quarta-feira, 18 de março de 2020

Entreguerras em Pelotas – Parte 03 O grande dia do Fascismo


Entreguerras em Pelotas – Parte 03O grande dia do Fascismo 


A. F. Monquelat
Jonas Tenfen



Prisão de Professor na Barbuda


            É notícia do jornal A Opinião Pública, de agosto de 1918, a prisão do professor Gustavo de tal que lecionava em língua alemã, somente em língua alemã, em um colégio clandestino na Barbuda.
            Recebera denúncia o intendente municipal, sr. dr. Cipriano Barcellos, que esta instituição de ensino funcionava na residência do agricultor Hans J. Crucius, localizada na Barbuda, 2° distrito deste município.
            No dia do fechamento da matéria, o subintendente, sr. capitão Pedro Dias, realizou batida de surpresa na casa do agricultor, encontrando sim as instalações de uma pequena escola. Na grande pedra negra que servia de lousa no recinto, havia alguns dizeres em alemão; os livros, e todo o mais que se encontrasse de material didático, estavam impressos apenas em germânico.
            Depois de preso, o professor Gustavo foi transportado para ser recolhido ao 2° posto.

Nota


            Depois da notícia reproduzida acima, não encontramos mais fechamento de escolas alemãs em Pelotas no período que compreende o fim da Primeira Guerra Mundial e o Entreguerras. Depois de afastadas do centro, do entorno, naquele momento foram fechadas no interior do município. A conclusão desenhada aqui é a de que as escolas que ensinavam somente em língua alemã foram extintas no período, embora continuasse a circulação de material impresso de forma mais ou menos clandestina.
            Passaremos agora a um período específico do Entreguerras, quando uma série de ideias europeias começou a circular nos centros urbanos. Pelotas não poderia ficar de fora, por isso

Saudação Fascista no Guarany


            A Ilustração Pelotense, em seu décimo número, descreveu a visita à cidade de Rio Grande e de Pelotas, principalmente desta, da Nave-Exposição Itália, um cruzeiro de propaganda pelos países da América Latina.
            A agenda da visita das autoridades e artistas na cidade de Pelotas – referida na matéria como Embaixada Itália – começou com a recepção do intendente, dr Pedro Luiz Osório, visita à praça de desportos do S. C. Pelotas, chá oferecido pelo 9º batalhão de caçadores, seguida de banquete no Club Comercial, espetáculo no Guarany, por fim baile no Club Comercial (marcado para as 11 horas da noite). A comitiva italiana era acompanhada por um séquito de autoridades locais, bem como jornalistas.
            No Guarany, evento que contou com descrição mais acurada do jornalista, era muito esperado os concertos do pianista Buffaletti e do violoncelista Bonucci. Antes, contudo, marcha executada pela banda do 9º de Caçadores anunciou a chegada dos nobres visitantes: “ao lado do Dr. Intendente, o Embaixador Giuriti estendeu o braço na bela e sugestiva saudação fascista, correspondendo aos aplausos vibrantes da assistência.”
            Ao fim das peças musicais, antes da ida do séquito ao baile, o dr. F. O. proferiu “um eloquente discurso de saudação à Itália, cheio de encantadoras imagens e de profundos conceitos”.
            A matéria era ilustrada por três clichês, sem nenhuma foto da Embaixada na cidade de Pelotas: de Edda Mussolini (com a legenda: “Edda Mussolini, filha de Benito Mussolini, a insigne colaboradora na obra extraordinário que foi o grande surto do Fascismo na Itália gloriosa”), de D’Annunzio (com a legenda: “D’Annunzio, o poeta soldado”) e de Benito Mussolini fazendo a saudação fascista (por conter autógrafo na imagem, ou por não ter necessidade de explicação à época, não conta com legenda).


O grande dia do Fascismo


            Nas páginas do Diário Popular, do dia 30 de outubro de 1924, a um título que chama a atenção: A Nova Itália. Abaixo deste título, sob a moldura de folha, duas fotos eram encontradas: uma de D’Annunzio outra de Mussolini.
            Mussolini, figura histórica, dispensa maiores apresentações neste artigo. Contudo a memória sobre Gabriele D’Anunnzio não é tão presente aos brasileiros contemporâneos. Foi escritor e político, que exerceu grande influência sobre as estratégias de Mussolini de organização do estado fascista. Há vários debates hoje sobre até que ponto esta influência foi válida e se Mussolini não corrompeu as ideias do poeta – mais socialista que propriamente fascista. Contudo, há época, as menções a D’Annunzio era frequente entre os apreciadores de literatura ocidental bem como entre os camisas pretas.
            Abaixo das duas fotos, o título “O grande dia do fascismo” e a explicação do que se propunha ali: “A patriótica seção, em Pelotas, do disciplinado partido que, na gloriosa Itália, obedece a direção suprema do eminente político Benito Mussolini comemora, hoje, o 2° aniversário da entrada em Roma da valorosa falange ‘Camisa Preta’. Saudamo-la pela querida data.”
            Às 20 horas, na Bibliotheca Pública de Pelotas, estava programada recepção com a seguinte organização:
            * conferência pelo dr. E. R., secretário da seção;
            * conferência pelo dr. J. L. O, em nome dos brasileiros simpáticos à política italiana;
            * sob a regência do maestro A. C., seria cantado o vibrante hino fascista (“Giovinezza, Giovinezza!”) por um grupo de senhorinhas e cavalheiros.
            O ato, que foi público, contaria também com a presença de autoridades, corpo consular e exmas. famílias de ambas as nacionalidades.

Reunião Fascista


            Em novembro de 1926, o jornal A Opinião Pública trouxe matéria breve sobre o desenrolar da reunião fascista que ocorreu na noite da última segunda-feira, mais especificamente, uma reunião da seção local do partido nacional fascista.
            O presidente da seção local, dr. E. R., “abriu sessão mandando ler o verbal da última reunião e dando uma relação do trabalho executado pelo diretório durante estes últimos meses.” O objetivo da cerimônia realizada era o de “comemorar a data histórica da marcha sobre Roma, mas aproveitava a ocasião para solenemente declarar aceitos onze novos inscritos e apresentá-los aos companheiros de fé e de trabalho.”
    O presidente revisou algumas normas disciplinares que devem ser seguidas pelos fascistas no estrangeiro, em especial sobre o respeito às leis e autoridades locais, antes de entregar os distintivos de fascista aos neófitos.
            Depois, teve início a comemoração da data através de eloquente discurso patriótico, revisando os fatos históricos referentes à marcha, encorajando os companheiros à busca do “completo triunfo do maravilhoso empreendimento que virá reconduzir a Itália ao caminho glorioso da antiga Roma.”
            Fechando a sessão, leitura de telegramas e comunicações de fascistas de várias partes do globo.

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Fonte: Cedov – Bibliotheca Pública Pelotense. A Ilustração Pelotense foi acessada por meio da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.


Continua...

quarta-feira, 11 de março de 2020

Entreguerras em Pelotas – Parte 02 O Registro dos Alemães


Entreguerras em Pelotas – Parte 02
O Registro dos Alemães


A. F. Monquelat
Jonas Tenfen


            Ao centro da capa de A Opinião Pública, da primeira quinzena de dezembro de 1917, há o edital do registro dos alemães, o qual era feito informar pelo dr. Firmino Paim Filho, chefe de polícia do estado. Circundando este edital, uma miríade de informações e temas relativos ao assunto – a Primeira Guerra Mundial -, bem como reclames e efemérides, como: o que os brasileiros devem observar, telegramas, nota do ginásio pelotense, chuva, exposição industrial, o arrendamento de navios brasileiros à França, os horários das missas para o amanhã daquela edição.
            Antes de adentrarmos o tema principal deste texto, vamos observar um pouco Brasil, Rio Grande do Sul e Pelotas por estas notícias.


O que os brasileiros devem observar

            A resposta a este título veio logo em seguida, ainda em negrito mas não sublinhada: procurar instruções militar e formar linhas de tiro.
            Em seguida, três informes, os dois primeiros de Venceslau Brás, então presidente da República, e do presidente do estado de São Paulo.
            Todos os brasileiros deveriam guardar estas palavras do presidente da República: “Respeitar a pessoa e os bens dos alemães, porque o governo atuará severamente àqueles que atentarem contra a defesa nacional. [...]”
            Em seguida, palavras de Venceslau Brás aos governadores dos estados: “É oportuno que aconselhemos maior parcimônia nos gastos de qualquer natureza, públicos ou articulares. Intensifique-se, tanto quanto possível, a produção dos campos, afim de que a fome que bate já as portas da Europa, não aflija também, e, antes, possamos ser o celeiro de nossos aliados. [...]”
            Por fim, as palavras do sr. presidente do estado de São Paulo  aos presidentes das Câmaras Municipais e juízes de direito de todas as comarcas: “É indispensável uma imediata congregação de esforços em prol da nossa preparação militar. Para tanto, peço o seu máximo esforço em prol da constituição de linhas de tiro nas localidades que ainda as não possuam e para o crescente desenvolvimento das já existentes, [...]”

Telegramas

            A saber, era por meio de telegramas que notícias de fora da região chegavam à imprensa local em dias mais próximos dos ocorridos. Outros meios, como outros jornais e correspondentes, possuíam ainda o inconveniente da demora em estabelecer contato ou serem distribuídos pela cidade.
            Por isso, neste setor, encontramos as atualidades da guerra na Europa, bem como repressão de germanófilos em Porto Alegre, assim como denúncia contra sociedade de senhoras alemãs que ainda ensinavam a língua estrangeira em centro comunitário. Chamou a nossa atenção, contudo, notícia vinda do Rio de Janeiro:
            “Grande Número de pessoas em cartas ou pessoalmente oferecem-se ao ministério da guerra para se alistarem e seguirem para o corpo de aviação da Inglaterra, conforme o convite feito pelo rei Jorge.
            Na impossibilidade entretanto de aceitar os oferecimentos, o ministério da Guerra mandou responder aos voluntários que só poderia enviar para a Inglaterra oficiais ou praças, mas não civis.”




            Reproduzimos, na íntegra, o edital do dr. chefe de polícia do estado do Rio Grande do Sul, Firmino Paim Filho, divulgado nos principais jornais da época, referente ao registro de súditos alemães residentes neste estado.
            “O chefe de polícia do estado, em virtude de ordem superior e das necessidades do serviço policial criadas pelo estado de guerra entre o brasil e o império da Alemanha, para devida observância e conhecimento de todos, faz público o seguinte:
1 – Na chefatura de polícia, nesta capital, e em todas a delegacias de polícia, nos outros municípios, será instituído, o registro dos súditos alemães residentes no estado, havendo para este fim um livro especial, aberto, numerado e rubricado, segundo o modelo n° 1.
Parágrafo único – o registro compreenderá somente os homens e mulheres que vivam com economia própria.
2 – As pessoas a que se refere o número anterior comparecerão, espontaneamente ou em virtude de chamamento, à chefatura de polícia, nesta capital, e às subchefaturas e delegacias de polícia, nos outros municípios, e apresentando-se às respectivas autoridades, farão as seguintes declarações:
            seus nomes e pronomes [sobrenome], bem como os de seus pais; lugar e data de seu nascimento; lugar de seu último domicílio, profissão, nome, idade, nacionalidade de sua esposa e filhos.
3 – De cada pessoa que comparecer à chefatura de polícia para o registro a que se refere o n. 1, far-se-á a identificação datiloscópica para o fim de se lhe expedir a respectiva carteira de identidade.
4 – A chefatura ou a delegacia de polícia, conforme o caso, fornecerá a todo o súdito alemão, que se registrar, um documento de acordo com o modelo número 2.
Parágrafo único – Todo súdito alemão que não apresentar o citado documento à autoridade policial que lho solicitar, será convidado a comparecer perante ela para explicações.
5 – Os súditos alemães já identificados pela polícia, e possuidores da respectiva carteira, não ficam isentos do registro.
6 – Todo súdito alemão que se mudar de um município para outro fará a respectiva comunicação à autoridade do município que deixar e à do município em que for residir. Iguais comunicações farão entre si as autoridades policiais.
7 – Todo súdito alemão que entrar em qualquer dos munícipios do estado, inclusive o da capital, é obrigado a comparecer à chefatura ou à delegacia do munícipio ondo for morar, para submeter-se ao registro.
            Os hotéis casas de pensão e outras habitações coletivas não poderão tê-los hospedados por tempo maior, sem que exibam a prova do registro.
8 – Nenhum súdito alemão poderá deixar o território do estado sem se apresentar à chefatura ou delegacia de polícia do lugar onde residir para o fim de receber o necessário passaporte assinado pelo chefe de polícia, na capital e pelos subchefes e delegados de outros municípios.
9 – Nenhum súdito alemão poderá desembarcar em qualquer dos portos do estado ou nele penetrar pelas suas fronteiras terrestre sem exibir passaporte ou algum outro documento comprobatório de sua procedência e boa conduta.
10 – Os proprietários de hotéis, casas de pensão, hospedarias e outras quaisquer habitações coletivas serão obrigados a mandar diariamente à chefatura nesta capital e às delegacias nos outros municípios os nomes dos respectivos hóspedes e suas procedências para que se possa exercer completa fiscalização sobre as pessoas sujeitas ao registro estabelecido neste ato.
11 – Enquanto durar o estado de guerra ou enquanto não resolver o contrário o Governo Federal, fica proibido o comércio de armas e munições de guerra, sujeitas à apreensão quando encontradas no comércio e em poder de particulares.
            As armas e munições assim apreendidas serão entregues, mediante as formalidades legais, ao comandante militar da força federal que existir no lugar; nas localidades, porém, onde não houver guarnição federal, o material apreendido será, com as mesmas formalidades, recolhido à Intendência Municipal, onde deverá ficar sob necessária guarda e vigilância.
12 – É vedada a residência de súditos alemães nas proximidades de quartéis, estabelecimentos e obras militares ou em qualquer outro ponto que os domine, sempre que a autoridade entenda prejudicial aos interesses nacionais.
13 – As buscas e apreensões domiciliares, em qualquer caso, serão sempre feitas de acordo com as leis vigentes.
            Chefatura de Polícia, em Porto Alegra, 4 de dezembro de 1917.”

continua....
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Fonte: CEDOV – Bibliotheca Pública. As imagens do gabinete de Venceslau Brás e de Jorge V são da WikimediaCommons.

quarta-feira, 4 de março de 2020

O Entreguerras em Pelotas – Parte 01 Ainda desdobramentos da Primeira Guerra Mundial


O Entreguerras em Pelotas – Parte 01Ainda desdobramentos da Primeira Guerra Mundial


A. F. Monquelat
Jonas Tenfen



            A série que iniciamos hoje é um desdobramento de série anterior desenvolvida nas páginas do Diário da Manhã no ano passado e que pode ser conferida na íntegra no blog pelotasdeontem.blogspot.com. A primeira foi dedicada aos desdobramentos da Primeira Guerra Mundial em Pelotas; esta, por sua vez, é dedicada ao Entreguerras (adotamos esta grafia para a palavra, sem hífen e com inicial maiúscula, para nos referir ao período entre as duas Guerras Mundiais).
            Por escolha, alguns eventos não serão abarcados aqui, no intuito de pesquisar e dar a tais eventos série própria. Antes de entrarmos propriamente no Entreguerras, no ano de 1917 ainda encontramos nas páginas dos jornais de Pelotas notícias e acontecimentos dignos de nota, como

Tiro 31 em excursão ao Retiro


            A Opinião Pública, no primeiro mês de 1917, recuperou entusiasticamente o evento que há tempos acompanhava. Partiria no dia daquela edição, às 23 horas, saindo da sala de armas à Praça da República, a companhia do patriótico tiro 31. Tratava-se de uma marcha treinamento ao Retiro, devidamente acompanhada pelas bandas de música cornetas e tambores.
            O comando coube ao capitão Otto Hecktheuer. Os diversos pelotões marcharam sob direção dos seguintes oficiais: 1° tenente-atirador Manoel Candido da Cruz, 2° tenente Neptuno B. da Silveira e 2° tenente Arthur C. Carneiro. O pavilhão nacional foi conduzido pelo 1° sargento-atirador Arthur Avila. Garantindo o bem-estar em caso de passamento, a ambulância seguiu sob a direção do tenente-atirador sr. dr. José Botafogo.
            Toda a passeata foi fiscalizada pelo segundo tenente do exército, sr. Waldemar Schneider, instrutor do Tiro 31.
            Tinha-se por objetivo acantonar nos galpões do sr. João Schild, na várzea do Retiro.
            Convidava o jornalista aos moradores do local e veranistas a prepararem condigna recepção à “valorosa rapaziada, que bivacará nos matos de propriedade do sr. Gustavo Brauner”.
            Já noticiado, e talvez por isso o entusiasmo com que a passeata fora entendida, foi promovido por uma “comissão de gentis senhoritas” um “baile em homenagem à briosa mocidade, com distribuição de flores naturais”.
           

Escola Brasileira Alemã


            Em páginas de A Opinião Pública, de início de fevereiro de 1917, encontra-se a propaganda sobre as atividades da Escola Brasileira Alemã, um “acreditado estabelecimento de instrução primária e secundária, há já longos anos funcionando nesta cidade com um reputado corpo docente, afim de proporcionar melhores acomodações aos seus discípulos” que “acaba de ser instalado em magnífico prédio próprio, à rua Marechal Deodoro, nº 927”
            Aos interessados, a instituição mantinha cursos práticos de alemão e francês, escrituração comercial, desenho, pintura, música e piano, matérias indispensáveis ao ensino primário e aulas de trabalhos com agulhas. Não cuidando apenas do espírito, também era oferecido métodos para o desenvolvimento físico através de aulas de ginástica sueca.
            A todos os públicos – meninos, meninas e senhoritas – em sistema de externato e semi-internato.
            Na conclusão da nota, um vocativo aos senhores chefes de família com a recomendação do “importante estabelecimento de ensino entregue ao zelo e competência da exma. Cecília W. Motta.”

Temor infundado?


            Diário Popular, de abril de 1917, próximo à extração da loteria do estado e de interessante matéria intitulada “A ciência na guerra”, trouxe matéria noticiosa e de opinião sobre o “Temor Infundado” – era esse o título – de agricultores, “alemães e teutos, diante dos últimos sucessos aqui ocorridos,” estavam receosos de “trazer seus produtos ao mercado desta cidade, temerosos de alguma agressão do elemento popular”.
            Como mostrado em série anterior, este não fora um medo infundado, uma vez que a cidade de Pelotas fora palco de desdobramentos da Primeira Guerra Mundial, em especial, repressão violenta contra jornal e falantes de língua alemã.
            Com tudo, a matéria afirma que “este temor só se explica pelas notícias adulteradas e boatos terroristas em circulação entre essa laboriosa gente, que nada tem a temer, podemos afiançar, pois ninguém cogitou nem cogita de usar de qualquer violência.”
            É lembrado também que as autoridades estão aí para manter a ordem e a segurança públicas e que estas não permitiriam, de forma alguma, qualquer desacato – por mais leve que fosse – contra as liberdades do comércio dos pequenos agricultores. Assim, os colonos podiam seguir vindo à cidade, pois nada lhes sucederia.
            Outro pedido aos colonos foi para não darem ouvidos aos maus conselheiros, aos boateiros e especuladores que estavam se aproveitando dos ocorridos para comprarem os produtos fora da cidade e revenderem por melhor preço.
            “Contra estes, mais do que contra imaginários atentados, devem estar de prevenção os colonos” era o pedido e conselho final da matéria.

 Buscas e nota melancólica 

            Em 31 de outubro do mesmo ano, nas páginas de A Opinião Pública, foi noticiado que “em observância a ordens superiores, a polícia judiciária deu hoje minuciosa busca no Club Concordia.”
            Buscou-se com a batida encontrar armas e munições, mas nada fora encontrado. A batida foi feita com autorização da diretoria do Club.
            À casa do sr. Carlos Ritter também foi procedida busca, contudo atrás de estação radiofônica clandestina. O que também não se confirmou.
            É noticiado que outras casas de súditos alemães também estavam sendo revistadas.
            Por fim, uma nota melancólica: “Depois de escritas estas linhas soubemos que por intervenção do sr. coronel Avelino Borges, subchefe de polícia, o Club Concordia resolveu, a partir de hoje, suspender o seu funcionamento.”


Tolerância prejudicial


            Foi publicado nas páginas de A Opinião Pública – próximos de informações sobre o aeroplano “Cidade de Pelotas”, encerramento do certame juvenil do Club Diamantinos, voluntários que partiam para Rio Grande e pequena nota sobre espião alemã -, matéria sem assinatura com o título “Tolerância Prejudicial”.
            O primeiro parágrafo deixou às claras as intenções do texto: “A tolerância brasileira é um característico da raça e que muitas vezes nos tem trazido dissabores”.
            Clamava-se pelo fim de panos quentes para com os súditos do Kaiser na cidade, espiões e colaboradores do Kaiser. Tolerância tal que ainda era consentido que alemães genuínos continuavam em vários cargos de repartições públicas.
            Ainda no desenvolvimento, o anônimo autor lista “um tal Peters, fiscal da intendência no Mercado Central; Hugo Kupfer, empregado na Mesa de Rendas, e Oscar Rost, da oficina de drenagem e encarregado pelo governo do Estado da construção de boias”. A saber, “este último, então, teima, dentro da própria repartição, em desrespeitar os brasileiros, só falando em alemão, apesar de admoestado por mais de uma vez”.
            A matéria seguiu descrevendo todos os meios desumanos e violento que o Kaiser, a Alemanha e seus súditos praticaram e estavam dispostos a repetir no Brasil. Não imaginava o brasileiro, alertava, o que o alemão era capaz de fazer em nome da legenda “Uber alles Deutchaland”.
            Depois de perguntar como que nós brasileiros não reagíamos a tudo que era alemão depois de saber destes fatos, a matéria era encerrada com o pedido de “prezemos a nossa dignidade de povo independente, defendamos a existência de nossa nacionalidade ameaçada pelo imperialismo prussiano.”

continua...

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Fonte: Cedov – Bibliotheca Publica Pelotense

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Chafariz das Nereidas, Sereias e Walt Disney


Chafariz das Nereidas, Sereias e Walt Disney

A. F. Monquelat
Jonas Tenfen



            O texto de hoje foi motivado por uma pergunta feita durante uma caminhada. Cortando pela Praça do Chafariz, fui interpelado sobre a razão de as figuras em forma de sereia terem duas pernas, mesmo que com escamas, no lugar daquele formato de corpo de peixe, como estamos acostumados a ver em filmes e animações. Recorrendo à história de Pelotas, mitologia clássica e aos estúdios Disney, a explicação se mostra fácil.
            O livro “Fontes d’Art no/au Rio Grande do Sul”, de José Francisco Alves, nos informa que “A instalação deste chafariz foi aprovada e, 23 de abril de 1873, para a então Praça Dom Pedro II, atual Praça Coronel Pedro Osório, a Principal de Pelotas. Seu funcionamento efetivo – fornecer água potável – ocorreu em 1874, conforme comunicado da Companhia Hidráulica à Câmara, em 4 de abril. O chafariz, instalado até hoje no mesmo local, foi o principal desses equipamentos que a cidade recebeu, sendo mais conhecido como ‘Chafariz das Nereidas’. Trata-se do mesmo modelo, em “escala reduzida”, do famoso chafariz apresentado pelas Fundições DURENNE na Exposição Universal em Londres (1862), lá instalado até 1872. Posteriormente, esse mesmo chafariz teria sido transladado para a capital da Escócia, Edimburgo, transformando-se naquele que é hoje um dos mais divulgados cartões-postais daquele país: o Chafariz Ross [Ross Fountain]. O notável modelo foi criado pelo escultor ornamentista Jules Klagmann, com a colaboração de Ambroise Choiselat.”
            Algumas páginas adiante no mesmo livro, encontramos a descrição de todo o chafariz, mas vamos citar apenas da Base: “no centro do tanque principal (interno, de ferro) ergue-se a estrutura central, vertical, do chafariz propriamente dito. Sua larga base com um diâmetro de aproximadamente 1,5 m e altura de 1,2 possui quatro nichos. Em cada um deles, consta um par de ninfas e uma carranca de leão no centro. Os pares de ninfas, em pose simétrica, vertem água das ânforas que apoiam em seus ombros para dentro de conchas com bordas rebuscadas. Das bocas dos leões também verte água para as mesmas conchas. As ninfas, que estão recostadas na estrutura sobre as conchas, estão seminuas e têm cauda de peixe em lugar das pernas, como bem devem ser essas típicas entidades mitológicas do reino de Tritão [Netuno]”.
            Ao autor da descrição faltou um pouco de atenção ao detalhe de que estas ninfas, como notou a autora da pergunta que nos motiva a escrever este texto, não têm caudas de peixe no lugar das pernas. Dois pares de pernas para cada uma, com saliências que lembram escamas e nadadeiras no lugar dos pés.
            Havemos de falar sobre nereidas, ninfas e sereias. A tradução do dicionário de mitologia de Pierre Grimal manteve a versão mais afrancesada da palavra, por isso encontramos na obra a entrada “nereides” (embora apresente como válida a versão aportuguesada). Filhas de Nereu e Dórias, netas de Oceano, sua quantidade é bastante variada, havendo assim entre 50 e 100 destas entidades. Seria muito interessante descobrir se as quatro figuras do Chafariz da Praça representam alguma nereida específica, como Tétis, Cálice ou Iera. Segundo o dicionário, “elas personificam, talvez, as inúmeras vagas do mar.”
            As ninfas, por sua vez, são representações várias dos campos, bosques e das águas, no mais das vezes, das águas doces. Sua ascendência muda dependendo do pesquisador, mas a versão mais corrente é que são filhas de Zeus. Divindades secundárias, estão no mundo, se cronologia é possível, a menos tempo que as nereidas e intervém mais nos afazeres e acontecimentos humanos.


            Por fim, as sereias. Ainda com Grimal, “as Sirenes viviam numa ilha do Mediterrâneo e, com a sua música, atraíam os marinheiros que passavam nas redondezas. Os barcos aproximavam-se perigosamente da costa rochosa da ilha, despedaçavam-se e as Sirenes devoravam os imprudentes. Conta-se que os Argonautas passaram perto das Sirenes, mas Orfeu cantou tão melodiosamente enquanto o navio Argo este ao alcance da sua música que os heróis não sentiram qualquer tentação de abordar a ilha [...] Quando por lá passou, Ulisses, prudente e curioso ao mesmo tempo, ordenou a todos os marinheiros que tapassem os ouvidos com cera e o amarrassem ao mastro, proibindo aos seus homens que o soltassem quaisquer que fossem os pedidos que ele lhes fizesse”.
            Os mitos mais antigos sobre as sereias as representam como parte humana, parte ave. Com o tempo, talvez por se tratar de uma ilha no mediterrâneo o lar dessas criaturas, pareceu mais conveniente aos artistas atribuírem a elas feições de peixe. Contudo, papel importante para a passagem de ave para peixe tiveram os marinheiros ao longo da história, pois vendo grandes mamíferos nadando – como a beluga – à noite, acabaram por enxergar ali formas femininas.
            Voltando às pernas, é muito mais comum encontrar representações para sereias como as ninfas do chafariz, do que da maneira como estamos condicionados a imaginá-las. O problema de imaginar um ser aquático feminino nadando é o inconveniente moralista de imaginá-las despidas. Parece que é algo muito antigo, mas é mais recente do que muitos imaginam: a marca da rede de café Starbucks é baseada em uma representação escandinava de uma sereia. Como o passar do tempo, a marca foi ficando mais estilizada e cada vez mais próxima da face da entidade mitológica, tentando disfarçar o exercício de flexibilidade que esta fazia.
            Problema semelhante enfrentou Walt Disney quando quis fazer uma animação com sereias para suas Silly Simphonies. Um monarca do fundo do mar tem suas amadas sereias sequestradas por piratas e a narrativa se desenrola para o resgate. Mas como fazer um desenho animado para crianças sobre sedutoras figuras femininas nadando sem vestimenta? A solução foi dar a elas cauda de peixe da cintura para baixo: ainda femininas, mas assexuadas. Esse é o enredo do episódio “King Neptune”, da série Silly Simphonies, de 1932. Essa animação popularizou o formato ocidental mais aceito da entidade mitológica, sendo à exaustão reproduzido em livros infantis, filmes e séries de televisão. De forma algum se quer afirmar que foram os Estúdios Disney os primeiros a desenharem sereias do modo como estamos habituados, basta olhar para o Brasão de Armas de Varsóvia, que é baseado em imagens do século XV. Afirma-se que, tal qual o monstro de Frankenstein, foi um filme que popularizou uma forma de uma personagem de ficção.

            Se hoje o Chafariz das Nereidas fosse montado, é possível que as figuras que despejam águas nas conchas tivessem outro formato, mais familiar a nós. Por falar em familiaridade, talvez seja esse o espanto da interlocutora ao questionar sobre as figuras do Chafariz: ela mesma nunca antes havia notado que elas possuíam pernas.
            Para encerrar, uma nota filológica. A palavra “sereia” como utilizamos vem do português arcaico “sereã”, que, por sua vez veio do latim, “sirena, -ae”, que por sua vez veio do grego. É raro o uso em português de “sirene” para “sereia”, embora a tradução do dicionário de Pierre Grimal a utilize. “Sereia” e “sirene” têm o mesmo radical, e, digamos, sempre prestamos atenção ao canto de ambas. “Serenata” e “seresta”, contudo, têm outra origem etimológica.

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Fontes: Consultamos a 5º edição do Dicionário de Mitologia Grega e Romana, de Pierre Grimal, publicado no Brasil pela Bertrand, e também o “Fontes d’Art no/au Rio Grande do Sul”, de José Francisco Alves. A imagem do Brasão de Armas de Varsóvia é wikcommons.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Pelotas e “O livro no Brasil: sua história”


Pelotas e “O livro no Brasil: sua história” 

A. F. Monquelat
Jonas Tenfen



            Publicou-se muito na cidade de Pelotas. Bastante corriqueiro encontrar em livrarias de novos e usados (os sebos), edições que foram impressas na própria Princesa do Sul. Também é bastante presente no imaginário a atuação de várias editoras, cujos nomes ainda hoje são sinônimos de boas edições, boas traduções ou azar. Vários escritores, há época famosos e hoje canônicos, aceitaram convite de colégios e instituições para proferir palestras e lançar livros nesta cidade. Algumas dessas visitas, até que se ache trilha nas páginas de jornal, seguem sendo mitos, mesmo assim, mitos muito presentes e cotidianamente recuperados.
            O “Dicionário de História de Pelotas”, recuperando uma ideia frequente das aulas de literatura, relaciona os livros no Brasil à história do jornal, mais especificamente, às tipografias. Onde havia jornal, havia público leitor. A presença das tipografias em uma determinada região aumentava a oferta de material impresso a preços mais reduzidos. Apesar de uma ou outra experiência malfadada, foram os jornais que sustentaram tipografias em várias cidades há época. A demanda criada, as tipografias passaram a aproveitar o tempo ocioso para produzirem livros. Criou-se assim outra demanda: a de escritores, incluindo-se nesta categoria tanto os prosadores como poetas, bem como os tradutores.
            Falando em pioneirismo, o mesmo Dicionário nos informa: “É bastante provável que a mais antiga obra editada em Pelotas tenha sido ‘Resumo de História Universal’, também o livro de estreia do professor alemão Carl von Koseritz. Foi impresso em 1852 na tipografia de ‘O Noticiador’, o segundo jornal em circulação na cidade (Tipografia Luiz José de Campos).”
            Depois da apresentação, dos objetivos deste artigo. Apresentaremos aqui a presença da cidade de Pelotas na obra “O livro no Brasil: sua história”, de Laurence Hallewell. José Paula de Ramos Jr afirma que ao “finalizar a leitura da esplêndida obra do inglês Laurence Hallewell, o leitor brasileiro certamente será persuadido de que é possível, sim, conhecer muito melhor o seu próprio país e a sua cultura por intermédio da história de seus livros.” Por extensão, muito da história de Pelotas está nos livros, não necessariamente no escrito em suas páginas, mas nos meios e acontecimentos que permitiram que eles fossem publicados e consumidos. Facilmente reduzimos tecnologia a computadores, esquecendo que uma das maiores revoluções tecnológicas da humanidade foi a impressão em papel distribuída por meio de encadernação.
            São cinco as menções de Hallewell à cidade de Pelotas, sendo as duas primeiras as mais importantes. A primeira dela, no capítulo sobre Pirataria dos Direitos autorais, é a seguinte: “É claro que é sempre mais tentadora a pirataria de obras de autores mortos; talvez seja esse o motivo de uma segunda edição, clandestina, de ‘Memórias de um Sargento de Milícias’, de Manuel Antônio de Almeida, impressa em Pelotas em 1862, menos de doze meses após sua morte.” Satisfeito o autor com a menção a esta obra literária, direciona seu trabalho seguinte para a primeira Convenção Pan-Americana de Direitos Autorais (1889), mas, destacamos, que é pouco laborioso levantar outros exemplos semelhantes de atuação editorial na cidade.
            Acrescentamos uma consideração de Hallewell: “Embora o advento da República tivesse fortalecido, assim, os direitos legais formais da autoria literária, sua importação da doutrina americana dos direitos dos estados membros da União tornou a execução da lei quase uma questão de opção local. Em nenhum outro lugar isso foi mais evidente do que no Rio Grande do Sul, onde, até as primeiras décadas do século XX, a principal atividade de algumas editoras foi a publicação ilegal de autores de fora do estado sulino.” A assertiva é sucinta e dura. Embora não neste parágrafo, mas a única cidade do estado sulino mencionada nominalmente por esta atividade foi Pelotas.
            Nas vagas literárias, a Princesa do Sul foi Rainha da Pirataria.
            Justificativas e debates à parte, essa postura permitiu às editoras expandirem seus catálogos com mais facilidade, bem como tornar mais ágil o processo do feitio do livro. Parte do capital investido na compra de direitos autorais está no tempo despendido em negociações; abrindo-se mão desse “inconveniente” temporal, há ainda mais o óbvio incentivo financeiro, em alguma medida barateando custos. Essa flexibilidade explica alguns pioneirismos no campo da tradução, como exposto por Denise Bottmann: “também do Rio Grande do Sul vem o primeiro volume de Dostoiévski traduzido no Brasil. Foi ‘O Jogador’, em tradução de Alcidez Cruz, publicado pela Livraria Americana de Pelotas, de Costa Pinto [sic], em sua coleção ‘Nova bibliotheca economica’. O livro saiu, calculo eu, por volta de 1895-6: avento essa data porque foi em 1896 que o ‘Almanak litterario e estatístico do Rio Grande do Sul’ publicou o anúncio de página inteira da Livraria Americana, com ‘O Jogador’ entre os três títulos já publicados em sua referida coleção.”
            A segunda menção a Pelotas, cento e sessenta páginas adiante, ainda às voltas com a mesma questão. Antes de começar com a história da Livraria do Globo, Hallewell dedica-se a explicar este espírito empreendedor para além da questão econômica trazendo à tona as posturas do positivismo. Na citação de Rubem Borba de Moraes: “No século XIX, foram os belgas os grandes piratas das edições francesas. No Brasil, em fins do século XIX e princípios deste, os editores rio-grandenses, protegidos por uma constituição positivista, imprimiram toda sorte de livros sem autorização dos editores legítimos e sem pagar por direitos autorais.”
            No parágrafo seguinte, Hallewell explicando Borba de Moraes é mais taxativo: “Não se faz menção a nenhuma firma, mas o principal culpado era a editora gaúcha mais importante da época, a Livraria Americana, de Carlos Pinto, estabelecida, desde a década de 1880, em Pelotas, no extremo sul do estado. Sua série Bibliotheca Econômica, de baixo preço e formato de bolso, publicava traduções de Bourget, Alphonse Daudet, Dostoiévski, Elslander, irmãos Goncourt, de Kock, Maupassant, Sacher-Masoch, Turguêniev e Zola [dentre outros].”
            As três menções seguintes a Pelotas estão nas tabelas do apêndice I. Não cabe aqui reproduzir todos os dados, segue, contudo, os títulos: “Tabela 14. População das cidades mais importantes do Brasil comparada com a de cidades de outros países, 1920-1950”, “Tabela 23. População das cidades mais importantes do Brasil comparada com a de cidades de outros países, 1950-70”, e, por fim, “Tabela 39. População das cidades mais importantes do Brasil comparada com a de cidades de outros países, 1980-2004”.

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Foi consultada a verão on-line do “Dicionário de História de Pelotas”, um .pdf bastante fácil de ser localizado. As citações do livro de Laurence Hallewell foram retiradas da terceira edição da obra, publicada pela EdUSP. O texto de José de Paula Ramos Jr., “Lição de inglês sobre o livro brasileiro”, é da Revista USP, n° 81, também disponível on-line. Não se espante o leitor ao ler o blog de Denise Bottmann, www.nãogostodeplagio.blogspot.com, pela falta de maiúsculas. Foto de ilustração é de Jonas Tenfen, da Livraria Monquelat.

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A.    F. Monquelat
Jonas Tenfen

 
“O tempo-areia que escorre entre as mãos viu-se emaranhado ao longo da formação histórica de Pelotas pelos espectros da escravidão. Em meio a este emergiram batuques e sambas apresentando outras histórias, outras formas de estar no mundo.”
Dessa forma que Jarbas Lazzari inicia seu texto no segundo volume do Almanaque do Bicentenário; de forma sucinta, porém clara, apresenta os objetos de estudo que o acompanham em décadas de trabalho intelectual. Buscar organizar em narrativa cartesianamente organizada a história do cotidiano é segurar um punhado deste tempo-areia nas mãos e buscar contar os grãos ali contidos. Apesar de ser árdua a tarefa, há facilidade em perceber os espectros da escravidão na história do cotidiano.
Cotidiano difícil de ser matizado pela brutalidade dos trabalhos nas charqueadas. Mário Osório, em “Pelotas toda a prosa”, traz tradução de excertos da descrição da cidade, região e do trabalho na charqueada feita por Nicolau Dreys quando em visita a Pelotas. A frase que se tornou mais ou menos canônica: “Uma charqueada bem administrada é um estabelecimento penitenciário”. Lida em separado do texto de Dreys, pode-se concluir que ali há uma severa crítica ao trabalho escravo, quando seguidamente o autor dá escusas às culpas e penas que o trabalho impunha aos escravizados. Mesmo a questão da penitenciária é uma metáfora, logo em seguida explicada que não ocorrem crimes nas charqueadas e dá um leve elogio aos cerceamentos da liberdade, pois “numa charqueada ou numa estância há menos facilidades de nascerem e de se alimentarem os vícios comuns dos negros”.
Um outro exemplo, a cena de abertura do filme “Concerto Campestre” (de 2005). A música é alegre e vibrante, embora levemente entrecortada por mugidos e gritos de peões. Apresenta-se sucintamente as etapas do trabalho da indústria saladeiril, de forma a entender seus processos e a rudeza do trabalho. Trabalho este que causa movimento, movimento que é sinônimo de vida, ambos ao som da empolgante trilha sonora, torna possível ver na tela a exploração dos escravizados como abertura de um filme romântico. A nós é agradável a canção do progresso quando assistimos aos outros na dança do trabalho.


            Depois da consolidação do centro urbano, houve diversificação das atividades laborais dos escravizados, antes centradas na produção do charque e na construção civil. Torna-se financeiramente possível a figura do “escravo de ganho”, e sua presença será bastante frequente a levar em conta a imprensa da época. Observemos dois anúncios de jornal.
            O primeiro, do Diário de Pelotas, de julho de 1876: “Ama de Leite. Precisa-se alugar uma ama de leite, sadia, sem cria e de boa conduta. Para tratar em cada de Luiz Maurel. Rua de Yatahy, nº 110.” (Em agosto do mesmo ano, há outro anúncio da mesma natureza no jornal: “Preciza-se de uma ama de leite, livre ou escrava, porém sem cria, que seja carinhosa, não se fazendo questão do preço. Para informações, nesta tipografia”. Como não se pode mais buscar aquela tipografia para mais informações, impossibilitado fica de saber se era o mesmo anunciante ou outro.)
            O segundo, do jornal Paiz, de dezembro de 1876: “Ama de leite. Vende-se uma escrava moça, superior ama de leite, sadia, de bons costumes, engoma e cozinha perfeitamente. Rua 16 de Julho, nº 17, Casa Vermelha.”
            Sobre este segundo anúncio que vamos nos deter mais atentamente. Há muito da história da cidade que salta aos nossos olhos, muito da história do cotidiano nessas poucas linhas de um anúncio de uma tentativa de transação comercial. Há também uma tragédia que se mostra depois de desvelados alguns detalhes que se perderam no cotidiano de outrora. Este segundo anúncio é quase imperceptível na página do jornal, pois compete em atenção com grandes eventos. Contudo, está impresso, testemunha em papel enfrentando as traças e a memória.


            A saber, a rua 16 de Julho teve seu nome mudado para Dr. Cassiano, que é o nome atual. Há época, concentrava alguns prostíbulos, sendo frequente sua presença nas páginas policiais por motivos de brigas e outros barulhos. Podemos entender que a anunciante é desse ramo, além da localização, o complemento que ela dá ao endereço “Casa Vermelha”. Pode-se inferir que uma escrava, alugada como prostituta, engravidou em decorrência da função e está sendo vendida como ama de leite.
            A ausência fala mais alto. Quem anuncia fala dos bons costumes e de outras atividades que a escravizada pode desempenhar, mas o maior chamariz para o negócio é o que ela não leva. Nos predicados, nada acerca do filho, pois a levar em conta o primeiro anúncio, não havia interesse em se adquirir uma ama de leite com o filho que a tornou mãe. Uma boca a mais para alimentar, mais uma pessoa a ocupar a casa. O destino dessa ama de leite é o de ser separada do filho, sendo essa criança deixada para trás na Casa Vermelha, sendo essa criança dada à caridade de alguma instituição.
            Pesquisa historiográfica é um jogo de quebra-cabeças em que se trabalha mais com as peças que faltam do que com as disponíveis. Não nos é possível dizer o destino dessas pessoas, se a transação fora concluída, ou se a exploração sexual dessa mulher acabaria se saísse da Casa Vermelha. Maio de 1888 está distante quase doze anos do anúncio, mas pensar a abolição como o fim da exploração dos – daí então – libertos, como o fim da escravidão no Brasil a partir de um golpe de pena, é um acalanto de esperança em dias melhores. Estatisticamente falando, é mais provável que esta mãe tenha passado toda a sua vida fazendo as mesmas atividades e nunca reencontrado este filho.
            Para encerrar, novamente com Jarbas Lazzari: “Afinal, como sabia Walter Benjamin, o inconformismo dos vivos não existe sem o inconformismo dos mortos, pois ‘nem estes estarão a salvo do inimigo se este vencer’. E este tem vencido. E no caso da história de Pelotas, o vencedor nos fez servos do capital e herdeiros do imaginário senhorial escravista. Para irmos além desta condição histórica teremos de enfrentar nossas mais torpes memórias, em especial os espectros da escravidão.” As ruas de Pelotas gritam, basta querer ouvir.
           

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Fontes; CEDOV – Bibliotheca Pública de Pelotas; imagem da ama de leite é wikicommons


Religiões de matriz africana em Pelotas (parte 2)

Religiões de matriz africana em Pelotas
(parte 2)

A.F.Monquelat
JonasTenfen


         Discípulos de Juca Rosa


         Não muitos dias depois da apreensão anterior, o Sr. subdelegado de polícia, ainda pelos lados da Várzea, encontrou, à noite, em flagrante adoração ao santo Manipanso, alguns pobre de espírito com pretensões a feiticeiros, dizia o jornalista ao registrar o acontecimento ao final do mês de janeiro de 1878 nas páginas de seu jornal.
         Como sempre, prosseguia ele, eram pretos os adivinhas, consistindo sua alquimia em um “santo preto”, um presépio, diversas tigelas com sangue de galinha, penas de diversas aves, cabeças de pato e outras asneiras semelhantes, que foram direto à purificação do São Gonçalo, as quais deveriam ficar enfeitiçadas e com virtudes, até aquele momento, desconhecidas.
         Os devotos do “Deus urubu” sofreram, após a apreensão, algumas horas de justíssima correção, no entender do jornalista.

Adivinhas que não adivinharam a própria prisão


         Com a chamada Feiticeiras, o Correio Mercantil, de 9 de abril de 1878, iniciava a matéria anunciando que uma das coisas que mais o preocupava era a previsão do futuro, ciência que dera água pela barba aos sábios da antiguidade, e da qual, era certo, terem eles colhido ótimos resultados para suas algibeiras.
         Em Pelotas, prosseguia o redator do Correio, existiam duas pretas, dedicadas de corpo e alma às altas ciências, que previam o futuro e revelavam a maravilhosa eficácia de certas bebidas extraordinárias, que nos davam o amor da ingrata que desprezasse os nossos afetos e muitas outras coisas, tão importantes e supremas como esta.
         Evidentemente estas duas pretas não eram somente dois gênios, eram também dois anjos, que a humanidade deveria preservar em eterno museu.
         Porém, a polícia, que entendia lá as coisas por outro modo, foi à casa delas e, com certa crueldade, as levou para o xadrez.
         E não foi somente crueldade, foi também heresia, porque as magnas adivinhadoras estavam nessa ocasião em magna sessão, diante de um santo e uma vela.
         Pelo visto, já nem os santos protegiam contra tal polícia, sem alma e sem crença.
         Do que o jornalista se admirava mesmo, era como elas não adivinharam aquela ocorrência que lhes iria por à sombra e não trataram logo de se por à fresca.

Foi e não voltou


            Eram onze horas da manhã do dia 19 de abril de 1878 quando, na cadeia civil da cidade, chegou uma rotunda negra, atirando à mina, majestática trunfa, cajado de prata na destra, passo grave e todo respeitável.
         Acompanhava-a outra negra, chapéu de sol, aberto, abrigando-a dos raios solares, ao costume chinês.
         Pedem licença e entram.
         A primeira, a rainha conga, que se chamava Elvira, dirige-se ao Sr. José Lopes da Conceição e pergunta:
         - O Senhor não deu um sino para São Francisco [de Paula]?
         - Sim, dei rapariga.
         - Pois São Francisco mandou-me libertá-lo da prisão. Pode sair. Eu fico em seu lugar, por algum tempo.
         E o guarda-sol continuava aberto.
         O carcereiro presenciava o que se passava.
         O Sr. José Lopes, achando que estava em presença de uma idiota, tratou de dissuadi-la do propósito de libertá-lo.
         Em vão.
         A enviada de São Francisco insistia tenazmente.
         E tão impertinente se tornou, que o Sr. Mário achou prudente trancafiá-la no xadrez, comunicando, a seguir, ao delegado.

Discípulos de Juca Rosa resistem à prisão a tiros


         Na noite de 18 de agosto de 1878, a polícia particular encontrou, ali para os lados da Várzea, um couto de escravos cativos que se entregavam às “distrações” do Manipanso.
         Tratando de capturar os participantes do festim, resistiram eles a tiro até de cima do telhado.
         No final da escaramuça, foram presos os devotos pertencentes ao “sexo frágil”, enquanto os demais escravos se puseram a salvo, por entre a proteção da noite e dos revólveres.
Naquele mesmo dia, foi preso por ordem da subdelegacia, um escravo do Sr. Porfírio Honório da Silva, por estar, juntamente com outros negros de baile, sem licença de seu senhor, tendo os companheiros conseguido evadir-se pelos fundos da casa. Foi preso também um escravo de D. Maria Auta por ser encontrado com outros em adoração ao “Santo Manipanso”, em uma casa sita na Várzea desta cidade, tendo sido apreendido naquela ocasião “diversos objetos de que se serviam”. Sendo diminuto o número de praças que deu busca na referida casa, conseguiram escapar os demais adeptos.
         Acreditamos que a referida casa na Várzea fosse a de Elvira e que o escravo de D. Maria Auta ali estivesse, quando da invasão da polícia noturna.

Elvira, a Sibila, discípula de Juca Rosa


            Elvira, a Sibila [profetisa, bruxa, feiticeira], é a mesma negra atirada à mina que foi a cadeia civil, por ordem ou aparição de São Francisco de Paula. Com o propósito de libertar o José Lopes, e que lhe custou uns dias de cadeia. Não satisfeita em ser uma “simples criatura deste mundo de enganos e ilusões”, meteu na cabeça pertencer à ordem dos “sobrenaturais”, e daí não haver como arredá-la, dia 12 de junho de 1878, cercada de adoradores do Manipanso, entregava-se às invocações de “toda espécie” na intenção de dar fortuna a uns e casamento a outros.
         A polícia noturna, descobrindo o segredo e local da cerimônia, quis entrar também nos altos mistérios; porém, mal a pressentiram, uns pelo quintal, outros pelo telhado e alguns pelas janelas, abandonaram “o templo” e deram às de Vila Diogo [botaram o pé na estrada, fugiram].
         Só restou, como refém, um único devoto.
         Vistoriada a casa, encontraram ratos mortos, cabeças de galo, pés de galinhas e...”hereges! o santo Antônio metido numa bacia cheia de água e com a corda no pescoço, em sinal de promessa matrimoniosa”.
         Tudo foi inutilizado, inclusive o santo, “por aversão às feiticeiras”.
                                                                          
Continua...
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Fontes: acervo da Bibliotheca Pública Pelotense –CDOV e Pelotas dos Excluídos