quarta-feira, 16 de maio de 2018

Cinema Universal – Pelotas


A.F. Monquelat

Dentre os vários cinemas que a cidade de Pelotas inaugurou e hospedou durante o decorrer de sua história, pelo menos um deles, ao que nos parece, não foi percebido pela lupa daqueles que se dedicaram e se dedicam a escrever sobre estas casas de entretenimento e diversão, ainda hoje, tão ao gosto de muitos, que foi o Cinema Universal.
Anúncio do Cinema Universal na imprensa pelotense

Das poucas notícias que encontramos sobre o Cinema Universal, a primeira delas foi a do dia 29 de dezembro de 1916, na qual era dito que a nova casa de entretenimento seria inaugurada no domingo próximo, dia 31 de dezembro daquele mesmo 1916, no salão situado à  Rua 15 de Novembro nº 728,  quadra entre as ruas Dr. Cassiano e Voluntários.

O estabelecimento, segundo notícia de época, estava montado com gosto e decorado de forma singela, mas elegante, dispondo de vários ventiladores, sendo que um deles possuía aparelho de sucção para extração do ar quente da sala.

Possantes lâmpadas elétricas forneceriam farta iluminação. A cabine era forrada de zinco, a fim de prevenir qualquer acidente, e o aparelho projetor, completamente novo, como não havia igual no Estado.Havendo ainda uma sala de espera, entre duas portas que davam para o salão.

A inauguração do novo cinema estava marcada para as 14h30, com uma soberba matinê dedicada ao mundo infantil.

À noite aconteceriam novas sessões com filmes desconhecidos do público, mas segundo a direção de apurado trabalho artístico.

Durante as projeções, seria ouvida uma afinada orquestra.

Em 30 de dezembro era anunciado que, dia seguinte, às 14h30, seria inaugurado o novo Cinema Universal, no salão à Rua 15 de Novembro nº 728.

Àquela hora, haveria atraente matinê e a noite, novas sessões com selecionadas películas.

A entrada custaria 1$000.

Sobre o ato de inauguração, não encontramos registro algum nos jornais da cidade.

É provável que a inauguração tenha ocorrido dias depois da data prevista, pois, segundo notícia encontrada no Diário Popular: inaugurou-se anteontem [07-01-1917] o novo salão Cinema Universal, a Rua 15 de Novembro nº 728.

Nas duas sessões, à tarde e à noite, foram passadas interessantes fitas, que agradaram ao numeroso público que ali acorreu.

A próxima nota sobre o novo cinema, publicada em 9 de janeiro de 1917, diz que prometiam grande sucesso as sessões daquela noite.

Seria exibida a empolgante fita “Essas mulheres”, em 10 longas partes.

Aos 17 dias do mês de janeiro de 1917, o jornal O Rebate   comentava que “A Caixa Misteriosa” era uma concepção cinematográfica pertencente ao gênero dos dramas policiais e, dividida em 30 partes, repetidas por 15 séries.

Era no ramo a que se propunha o trabalho mais completo até então saído das fábricas cinematográficas.

O Cinema Universal, “ainda de curta vida, mas de largo conceito”, querendo oferecer aos seus habitués um filme, como esse de real valor, embora com sacrifício, mostrava assim o desejo que tinha de servir ao público da melhor maneira.

A breve exibição de “A Caixa Misteriosa”, era disso prova incontestável.

O público, por certo, saberia retribuir os nobres intentos da empresa do Universal. Filme este cuja exibição fora uma homenagem ao “valoroso Clube Brilhante”.

Não muitos meses depois de sua inauguração, as notícias sobre o Cinema Universal na coluna dos jornais da cidade, “Theatros e Cinemas”, cessaram por completo. O que nos leva a supor que a vida do Cinema Universal tenha sido curta.



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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
 Revisão do texto: Jonas Tenfen
Tratamento de imagem e postagem: Jonas Tenfen

quarta-feira, 25 de abril de 2018

15 esquina 7: encontro do café com o cinema (parte 2 e última)

                                                                                                                                                                        A.F. Monquelat



       O café seria inaugurado em fevereiro e o cinema em fins de março de 1912. Dando-se, assim, a inauguração geral da casa.

A frente do prédio em que funcionaria o Ideal-Concerto estaria feericamente iluminada por dois grandes focos de luz elétrica, com a força de mil velas cada.

Um dos referidos focos seria colocado à Rua 15 de Novembro; e o outro, à Rua Sete de Setembro.

Como bem poderia imaginar o leitor, afirmava um dos jornalistas, o Ideal-Concerto seria um estabelecimento importantíssimo, para onde convergiria, certamente, a elite da sociedade pelotense.

Em meados do mês de março, sem que tivesse acontecido a inauguração prevista para o mês de fevereiro, a imprensa local noticiava que em “mais alguns dias” estaria aberto ao público o Ideal-Concerto. Este seria, incontestavelmente, o primeiro estabelecimento, no gênero, do Estado e um dos primeiros do Brasil.

Para que a inauguração se realizasse, esperavam tão somente que fossem liberadas pela Alfândega as cadeiras destinadas ao salão de cinematógrafo, que haviam sido importadas da Áustria.

O Ideal-Concerto contaria também com um magnífico serviço de restaurante à la minuta, instalado em salão exclusivamente preparado para tal finalidade.

Os preparativos para a definitiva instalação daquele estabelecimento modelo prosseguiam ativamente, de modo que, dentro de poucos dias, acreditavam estivesse ele aberto ao público.

A seção de cinematógrafo, a cargo do Sr. João Salvi, mereceria especial cuidado da empresa Ideal-Concerto, a qual já contava com grande e seleto repertório de fitas, até então desconhecidas em Pelotas.

Era agente daquela empresa o Sr. Ignacio Accioly, que, na ocasião, estava na cidade e era o único distribuidor no Estado das fitas Dinamarquezas, Cines, Ambrosio, Ítala e outras.

Dia 25 de março de 1912, o Ideal-Concerto feericamente iluminado foi, à noite, visitado por um grande número de famílias pelotenses.

O estabelecimento, com todas as suas dependências iluminadas, apresentava um lindo aspecto.

Poucos dias após a visita daquele grande número de pessoas, a imprensa anunciava que estava próxima a hora da sociedade chique de Pelotas gozar a delícias de ver realizada uma grande expectativa, que a dominava desde que fora falado na fundação do Ideal-Concerto, e isso porque estava definitivamente marcada para dia 30 daquele mês a abertura do importante estabelecimento.

A inauguração dar-se-ia à noite. À frente do prédio onde estava instalado o Ideal-Concerto, uma banda de música abriria os festejos.

Os homens encontrariam no Ideal-Concerto, além de atraentes diversões, um serviço completo, bem atendido, a tempo e à hora, de café, bar, cigarraria, restaurante, engraxataria, etc.

Dia 30, após a abertura, haveria no amplo salão destinado às diversões cinematográficas, o primeiro espetáculo, com programa composto de fitas completamente desconhecidas em Pelotas.

A Inauguração do Ideal-Concerto
Conforme fora anunciado, dia 30 de março do ano de 1912, à noite, por volta das 19 horas, deu-se de maneira oficial a inauguração do grande estabelecimento Ideal-Concerto, instalado à Rua 15 de Novembro, esquina Sete de Setembro.

Dizer o que era o Ideal-Concerto, afirmavam os jornalistas, seria repetir o que por muitas e muitas vezes haviam dito e o que, portanto, já era de conhecimento do público, que aquela noite invadiu o novo estabelecimento, logo que suas portas foram abertas. 

O Ideal-Concerto, que se manteve repleto de famílias e cavalheiros até altas horas da noite, era um estabelecimento modelo e que fazia jus à cidade de Pelotas.

As sessões cinematográficas, realizadas na noite da inauguração, tiveram avultada e seleta concorrência.

Sábado, dia 31 de março, às 15 horas, os proprietários do Ideal-Concerto ofereceram aos representantes da imprensa, às autoridades e demais convidados, inclusive algumas famílias, uma sessão especial de cinema, sendo exibidos três filmes, entre os quais se destacou, pelo empolgante efeito dramático contido, o filme intitulado “Gioconda”.

Após aquela sessão cinematográfica, foram servidos, na sala da frente do Ideal-Concerto, doces, sanduíches e champagne, a todos os convidados.

Dia 1º de abril, domingo, seriam realizadas sessões corridas com o seguinte programa, “realmente chic”: “Pathé Journal nº 139 B”, Um senhor metódico” e “Amor de Príncipe”.

Ideal-Concerto e Ponto Chic

Em agosto de 1912, a empresa proprietária do Ideal-Concerto, em virtude do registro, que a mesma acabara de fazer na Junta Comercial do Estado, o seu salão de diversões, que até aquela data (18 de agosto de 1912) adotara o nome de Ideal-Concerto, passaria a chamar-se Ponto Chic. Este título seria usado daquela data em diante em todos os seus cartazes, anúncios e programas.

O Café-Concerto de propriedade da mesma empresa, e situado à Rua 15 de Novembro, esquina Sete de Setembro, ao lado do salão acima referido, também em virtude de registro feito, continuaria a denominar-se Ideal-Concerto.

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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
 Revisão do texto e postagem: Jonas Tenfen
Tratamento de Imagem: Bruna Detoni

quarta-feira, 18 de abril de 2018


15 esquina 7: encontro do café com o cinema (parte 1)


A. F. Monquelat

   
   
     Aos 25 dias do mês de janeiro de 1912, conforme era esperado, chegou a Pelotas, pelo primeiro trem, o senador pelo Rio Grande do Sul, Dr. José Gomes Pinheiro Machado, que teve, acolhida  na gare da Viação.    Dentre as pessoas que o aguardavam, era notada a presença do intendente municipal, Dr. Barbosa Gonçalves, bem como a presença do coronel Pedro Osório, senador Cassiano do Nascimento, Dr. Ildefonso Simões Lopes, e muitos outros vultos da cidade.

         Logo após o desembarque de Pinheiro Machado, formou-se extenso préstito de carros que, em cortejo, seguiu em direção ao palacete do coronel Pedro Osório, onde o político ficaria hospedado.

         Naquele mesmo dia, alguns jornalistas da imprensa local visitavam as obras das futuras instalações do Ideal-Concerto, um café-cinema, que talvez fosse, no gênero, o único do Estado.

         As obras, que iam a ritmo acelerado, eram executadas por grande número de operários, a fim de que o estabelecimento fosse inaugurado a seção de café em fevereiro daquele mesmo ano

         Segundo um dos visitantes, o Ideal-Concerto seria montado de acordo com os estabelecimentos mais importantes das grandes capitais, de modo a fazer honra à cidade de Pelotas, que se preparava para festejar seu primeiro centenário.

         O Café ficaria situado à Rua 15 de Novembro, esquina da Sete de Setembro, ocupando amplo salão, com piso de mosaico e, em derredor do qual, em piso superior, haveria uma galeria, com grades douradas e destinada exclusivamente a famílias, tendo acomodação para 18 mesas.

         A parte térrea seria para os homens e comportaria 20 mesas.

         Estas seriam algumas de mármore, outras em junco e vidro, todas de estilo moderno e artístico.

         O serviço de café, gelados, bebidas, etc., na galeria, seria feito por meio de elevadores, com a máxima presteza.

         A armação do Café, artística e obedecendo ao mais apurado gosto, estava sendo confeccionada por “hábil artista”, Sr. Quintas e seria colocada por baixo da galeria com a frente para a Rua 15 de Novembro.

         Para o refrescamento de bebidas estavam construindo grande e profundo porão.

         O aparelho que serviria para o preparo do café era o mais moderno até então conhecido e fora importado diretamente de Paris, assim como toda a louça, cristais, mobiliário, etc. Estes haviam sido encomendados na capital francesa, em Hamburgo, em Londres e em Viena.

         A exemplo do que era feito nos grandes centros, os proprietários do ideal-Concerto colocariam, à Rua sete, além da calçada, um estrado de madeira, desde a esquina até a última porta do café, sendo ali servidos ao ar livre, bebidas, gelados, etc.

         Anexas ao Café, uma luxuosa engraxataria e uma bem montada seção de confeitaria e cigarraria para bem atender ao público.Ao lado do Café, ficaria a sala de espera, para o Cinema, e a qual ofereceria todo o conforto às famílias, pelo luxo com o qual seria decorada.

         Seriam, naquele local, instalados belos espelhos, quadros, estátuas, palmeiras, etc., havendo conversadeiras [uma espécie de móvel de época] para descanso dos espectadores.

         A divisão da sala de espera com o café seria um “verdadeiro primor d’arte”.

         O Cinema ocuparia amplo salão situado à Rua 7 de Setembro, com 500 poltronas de luxo, iguais às do Theatro Sete de Abril, e mandadas vir diretamente da Áustria, havendo também 8 camarotes.

         Dariam acesso a essa seção de diversões do Ideal-Concerto três portas: uma pela Rua 7 de Setembro, outra pela sala de espera e ainda uma terceira pelo café.

         A saída dos espectadores seria por três portas à Rua Sete de Setembro.

         A ventilação seria feita por duas grandes aberturas de dois metros de altura, e em toda a largura do salão, havendo ainda espalhados por todo o prédio, aspiradores de ar e ventiladores elétricos.

         Além disso, as bandeiras de todas as portas do estabelecimento poderiam ser abertas, quando fosse necessário.



         O declive do salão seria de três por cento.

         Para projeção de filmes haveria um excelente aparelho Pathé [projetor de filmes criado por Charles Pathé], aperfeiçoadíssimo, dotado de uma lente como não havia igual no Brasil, servido por um dínamo de 108 ampéres e acionado por um motor de 22 cavalos.

         Tocaria, todas as noites, no Ideal-Concerto, um afinado quinteto, sob a regência do maestro Tagnini.

         O quinteto ocuparia a galeria, por trás do pano de projeção, podendo assim ser apreciado pelas pessoas que se encontrassem no café, ao mesmo tempo em que abrilhantaria os espetáculos.

         O repertório seria de propriedade da empresa do Ideal-Concerto e já havia sido encomendado para Buenos Aires, constando de 200 trechos escolhidos de óperas, operetas, etc.

         De dia, uma excelente pianola alegraria os habitués do estabelecimento a ser inaugurado.

         Toda a instalação elétrica seria feita pelo Sr. José Brisolara da Silva, auxiliado e orientado pelo engenheiro Dr. José Gabriel Ubatuba.

         Todas as paredes do prédio seriam lindamente decoradas por hábil artista.

         O escritório seria instalado na parte alta do prédio.

         Era diretor da seção de café o Sr. Manoel Moreira da Costa, que, por muitos anos, exercera o cargo de contínuo do Clube Comercial e que, há pouco, estivera no Rio de Janeiro, a fim de estudar a montagem dos estabelecimentos congêneres dali. Encarregou-se da direção do cinema o eletricista Sr. João Salvi.

         O Ideal-Concerto funcionaria sob a empresa Ideal.

                                                                                                                                                                                                               Continua...
        
        
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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
 Revisão do texto: Jonas Tenfen
Tratamento de imagem e postagem: Jonas Tenfen

quarta-feira, 28 de março de 2018

Praça dos Enforcados ou Praça dos Suicidas?

Praça dos Enforcados ou Praça dos Suicidas?


A.F. Monquelat

       
Detalhe do chafariz da Praça Cipriano Barcelos
       
       É cada vez mais recorrente a afirmação de que a popularmente chamada de “Praça dos enforcados” deve tal nome ao fato de ali ter sido o local onde foram enforcados escravos, e por mais de uma vez.
       Em princípio, poderíamos creditar tal afirmação ao sem número de outras lendas da cidade que carecem de fundamentação histórica. Em Pelotas, o que não se sabe e tampouco se pesquisa, se inventa. E assim, de invenção em invenção, veio a Princesa do Sul a formar o seu manancial de mitos e lendas; ou seja: uma história mitômana. História esta que não poucas vezes ocupa na fala e até mesmo na escrita, o lugar de uma história mais verossímil e mais próxima da realidade. Uma história baseada em fatos acontecidos e não em fatos inventados.
       Antes de vermos o porquê de nosso título, vejamos como nasceu a Praça Cipriano Barcelos, nome oficial da conhecida Praça dos Enforcados.

Possível origem da Praça Cipriano Barcelos

       O Jornal do Commercio em sua edição de 31 de março de 1876, publicando parte do Relatório enviado pela Câmara Municipal à Assembleia Provincial, reproduz no item PRAÇAS o seguinte: 
 
      “Sendo esta cidade muito escassa de praças públicas, como tendes ciência, seria muito conveniente que lhe concedêsseis para uma praça o terreno aquém do arroio Santa Bárbara, cuja planta já se enviou, e do qual tratamos no relatório anterior.
Assim legislando prestareis um real serviço a esta cidade e atendereis a um melhoramento palpitante [...]”.

       Cremos não haver dúvida alguma ter sido esta manifestação da Câmara de Pelotas o embrião para o surgimento da praça que, não muito depois, veio a ser a Praça Henrique d’Ávila, hoje Cipriano Barcelos. 

Nascimento da atual Praça Cipriano Barcelos

       Em sessão extraordinária ocorrida em 2 de setembro de 1880, presentes na Câmara Municipal o Sr. presidente Dr. Leopoldo e demais vereadores, foi lida a Circular do Sr. presidente da província, Henrique d’Ávila, na qual se encontrava uma cópia do ato de 25 de agosto de 1880, pelo qual fazia cessão à Câmara do terreno situado na margem esquerda do arroio Santa Bárbara, para que nele fosse instalada uma praça pública. A Câmara, tomando ciência, resolveu denominá-la de Praça Henrique d’Ávila.

O presidente Henrique d’ Ávila e a nova praça

       Sob a presidência do Dr. Leopoldo Antunes Maciel, presentes os demais vereadores, foi realizada uma sessão extraordinária em 7 de outubro de 1880, na qual foi lida a portaria da presidência da província onde esta se congratulava com a Câmara de Pelotas pelos melhoramentos do município, bem como agradecia pela prova de adesão que manifestara, denominando a nova praça pública com o seu nome.
       Ora, considerando o ano de 1876 como o pontapé inicial para o surgimento da praça, esse acontecimento por si só, caso os “inventores” pelotenses dele soubessem, bastaria para desacreditar a lenda de que ali tivesse havido enforcamento de escravos, pois desde muito antes dessa data já não havia enforcamentos em Pelotas, e, muito menos haveria em uma praça que sequer existia. Considere-se, ainda, que o último enforcamento no Brasil imperial foi o do escravo Francisco, ocorrido na cidade de Pilar, Estado de Alagoas, aos 28 dias de abril do ano de 1876.

A Henrique d’Ávila troca de nome

       Depois de submetida à ideia ao Sr. Dr. vice-intendente de trocar o nome da Praça Henrique d’Ávila para o de Praça Floriano Peixoto, aquele, após pronunciar algumas palavras “cheias de patriotismo”, declarou concordar, jubiloso, à vontade do povo.
       Da reunião de pessoas que solicitaram tal mudança, diz o Correio Mercantil de 12 de março de 1893, terem partido entusiásticos vivas à República, ao governo do estado, ao Marechal Floriano, ao Dr. Piratinino de Almeida, ao partido republicano e à cidade de Pelotas.

O início dos suicídios

       É possível, sem que tenhamos certeza, que o primeiro dos suicídios ali ocorrido tenha acontecido dia 11 de março do ano de 1920, dando assim início a uma série de outros fatos dessa natureza que acabaram determinando o apelido de Praça dos Enforcados.

Praça Cipriano de Barcelos

O suicida

       Na manhã daquele dia 11, foi encontrado pendente de uma corda em volta do pescoço, em uma árvore da “praça Marechal Floriano”, um moço de “tez morena” e bem trajado.
       A autoridade judiciária compareceu assim que alertada. Depois  de cortada a corda que o sustinha, procurou-se algum indício sobre a identidade do enforcado. Fora encontrada apenas,  em um dos bolsos, uma carta que dizia: “Pelotas, 10-03-1920. Quarta-feira, 11h30m.
       O motivo de eu dar, hoje, fim na minha existência é ter em meu corpo várias moléstias, sendo uma delas incurável, já fui desenganado por um médico, e para não viver sofrendo achei melhor terminar com a minha vida, assim peço não culpar a ninguém”.
       Em vista de não ser ele conhecido, procurou a polícia descobrir o nome do suicida, conseguindo então saber tratar-se do jovem Pedro Gonçalves da Silva, branco, solteiro, empregado no comércio e natural da República Oriental do Uruguai.
       Era ele o amparo de duas irmãs, as quais se encarregaram do sepultamento, que aconteceu às 17 horas, saindo do necrotério da Santa Casa.
       Não muito depois daquele ocorrido, Ercínio Padilha, solteiro de 33 anos, enforcou-se usando um fio de arame naquela praça.
       Para finalizarmos este artigo, sem com isto esgotar tal assunto, trazemos a matéria do jornal A Opinião Pública de 6 de novembro de 1936, confirmando nossa afirmação quanto ao número de suicídios por enforcamento na praça Cipriano Barcelos, quando nos diz que, a Praça Cipriano Barcelos, mais conhecida por “Praça do Pavão”, e que já há algum tempo fora chamada “Praça dos Enforcados”, nome que lhe veio, pelos vários suicídios nela verificados, por meio de enforcamento, foi teatro de mais um triste drama, de impressionante característica:

       Foi encontrado ali, na madrugada do dia 6 de novembro de 1936, suspenso por uma corda, o corpo de um homem, o qual, num gesto de incontido desespero, deu cabo da existência, enforcando-se.
       Verdadeira multidão rodeava o corpo do suicida, que às 7 horas, ainda continuava na mesma trágica posição em que fora encontrado.
       Soube-se, ali, que, desde as 4 horas, as autoridades haviam sido notificadas do ocorrido.
       Somente às 8h30, compareceu, ao local, o Sr. capitão César Brisolara, delegado de polícia. Com a sua presença, o corpo foi retirado da posição em que se encontrava, sendo removida para o necrotério.
       4 horas e meia durou o triste espetáculo, até que a polícia desse às caras.
       A árvore escolhida por José Severo Gonçalves, era esse o nome do suicida, para o seu trágico fim, foi uma das que ficavam situadas à margem do arroio Santa Bárbara.
       A corda utilizada por Gonçalves era feita de inúmeros fios de barbante.
       Amarrando-a num dos galhos da árvore, ele deixou cair o corpo, sofrendo o estrangulamento. A árvore era pouco alta, tanto assim que os pés do suicida tocavam na relva do canteiro.
       José Severo Gonçalves contava 32 anos, era solteiro e natural de Portugal, sendo proprietário, juntamente com o Sr. José Aires, do Restaurante Buenos Aires, localizado no Mercado Central.
       O suicida não deixou declaração alguma sobre os motivos que o levaram àquele gesto.
Trabalhara no seu restaurante, até às 3 horas da madrugada.
       Vestia com decência, no momento em que foi encontrado, segundo informava o jornalista.
O corpo foi removido para a residência de sua família, à Rua General Osório, nº 69, de onde saiu o enterro, naquele mesmo dia, às 18 horas, a cargo da Casa Lima.

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Fontes de pesquisa: CDOV-Bibliotheca Pública de Pelotas / “As praças de Pelotas e suas histórias”, Livraria Mundial, A.F. Monquelat.
Revisão do texto e postagem: Jonas Tenfen
Imagens: arquivo digital de A.F. Monquelat

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Theatro Avenida, Pelotas

 (parte 1)



                                                                                                          A.F. Monquelat





         Dentre os cinemas de Pelotas, da década de 50 em diante, o que mais esteve presente na minha vida foi, sem dúvida alguma, o Avenida.
Durante algum tempo, aquele cinema foi a minha rodoviária, aeroporto e ferrovia; e seus guichês, o local onde eu retirava as entradas para viajar pelo mundo. Foi dessa forma que conheci lugares e gente famosa. Verdadeiros astros, estrelas, mocinhos e bandidos, estes últimos, mais tarde percebi que não eram tão bandidos quanto Hollywood os fazia parecer. John Wayne, por ter matado tantos índios maus não teve lugar no meu panteão.
    Quando de sua construção, ano de 1927, o Theatro Avenida viria, segundo a imprensa, preencher uma lacuna existente naquela parte da cidade, que era a de levar um dos principais - se não o principal - entretenimento para os moradores daquela região.

    A pedra fundamental e a importância, na época, da construção do Avenida
             Aos 21 dias do mês de novembro de 1926, a imprensa noticiava que o esforçado Sr. Francisco Santos, proprietário do Theatro Apolo e arrendatário do Theatro 7 de Abril, submetera a aprovação da Diretoria de Obras da Intendência Municipal o projeto para a edificação de mais uma casa de diversões que teria o nome de Theatro Avenida, e seria situada à Avenida Bento Gonçalves.
             O futuro estabelecimento teria majestoso aspecto e obedeceria a todos os requisitos exigidos nas modernas casas daquele gênero, vindo certamente contribuir destacadamente para o embelezamento da parte da cidade a que iria servir.
             As obras do Theatro Avenida estavam a cargo do conhecido construtor Anacleto Perazzo.
             Poucos dias após aquela divulgação, dia 11 de dezembro de 1926, com a presença de um grande número de pessoas, apesar de não ter sido em caráter oficial, ocorreu o lançamento da primeira pedra para a edificação do Theatro, que a empresa Xavier & Santos mandou levantar em vasto terreno que adquirira â Avenida Bento Gonçalves esquina da Rua Paysandu [atual Barão de Santa Tecla].
              O ato, que decorreu entre o mais franco júbilo da assistência, teve como padrinhos os jovens Homero Santos e Carlos Xavier, filhos respectivamente, dos Srs. Francisco Santos e Francisco Vieira Xavier, diretores da empresa.
             Pela planta da bela construção, que esteve exposta na vitrina da Casa Americana, constatava-se ficar aquela populosa zona da cidade, atendida por casa de espetáculos de primeira linha, com o conforto moderno e nas condições indispensáveis para as pessoas que, na época, tinham de percorrer longo trecho, em busca das casas de “diversões cinematográficas”.
             Com a construção do Avenida, ficaria preenchida uma grande lacuna, graças a iniciativa da empresa Xavier & Santos.

    A inauguração da cumeeira do Avenida
             Depois de seis meses do lançamento da pedra fundamental, a empresa Xavier & Santos já pode inaugurar, dia 14 de maio de 1927, a cumeeira do majestoso Theatro Avenida, que estava construindo à Avenida Bento Gonçalves esquina da atual Barão de Santa Tecla.
             Seguindo rigorosamente o projeto, cuja planta esteve por vários meses exposta na vitrina da Casa Americana, a construção da nova casa de diversões, que assinalaria mais um passo “no progresso da cidade graças a elogiável iniciativa” da empresa Santos & Xavier, fora confiada ao hábil construtor Sr. Anacleto Perazzo, sob imediata direção do Sr. Francisco Vieira Xavier.
             Com um número, em média, de 40 operários e a conjugação de muitos esforços, podia-se após tão curto espaço de tempo, avaliar o que seria, em conforto e beleza, o belo prédio que em muito iria contribuir para o aformoseamento daquele local.
             Edificado em terreno próprio, o Theatro Avenida media 54 metros de fundo por 24 de largura, tendo o corpo do edifício 12 metros de altura.
             O palco, amplo e confortável, tem a altura de 17 metros, facilitando a subida dos cenários abertos, o que economizaria tempo e não inutilizaria o material, tem 9 metros de boca e 15 de fundo, possuindo 8 camarins de cada lado, em dois andares, servidos por escadas cômodas e completo serviço de água em cada andar; banheiros, ampla varanda para a locomoção de cenários.
             A plateia, que seria provida de ótimas poltronas, comportaria 1.600 pessoas, havendo à entrada, sob as galerias, 7 frisas de cada lado com assentos para 35 pessoas.
             As galerias, cobrindo todo o saguão e parte da plateia, com um piso de concreto, comportariam 650 espectadores comodamente sentados, ficando ao centro das galerias o aparelho cinematográfico, instalado em alemã, das fábricas Krupp, o mais aperfeiçoado no gênero.
A fachada do prédio, de belo estilo, contém 19 aberturas térreas e 9 superiores.
À esquerda ficavam as bilheterias, servidas por 3 guichês externos e 2 internos; a secretaria no segundo piso e a enorme copa, para onde e passava depois de penetrar no amplo saguão.
À direita ficava situado um guarda-bengalas, os banheiros da galeria e da plateia, independentes, toalete para mulheres, a escada de acesso para as gerais e a porta de saída destas.
         A cobertura, de zinco, repousava sobre sólido vigamento de aço encomendado à firma porto-alegrense Gustavo Hugo, este sustentado por colunas de ferro colocadas sobre sólidas bases de concreto, sendo o forro de madeira.
         O amplo saguão, que seria ornamentado moderna e discretamente, ostentava fortes colunas que seriam revestidas de fina escaiola.
         Pensava a empresa Xavier & Santos inaugurar o Theatro Avenida na segunda quinzena de unho, exibindo um grande filme.
Visitado pelo Sr. Dr. Ewbank da Câmara, diretor das Obras Públicas do município, este funcionário só teve elogios para o novo teatro, já pela competência evidenciada nessa construção, já pelo excelente serviço sanitário que ia o mesmo sendo dotado.
Comemorando o fato, a empresa ofereceu naquele sábado, 14 de maio, às 16 horas, um suculento churrasco regado a chope aos seus operários, tendo para aquele ato convidado a imprensa e grande número de pessoas amigas.
O Sr, José Inghes [Júlio José Inghes, fotógrafo pelotense] apanhou vários aspectos da agradável festa, durante a qual reinou a mais franca alegria e cordialidade.

                                                                                                                                                                                                                                                                 Continua...     
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          ___________________________________________

Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
Foto: Acervo A.F. Monquelat.
Revisão do texto e postagem: Bruna Detoni


segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A revolta dos negros Minas

parte 4 e última





         Nas cozinhas senhoriais, tanto dos palacetes quanto dos casarios, urbanos ou rurais, a preocupação das sinhazinhas era a mesma: evitar que fossem envenenadas. Tal preocupação tinha lá os seus motivos, pois, não há pouco uma família inteira fora envenenada.
         A coisa toda se passou mais ou menos assim, conforme carta enviada de Pelotas para um redator de um periódico da cidade de Rio Grande.   Segundo o remetente, dada a importância da família envolvida, a carta deveria ser divulgada nas colunas daquela folha: uma comadre do Sr. José Vieira Viana, delegado de polícia em Pelotas mandou-lhe de presente do Rio Grande um prato de camarões, que o delegado Viana mandou temperar à sua vista. Quando servido à mesa e logo após serem ingeridos, todos que deles comeram ficaram de tal maneira indispostos, que logo suporam um envenenamento.
O delegado, segundo o autor da carta, tinha a saúde demasiado débil e, em seguida lhe sobreveio uma dejecção alvina e vômitos terríveis.
A mulher do delegado Viana, que se achava em estado grave, fizera tanto esforço para vomitar que lhe saíram pela boca duas bacias de sangue. Enfim, 5 foram as pessoas da família do delegado a comerem dos “malditos camarões”, sofrendo todos de cólicas fortíssimas, acompanhadas de sintomas de envenenamento.
Dois médicos, um de nome Xavier, trataram dos doentes, que os considerou sem perigo.  
Era ainda de ser notado, segundo o missivista, o fato de que um fâmulo da família Viana ter usado a mesma vasilha para nela fazer outra comida, além do uso de outros utensílios de cozinha em que haviam servido os camarões, ficara também gravemente indisposto.
Na confusão provocada pelo incidente, ninguém teve a ideia de juntar algumas das matérias vomitadas, para que fossem submetidas a uma séria análise da natureza delas; porém, informava, isso não obstaria para que fossem empregadas as mais severas averiguações a fim de descobrir-se o autor de tão horrível atentado.
A carta encerrava informando que todos os amigos do delegado Viana, que era o mesmo que dizer toda a cidade de Pelotas, receberam com extremo pesar semelhante notícia, e davam graças a Deus por haver preservado de iminente perigo a uma família tão digna de estima de todas as pessoas honestas, e de benevolência geral.
Os viandantes ou até mesmo os tropeiros que chegavam à cidade eram vistos com desconfiança, tanto pelas autoridades quanto pela população branca, pois circulava pela cidade a informação que agentes secretos vindos do Rio da Prata estarem residindo em muitos distritos da província.
         Um tropeiro recém-chegado a Pelotas e que de lá, do Estado Oriental, viera havia dado notícia ao delegado Viana que, passando em Arroio Malo há poucos dias, ali lhe informaram que os escravos daquele município haviam se insurgido, saqueando a cidade passando para o lado dos Blancos, no sobredito Estado.
         Atendendo ao ofício enviado pelo delegado Viana no qual este pedia força policial e providências com o propósito de prender um grupo de escravos que se achavam reunidos no 2º distrito de Pelotas, mandara o tenente-coronel Serafim Ignacio dos Anjos, chefe da legião da guarda nacional, na mesma hora em que recebera o ofício, ordem para se reunirem os guardas nacionais da Costa da Serra, nos pontos de Monte Bonito e Passo do Retiro, onde amanheceram do dia 09 para 10 mais de 100 homens reunidos e bem dispostos; e que seguira, no mesmo dia, pela costa do Arroio Pelotas acima, a perguntar onde é que estava a reunião de escravos, mas que não lhe fora possível descobrir, e tampouco constava tivessem se evadido escravos das charqueadas daquela Costa, e que ali, estavam todos acautelados. Dera ele, então, as providências para que a Costa fosse patrulhada pelos moradores da mesma, ao que todos se propuseram com muita disposição.
         No distrito do Cerro da Buena, não havia movimento algum de escravos; à vista do que, fez retirar os guardas nacionais para que estes voltassem para suas casas, ficando, porém, prontos para qualquer ameaça que surgisse.
         Encerrava o ofício, dizendo estar enviando um escravo de nome João Bitencourt, apanhado no Monte Bonito Este escravo afirmava andar fugido há dois meses, e que pertencia ao grupo dos revoltosos.
         Ele, Viana, em uma de suas correspondências, dizia julgar ter sufocado o mencionado plano de insurreição, com as providências que tomara, e com os recursos da cidade: mas, a confirmarem-se aquelas suspeitas, eram esses recursos demasiado pequenos para que ficasse em segurança e tranquilidade um município em que existiam mais de 3.000 escravos, e muitos desordeiros.
         Na cadeia os açoites eram em número cada vez maiores, mas não conseguiam abafar os gritos de dor que se espalhavam pelas ruas da cidade.
         Em virtude das notícias que pela campanha se espalharam, quanto à insurreição dos escravos, o general comandante de armas Caldwel apressou sua ida de Jaguarão para Pelotas, a fim de tomar as providências que estivessem ao seu alcance, porém, quando em Pelotas e a par da situação, ficou ele convencido de que o maior barulho fora devido ao susto de que foram acometidas as autoridades policiais.
Também sobre o episódio, recebeu o redator de certo periódico rio-grandino, alguns ofícios que ele, prontamente, pôs à disposição dos leitores.
O primeiro dos ofícios divulgados pelo jornalista de Rio Grande, foi o do comandante superior interino, Sr. Thomaz José de Campos, endereçado ao sr. José Fernandes dos Santos Pereira, brigadeiro e comandante da 1ª brigada do exército e da fronteira do Chuí, no qual dizia o comandante Thomaz José de Campos, que de acordo com o ofício dirigido ao brigadeiro, pelo delegado de polícia de Pelotas, José Viana, pedindo providências  em face de haver no município de Pelotas mais de 3.000 escravos e tantos elementos de desordem pela sua posição aberta, temendo que a tentativa de insurreição referida fosse promovida por indivíduos do Estado vizinho, o Uruguai, cumpria-lhe informar que, apesar de ter estado nessa cidade e, ausente dela há 12 dias, a par agora das ocorrências e pelas ideias que já tinha a respeito, não concordava em parte com as opiniões do delegado Viana; sendo induzido a crer que as tentativas dos escravos abrangiam somente os da nação mina; e que o temor de haver aliciadores do Estado vizinho, não era bem fundado, e muito menos o da presença de elementos de desordem. Não obstante, considerava e concordava com a opinião do delegado Viana, de que o município de Pelotas reclamava uma força efetiva, segundo sua posição, a bem de policiá-lo convenientemente.
    Há quem diga que os insurgentes, se vitoriosos, e o seriam sem dúvida alguma (pois a “escravatura das xarqueadas, calejada no trabalho, endurecida na faina de matar e esfolar as boiadas, habituada a usar e destramente, a faca, o machado, os paus do serviço; vivendo em contato com os capatazes e os seus senhores, sem dúvida levaria de vencida o atrevido lance”) iriam em direção ao Rio de Janeiro e contariam com a proteção e o auxílio dos ingleses.
         Dentre outros fatos é também referido, que fora oficiado ao Dr. juiz de direito da comarca do Rio Grande, que em 14 do corrente se oficiara sobre os acontecimentos do dia 06, dos quais nenhuma informação oficial havia naquela data, e que o Presidente da província mandara por a disposição a canhoneira Caçapava.
         Deplorava o Presidente que, sendo do conhecimento das autoridades, desde princípios de janeiro, a conspiração dos negros, de tão sério acontecimento não tivessem comunicado; e, não podendo elas contar com a solução de tão grave problema, tomassem a responsabilidade dele sobre si; lamentava ainda mais que, depois de conhecido e manifestado o plano do dia 06 e, depois de superada a dificuldade, dissessem que era pouca a força simultânea de 1ª linha e de polícia, e que era necessário, além disso, armar de imediato a guarda nacional do município de Pelotas. Quanto a isso já havia ele feito de tudo o que era possível; a comarca estava armada em parte; e novas ordens expedira para continuar o armamento. E que, distando tão pouco de Pelotas à cidade do Rio Grande, podiam, em caso urgente, requisitarem mais força, inclusive à guarda nacional daquele município, que estava completamente armada.
         E assim, sem sabermos exatamente como tudo se passou, pois não conhecemos versão ampla ou contada pelo lado dos insurgentes, entendemos ser mais lógico pensarmos que a rebelião conhecida como a insurgência dos Nucas-Rapadas, não fosse a delação sofrida, vitoriosa iria em direção ao estado vizinho, a República Oriental del Uruguai, onde usufruiriam da liberdade que o império brasileiro não lhes permitia.
         E pensar que o sonho de liberdade de centenas de escravos, fossem ou não eles somente da nação Mina, deixou de se realizar por delação de três outros escravos que resolveram denunciar a conspiração por que por seus senhores sentiam grande amizade. Estes senhores sempre os trataram com cordialidade, os quais, em troca de suas insignificantes liberdades, considerado o projeto maior, não se lembraram do que aconteceria aos seus irmãos de cativeiro, que por tal infâmia foram aprisionados, açoitados e até mortos.
         Será que o negro Procópio, de nação Mina, ao qual foi dada a “liberdade de hoje para sempre”, - para que ele fosse tratar de sua vida como liberto que ficava sendo, em razão de ter seu senhor, Luiz Manoel Pinto Ribeiro, em três de março de 1848, recebido do ilustríssimo senhor José Vieira Viana, delegado de polícia desta cidade, a quantia de noventa e sete mil réis, que mandou agenciar pela alforria do dito escravo, por haver o mesmo denunciado uma insurreição que estava sendo projetada entre os negros de sua nação, aos quais denunciou e entregou àquela autoridade, que mandou prender e corrigir, pergunto novamente, será que o negro Procópio - o faria sem lembrar o que causara a seus irmãos?
         E, por verdade do expedido, e para que o dito escravo possa gozar de sua inteira liberdade, declaramos aqui hoje e para todo o sempre que:
Os cães espreitavam à entrada das charqueadas
 O barulho das correntes se ouvia fora e dentro das senzalas
As águas do Santa Bárbara corriam, lentamente, em direção ao São Gonçalo
As tias Minas, de tantos saberes, já não entoavam seus cantos
A escravidão abortara cruelmente o grito da liberdade.
                                                                                       
Revisão do texto: Jonas Tenfen
Postagem: Bruna Detoni