, o primeiro espetáculo, com programa composto de fitas completamente desconhecidas em Pelotas.

A Inauguração do Ideal-Concerto
Conforme fora anunciado, dia 30 de março do ano de 1912, à noite, por volta das 19 horas, deu-se de maneira oficial a inauguração do grande estabelecimento Ideal-Concerto, instalado à Rua 15 de Novembro, esquina Sete de Setembro.

Dizer o que era o Ideal-Concerto, afirmavam os jornalistas, seria repetir o que por muitas e muitas vezes haviam dito e o que, portanto, já era de conhecimento do público, que aquela noite invadiu o novo estabelecimento, logo que suas portas foram abertas. 

O Ideal-Concerto, que se manteve repleto de famílias e cavalheiros até altas horas da noite, era um estabelecimento modelo e que fazia jus à cidade de Pelotas.

As sessões cinematográficas, realizadas na noite da inauguração, tiveram avultada e seleta concorrência.

Sábado, dia 31 de março, às 15 horas, os proprietários do Ideal-Concerto ofereceram aos representantes da imprensa, às autoridades e demais convidados, inclusive algumas famílias, uma sessão especial de cinema, sendo exibidos três filmes, entre os quais se destacou, pelo empolgante efeito dramático contido, o filme intitulado “Gioconda”.

Após aquela sessão cinematográfica, foram servidos, na sala da frente do Ideal-Concerto, doces, sanduíches e champagne, a todos os convidados.

Dia 1º de abril, domingo, seriam realizadas sessões corridas com o seguinte programa, “realmente chic”: “Pathé Journal nº 139 B”, Um senhor metódico” e “Amor de Príncipe”.

Ideal-Concerto e Ponto Chic

Em agosto de 1912, a empresa proprietária do Ideal-Concerto, em virtude do registro, que a mesma acabara de fazer na Junta Comercial do Estado, o seu salão de diversões, que até aquela data (18 de agosto de 1912) adotara o nome de Ideal-Concerto, passaria a chamar-se Ponto Chic. Este título seria usado daquela data em diante em todos os seus cartazes, anúncios e programas.

O Café-Concerto de propriedade da mesma empresa, e situado à Rua 15 de Novembro, esquina Sete de Setembro, ao lado do salão acima referido, também em virtude de registro feito, continuaria a denominar-se Ideal-Concerto.

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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
 Revisão do texto e postagem: Jonas Tenfen
Tratamento de Imagem: Bruna Detoni

quarta-feira, 18 de abril de 2018


15 esquina 7: encontro do café com o cinema (parte 1)


A. F. Monquelat

   
   
     Aos 25 dias do mês de janeiro de 1912, conforme era esperado, chegou a Pelotas, pelo primeiro trem, o senador pelo Rio Grande do Sul, Dr. José Gomes Pinheiro Machado, que teve, acolhida  na gare da Viação.    Dentre as pessoas que o aguardavam, era notada a presença do intendente municipal, Dr. Barbosa Gonçalves, bem como a presença do coronel Pedro Osório, senador Cassiano do Nascimento, Dr. Ildefonso Simões Lopes, e muitos outros vultos da cidade.

         Logo após o desembarque de Pinheiro Machado, formou-se extenso préstito de carros que, em cortejo, seguiu em direção ao palacete do coronel Pedro Osório, onde o político ficaria hospedado.

         Naquele mesmo dia, alguns jornalistas da imprensa local visitavam as obras das futuras instalações do Ideal-Concerto, um café-cinema, que talvez fosse, no gênero, o único do Estado.

         As obras, que iam a ritmo acelerado, eram executadas por grande número de operários, a fim de que o estabelecimento fosse inaugurado a seção de café em fevereiro daquele mesmo ano

         Segundo um dos visitantes, o Ideal-Concerto seria montado de acordo com os estabelecimentos mais importantes das grandes capitais, de modo a fazer honra à cidade de Pelotas, que se preparava para festejar seu primeiro centenário.

         O Café ficaria situado à Rua 15 de Novembro, esquina da Sete de Setembro, ocupando amplo salão, com piso de mosaico e, em derredor do qual, em piso superior, haveria uma galeria, com grades douradas e destinada exclusivamente a famílias, tendo acomodação para 18 mesas.

         A parte térrea seria para os homens e comportaria 20 mesas.

         Estas seriam algumas de mármore, outras em junco e vidro, todas de estilo moderno e artístico.

         O serviço de café, gelados, bebidas, etc., na galeria, seria feito por meio de elevadores, com a máxima presteza.

         A armação do Café, artística e obedecendo ao mais apurado gosto, estava sendo confeccionada por “hábil artista”, Sr. Quintas e seria colocada por baixo da galeria com a frente para a Rua 15 de Novembro.

         Para o refrescamento de bebidas estavam construindo grande e profundo porão.

         O aparelho que serviria para o preparo do café era o mais moderno até então conhecido e fora importado diretamente de Paris, assim como toda a louça, cristais, mobiliário, etc. Estes haviam sido encomendados na capital francesa, em Hamburgo, em Londres e em Viena.

         A exemplo do que era feito nos grandes centros, os proprietários do ideal-Concerto colocariam, à Rua sete, além da calçada, um estrado de madeira, desde a esquina até a última porta do café, sendo ali servidos ao ar livre, bebidas, gelados, etc.

         Anexas ao Café, uma luxuosa engraxataria e uma bem montada seção de confeitaria e cigarraria para bem atender ao público.Ao lado do Café, ficaria a sala de espera, para o Cinema, e a qual ofereceria todo o conforto às famílias, pelo luxo com o qual seria decorada.

         Seriam, naquele local, instalados belos espelhos, quadros, estátuas, palmeiras, etc., havendo conversadeiras [uma espécie de móvel de época] para descanso dos espectadores.

         A divisão da sala de espera com o café seria um “verdadeiro primor d’arte”.

         O Cinema ocuparia amplo salão situado à Rua 7 de Setembro, com 500 poltronas de luxo, iguais às do Theatro Sete de Abril, e mandadas vir diretamente da Áustria, havendo também 8 camarotes.

         Dariam acesso a essa seção de diversões do Ideal-Concerto três portas: uma pela Rua 7 de Setembro, outra pela sala de espera e ainda uma terceira pelo café.

         A saída dos espectadores seria por três portas à Rua Sete de Setembro.

         A ventilação seria feita por duas grandes aberturas de dois metros de altura, e em toda a largura do salão, havendo ainda espalhados por todo o prédio, aspiradores de ar e ventiladores elétricos.

         Além disso, as bandeiras de todas as portas do estabelecimento poderiam ser abertas, quando fosse necessário.



         O declive do salão seria de três por cento.

         Para projeção de filmes haveria um excelente aparelho Pathé [projetor de filmes criado por Charles Pathé], aperfeiçoadíssimo, dotado de uma lente como não havia igual no Brasil, servido por um dínamo de 108 ampéres e acionado por um motor de 22 cavalos.

         Tocaria, todas as noites, no Ideal-Concerto, um afinado quinteto, sob a regência do maestro Tagnini.

         O quinteto ocuparia a galeria, por trás do pano de projeção, podendo assim ser apreciado pelas pessoas que se encontrassem no café, ao mesmo tempo em que abrilhantaria os espetáculos.

         O repertório seria de propriedade da empresa do Ideal-Concerto e já havia sido encomendado para Buenos Aires, constando de 200 trechos escolhidos de óperas, operetas, etc.

         De dia, uma excelente pianola alegraria os habitués do estabelecimento a ser inaugurado.

         Toda a instalação elétrica seria feita pelo Sr. José Brisolara da Silva, auxiliado e orientado pelo engenheiro Dr. José Gabriel Ubatuba.

         Todas as paredes do prédio seriam lindamente decoradas por hábil artista.

         O escritório seria instalado na parte alta do prédio.

         Era diretor da seção de café o Sr. Manoel Moreira da Costa, que, por muitos anos, exercera o cargo de contínuo do Clube Comercial e que, há pouco, estivera no Rio de Janeiro, a fim de estudar a montagem dos estabelecimentos congêneres dali. Encarregou-se da direção do cinema o eletricista Sr. João Salvi.

         O Ideal-Concerto funcionaria sob a empresa Ideal.

                                                                                                                                                                                                               Continua...
        
        
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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
 Revisão do texto: Jonas Tenfen
Tratamento de imagem e postagem: Jonas Tenfen