quarta-feira, 26 de junho de 2019

A Primeira Guerra Mundial em Pelotas Parte II

A Primeira Guerra Mundial em Pelotas

Parte II – Imigração Alemã


A. F. Monquelat

Jonas Tenfen


Militares da Província de São Pedro, Herrmann Wendroth, 1852

           A expressão “imigração alemã”, em se tratando dos fluxos migratórios ocorridos para e no Brasil durante os séculos XIX e XX, se refere a um conjunto de acontecimentos multifacetados, mais ou menos próximos entre si, que a historiografia e estudos contemporâneos estão mostrando melhor a sua complexidade. Diversos grupos, de aproximação étnica, geográfica ou cultural, foram identificados sob o nome de “alemães”, principalmente quando destinados a colonizar as terras do Brasil. Em Pelotas, iremos encontrar dados de migrantes para além daqueles que vieram sob a égide de companhias colonizadoras, o que será mais raro em regiões de serra, por exemplo, e o que causará algumas dificuldades para organizar cronologias estáveis sobre o tema. Ainda usaremos, mesmo conscientes da limitação, o termo “alemão” para diversos grupos que para cá migraram, pois é termo gregário e se refere aos usos frequentes da mídia impressa à época estudada.
           A imigração alemã para Pelotas pode ser entendida em três períodos, reitera-se a facilidade de encontrar exceções por se tratar de uma cidade – e região – com grande fluxo de bens e serviços, bem como servida de zona portuária. O primeiro dos períodos é ao redor das charqueadas, onde comerciantes e industriais montaram estabelecimentos para ou abastecer o mercado com víveres ou para aproveitar matéria-prima até então tratada como descarte pelas estâncias produtoras de charque. Citamos, como exemplo, o empreendimento de Luiz Eggers: a Fábrica de Velas e Colas, fundada em 1841. A professora Maria A. P da Fonseca indica que Avé-Lallemant, em viagem por Pelotas em 1858, fez descrição da fábrica:

Bem perto da margem do pequeno e navegável Pelotas, foi construído um espaçoso e apropriado edifício, de acordo com um plano inteligente, dotado com uma cuidadosa escolha de aparelhos a vapor, como caldeiras para fundir, máquinas de cortar e provido de trilhos à margem do rio, de modo que os produtos do hábil fabricante podem ser exportados diretamente em embarcações próprias [...]

           Podemos facilmente entender as vantagens competitivas que Luiz Eggers possuía na época: produzia um produto de alta demanda – lembrando que não havia iluminação à energia elétrica e que alternativas à vela eram querosene é óleos, como o de baleia -, matéria-prima a baixo custo e maquinário a vapor que permitia produzir mais que fábricas artesanais de vela.
         O segundo dos períodos está relacionado diretamente com os Brummer. Eram estes mercenários contratados a soldo pelo governo brasileiro para lutar na Guerra contra Oribe e Rosas, e, em 1851, eram um contingente de cerca de 1.800 indivíduos. A alcunha brummer diz respeito ou ao hábito deles resmungarem muito sobre as condições da vida militar ou sobre o dialeto que utilizavam entre si. Muitos destes eram indivíduos com formação técnica e elevado nível de estudo para a época, decorrência da necessidade de capacitação para tratar com artilharia: costuma-se indicar que estes mercenários foram equipados com fuzis dreyse, “a primeira arma realmente moderna (usando como padrão o vindouro século XX) a ser adotada pelo Exército Brasileiro”.


       Os Brummer se dispersaram muito rapidamente. O contingente inicial contratado entrou em conflito durante a viagem de vinda ao Brasil, iniciando suas atividades neste país com deserções. Ao fim dos conflitos, poucos retornaram às origens, sendo absorvidos como mão-de-obra para diversas atividades no sul do Brasil, muitos tendo sido assentados como colonos, também. Carlos von Koseritz foi o brummer que, sem dúvida, alcançou mais renome pelas atividades que exerceu em solo brasileiro: fundou escolas, trabalhou em jornais, escritor prolífico, organizou a Exposição Brasileira-Alemã, de 1881, e entrevistou Don Pedro II, mencionando apenas alguns dos feitos em uma vida bastante movimentada. Além de Koseritz, citamos também Wilhelm Ter Brüggen, Hermann Rudolf Wendroth, Carlos Jansen, Viktor von Gilsa.
           O terceiro dos períodos está relacionado à colonização da serra dos Tapes. Como observado até então, e como irá se reafirmar nessa campanha colonizadora, os esforços da vinda de alemães a Pelotas foram em sua maioria por via de iniciativa privada. Em sociedade com José Antônio de Oliveira Guimarães, o comerciante e empreendedor Jacob Rheingantz fundou a Colônia São Lourenço. Alguns meandros burocráticos foram vencidos pelos dois sócios, afinal, mesmo privada, era necessária autorização do governo para construir uma colônia. A chegada de cerca de 90 pessoas em 18 de janeiro de 1858 marca o início deste terceiro fluxo migratório a Pelotas.
           Rheingantz administrava a colônia de dentro, pois residia ali com a família. Mesmo essa proximidade não impediu rebelião dos moradores, o que também acontecera na colônia Santo Ângelo. Esses dois levantes foram pacificados em 1867 pelo Barão von Kahlden, um brummer de relevo que não fora mencionado na lista acima. Rheingantz, reintroduzido à administração da colônia, possuía planos de expansão, o que motivou outra viagem à Europa em 1877, onde, acometido de mal súbito, faleceu. A abertura da estrada do Monte Bonito, ligando Pelotas a Serra dos Tapes, permitirá o assentamento de comerciantes alemães, frequentemente ex-colonos, moldando o bairro Três Vendas.
           Apresentados estes três períodos, observemos agora um caráter frequente dos migrantes alemães à região: o caráter gregário. Não se nega, de forma alguma, as rusgas e brigas que eram frequentes, vide os brummer e as revoltas nas colônias do parágrafo anterior. Contudo, a frequência do caráter gregário foi maior que as contendas e se mostra além das reuniões religiosas. Várias agremiações, por assim dizer, surgiram criadas e mantidas por imigrantes para imigrantes. Desde a Associação Auxiliadora de Colonização, até clubes de caça e tiro, escolas diversas, jornais; além de empreendimentos industriais e as vendas que também permitiam convívio e esboço da ideia de grupo.


           Isto explica notícia do Jornal do Commercio, em novembro de1880, sobre distribuição do primeiro número da Deutsche Presse, uma “folha consagrada à defesa dos interesses dos alemães residentes nesta cidade”. O jornal foi de propriedade de Julius Kurtius, que fora proprietário do jornal Der Bote, de São Leopoldo, e trabalhara no Jornal do Commercio, agora lançava empresa própria em Pelotas. Ideia era de publicar o Deutsche Presse às quartas e aos sábados, porém temos a confirmação da publicação do primeiro número em um domingo.
           Isto explica também o convite feito, também no Jornal do Commercio em novembro de 1880, um pequeno retângulo em língua alemã cercado pela língua portuguesa: “Associação Alemã de Canto e Ginástica / Domingo, 14 de novembro, pela manhã, às 8 horas / Assembleia Geral Extraordinária no salão de canto / Agenda: apresentação das regras de sucessão e aditamento aos estatutos.”

continua...

Imagens: Acervo Biblioteca Pública, domínio público
Referência: artigo “Presença alemã em Pelotas-RS”, de Maria A. P. da Fonseca; sobre o fuzil Dreyser, as informações estão disponíveis no blog Armas Brasil (http://www.armasbrasil.com/SecXIX/Exercito_profissional/dreyse.htm); livro “A colônia de São Lourenço de seu fundador”, de Vivaldo Coaracy; “Dicionário da história de Pelotas”, vários autores e disponível on-line. Para saber mais sobre a atuação dos Brummer nos conflitos na Guerra contra Oribe e Rosas, recomenda-se a leitura do número 85 da revista “O Tuiuti”, disponível on-line.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

A Primeira Guerra Mundial em Pelotas: Parte I - Notas iniciais

A Primeira Guerra Mundial em Pelotas
Parte I – Notas iniciais


A. F. Monquelat
Jonas Tenfen
Kaiser Guilherme II

          No palco dos impérios, antes do fim da segunda década de um século que acabara de iniciar, ocorreu a “guerra para acabar com todas as guerras”. Como os acontecimentos futuros iriam demostrar, essa alcunha daria lugar para o nome atual dos eventos, deixando uma esperança de pacifismo perene para dar lugar a uma contagem megalomaníaca e terrificante: Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 1914 e 1918.
          Ano passado, houve uma série de eventos para rememorar os cem anos do fim dos conflitos; há clássicos tratando do assunto como filmes e livros (o romance “Nada de Novo no Fronte”, de Erich Maria Remarque, por exemplo), bem como mídias mais contemporâneas (videogames e canais no youtube); estuda-se, em bancos escolares, os eventos da Segunda como necessariamente originados na Primeira. Apesar disto, pouco carregamos na memória sobre os eventos, exceto o assassinato de Francisco Ferdinando, as guerras de trincheira e os circos voadores.
          Embora haja acesso a diversificado conteúdo, o afastamento temporal e geográfico faz com que esta seja uma temática pouco presente na nossa memória, ao ponto de esquecermos, ou mesmo desconhecermos, a participação brasileira no conflito. A saber, a participação militar do Brasil foi através de alguns pilotos de avião que integraram a Royal Air Force, seis navios (a Divisão Naval de Operações Guerra, ou DNOG), grupo de médicos e enfermeiros foi enviado para montar hospital em Paris com intuito de auxiliar no combate à gripe espanhola, e oficiais que integraram o exército francês.
          Maior destaque teve DNOG. Primeiramente, por reunir o maior grupo de indivíduos e equipamentos, depois pelos percalços que enfrentou. Enviada para patrulhar a costa da África, bombardeou um grupo de animais marinheiros com a impressão de serem submarinos alemães. O maior inimigo, porém, fora a gripe espanhola: um surto dessa doença matou quase uma centena dos tripulantes. Com algum exagero, atribui-se ao retorno da DNOG para o Brasil como a causa da epidemia de gripe espanhola que assolou o país.
          Nas palavras de João Daniel L. de Almeida: “Foi uma participação limitada, mas não irrelevante.” As maiores conquistas do envolvimento militar brasileiro foram no campo da diplomacia, pois permitiram que o Brasil integrasse a Liga das Nações como membro fundador. A comitiva brasileira da conferência de Paris (1919) foi chefiada por Epitácio Pessoa que depois seria eleito presidente do Brasil. O intuito brasileiro era de que as vitórias fossem brindadas com café, se possível a um preço mais elevado do que se praticava ao grão à época.

Venceslau Brás 

          Antes do fim, o começo. A participação brasileira só fora possível após a declaração de guerra. Durante maior parte dos conflitos, o Brasil se manteve neutro, bastante interessado em fazer comércio com maior número de países possível. Esta posição política se desgastou por pressões internas e por ataques de submarinos alemães a navios mercantes brasileiros (em especial, o vapor Paraná que estava carregado de café). No decreto n° 3.361, o presidente Venceslau Brás pôs fim a neutralidade brasileira com os seguintes termos: 
“Artigo único: Fica reconhecido e proclamado o estado de guerra iniciado pelo Império Alemão contra o Brasil e autorizado o Presidente da República a adotar as providencias constantes da mensagem de 25 de outubro corrente e tomar todas as medidas de defesa, nacional e segurança pública que julgar necessárias, abrindo os créditos precisos ou realizando as operações do crédito que forem convenientes para esse fim; revogadas as disposições em contrário.”
          Dois inimigos a serem combatidos aqui. O primeiro deles era o kaiser Guilherme II, pois, como mostra o texto do decreto, depois de iniciar guerra na Europa resolveu comprar briga com o Brasil. O segundo - mais sútil - era quem ameaçasse a segurança pública. Logo após o fim da Guerra do Contestado (1912 a 1916), Venceslau Brás enfrentou aquela que é tida como a primeira greve brasileira: a Greve Geral de 1917. Havia muito mais inimigos internos do que externos.
          O convite à guerra, já endereçado aos brasileiros em diversas campanhas jornalísticas, fora aceito. As batalhas disponíveis eram contra os alemães e descendentes que viviam no Brasil: onde antes havia animosidades pela proximidade do cotidiano e pelo afastamento da língua, passou haver passeatas, apreensões, saques. Estas ações se concentraram principalmente em dois estados, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, e, neste, encontramos vários casos na cidade de Pelotas.
          É este o tema da série que se inicia: uma coleta da internalização da Primeira Guerra Mundial tendo Pelotas como palco. Usaremos como fonte primária, principalmente, os jornais publicados na cidade à época. Um passeio às claras sobre eventos que aconteciam às escondidas, mostrando como o verniz de cordialidade resiste muito pouco a mais leve intempérie.
          Buscaremos responder a uma pergunta antiga: Foi o assédio do Kaiser à Princesa real ou não?

Continua...

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Imagens: Domínio Público
Referência: Manual do Candidato: História do Brasil, de João Daniel Lima de Almeida (Brasília: Funag, 2013).

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Carlos Ritter e a contribuição industrial para Pelotas (parte 2)

Carlos Ritter e a contribuição industrial para Pelotas
(parte 2)


A.F. Monquelat
Jonas Tenfen


Antes de nos atermos a descrever a fábrica do Sr. Ritter, gostaríamos, ainda que de forma sucinta, trazer algumas informações sobre a famosa Exposição Brasileira-Alemã ocorrida em Porto Alegre entre os anos de 1881/1882, inclusive sobre o incêndio ali ocorrido.
Aos 23 de setembro de 1881, lia-se, no Diário de Pelotas, que a indústria pelotense seria dignamente representada pelos Srs. Jacob Klaes, Ruiz Dias & Irmão, Cincinato Soveral, Eduardo da Silva Carvalho, Carlos Ritter, João Guilhermet Schreiber, F. C. Lang, Gustavo Hugo Elst e vários outros que enviaram seus produtos para participarem da Exposição Brasileira-Alemã.
Os Srs. Carlos Ritter, João Guilhermet, Schreiber & Filho e Ernesto Eifler mandavam também diversas qualidades de cerveja fabricadas em seus estabelecimentos. A cidade de Pelotas, naquela época, contava com 5 fábricas de cerveja.
Além dos citados, outros industriais da cidade participariam, honrando dessa forma a indústria pelotense e tornando-a ainda mais conhecida, no entender do redator da notícia.
Informa a imprensa de Porto Alegre que constava do Catálogo da Exposição Brasileira-Alemã - catálogo este impresso pela Typographia do Deutsche Zeitung, de Porto Alegre, e traduzido para o idioma alemão pelo jornal Deutsche Post ,de São Leopoldo -, mais de 11.000 objetos expostos.
Dentre outros tantos trabalhos expostos que chamaram a atenção do júri e do redator da Gazeta de Porto Alegre, destaque obteve os dois grandes quadros, representando as armas brasileiras e alemãs, feitos de borboletas e coleópteros, dos quais se via um sobre a mesa, que o jornalista acabara de examinar, e outro na posição “correspondente ao outro lado da praça d’armas”.
Esses trabalhos do Sr. Carlos Ritter, de Pelotas, prosseguia o jornalista, eram ao mesmo tempo obras de arte e subsídios à ciência, e, como tais, dignos de especial distinção.
Em tal ramo, ele jamais vira coisa melhor, e o Sr. Ritter podia orgulhar-se com razão da distinção que obtivera em comparação com outros idênticos trabalhos, também de primeira ordem.

A medalha de ouro do Sr. Carlos Ritter na Exposição

Aos 20 dias do mês de janeiro de 1882, o jornal Gazeta de Porto Alegre noticiava que, no dia anterior, o júri terminara os trabalhos de julgamento dos objetos que compunham a secção científica.
Na secção brasileira, foram premiadas, com medalha de ouro, as coleções de borboletas e coleópteros do Sr. Carlos Ritter (Pelotas), as coleções de pássaros do Sr. Schaun (São Lourenço), do qual falaremos posteriormente, as coleções do Sr. João Schroeder e a coleção etnológica que se achava exposta.

Os distúrbios e o incêndio do prédio da Exposição

Em virtude das desordens e distúrbios ocorridos no dia anterior (09.02.1882) no recinto da Exposição, por ocasião da distribuição de prêmios, com prejuízo da propriedade alheia, que ainda se encontrava no prédio, requereu a diretoria da Sociedade Filial de Geografia Comercial ao Presidente da Província a nomeação de uma comissão especial, encarregada de dar o seu parecer sobre a premiação, suspendendo a entrega dos mesmos até que tenha sido dado e publicado o parecer da respectiva comissão, segundo notícia divulgada na imprensa de Porto Alegre. 
À noite do dia posterior ao dos distúrbios e desordens, ardeu o prédio onde até então estava instalada a Exposição Brasileira-Alemã.
Desde a manhã do dia 23 de fevereiro, havia ajuntamento de pessoas.

Em vista dos distúrbios promovidos no dia anterior, por causa dos prêmios de pequeno valor, que no sorteio preencheram o lugar dos bilhetes em branco na loteria, resolvera o diretório da Sociedade Filial pedir ao Exmo. Sr. Presidente da província, a nomeação de uma comissão de sindicância, para dar parecer sobre o valor dos prêmios e a moralidade do sorteio além de suspender a entrega destes até a divulgação pública do julgamento da comissão.
O Sr. Dr. Joaquim Pedro Soares nomeou, imediatamente, uma comissão composta dos Srs. Lavra Pinto, Júlio Furtado e Joaquim Carvalho Bastos, sendo o fato comunicado aos portadores de bilhetes, através de um aviso por escrito, colado na porta do prédio, destacando o governo da província um guarda ao mesmo prédio.
Às 17 horas, começaram a juntar-se muitas pessoas e, dando-se as manifestações costumeiras em tais momentos, tentaram demolir o prédio, quebrando todas as janelas. Por volta das 20 horas, mais ou menos, rompeu o fogo. Dentro de uma hora estava o palácio da Exposição reduzido a cinzas com tudo quanto havia dentro em mercadoria estrangeiras e objetos da secção brasileira, prêmios da rifa, livros, papéis, diplomas, etc.
A perda em objetos foi de inestimável valor não somente para os seus proprietários, mas, em especial, para as ciências.

A fábrica de Carlos

No primeiro subterrâneo, estavam estabelecidos dois enormes fornos caldeiras, de cobre, que serviam para aquecer a água, cerveja, etc., cada um com capacidade para cinco mil e duzentas garrafas.
No centro, havia uma enorme tina de madeira destinada à infusão da cevada.
Ao lado, uma bomba aspirante, movida a braço, que conduzia a cerveja do tanque para o resfriadouro, que estava colocado no alto do prédio.
Por uma escada caracol, subia-se para o primeiro andar e ali via-se um bom moinho, fabricado por Kleyer & Beck de Darmstadt, Alemanha, destinado a moer a cevada, e outro da marca Penney & C., de Lincoln, estados Unidos, para a seleção deste cereal, em seguida estava o depósito de cevada, e que servia também de carpintaria para o serviço do prédio.
Voltando à escada, subia-se ao 2º andar, onde se via um enorme tanque de zinco destinado ao resfriamento da cerveja, podendo comportar de doze à treze mil garrafas.

Continua...


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Fonte de pesquisa: CDOV – Bibliotheca Pública Pelotense
Imagens: acervo de A.F. Monquelat
Postagem: Jonas Tenfen

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Carlos Ritter e a contribuição industrial para Pelotas

Carlos Ritter e a contribuição industrial para Pelotas
(parte 1)


A. F. Monquelat
Jonas Tenfen

         

         Os alemães e, por vezes, seus descendentes estiveram desde cedo bastante presentes na vida, tanto rural quanto urbana, da cidade de Pelotas. São eles os responsáveis pelo desenvolvimento da indústria do Rio Grande do Sul, em especial através das cidades de Porto Alegre, Rio Grande e Pelotas.
         A província do Rio Grande do Sul deve, em grande parte, seu desenvolvimento industrial à nacionalidade alemã ou teuto-brasileira. No segundo momento da sua imigração ao território mencionado, deram início ao processo de modernização que, até então, além da primitiva e rudimentar indústria do charque vivia apenas da agricultura e pecuária.
         Na década de 80 do século XIX, Porto Alegre se encontrava entre as cidades mais industriais da América do Sul, e, salvo não muitas exceções, quase todas as indústrias existentes na província do Rio Grande do Sul se deram por iniciativa dos imigrantes alemães, ou por seus descendentes, prova da forte influência exercida por esta imigração sobre a indústria das regiões onde ela concentrou.
         A província do Rio Grande do Sul, segundo dados obtidos sobre as décadas de 70 e 80 do século XIX, produzia poucos produtos.
         A exportação para fora do país se limitava a um milhão de couros secos e salgados, duzentas mil arrobas de fumo e um pouco de erva mate, cuja fabricação se desenvolvia consideravelmente. Se a estas mercadorias agregássemos alguns carregamentos de guano artificial, chifres de boi, cola e crina, algumas centenas de barricas de pedra ágata, línguas em conserva e um pouco de seda, teríamos todos os produtos que compunham a exportação da província para o exterior.
         Em compensação, e constituindo-se a agricultura na principal riqueza da província do Rio Grande do Sul, esse setor da produção fornecia além da graxa e do charque, o feijão, a farinha e o milho para a maior parte das províncias do império. Fato possível e incrementado a partir da chegada dos 12.000 colonos alemães recebidos no Rio grande do Sul desde as primeiras décadas do século XIX.
         No sul da província, podemos destacar na cidade de Rio Grande, sem nos determos em descrevê-la ou acrescentarmos maiores detalhes, a importante fábrica dos Srs. Rheingantz & C., única do Império no seu gênero.

O Rei (e deus) Gambrinus
        
      Em Pelotas, além de várias outras, podemos citar a fábrica de guano artificial e outros produtos do gado vacum, de propriedade do Sr. Gustavo Hugo Elst, industrial alemão, situada na Costa - Arroio Pelotas -, no centro das charqueadas, ali instaladas por volta do ano de 1876.
         É ainda necessário salientar e destacar as fábricas dos Srs. Lang e a do Sr. Carlos Ritter. É deste último que trataremos neste trabalho.
         O Sr. Carlos Frederico Jacob Ritter, oriundo da cidade de São Leopoldo, provavelmente tenha se instalado, segundo o historiador Alberto Coelho da Cunha, em1870 em Pelotas, onde, neste mesmo ano fundou uma cervejaria, em modestíssimas instalações à  Rua 24 de Outubro [atual Rua Tiradentes] sobre a margem esquerda do Arroio Santa Bárbara, em um casebre situado no interior de um terreno de propriedade do Sr. Procópio Gomes de Oliveira.
         Segundo palavras do próprio Sr. Carlos Ritter, a cervejaria por ele fundada teve o início de seu funcionamento no ano de 1872 e ali permaneceu até o ano de 1879/1880, quando então se transferiu para a Rua São Jerônimo [atual Marechal Floriano], esquina Rua Marquês de Caxias [atual Santos Dumont], em um bonito prédio construído especialmente para tal fim, com a denominação de Fábrica de cerveja Ritter.
         Era seu proprietário o industrial Sr. Carlos Ritter, teuto-brasileiro, estabelecido em Pelotas há doze anos, conforme nos informa o jornal Diário de Pelotas no ano de 1883.
         Antes de conhecermos as instalações da Cervejaria Ritter daquele período, é preciso dizer que apesar da exaustiva pesquisa nos jornais sobre a possível inauguração da indústria cervejeira, não foi possível localizar notícia alguma sobre tal fato.
         O registro mais antigo encontrado foi o anúncio, que aqui vai a título de ilustração, publicado no Jornal do Commercio em 4 de julho de 1880.

         
         Ao entrar na cervejaria, deparava-se com uma pequena sala contendo cinco mesas de tampo de mármore, rodeadas de cadeiras.
Ao fundo, uma copa onde um empregado esperava as solicitações dos frequentadores da fábrica para atender aos seus pedidos.
      Ao centro da parede da direita, havia um enorme quadro representando Gambrinus, patrono não oficial da cerveja, e duas medalhas obtidas na Exposição Brasileira-Alemã de 1881, em Porto Alegre, exposição esta que premiou vários outros industriais alemães e teuto-brasileiros de Pelotas.
         Daquela sala, passava-se para um enorme salão onde, em treze mesas também podiam os frequentadores do estabelecimento saborear seus “deliciosos e bem fabricados” produtos e apreciarem três magníficos quadros de história natural resultado da paciência e apurado gosto artístico do Sr. Carlos Ritter.
         Um dos quadros representava, feito de insetos, as armas brasileiras, outro as armas alemãs; e o terceiro, para o jornalista o de maior beleza e arte, representava o prédio da fábrica de cerveja.
Sobre uma pequena mesa existia um armário onde, artisticamente colocado, se encontravam diversos animais empalhados.
         Por aqueles trabalhos sobre história natural, o Sr. Ritter obteve uma das medalhas na Exposição de Porto Alegre, a medalha de ouro. Infelizmente, os quadros que mereceram tal distinção foram consumidos pelas chamas que reduziram a cinzas o edifício onde se realizara a exposição.
        Pelas paredes daquele salão, viam-se também diversos animais perfeitamente empalhados. No centro, existiam duas ótimas mesas de bilhar.
         Dali passava-se para um pátio que comunicava com a fábrica e servia de passagem para o jardim.
Continua...


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Fonte de pesquisa: CDOV – Bibliotheca Pública Pelotense
Imagens: acervo de A.F. Monquelat
Postagem: Jonas Tenfen

quarta-feira, 27 de março de 2019

Hotel Lagache, Pelotas

Hotel Lagache, Pelotas

                                                                             A.F. Monquelat

Anúncio de abertura do Hotel Lagache

Em 23 de agosto de 1928, era anunciado que, com o nome de Hotel Lagache, o Sr. Joaquim Martins Filho, proprietário do conhecido restaurante Royal, abriria, dentro em breve, magnífico hotel no vasto “palacete”  à rua Voluntários, esquina da Andrade Neves, onde estivera o Hotel Gotuzzo.
O novo hotel seria dotado dos “últimos requisitos da arte”, tais como mobiliário fino, aparelhamento completo, nos dormitórios, com instalação de água corrente nos quartos, independente dos esplêndidos compartimentos de banhos em geral.
Também a cozinha, além de ter a assistência da família do proprietário, seria ocupada por um competente mestre da arte culinária que recentemente chegara do Prata.

As reformas

O jornal A Opinião Pública anunciava, nos primeiros dias do mês de setembro de 1928, que estavam sendo feitas as reformas internas do espaçoso prédio à rua Voluntários, esquina da Andrade Neves, onde funcionara o Hotel Gotuzzo, a fim de nele ser instalado o Hotel Lagache.
O seu proprietário, Sr. Joaquim Martins Filho, pensava inaugurar o novo estabelecimento até o dia 20 daquele mês, tendo já recebido numerosos pedidos de quarto.

A inauguração do Hotel Lagache

Conforme previra o proprietário, dia 20 de setembro de 1928, no espaçosos edifício à rua Voluntários, era inaugurado o moderno e confortável Hotel Lagache.
Era seu proprietário o competente profissional no ramo, o Sr. Joaquim Martins, o que, por si só, era garantia, dizia o jornalista, de que o novo estabelecimento seria atendido e dirigido com escrupuloso carinho.
Da visita que o repórter fizera, na véspera da inauguração, trouxe ele a melhor das impressões, já pelo cuidado que exerceram às diversas instalações, já pelo conforto que ofereceriam os seus aposentos.
Desde a entrada à cozinha, surpreendiam o bom gosto e o empenho do proprietário, em tornar o Hotel Lagache um estabelecimento de primeira ordem, “digno do progresso da cidade”.
Na saleta de espera, situada no longo corredor, coberto o assoalho com fino trilho aveludado, estava disposto confortável Maple [móvel de madeira] que convidava ao repouso.
A sala de refeições, ampla, clara, arejada, realçando a adequada decoração das paredes, recebia ar e luz em abundância de largas janelas abertas para uma agradável área.
Elegante mobiliário e um fino serviço de louças, cristais e christofle, completavam a magnífica dependência.
Todos os quartos eram amplos e ventilados, recebendo ar e luz diretos, princípio de higiene indispensável para a saúde, em especial nos estabelecimentos do gênero.
Eram providos de excelentes camas, fina mobília com roupeiros espelhados, pias, tapetes de veludo e outros itens, que recomendavam o modelar estabelecimento.
A cozinha era outro setor, instalada em uma grande e agradável peça, com luz e ar suficientes e que obedecia aos mais rigorosos preceitos de higiene.
Seria ela dirigida por competente profissional, que teria ao seu dispor outros elementos subalternos, também competentes.
O Hotel Lagache, que já tinha quartos ocupados, estava montado de maneira a corresponder satisfatoriamente a todas as exigências.
O ato de inauguração seria abrilhantado pelo jazz-band Chiquinho.
No ato da inauguração, foi solta uma girândola de foguetes.
Estiveram presentes muitas pessoas e representantes da imprensa, tendo o Sr. Joaquim Martins cercado a todos com muitas gentilezas, servindo no ato, sanduíches, doces e líquidos.
Durante todo o dia, o estabelecimento foi muito visitado, recebendo de todos ótima impressão, pelo conforto e elegância pela forma que estava montado.
À hora do jantar, novamente, se fez ouvir música, que durou até às 20 horas.

A morte do Doutor Saturnino de Britto, hóspede do Hotel Lagache

Aos 12 dias do mês de março de 1929, os jornais de Pelotas diziam ter repercutido dolorosamente o falecimento do Dr. Saturnino de Britto, ocorrido dia 10 daquele mês, no Hotel Lagache.
O eminente engenheiro foi surpreendido pela morte aos 65 anos de idade, quando se encontrava em viagem de observação aos trabalhos de saneamento da cidade de Pelotas, feitos pela empresa que dirigia.
O Dr. Saturnino de Britto era casado com a Sra. Alice Saturnino de Britto e, quando de sua morte, deixava os seguintes filhos: Francisco Saturnino de Britto, que se encontrava em Poços de caldas, Srta. Maria Alice Britto e o Sr. Augusto Saturnino de Britto.
Nascera o Dr. Saturnino de Britto em Campos, estado do Rio de Janeiro, a 14 de julho de 1864, formando-se em 1887 na Escola Politécnica do Rio de Janeiro.

A missa do 7º dia 

Aos 15 dias do mês de março de 1929, a família Saturnino de Britto convidava as pessoas de suas relações, para a missa do 7º dia que mandariam rezar, no dia seguinte, às 19 horas, na capela do Asilo de Mendigos, de Pelotas.

O Traslado dos restos mortais

De acordo com a vontade, testamentada, do eminente engenheiro Saturnino, a de que os seus restos mortais, após um prazo por ele determinado, fossem  repousar no Rio de Janeiro, no mesmo ataúde em que fossem dados à sepultura, vieram a Pelotas seus filhos e os fizeram embarcar, dia 12 de março de 1933, no paquete Itassucê.

Dr. Saturnino de Britto vira nome de rua em Pelotas

O Sr. coronel Joaquim Augusto de Assumpção, prefeito do município, aos 23 dias do mês de março de 1933, deu nome de Saturnino de Britto à rua que ligava a Manduca Rodrigues ao bairro Simões Lopes.
Prestava assim Pelotas a sua homenagem ao eminente engenheiro.
 
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Fonte de pesquisa: CDOV – Bibliotheca Pública Pelotense
Imagens: acervo de A.F. Monquelat
Revisão de texto e postagem: Jonas Tenfen

quarta-feira, 20 de março de 2019

Hotel Gotuzzo, Pelotas

Hotel Gotuzzo, Pelotas


                                               A.F. Monquelat

Anúncio de um novo hotel em Pelotas

Dizia o jornal O Libertador de 22 de janeiro de 1926 que Pelotas seria dotada de mais um confortável hotel, instalado com todos os requisitos de higiene e dirigido diretamente pelo seu proprietário, com auxiliares competentes.
Queria o jornal se referir ao Hotel Gotuzzo, que seria inaugurado até o dia 15 do próximo mês, no vasto prédio à rua Andrade Neves, esquina da Voluntários.
O seu proprietário, Sr. Haroldo Gotuzzo, já havia adquirido todas as cobertas de mesa, louça de granito, material para a copa, de christofle, e móveis modernos da fábrica Patzer.
O novo hotel conteria 25 quartos com água encanada, revestidos todos de todo o conforto, sendo maitre o Sr. José Orlandi, o que, por si só, segundo o jornalista, já era uma recomendação.
Quanto à prática do seu proprietário, no ramo, era dispensável qualquer referência de tão conhecido que ele era, não somente dos clientes desta cidade, como dos forasteiros em geral.

As reformas do hotel

Em fevereiro de 1926, continuavam em atividade os trabalhos de adaptação do “vasto prédio” da rua Andrade Neves, esquina Voluntários, para nele ser instalado o novo Hotel Gotuzzo, do Sr. Haroldo Gotuzzo.
Os trabalhos estavam confiados à competência dos hábeis construtores Srs. Rodrigues & Cia, o que, por si só, era uma recomendação.
Assim, segundo o jornalista, dentro em breve, teria a cidade mais um estabelecimento de 1ª ordem, para o qual não tinha poupado esforços o seu proprietário.

A inauguração do hotel

No confortável prédio da rua Andrade Neves, esquina da rua Voluntários, tendo-se ali feito grandes reformas, visando melhoramentos e pinturas, foi, no sábado, dia 20 de março de 1926, inaugurado o novo Hotel Gotuzzo.
Logo à entrada, destacava-se um rico mobiliário de louro, cabides, uma porta-restante para cartas, livro de registro de passageiros e etc.
Via-se, em seguida, amplos e bem ventilados quartos para casal, como mobiliários da Casa Patzer; camas de ferro da fábrica Walding & Cia., de Porto Alegre e fornecidas pela casa de ferragens Behrensdorf, de Pelotas; eletricidade e acessórios fornecidos pela casa Buxton Guilayn; talheres christofle da casa Levy Frank & Cia.
Todos os quartos eram servidos por luz direta, belos e espaçosos. A cozinha, de primeira ordem, a cargo dos Srs. Honofre Teixeira e João Porto Alegre.
Tinha ótimos banheiros, tanto os masculinos quanto os femininos.
O novo hotel obedecia às mais modernas regras da higiene e tinha como gerente o Sr. José Orlandi.
Era uma casa de primeira ordem com vinte e tantos quartos, amplo salão de refeições estando dotada de todos os meios necessários para alcançar à altura a que tinha direito.
Ao seu proprietário, O Libertador desejava prosperidade.

A inauguração vista pelo A Opinião Pública

Com a inauguração, dia 20, do modelar Hotel Gotuzzo, Pelotas via-se servida de mais um fator preponderante de seu crescente progresso.
Tratava-se de um estabelecimento que, pelas condições em que estava montado, tornava-se um dos mais bem aparelhados, com todos os preceitos de higiene e conforto.
Seus inúmeros aposentos, para solteiros ou casal, providos de lindos móveis, lavatórios especiais, com luz direta e outras condições, eram as principais características de um estabelecimento moderno.
Nos apartamentos de banho e cozinha, verificava-se a preocupação de seu proprietário em corresponder às exigências mais indispensáveis do ramo.
Na inauguração, à noite, na sala de refeições, o Sr. Haroldo Gotuzzo, ofereceu à imprensa e demais convidados uma farta mesa de frios e líquidos, onde foram feitas várias saudações.
Ao novo estabelecimento, o jornal desejava prosperidade.

O Sr. Gotuzzo adquire o Hotel Roma

Em meados de abril de 1927, dando mostras de que havia prosperado, o Sr. Gotuzzo, proprietário do “conceituado Hotel Gotuzzo”, acabava de adquirir o Hotel Roma, situado à rua Andrade Neves, ao lado do Congresso Português [atual Centro Português] e distante daquele meia quadra.
Esse novo hotel funcionaria como anexo do Hotel, que ficaria dispondo, assim, de 45 quartos.
O Hotel Roma iria em seguida ser reformado completamente, sendo inclusive dotado de novo mobiliário, mais confortável.
Assim sendo, ficaria o Hotel Gotuzzo melhor aparelhado para atender o número sempre crescente de hóspedes que procuravam aquele conceituado estabelecimento.
Procurando obter informações sobre o Hotel Roma, encontramos tão somente uma ocorrência policial da década de 1880, na qual era dito que: por volta das sete horas da noite do dia 18 de maio de 1885, o súdito italiano Nicolau de tal, ex-proprietário do Hotel Roma, disparou em seu compatriota Severo Bannaro, mudo, estabelecido com sapataria à Rua General Osório, um tiro de revólver, atravessando o projétil o pulso de Severo e indo penetrar-lhe no peito, onde não foi extraído.
Chamado imediatamente o médico para primeiros socorros, Dr. Gervásio, este declarou tratar-se de ferimento grave.
A causa do crime, segundo o jornal Rio-Grandense, fora o jogo.
Poucos minutos antes, Nicolau e Severo jogavam em uma taverna na Rua Santa Bárbara [atual Marechal Deodoro] e, no calor do jogo, quase haviam chegado a vias de fato.
Severo se retirou e chegou à sua casa antes do agressor o alcançar.
Nicolau, instigado por castigar a mímica hostil de seu parceiro, chegou à porta do mudo e disse a um oficial [auxiliar de sapateiro] do mesmo que o fosse chamar.
O auxiliar de Severo foi chamá-lo, fazendo sinal que Nicolau empunhava um revólver, o que parece não ter sido entendido pelo mudo.
Dirigindo-se à sala, com uma vela na mão direita, ao aproximar-se de Nicolau, recebeu a queima roupa o tiro.
Após o crime Nicolau deitou a correr em direção à Rua Santa Bárbara, sendo perseguido pelo Sr. alferes Nuno de Macedo e por grande número de pessoas que logo se reuniram.
Quando Nicolau já ia sendo agarrado pelo alferes Macedo, entrou bruscamente na casa do Sr. Paulino Leite, escondendo-se dentro de um guarda-roupa.
A família, assustada, abandonou a casa.
O Sr. Nuno não tendo autoridade e não podendo, portanto, invadir a casa em que o assassino havia se refugiado, procedeu como lhe competia: pediu ao povo que a vigiasse, enquanto ia dar providências para a captura do criminoso.
Correu à polícia e ali encontrou o subdelegado Sr. tenente Ribas, que, acompanhado de algumas praças, dirigiu-se imediatamente ao local onde estava Nicolau e efetuou a prisão.
Voltando ao Hotel Gotuzzo:

Reunião de intelectuais no hotel

Segundo a imprensa, dia 1º de junho de 1927, entre as expansões da maior cordialidade ocorreu o almoço promovido por iniciativa do coronel Tancredo de Mello, colaborador do Diário Popular, e um estudioso dos assuntos históricos, em especial da história da imprensa do Rio Grande do Sul.
O almoço foi presidido pelo Dr. Augusto Simões Lopes, Intendente do município de Pelotas.
Ao champanhe, falou o coronel Tancredo, brindando a imprensa nas pessoas que ali representávamos jornais da cidade.
Em nome da imprensa, falou o diretor do Diário Popular, Dr. Jorge Salis Goulart que, referindo-se à pessoa do coronel Tancredo Fernandes de Mello, nele brindando aos verdadeiros amigos da imprensa.
Delegado por todos os presentes, o Dr. Victor Russomano, representante do jornal A Opinião Pública, saudou o Intendente municipal e a imprensa pelotense.
Por último, o intelectual Aristides Bittencourt, falou em nome do jornal Templário [jornal maçônico], que brindou o coronel Tancredo.
Depois de alguns comentários e sugestão para a criação de uma sociedade de letras nesta cidade, o Dr. Jorge Salis Goulart lançou a ideia da fundação de uma sociedade de estímulo às letras, visando a publicação de obras literárias entre outras.
Pouco tempo depois, o Hotel Gotuzzo desaparece e surge, no mesmo local,o Hotel Lagache,  assunto que trataremos em outra oportunidade.

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Fonte de pesquisa: CDOV – Bibliotheca Pública Pelotense
Imagens: acervo de A.F. Monquelat
Revisão de texto e postagem: Jonas Tenfen

quarta-feira, 13 de março de 2019

Os 4 chafarizes de Pelotas e seus destinos

Os 4 chafarizes de Pelotas e seus destinos


A. F. Monquelat


1°, dos quatro chafarizes, a ser inaugurado

Já faz algum tempo desde a última vez que falei sobre algum ou até mesmo sobre os quatro chafarizes instalados em Pelotas no século XIX pela Companhia Hidráulica Pelotense. 
Para que não haja dúvidas quanto a ter sido quatro e não três, os quais, por enquanto ainda se vê pela cidade, os chafarizes instalados pela Companhia Hidráulica Pelotense, damos aqui a localização destes quando do ato de instalação, suas mudanças de local e até mesmo o sumiço de um deles:
Baseado em notícia veiculada no Jornal do Comércio de 22 de julho de 1873, acreditamos que o primeiro chafariz a ser instalado na cidade de Pelotas foi o da praça da Igreja ou praça da Matriz , atualmente, praça José Bonifácio.
Em matéria posterior, ficamos sabendo que três chafarizes estavam assentados nos três primeiros pontos da cidade, e, “em breve”, o mesmo se fará ao quarto, logo que a câmara municipal tenha feito determinar o lugar conveniente.
Domingo, 05 de abril de 1874, como estava anunciado, teve lugar, na cidade de Pelotas, a inauguração das obras da companhia Hidráulica Pelotense.
2°, dos quatro chafarizes, a ser inaugurado

A câmara municipal, diretoria da Hidráulica e muitos dos convidados foram ao porto de Pelotas, que estava todo enfeitado, bem como o pequeno “mas lindo chafariz que estava coberto de flores, bandeiras e galhardetes”.
O chafariz recebeu a bênção do vigário da “freguesia”, Sr. Dr. Canabarro. 
Depois de que algumas girândolas de foguetes subiram ao ar, e saudações festivas anunciaram a inauguração do monumento e melhoramento “que orna o já tão próspero porto de Pelotas”.

Logo em seguida, foram todos à praça da Matriz, onde teve lugar as mesmas cerimônias da bênção de um outro chafariz, repicando naquela ocasião todos os sinos da igreja.

Finalmente, com imenso público, procederam à bênção do chafariz da praça Pedro II, “que é um verdadeiro objeto de arte e gosto”.
3°, dos quatro chafarizes, a ser inaugurado

Segundo palavras do jornalista que descreveu o ato: os chafarizes, de bronze, “são elegantes; principalmente o da praça Pedro II, em que quatro cavalos, que ornam a segunda bacia, atraem as vistas para a sua posição, e porque sobre eles a água espadana em mil gotas, que brilham aos raios do sol”.
Ali, o empresário Hygino Durão, querendo que o ato solene e que uma população inteira aplaudisse, alguém a quem pudesse ligar a mais grata lembrança, escolheu a três de seus escravos e concedeu-lhes a liberdade.
Depositadas as cartas em mãos do Sr. Machado Filho, este logo as leu em alta voz, e todos os presentes bateram palmas pela inesperada surpresa, “e que tão fundo devia calar no ânimo popular”.

O quarto chafariz

Aos dezesseis dias do mês de março de 1876, “finalmente” teve lugar a sessão extraordinária da Câmara Municipal, sob a presidência do sr. Urbano Martins Garcia, na qual foram lidos alguns ofícios enviados à Câmara, dentre esses o da Companhia Hidráulica Pelotense, “cientificando, que não sendo possível a colocação do 4º chafariz na praça da Constituição, além da ponte do Santa Bárbara [quase em frente ao atual prédio da Receita Federal], ela resolveu, para terminar delongas, comprar um terreno na rua S. Miguel [15 de Novembro], fazendo esquina, ao Sul, pela rua Sto. Inácio [Gomes Carneiro], onde poderá ser colocado o 4º chafariz, caso o ponto indicado mereça a aprovação da Ilma. Câmara Municipal”.

4°, dos quatro chafarizes, a ser inaugurado
Para que não pairem dúvidas e venha a pensar o leitor ser este 4º chafariz o “sumido”, é necessário informar que por ter sido o último dos quatro a chegar e ser instalado, todas as referências feitas a ele pela Imprensa da época foram as de o 4º chafariz. O “sumido”,porém, é outro.
O “sumido” é o chafariz instalado na Praça da Matriz [atual José Bonifácio] por volta de meados do ano de 1873, segundo o Jornal do Comércio de 22 de julho daquele mesmo ano, e que, segundo a imprensa da cidade, estava servindo de:

Lavadouro público

A Opinião Pública de 20 de março de 1914, relembrando matéria anterior publicada em outro jornal da cidade, na qual era denunciado o fato de se achar esburacada a bacia que circundava o chafariz da Catedral e de onde a água vazava em grande quantidade, alagando a Praça 15 de Novembro , acrescentava outra denúncia: a de que, diariamente, ali ia um senhor leiteiro que, sem a menor cerimônia, entregava-se à lavagem das “respectivas folhas [?]”, estendendo nas grades do chafariz os panos com os quais enxugava as mesmas.
O povo que passava por ali gozava com o espetáculo de ver o chafariz transformado em lavadouro público.
Reclamação atendida
No dia seguinte, o jornal folgava de registrar que o Sr. capitão Francisco de Jesus Vernetti, atendendo a reclamação feita de estar o chafariz da Catedral sendo transformado em lavadouro por um leiteiro, mandara para aquele local um guarda da polícia administrativa, a fim de evitar o abuso.
Entendia o jornalista ser digno de elogios a atitude daquela autoridade.

O Sumiço

O início da demolição do chafariz ocorreu no dia 14 de dezembro de 1914, e, dali, na época Praça 15 de Novembro, deveria ter sido levado para a Praça Júlio de Castilhos. O que não aconteceu, pois o chafariz sumiu. Escafedeu-se, e nunca mais dele tivemos notícia alguma.
É possível, dado os meios de transporte da época, que ainda esteja a caminho... 

De volta ao 4º chafariz 

 Retornando ao chafariz que esteve instalado e funcionando no local onde hoje se encontra o Corpo de Bombeiros de Pelotas, 15 de Novembro esquina Gomes Carneiro, dali foi levado para a Praça Cipriano Barcelos, sem ter a menor ideia do triste destino que o esperava: — longe dos olhos, longe da conservação; estando a correr o risco da completa destruição.
Ainda que suficientemente documentada a existência do 4º chafariz — maneira que a imprensa da época tratou – não é por demais trazer aqui outra prova cabal de sua instalação e funcionamento. Para tanto, valemo-nos desta vez de uma coluna publicada quase que diariamente no jornal A Opinião Pública, intitulada Notas do Dia, assinada por alguém que se denominava Vitú. 
Na coluna ou Notas do Dia de 28 de junho de 1901, diz Vitú que, por não dispor de espaço para as suas amolações, se limitaria a reclamar da Intendência ou da Hydraulica o indispensável tapamento, por meio de grades, do terreno em que se achava o chafariz “da Rua 15 de Novembro, esquina Gomes Carneiro”.
Segundo o colunista, aquele terreno não poderia continuar aberto não só porque aquilo contrariava as Posturas Municipais, como também estava o local transformado em “imensa e repugnante cloaca de quanto vagabundo infesta as ruas”. 
E prosseguia Vitú dizendo que no recanto por trás do chafariz havia tanta imundície que assombrava: era um flagelo para os vizinhos.
Concluindo, pedia o jornalista Arthur Oswald Hameister — que foi quem usou por longos anos o pseudônimo de Vitú — a atenção do Dr. Intendente, de quem se esperava uma medida que correspondesse aos interesses de todos os prejudicados.
Vai daí que dia 4 de setembro de 1910, era noticiado que começara, no dia anterior, a ser desmontado o chafariz à rua 15 de Novembro, esquina General Gomes Carneiro e que seria  transferido para a praça Marechal Floriano [Cipriano Barcelos], coitado, sem saber o que viria e vem lhe acontecendo...
  E, pasmem!, dizia a mesma notícia que seria removido também o chafariz da praça da República [Pedro Osório] para a Júlio de Castilhos.
Na praça da República “será construído o Theatro Municipal,...”, assunto que tratarei em outra oportunidade.
Já o chafariz da Praça Domingos Rodrigues, o primeiro a ser inaugurado e receber a benção do Sr. Dr. Canabarro naquela tarde de domingo, dia 05 de abril de 1874, tarde em que o porto de Pelotas esteve todo enfeitado, bem como o pequeno “mas lindo chafariz que estava coberto de flores, bandeiras e galhardetes”, teve melhor sorte ao sair do porto da cidade e vir para o Calçadão da Rua Andrade Neves. Teve mesmo melhor sorte? 

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Fontes: acervo da Bibliotheca Pública Pelotense e arquivo de A.F. Monquelat
Imagens: acervo de Luiz Roberto Cruz Pinto da Conceição e A. F. Monquelat
Revisão do texto e postagem: Jonas Tenfen