sexta-feira, 10 de junho de 2016

A célebre Pensão da Nóca


Pelotas, como em toda parte, tinha as suas pensões.
Para elas afluíam, geralmente, os notívagos no intuito de passarem algumas horas divertidas. Uma dessas pensões, ou bordéis, ou casas de tolerância ou fosse lá qual outro nome que a imprensa local lhes desse, tornou-se célebre dada a quantidade de vezes que frequentou as páginas policiais dos jornais da cidade: trata-se da Pensão da Nóca.   



Prisão de um “valente”

         O Ermenegildo Souza tirou a noite de 9 de abril de 1936 para “se divertir” e, por certo, procurou ambiente apropriado. Dirigiu-se à casa de tolerância conhecida por Pensão da Nóca e ali começou a fazer lastro ou encher o porão.
         Bebeu bastante; bebeu até ficar “valente”.
         Uma vez nesse estado começou a provocar e ameaçar os demais presentes, incluindo as pensionistas da Nóca.
         Lá pelas tantas, achando que Souza estava ficando “valente” demais, o guarda do policiamento encarregado de impor ordem [ordem relativa, como se vê] no referido bordel, convidou-o a moderar-se.
         Souza, porém, não atendeu e quis virar bicho com o policial.
         Resultado: foi trancafiado no xadrez do 1º posto policial, onde ficou purgando-se do mau procedimento.     
 
Desordem na Pensão da Nóca

Em Pelotas, porém, guarnecida como era, por uma corporação instruída para os misteres da guerra e desconhecedora completamente da disciplina policial, segundo o Diário Popular de 5 de setembro de 1936, não era sempre que o boêmio ia a uma pensão unicamente para se divertir, como ainda acontecera na madrugada daquele dia, em uma dessas casas.
Para o sururu, que, em linhas gerais, o jornalista narrava, servira de teatro a Pensão da Nóca, já tão conhecida, célebre pelas desordens que ali aconteciam constantemente.
A 1 hora da madrugada, chegaram à referida pensão dois homens um tanto alcoolizados.
À entrada, por motivos fúteis, se desentenderam com o guarda do policiamento ali destacado.
Após rápida discussão, se engalfinharam.
Dona Nóca, proprietária da casa, avisou, por telefone, à polícia, que daí instante estava presente e, sem cerimônia, metendo o sabre a torto e a direito.
Conclusão: os dois homens foram procurar a Santa Casa, e a delegacia de polícia abriu inquérito a fim de apurar as responsabilidades.
Na Santa Casa, foram os boêmios atendidos pelo Dr. João Xavier, que constatou os seguintes ferimentos: Álvaro Ribeiro da Silva, de 26 anos, residente à Rua 7 de Abril [D. Pedro II] nº 973, um ferimento contuso na região frontal direita e outro também contuso na fronte parietal esquerda; Manoel Ribeiro da Silva, 28 anos, morador à Rua Paysandu [Barão de Santa Tecla] nº454, ferimento contuso no couro cabeludo em plena região ocíptal-parietal direita.
Aceitava o jornalista que houvesse razão para prender os notívagos, porém, não concordava ele com o modo de efetuar prisões.

 Nova desordem na Pensão da Nóca

Uma grossa desordem se verificou na primeira hora do dia 29 de setembro de 1936, na pensão da Nóca, quando a casa estava cheia e não havia uma só mesa desocupada.
O ambiente a cada momento ficava mais carregado, pois havia muitos bambas no salão.
Em certo momento, Walter Costa resolveu brigar, provocando, a princípio um seu antigo desafeto, o qual procurou evitar o mais que pode, para não quebrar a harmonia da reunião.
Pouco depois, Walter Costa, desejoso de mostrar sua coragem, quis dar pancada em Rafael Brandi, que, com habilidade, ainda conseguiu evitar que o fervo tivesse início.
Walter Costa ainda não estava contente, pois queria fazer média como valente.
Não demorou muito em encontrar ele um conviva que lhe fizesse frente.
Lutaram, derrubaram mesas, arrastaram cadeiras, quebraram louças e o ambiente todo foi posto em polvorosa.
Para que os ânimos se acalmassem, interveio o praça do policiamento, Severino Farias dos Santos Costa.
Mas, Walter não atendeu o guarda, avançando contra o policial que não teve outro remédio se não o de dar na cabeça do seu agressor com a coronha do revólver.
O bamba, então, acalmou-se, e dali foi levado à Santa Casa, onde recebeu curativos, sendo a seguir levado para o 1º posto e metido no xadrez.

Desordeiros são presos na Pensão da Nóca

         Na madrugada do dia 17 de outubro de 1939, o inspetor de polícia Rubens Pereira Dias prendeu na Pensão da Nóca, à Rua Voluntários nº166, os indivíduos Neri Pacheco, Domingos Toreli e Oscar Rodrigues, que ali praticavam desordens.
         Os desordeiros, que se encontravam bastante alcoolizados, foram recolhidos ao xadrez.
Autoridades pensam em fechar a Pensão da Nóca
         No dia 10 de setembro de 1940, pela madrugada, no interior da Pensão da Nóca, situada à Rua Barão de Santa Tecla nº 402, e de propriedade de Universina Ferreira, verificou-se grande desordem promovida por Nelson Ferreira e Francisco Reis.
         O inspetor Silveira da Silva, de plantão na delegacia, efetuou a prisão dos desordeiros e da proprietária da pensão, recolhendo-os ao xadrez da delegacia de polícia.
         Segundo a reportagem do jornal A Opinião Pública, as autoridades policiais estavam decididas a ordenar o fechamento da Pensão da Nóca, local que se tinha transformado, “ultimamente”, em perigoso centro de desordens. Essa decisão, segundo o jornal, era a medida acertada, no momento, reclamada a bem do sossego das famílias residentes nas imediações do “famigerado antro de perdição”.
         Em meados de outubro de 1940, a Delegacia de Polícia determinou o fechamento da Pensão Noca localizada à Rua Barão de Santa Tecla nº402 e de propriedade de Universina Ferreira.
         Constantes desordens ali verificadas, e que ainda haviam se repetido na madrugada do dia 14 de outubro, motivaram aquela providência  da autoridade reclamada a bem do sossego público.
         Na mesma ocasião, foi fechado o dancing que funcionava à Rua Dr. Cassiano, quadra entre as ruas Andrade Neves e 15 de Novembro por ser considerado foco de ajuntamentos perniciosos.
         Idênticas providências seriam tomadas, segundo informações obtidas pelo jornalista da Folha do Povo, em relação a outras casas de natureza suspeita, existentes naquele e em outros locais da cidade.

                                                                                                                                
______________________________________________________________________
Fontes: acervo da Bibliotheca Pública Pelotense - CDOV
Revisão do texto: Jonas Tenfen

Seleção de imagem: Bruna Detoni

terça-feira, 7 de junho de 2016

Ciclismo: um esporte da elite pelotense

(parte 4)






As festas para o feriado de Tiradentes

         Em sessão de 12 de abril de 1898, realizada pelo Club Cyclista, pela diretoria e demais membros, ficou resolvido e projetado para que o referido clube solenizasse com brilhantismo e imponência o feriado nacional de 21 do mês de abril. 

         Assim é, tanto que já ficou eleito o comitê, que distribuiu cinco comissões, para a organização de atraentes corridas no Prado Pelotense e festa no Parque Souza Soares.
         O programa, confeccionado com “gosto e capricho”, constaria de seis páreos, havendo um excepcionalmente interessante: uma completa novidade no esporte velocipédico, que, até então não constava que em parte alguma tivesse havido semelhante experiência, completamente original.
         O Bazar Musical, os Srs. Daniel Wiering, Willi Spanier, todos importadores de afamadas marcas de bicicletas, a Companhia de Bondes, a Banda do Clube Caixeral, o Sr. Elie Bloch e o ciclista Sr. Myrtil Franck, além “gentilíssimas senhoritas de nossa sociedade”, ofereceram àquela atraente festa, dando “mimosos e valiosos” prêmios aos vencedores das corridas.
         O Sr. Elie Bloch cedeu ao Club determinado número de convites com direito a arquibancada especial, ficando a distribuição destes a cargo da comissão para esse fim nomeada, composta dos ciclistas Srs. Heráclito Brusque, Carino de Souza e Fritz Boyunga.
         Que seria uma festa deslumbrante, dizia o jornalista do A Opinião Pública, estava certo, pois reinava já intenso entusiasmo entre os “bravos ciclistas”.     
         De tal modo que o Club Cyclista, em cujo seio, contava “já com galantes e gentis meninas, importantes cavalheiros e alegres jovens”, proporcionaria uma festa belíssima, organizada pela “primeira vez entre nós”.




Relação dos prêmios a serem ofertados e demais disposições


         As Comissões reunidas, dia 14 de abril de 1898, para a organização das corridas de bicyclettes no Prado Pelotense, resolveram suprimir a festa projetada no Parque Pelotense, considerando o pouco tempo disponível, depois de terminadas aquelas corridas.
         Às comissões foram oferecidos pelos comerciantes Srs. Gotiwald, um valioso relógio; pelo Sr. Francisco Meira, “um tandem” de bronze, montado por dois ciclistas, objeto de decoração de escritório; pelo Sr. Elie Bloch, um caro alfinete de gravata; pelo Bazar Musical, uma preciosa lanterna americana para ciclista; pela Companhia de Bonds, um objeto de arte e de alto preço; pelo Sr. Daniel Wiering, um precioso boné de seda; idêntica oferta pelo Sr. Willi Spanier; um objeto apropriado pelo amador Sr. Myrtil Franck; e, finalmente, pelo Club Cyclista, uma artística medalha de prata, trabalho de esmerado gosto, para o vencedor do páreo, onde estava inscrito “Club Cyclista, de 1.000 metros”.
         A comissão encarregada dos convites estava preparando o programa.
         Na mesma reunião, ficou decidido que todos os amadores inscritos se  reuniriam naquele dia para o sorteio dos lugares e mais disposições, a fim de se publicar os programas.

A festa na coluna do Vitú e outros comentários

         Vitú, em sua coluna de 20 de abril de 1898, anunciava para o dia seguinte, no Prado, pela 1ª vez nesta cidade, uma imponente festa velocipédica.
         O programa, segundo o jornalista, era tão atraente que ele receava que o anfiteatro do Prado não comportasse a gente que a ele deveria afluir.

A programação da festa

         No dia 21 de abril, escolhido pelo Club Cyclista, ocorreu evento “tão bem organizado quão espontaneamente acolhido pelos apreciadores deste belo gênero de esporte, hoje no apogeu do mundo elegante e civilizado”.
         Faltando local apropriado, sem máquinas especiais para corridas, a despeito do pouco exercício dos corredores, o Club Cyclista proporcionaria aos seus convidados e  ao público um belo divertimento, “hoje favorito e apreciadíssimo nas  mais populosas capitais do mundo”.
         Os atrativos para o grande dia: ao meio-dia, em ponto, estariam todos reunidos em frente ao Lyceu Rio-Grandense e aí formariam, sairiam em marcha que desfilaria pelas Ruas 15 de Novembro e Marechal Floriano, em direção ao Prado, conforme determinara a comissão para esse fim eleita e sob as imediatas ordens do presidente do clube, auxiliado pela comissão da marcha e comissários do clube, Srs. Heráclito Brusque, Lúcio Lopes Sobrinho e Carino de Souza.
         Chegados ao Prado e incorporados aos corredores, fariam em volta da pista o passeio que precederia ao primeiro páreo, prolongando assim a “geral ansiedade que forçosamente reinaria entre todos os espectadores de tão original e atraente festa”.
         Terminada a última corrida e dado o descanso necessário aos participantes desta, formaria novamente o clube, percorrendo com os vencedores à frente, outra vez, a circunferência do Prado, partindo em seguida para a cidade, onde, após curto passeio, dispersaria.
         A imprensa recebera um “delicado convite, acompanhando o programa das corridas, impresso em papel chinês, verdadeiro mimo e novidade”.
         Ao coronel Sampaio, comandante do 29º batalhão de infantaria, e sua oficialidade e famílias, foi dirigido pela comissão atencioso ofício, convidando-os a comparecerem às corridas
         Aos presidentes dos Club Caixeiral, Club de Regatas e das sociedades de tiro ao alvo e de ginástica, também foram enviados ofícios, “bem como convites às distintas famílias de nossa elite”.
         As bandas musicais do Club Caixeiral e do 29º batalhão de infantaria haviam se oferecido para dar maior brilho às corridas inaugurais do clube.
         No Prado, estaria uma comissão, composta dos Srs. Dr. Ildefonso Simões Lopes, Dr. Luiz Sandalio Leivas e João Sattamini Filho, para a recepção dos convidados.
         A exposição dos prêmios, aos vencedores, continuaria até a véspera do evento, na vitrina da Joven España [alfaiataria], do Sr. Rafael Bassols.
         O Sr. Bassols ofertara um precioso par de abotoaduras para punhos, ao vencedor do páreo “perde-ganha”.
         Na ocasião da entrada do clube na pista do Prado, o amador Sr. José Brisolara da Silva tiraria uma fotografia extra-rápida.
         Constava que do Rio Grande viriam muitas pessoas para assistir a festa ciclista de Pelotas, que com tantos atrativos, seria “concorridíssima e bela”.
         Atendendo ao extraordinário entusiasmo que se notava na cidade, seria de inteira justiça que a classe comercial atendesse ao pedido que o Club Cyclista lhe dirigia, por intermédio da imprensa, para fechar o expediente de suas casas às 10 horas da manhã.
                                                                                    
                                                                                              
Segue...


_________________________________________________    
Fontes: acervo da Bibliotheca Pública Pelotense - CDOV
Revisão do texto: Jonas Tenfen
Tratamento de imagens: Bruna Detoni

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Os frades de pedra










         Os frades de pedra foram instalados, em Pelotas, por volta do início da década de 70 do século XIX.
         Os gastos despendidos com tal “benfeitoria” foram de tal ordem que chamando a atenção do redator do contemporâneo jornal Correio Mercantil disse ele, em editorial, que a Câmara Municipal de 1876 deveria considerar como exemplo a não ser seguido os erros de seus antecessores, que gastaram “fabulosas fortunas em frades, correntes e arvoredos...”.
         Decorrido algum tempo desde o alerta dado pelo jornalista, e em consequência dos inúmeros acidentes causados por aqueles frades, voltava ele, através de novo editorial no Correio Mercantil, a chamar a atenção da população e dos representantes da Câmara Municipal, em uma campanha, para que se pusessem abaixo, pelo menos dois deles. Como duas estátuas de bronze, duas sentinelas avançadas do perigo e da desgraça, lá permaneciam ainda dia 3 de julho de 1877, na volta do trilho da Praça Pedro II [atual Pedro Osório], lado da Rua do Imperador [atual Rua Felix da Cunha], os dois pré-históricos frades que há poucos dias haviam atentado contra a existência de “um estimável cidadão”.
         Inflexíveis como dois pachás, atrevidos como dois Átilas [referência ao rei dos hunos], ameaçadores como dois policiais, os frades aos quais o jornalista se referia, mais temíveis que um exército de frades de São Bento, representavam uma violência constante à segurança da população, um terror abominável aos passageiros dos bondes.
         Precisavam ser destituídos, a bem do serviço público, do posto que ocupavam.
         Se a ilustríssima câmara municipal se dignasse mandá-los demitir, o jornalista lhe seria agradecido.
         Ao contrário, gritaria sempre: abaixo os frades.
         “Abaixo os frades”, fora o grito que se erguera, dia 10 de julho de 1877, contra dois inocentes que se encontravam colocados junto ao calçamento que seguia em direção à Praça Pedro II, em frente ao sobrado do Sr. tabelião Neves. E os frades foram abaixo, na noite de 7 de julho de 1877; não por ordem de autoridade competente, e sim por bem manejada serra, que os decapitou sem piedade.
         Dos dois frades, que não eram ultramontanos, dizia o jornalista do Diário de Pelotas, só haviam restado as bases, isto era, um pedaço como de palmo e meio, fora da terra, prejudicial ao trânsito público.
         Em oposição aos que pediam a retirada dos frades, dentre estes o Correio Mercantil, colocou-se o Diário de Pelotas por entendê-los muito necessários, pois serviam de sentinelas avançadas à calçada que dava acesso ao chafariz da Praça, para que não fosse ela maltratada pelas pesadas carretas, que faziam o serviço da cidade ao porto.
         Abaixo os FRADES, gritavam uns; levantem-se os FRADES, gritava o Diário de Pelotas, por ser mais conveniente não só ao público como ao passeio [caminho] que, da embocadura da Rua do Imperador [atual Felix da Cunha] ia de encontro ao chafariz da praça; portanto: levantem os FRADES.


Justiça popular

         Sob a chamada de Justiça popular, o Correio Mercantil, de 11 de julho de 1877, dizia ter gritado tanto “abaixo os frades”, que os frades próximo à Rua do Imperador, junto ao trilho, foram mesmo abaixo. Destruídos, arrasados pela base e talvez reduzidos a cinza, se não por meio de um processo regular, ao menos por efeito de uma justíssima sentença popular.
         Tribunal augusto e soberano: o povo.
         Pedira, implorara o jornalista em nome da humanidade, a condenação daqueles “malvados monstros”, e nunca fora atendido, sem dúvida, acreditava ele, porque se tratava de frades e estas entidades mereciam os respeitos de todos os partidos políticos da “atualidade”.
         No entanto, sucedeu o que sempre sucedia em tais casos: a indignação pública crescera, como cresce a lava ardente do vulcão e a cratera ressoou. E os frades sucumbiram como sucumbem os tiranos depois do morticínio de suas vítimas.
         Abençoada serra e benditos pulsos que dirigiram a derrubada.
         Fora um relevante serviço prestado ao próximo.
         Aprendessem os governos naquele sublime exemplo de soberania popular.
         Anátema sobre aquele que tentasse restabelecer o domínio dos frades.


Os frades sobreviventes

         Em matéria divulgada na edição de 21 de janeiro de 1945, o Diário Popular, sob a legenda de “Flagrantes Urbanos”, com foto de Ramão Barros, dizia que aparentemente inexpressiva essa coluna de granito, que não passara despercebida ao “olho clínico” do experiente fotógrafo, que a havia fixado para aquele espaço, era ela, entretanto uma das poucas relíquias evocativas de um passado longínquo que escaparam ao vendaval remodelador das revoluções urbanísticas.
         Existiam, já naquele período, segundo o jornalista, apenas três exemplares desses frades de pedra em nossa cidade, com que os antigos previdentemente assinalavam os lugares por onde os veículos não deviam trafegar, porque naquele tempo, é claro, não existiam as calçadas.
         Eram, portanto, os sinaleiros da época e, por certo, constituíam, também, sintoma marcante de progresso.


         Apelava o jornalista ao prefeito, para que não consentisse que fossem retirados esses centenários frades de pedra que conheceram esta cidade ainda menina, dos lugares onde se encontravam.
         Parece não haver dúvida alguma da função desses frades, que não era a de como pensavam muitos, e talvez ainda pensem alguns, a de servir para que os cavaleiros e carroceiros amarrassem seus cavalos ou veículos.
         Ainda que a reportagem do Diário Popular não nos indique quais e onde estavam localizados os três frades existentes naquele ano, é provável supor que o flagrado pelo fotógrafo Barros estivesse localizado na Rua General Osório e, os outros dois, os que ainda existem na Rua Andrade Neves esquina Tamandaré e na Gonçalves Chaves, fundos da Igreja da Luz.


___________________________________________________        
Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública Pelotense-CDOV
Revisão do texto: Jonas Tenfen      

Fotos: acervo de A. F. Monquelat

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Simões Lopes Neto, o Club Cyclista e o carnaval de rua

(parte 3)



A.F.Monquelat

A participação do Club Cyclista no carnaval de 1898

         O jornal A Opinião Pública, de 26 de fevereiro de 1898, em matéria divulgada sob o título de “A Pinhata”, noticiava que o Club Cyclista também desfilaria no carnaval de rua, com a participação, talvez, de 30 ciclistas, em sua máquinas adornadas, pretendendo abrir o corso [desfile], que se organizava para o dia seguinte.
         A reunião dos ciclistas seria em frente à Intendência [hoje Prefeitura Municipal], às 17h30.
         O corso, durante trajeto, deveria obedecer às evoluções dos ciclistas, para melhor andamento da diversão e se evitarem atropelos.
         Sabia o jornalista que algumas senhoritas, em suas máquinas, prometeram abrir a marcha do Club, a qual seria fechada por um elegante carro ornamentado.
         Seria este, possivelmente, o melhor momento naquele ano do carnaval de rua.
         Encerrando a matéria era dito que o Club Cyclista, por aquele jornal, faria em suas páginas uma declaração a propósito de sua passeata no domingo da pinhata.


A comunicação do Club Cyclista

         “O Club Cyclista no seu e em nome dos amadores que acederam ao seu convite, resolveu fazer uma passeata e, para a boa ordem e regularidade da mesma, estabeleceu o seguinte programa, que pede para ser observado:
         Os ciclistas se reunirão às 17h30 em frente à Intendência.
         O itinerário será o seguinte: da Intendência pela Rua 15 de Novembro, Voluntários, Andrade Neves, General Neto e 15 de Novembro, por onde descerá até à Intendência, onde se dissolverá o préstito.
         A distribuição dos pares e direção da marcha ficam a cargo do Club”.
         O Club dos Cyclistas convidava as famílias, que tomassem parte do corso a acompanharem o préstito, seguindo rigorosamente o movimento deste, devendo estacionar os seus carros também junto à Intendência, para dali procederem a organização da marcha, pois, assim, não só evitariam a dispersão, desordem e qualquer atropelo, como aproveitariam melhor os atrativos, pela movimentação e abundância do corso.
         O Club rogava ao público não atirar serpentinas sobre os ciclistas, a fim de evitar quaisquer embaraços.




O ciclismo visto pelo carnaval de rua

         Embora o carnaval de 1898 estivesse bastante chocho, à noite, do dia 28 de fevereiro, a coisa melhorara, com o tempo que parecia se firmar, havendo grande aglomeração de povo pelas ruas, muito especialmente à Rua 15 de Novembro, desde o Hotel Aliança [hoje Galeria Zabaleta] até a Praça da República [atual Pedro Osório], em que esteve iluminado o Café Java, a Casa Modelo, a Livraria Universal e a Notre Dame de Pariz.
         Nesse trecho, hoje Voluntários até a Marechal Floriano, entretanto, havia mais vibração, mas o jogo de confete e serpentinas fora pequeno.
         Fizera um passeio alegre um grupo de rapazes, num bonde expresso, com rodas circundadas de cordões de algodão, revelando todos, nesse cortejo burlesco, bastante espiritualidade.
         Estes rapazes distribuíram prospectos análogos à crítica que faziam.
         Junto a estes endiabrados ciclistas fritz mack vinha uma tremebunda orquestra de rufos e tambores, capaz de ensurdecer o próprio diabo.
         Os “nossos ciclistas”, que andaram em maré de contratempos, tiveram ainda uma crítica num cágado, que andava montado num pau, com duas rodas, tocando campainha como um doido...

O desfile do Club Cyclista

         Apesar da tarde chuvosa do dia 28 de fevereiro de 1898, não desanimou a “destemida e distinta mocidade” que fazia parte “deste futuroso” Club.
         Os jovens ciclistas, conforme o anunciado, levaram a efeito o tão esperado passeio em suas bicyclettes, percorrendo as Ruas 15 de Novembro, Voluntários, General Neto e voltando pela 15 de Novembro, indo, todos os seus sócios e sócias em suas “lindíssimas” máquinas, enfeitadas com tão apurado e esmerado gosto que, ousava o jornalista de A Opinião Pública afirmar, não poderiam ser excedidas.
         Após uma pequena pausa da chuva, que impertinente desafiava o entusiasmo dos ciclistas, saiu o préstito, às 20 horas, da Biblioteca Pública, rompendo uma multidão que os saudava com palmas prolongadas e ovações entusiásticas de “bravo!” que, dizia o jornalista, realmente mereciam.
         Assim desfilou o préstito: na frente, os comissários do Club, na direita, Sr. Carino de Souza, na esquerda Sr. Mirtyl Franck, logo em seguida o porta-estandarte, o jovem Bidam, depois o grande atrativo da festa, as “gentilíssimas meninas” Firmina Oliveira, filha do negociante Sr. Pompílio Oliveira, e Nilsa Pinto, filha do Sr. José Pinto, coproprietário da Livraria Americana, ocupando o centro de ambas, num ponto distanciado para a retaguarda, o ciclista Sr. Heráclito Brusque, cuja vestimenta e máquina, “incontestavelmente eram as mais belas e ornamentadas, pelo seu apurado bom gosto e extraordinária vista”.
         Descrever minuciosamente um por um todos os ciclistas e suas riquíssimas máquinas seria um trabalho longo, dizia o jornalista, limitava-se então, a citar alguns que mereceram aprovações gerais.  
         Sr. Heráclito Brusque, no qual não sabia o que admirar, se sua custosa e elegante vestimenta, de camiseta de seda, com listras de cores ouro e preta, calção preto e meias de seda, cores também iguais à camiseta, ou a sua soberba Monarch, que bem merecia figurar num desses famosos concursos que, a propósito de festas iguais, costumava-se fazer nas capitais do velho mundo.
         Além deste, havia mais as seguintes máquinas: as das meninas Firmina Oliveira, ornada de flores de seda, e Nilsa Pinto, também de flores artificiais, ambas luxuosamente vestidas de seda branca e bonés, manejando com perícia suas máquinas, dando assim a essa festa um efeito surpreendente e admirável; a do Sr. Carino de Souza, caprichosamente enfeitada com flores naturais e largas fitas de seda grená e branca e uma profusão de laços e fitas nos eixos e nos pedais de sua experimentada máquina La Française; a do jovem José Areas, com fitas e laços de seda branca e azul, vestido com iguais cores; a do Sr. João Simões Lopes Neto, salientando “a belíssima borboleta de seda na frente do guidon”; a do jovem Bidam, com flores naturais e bandeirinhas nacional e francesa; a do Sr. Fritz Boyunga com o cadre [quadro] e guarda-lama totalmente ornados; a do Sr. Mirtyl Franck, ornada de flores naturais: a do Sr. Eduardo Almeida, com muitas rosas e os raios com laços de fitas; a do Sr. Dr. Rasgado, com flores naturais pelo guidon e cadre [quadro]; as dos Srs. Tonny Costa, Dr. Ildefonso Simões e seu filho Sílvio, as dos jovens Cássio Tamborindenguy, Adolfo Maia, Lúcio Lopes Júnior; e, as dos Srs. Pompílio Oliveira, Eleutério P. Pinto e mais as dos moços Chapon, Marques, etc.
         Era de causar muita pena o tempo não ter permitido que o público melhor apreciasse essa festa, para a qual não só havia geral ansiedade, como também ser a primeira, que neste gênero se organizava nesta cidade.
         Os extraordinários esforços e grandes despesas que haviam feito aqueles moços poderiam ser mais bem recompensados, se não fosse o estado de muitas ruas, mesmo a rua principal, cuja lama e mau calçamento em muitos trechos era de lastimar, não permitindo que os ciclistas fizessem algumas evoluções, dando assim mais um atrativo à sua festa.
         As casas comerciais da Rua 15 de Novembro, à passagem dos ciclistas, acenderam suas gambiarras [luzes] e muitas senhoritas e moços empunhavam fogos de bengala, concorrendo desta maneira para maior deslumbramento do cortejo.
         Concluindo, dizia o jornalista que, com franqueza os destemidos ciclistas mereciam um “bravo!”.
        
                                                                                                                                                                                                               Segue...
_________________________________________________    
Fontes: acervo da Bibliotheca Pública Pelotense - CDOV
Revisão do texto: Jonas Tenfen

Tratamento de imagens: Bruna Detoni

terça-feira, 24 de maio de 2016

Ciclismo: um esporte da elite pelotense (2)

       
                                                                              AF. Monquelat
 
O surgimento formal do Club Cyclista
         Aos 14 dias do mês de novembro de 1897, a diretoria provisória do Club Cyclista convidava a todos os já sócios, e também a todos aqueles que já possuíam ou tencionavam adquirir bicyclettes, para se reunirem naquele mesmo dia, domingo, às 9 horas, na loja Ao Amazonas, à Rua 15 de Novembro.
         Nesta reunião, seriam apresentados os Estatutos, e eleita a diretoria efetiva; por isso, rogavam o comparecimento de todos os ciclistas.
Transferência de passeio ao Retiro
         Aos 26 dias do mês de dezembro de 1897, o “Club Cyclista Pelotense” avisava aos Srs. sócios que, em vista do mau tempo, ficava transferido o projetado passeio de exercício ao Retiro.
         A nota divulgada estava assinada pelo secretário F. Boyunga.
 Aos “Cyclistas”
         Os Srs. Cupertino & C. informavam aos ciclistas, via imprensa, que se encarregavam de todo e qualquer conserto em bicyclettes, e que poderiam ser procurados, para tal, à Rua General Argolo nº 39.
O crescimento do uso de bicicletas
         Segundo o Diário Popular de 1º de janeiro de 1898, para que se tivesse uma ideia do desenvolvimento do ciclismo no Brasil, “nestes últimos tempos”, bastaria ver o consumo extraordinário que estava tendo as bicyclettes.
         As grandes remessas chegavam quase que diariamente à capital federal (Rio de Janeiro), e ainda há 14 dias recebera a Casa Mitchel, de lá, 150 bicicletas da marca Cleveland, vendendo-as, todas, em menos de seis dias.
         A propósito, informava o jornal: para o Bazar Musical (Pelotas) estavam já em viagem bicyclettes dos mais afamados fabricantes.
O ciclismo no final do século XIX
         Parecia não haver dúvida que o ciclismo, naquele final de século, firmaria a sua indispensabilidade como o melhor meio de condução e como o mais belo esporte.
         Em Pelotas, via-se já grande número de biciclistas, que deixavam, à tarde, os seus trabalhos e percorriam as ruas e arrabaldes da cidade; prosseguindo, dizia o jornalista em 27 de janeiro de 1898: faltava ainda ver, pelo fim da tarde, graciosas senhoras entregues àquele belo divertimento higiênico e civilizado, como já acontecia em outras cidades do Brasil.
         Brevemente, talvez nos primeiros dias do mês seguinte, as encontrássemos, em suas máquinas, formosas e encantadoras.
         Das fábricas de bicicletas conhecidas, uma que se destacara na fabricação “desse delicado aparelho” fora a The Monarch Cycle Mfg, C., de Chicago, cuja fábrica, situada às ruas Lake Halsted e Fueton, em Chicago, continha 215.000 pés quadrados de espaço, cinco acres e produzia 500 bicicletas por dia.
         A história da bicicleta Monarch despertava interesse. Era uma história de êxitos, informava o jornalista.
         Em 1891, The Monarch Cycle era um infante recém-nascido, ainda que robusto.
         Nesse ano, a fábrica empregara 35 operários e fabricara 150 bicicletas somente.
         No curto espaço de tempo, a experiência de 1891 dera certo e a fábrica crescera e se multiplicara centenas de vezes.
         No ano que passara, ano de 1897, os 35 operários e as 150 bicicletas foram aumentadas a 1.500 operários e 50.000 bicicletas de primeira ordem, as quais se venderam em todos os “países civilizados” do mundo.
                Agora, no entanto, dizia o jornalista que estavam tendo maior procura as máquinas francesas e alemãs, que, em coisa alguma eram inferiores às americanas, sendo muitas as opiniões favoráveis àquelas, principalmente das marcas Clement e Française, que se encontravam à venda no Bazar Musical.
 


 
Bicyclettes em oferta
                       O Sr, Willi Spanier anunciava à venda, pelo diminuto preço de 450$, as excelentes bicyclettes Columbia, modelo Hartford.
         Essas máquinas, que reuniam em si a superioridade do fabrico e a elegância, vinham merecendo a geral aceitação em Buenos Aires, Montevidéu e Porto Alegre, segundo o anúncio publicado em 28 de janeiro de 1898.
                       Inauguração de um velódromo em Porto Alegre


         A 30 de janeiro de 1898, em Porto Alegre, inaugurou-se o velódromo da União Velocipédica, no prado Independência, com a presença de mais de 200 ciclistas.

 
Os ciclistas foram ou não ao Capão do Leão?
         Sob o título de “Cyclismo”, o Diário Popular de 15 de fevereiro de 1898 noticiava que dois valentes ciclistas foram, domingo, dia 13 de fevereiro, em 1 hora e 20 minutos, da Praça da República [atual Pedro Osório] ao Capão do Leão.
         Apesar do mau caminho, fizeram o passeio em tão diminuto tempo.
         As máquinas, que nada haviam sofrido, eram das marcas La Française e Naumann, uma das quais fora adquirida no Bazar Musical.
         Ao que o jornalista Vitú, em sua coluna do dia seguinte ao divulgado pelo Diário Popular, disse que: “O D. Petósca [referência irônica ao Diário Popular], de ontem, empurrou nos seus diminutos leitores mais uma peta [lorota, mentira].
         E essa para reclame [propaganda]... talvez em troca de alguns saquitos de confete..
         Imaginem que ele noticiou terem ido daqui ao Capão do Leão, em uma hora e 20 minutos, em suas máquinas, dois ciclistas.
         Quem poderia engolir semelhante mentira?
         Eu não me admiraria muito se dois ciclistas fossem a um lugar tão distante como o Capão do Leão numa hora ou até em menos.
         O que eu não acredito e ninguém deve acreditar é que o caso se desse com o Capão do Leão, cuja estrada, como todas as do município, é uma sucessão de buracos e de sangas, numa das quais não pôde passar, há 3 ou 4 dias, um carro, que daqui seguira, tirado [puxado] por três cavalos.
         O autor da tremenda peta que vá dormir com os defuntos!
         E, se quiser me abichornar, que cite os nomes dos ciclistas que fizeram o celebrado tour de force.
         Cite, se é capaz!”.
         Voltando a ironizar a “notícia”, Vitú, o colunista de A Opinião Pública, em 17 de fevereiro de 1898, dizia em seu espaço diário que os dois fantásticos ciclistas que foram ao Capão do Leão em 1 hora e 20 minutos, segundo noticiara o matutino instalado na mesma rua, constava que iriam em breve fazer “uma viagem ciclópica... as gafas [bordas] da lua, até onde levariam, em triunfo, o número do pêtas-monstro [exemplar do Diário Popular] que se ocupara daquela sua excursão de estreia...
                                                                                              Segue...
_________________________________________________    
Fontes: acervo da Bibliotheca Pública Pelotense - CDOV
Revisão do texto: Jonas Tenfen
Tratamento de imagens: Bruna Detoni