quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Pelotas: prostitutas e seus senhores


Combate ao consumo e tráfico de cocaína e outros entorpecentes
         O comandante do destacamento policial, Sr. tenente Dorival dos Anjos, recebendo denúncia  de que diversas pessoas estavam envolvidas na venda clandestina de cocaína, levou o fato ao conhecimento das autoridades policiais, as quais entregaram a investigação e captura dos contrabandistas ao tenente Xavier dos Anjos.
         Até dia 24 de fevereiro de 193l, em função das providências tomadas, já tinham sido ouvidas algumas pessoas, apontadas como compradoras da cocaína, sem a competente receita médica, deixando estas através de seus depoimentos, em poder da polícia, elementos para que os contraventores fossem apanhados e que, fatalmente seriam processados judicialmente.
         Aquela ação policial, no entender do jornalista, repercutira muito bem junto à comunidade.
         Na edição seguinte, voltava o Diário Popular em suas “Notas Policiais”, em matéria denominada de “A coca e as coquinhas em cena...”, dizendo que as autoridades policiais de Pelotas continuavam empenhadas na repressão enérgica e constante ao uso e à venda da cocaína bem como de qualquer outro entorpecente, tão do agrado dos bas-fond locais.
         Na delegacia de polícia, já tinham sido ouvidas diversas pessoas e registradas as fontes fornecedoras da cocaína, cujos responsáveis seriam punidos de acordo com a lei em vigor.
         Ainda no dia 24, pela manhã, Aracy Pereira, residente à Rua Gonçalves Chaves nº651, fizera declarações que em muito ajudariam a polícia naquela operação.

Na Pensão do Osmar
         No prédio de nº262, da Rua Dr. Cassiano, local conhecido como a Pensão do Osmar, viviam várias mulheres, entre elas Maria Clara Goulart, de 18 anos de idade.
         Maria Clara, desde muito, estava servindo de “máquina” [termo técnico do proxenetismo], a Manoel Cavalcante e Osvaldo Felipe da Encarnação.
         Dia 11 de junho de 1931, os dois cáftens discutiram e se engalfinharam, por causa de Maria. O policial de nº30, de serviço naquela rua, prendeu os contendores.
         Na manhã do dia seguinte, os dois proxenetas e o proprietário da referida pensão, que atendia por dois nomes, Osmar e Hugo Perret, ele também traficante de mulheres, foram apresentados ao Sr. delegado de polícia.


Canoa policial contra o jogo e o caftismo em Pelotas
         Em dezembro de 1931, a delegacia de polícia de Pelotas recebeu ordens da chefatura de polícia de Porto Alegre, para combater com toda a energia possível, a campanha contra o jogo, ao que, de imediato, o Sr. capitão Edmundo Ossuowsky, delegado de polícia, organizou uma canoa policial, chefiada por ele mesmo.
         Após uma série de batidas em diversas casas cambistas, a caravana regressou à delegacia de polícia, com várias pedras [tabuleiros que apontavam resultados de jogos], grande quantidade de bilhetes de outras loterias, que não a do Estado, centenas de listas de jogo de bicho, etc.
         A campanha, segundo o capitão Edmundo, continuaria encarniçada, atingindo ela toda a sorte de jogos, assim como se estenderia, também, a “essa chusma de indesejáveis, na maior parte proxenetas, que atualmente infestam a cidade, oriunda de países vizinhos”.

Ação conjunta contra o meretrício
Soubera o jornal A Opinião Pública, em 17 de janeiro de l932, que o Dr. Victor Russomano, subprefeito em exercício, convocaria por aqueles próximos dias, em seu gabinete, a imprensa e o Rotary Club para combinarem uma ação enérgica e conjunta contra o meretrício escandaloso nas ruas centrais da cidade.
O Sr. Cherubim Pereira de Queiroz, suplente do subprefeito do 1º distrito, em exercício, já recebera ordem para intensificar a ação policial.

Preso em Pelotas um explorador de mulheres
Noticiava o Opinião Pública, de 18 de fevereiro de 1932, que há dias a delegacia de polícia, desta cidade, recebera denúncia acerca de um indivíduo suspeito que costumava frequentar o prédio nº 305 da Rua Dr. Cassiano, residência da decaída Anita Barros, de nacionalidade uruguaia.
Acrescentava a denúncia que o aludido indivíduo tinha por hábito se ocultar num quarto aos fundos da casa, o que fazia despertar certas desconfianças.
Diante disso, a autoridade tratou de averiguar o que havia de verdade, chegando à conclusão de que se tratava de um proxeneta.
Segunda-feira última, à noite, um sargento da polícia, fazendo-se acompanhar de um civil, foi à casa de Anita.
Ali chegados, para que Anita não desconfiasse, evitando-se assim a fuga do indivíduo, o policial mandou que o seu companheiro batesse à porta. Aberta esta, logo que o civil entrou, o agente policial tratou de nela penetrar também.
Uma vez no interior da casa, o sargento dirigiu-se aos fundos, onde deparou fechada, a porta de um quarto.
Nessa dependência que Anita, à sua ordem, abriu, achava-se escondido, o mesmo ao qual se referira a denúncia.
Dada voz de prisão, foi ele conduzido ao 1º posto e apresentado ao Sr. capitão Edmundo Ossuosky, delegado de polícia.
Interrogado por esta autoridade, declarou ele chamar-se Giovanni Gurrieri, de nacionalidade italiana e ser comerciante.
Exibiu, então, diversos papéis e um passaporte do ano de 1926, das autoridades italianas, no qual lhe dava a idade de 34 anos.
Negou que exercesse o proxenetismo, dizendo que apenas vivia com Annita, como seu amante.
No dia seguinte, foi ouvida Anita Barros.
Declarou ela que há oito meses viera de Rivera, indo então para a cidade de Rio Grande, onde residira à Rua Paysandu.
Ali conheceu Giovanni Gurrieri, que era estabelecido com um pequeno restaurante. Pouco depois se tornaram amantes, dando-lhe ele, nos primeiros tempos, algum dinheiro.
Há dois ou três meses, porém, Giovanni fechara o restaurante, dizendo-lhe que o negócio ia mal.
Hospedara-se ele, então, no Hotel Sul-América, daí em diante passando a viver a custa de Anita.
Há um mês, mais ou menos, Anita transferira-se para Pelotas, indo residir à Rua Dr. Cassiano nº 305.
Giovanni, entretanto, permanecia em Rio Grande, vindo a Pelotas seguidamente para receber a féria [dinheiro ganho por Anita como prostituta], tendo ainda, naquele domingo, espancado Anita por ter esta pouco dinheiro.
Em poder de Giovanni, foi encontrada a importância de 308$ [réis], que Annita disse pertencer-lhe.
Conforme informação das autoridades de Rio Grande, o Hotel Sul-América, onde Giovanni se hospedava, era um estabelecimento de segunda categoria, procurado habitualmente por indivíduos suspeitos.
Giovanni ia ser expulso do território nacional, como “indesejável”, possivelmente no dia seguinte ao da prisão.

Rua Tiradentes, sucursal da Dr. Cassiano
Sob o título de “A Cidade”, o jornal A Opinião Pública de 31 de janeiro de 1933, reproduzia a carta de um leitor, na qual dizia este que a imprensa tinha se referido por muitas vezes a situação anormal da Rua Tiradentes, transformada em sucursal da Rua Dr. Cassiano [rua em que se encontrava as casas de prostituição].
“Nela campeava, à noite, a fina flor da nossa vagabundagem e, no meio dela, o que é estranho, alguns moços bonitos!”, que se espalha pelas pensões de meretrizes, casa de jogo (nada menos de quatro em três quadras centrais), quiosques, botequins, salões de bailes, etc., que se conservam abertos até a madrugada.
Sobretudo nas proximidades do Mercado Central, o espetáculo que se oferece ao público é degradante. Muitas famílias já têm deixado de passar ali para não ouvirem obscenidades e não suportarem os motejos dos desclassificados que perambulam naquele local, ajudados muitas vezes nesse triste mister por alguns condutores de veículos que estacionam na Praça Sete de Julho [Praça do Mercado].
Pode-se dizer que a Rua Tiradentes está dominada de ponta a ponta pelos inimigos da ordem pública!
Aproxima-se agora a época em que os pendores fuzarqueiros desses Srs. mais se acentuam. O carnaval bate-nos às portas.
Urge, pois, dar à Rua Tiradentes um policiamento eficiente, a fim de acabar com abusos, em bem do sossego público e do decoro social.
Certamente não faltam as nossas autoridades vontade para isso; bastará por em prática uma vigilância ativa e permanente naquela zona e o mal cessará.
Duas medidas se impõem para o mesmo fim: o fechamento das casas públicas à meia-noite e a proibição de bailes nas quadras onde residem famílias”.

Licenciosidades...
Um cabaré situado à Rua Sete de Setembro anunciava para a noite de 1º de fevereiro de 1934, por meio de folhetins, um baile à fantasia e outras diversões próprias de semelhante meio, dizia o jornal Opinião Pública.
Eram, segundo o jornalista, folhetins sugestivos nos dizeres e nas figuras...
À tarde, um distribuidor dos referidos folhetos andava pela Rua 15 de Novembro, em sua missão.
E teve então o repórter, oportunidade de ver que os folhetos do tal cabaré andavam não só nas mãos de homens, como até de meninas, à porta de suas casas.
Era esse um caso que o fazia meditar nas falhas da organização administrativa da cidade e em quanta falta estava fazendo, em Pelotas, uma polícia de costumes...

Tolerância criminosa
Quem, dia 7 de fevereiro de 1934, às 17h30, passasse pela Praça Piratinino de Almeida, teria tido oportunidade de assistir a uma cena verdadeiramente dolorosa e contristadora.
Uma senhora, acompanhada de um filho, já moço, fora arrancar de uma casa suspeita, existente no em torno daquela Praça, no prédio nº 56 e de propriedade de Ângela de tal, uma menor de 15 anos, filha da referida senhora, que saíra de casa, sob o pretexto de fazer compras.
A mãe, avisada de que sua filha entrara no antro mantido pela caftina Ângela, foi procurá-la e, ao vê-la dali sair, no auge do desespero, esbofeteou a filha, em plena via pública.
A cena, como é natural, provocou escândalo.
De todos os que presenciaram o fato, o comentário era um só:
- Como toleram as autoridades semelhantes antros de perdição e que impunemente exerçam as caftinas essa miserável profissão?
Essa tolerância, dizia o repórter, era realmente estranhável.
A casa de Ângela era por demais conhecida.
Há longos anos vinha sua proprietária contribuindo, nefastamente, para a desgraça alheia arrastando à prostituição, ou cooperando para isso, menores ingênuas que, muitas vezes aguilhoadas pelas dificuldades da vida, deixavam-se facilmente iludir.
E essa, como muitas outras casas desse gênero aí estavam, espalhadas pela cidade, conhecidas de todos, numa verdadeira afronta à sociedade.



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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
Revisão do texto: Jonas Tenfen

Postagem: Bruna Detoni

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Carolina de Jesus na 1ª Feira do Livro de Pelotas






A Feira e seus idealizadores
Nos primeiros dias do mês de novembro do ano de 1960, era anunciada pela imprensa local que, a exemplo de outras grandes cidades do país, Pelotas seria contemplada com a Feira do Livro. Seria a primeira no interior do estado e deveria ser instalada ainda naquele mês.
A notícia fora dada por seus idealizadores, Srs. Itamar Rezende Duarte e Gilberto Rezende Duarte, que haviam retornado de Porto Alegre, onde haviam estado tratando da realização da Feira junto ao Sr. Henrique Bertaso, presidente da Câmara Brasileira do Livro (Secção do Rio Grande do Sul) e com a Comissão Organizadora da Feira do Livro. Os idealizadores debateram com estes as possibilidades da instalação em Pelotas desse empreendimento.
Segundo declarações prestadas pelos Srs. Duarte, na ocasião, a 1ª Feira do Livro de Pelotas funcionaria no período de 25 de novembro a 4 de dezembro, no horário das 16 às 23 horas, diariamente.
Em Pelotas, o objetivo desejado, a realização da Feira, foi conseguido após a palestra dos idealizadores com o prefeito da época, Dr. João Carlos Gastal, que prometeu o apoio da prefeitura, com o padre Raul Farina e com o Instituto de Sociologia Política, dirigido pelo Dr. Mozart Russomano.

Os mais vendidos na VI Feira do Livro de Porto Alegre
Estando já na sua sexta edição, dois livros foram destaque na feira do livro de Porto Alegre no ano de inauguração da 1ª Feira do Livro de Pelotas: “Furacão sobre Cuba”, de Jean-Paul Sartre, e “Quarto de Despêjo”, da favelada Maria Carolina de Jesus, que esgotaram no segundo dia da feira.

As onze editoras participantes da 1ª Feira de Pelotas e o orador
Estiveram presentes ou representadas com bancas na Praça Coronel Pedro Osório as seguintes editoras: Livraria do Globo S.A.; Livraria Editora José Olympio; Livraria Mundial; Companhia Editora Nacional; Livraria Leonardo da Vinci; Livraria Editora Pilar S.A.; Livraria Sulina; Livraria Farroupilha S.A.; Livraria Espírita; Editora Sulina; e, Organização Mercantil de Livros.
Foi orador da feira o Dr. Mozart Russomano.
A recepção e estada de Carolina de Jesus em Pelotas
Dia 29 de novembro era divulgado que “Carolina chegará amanhã”. Sim. Carolina de Jesus, a “escritora favelada”, viria a Pelotas a fim de contribuir com sua presença para o maior sucesso da Feira do Livro.

O roteiro traçado A autora de “Quarto de Despejo”, o “maior best seller nacional da atualidade”, viria do Rio de Janeiro diretamente a Porto Alegre onde deveria chegar na tarde do dia 29 de novembro.
Na quarta-feira, dia 30, Carolina visitaria Pelotas, onde deveria chegar por volta do meio-dia.
Pela primeira vez no Rio Grande do Sul, Carolina daria uma sessão de autógrafos em Pelotas, isto porque em Porto Alegre não haveria tempo para tal atividade. Os caçadores de autógrafos pelotenses teriam assim a oportunidade de receber, em primeira mão, o livro de Carolina de Jesus autografado pela própria autora, “a preta que conhecia a favela por dentro”.

A chegada de Carolina a Pelotas vista pela imprensa
Carolina, que segundo o jornalista, você poderia confundir com a lavadeira, chegou a Pelotas com um ar calmo dando a impressão que traria dentro de si, certo tremor íntimo que a celebridade repentina lhe havia emprestado.
Desceu da limusine [nome de ônibus da época] às 9h:40 sendo recebida por editores, livreiros, autoridades, representantes do Clube Fica Aí e pessoal de imprensa, a todos cumprimentando e dirigindo uma palavra amigável.

“Como é compadre, está cansado?”
Um gaúcho típico, com aquela indumentária bem característica, ficou a observar aquele movimento todo em torno “da preta”, que na cabeça trazia um lenço com o mapa do Brasil, na cintura um adorno de Brasília, cobria-se com uma capa de chuva e nos pés usava sapatos tipo italiano, marrom com pontinhos brancos. Carolina não titubeou, apartou-se do grupo e foi estendendo a mão ao homem do campo, dizendo: “Como é compadre, está cansado? Que preguiça é essa, nem vem cumprimentar a gente, não?”


Da Rodoviária para o Hotel
Acompanhada da jornalista Elsa Heloísa, da Revista Leitura, do Rio de Janeiro, Carolina hospedou-se num apartamento do Hotel Rex, onde repousou em torno de 40 minutos, já que se mostrava disposta e não estava cansada.

Visita ao prefeito Dr. João Carlos Gastal
A entrada de Carolina na Prefeitura provocou aquela estupefação natural, semelhante, na época, a daqueles políticos famosos do passado.
Disse o repórter que acompanhou a visita que Carolina era natural e espontânea e que possuía um poder assimilativo espantoso, o que eram as características mais marcantes daquela mulher que ganhara fama de uma hora para a outra.
No gabinete do prefeito, Carolina fez pregação intensa de sua campanha antifavela e falou de seus desejos de nunca mais ver brasileiro algum crescer analfabeto.
Nessa oportunidade, o Dr. João Carlos Gastal disse que havia dispositivos legais que asseguravam a todo brasileiro a garantia de aprenderem a ler.
Carolina, de imediato, com um ar assustadiço, replicou: “Isso é pura teoria. Na prática a coisa é bem diferente”.

Um giro pela cidade e a visita à Catedral
No carro oficial da Prefeitura, Carolina deu um passeio pela cidade. Inicialmente, visitou a vila do Gasômetro, onde não se horrorizou com o que por lá viu, até porque conhecia coisa muito pior. Mesmo tendo achado o “lugar limpinho”, perguntou se ali não se geravam muitas doenças.
Do Gasômetro, foi visitar e conhecer o outro lado da moeda: “Copacabana Sêca”, que era o bairro residencial na Rua Dr. Berchon [atual Gonçalves Chaves, sentido Bento Gonçalves em direção a Dom Joaquim]. Achou ela tudo muito bonito.
A Catedral a deixou maravilhada, e ali disse ao repórter já ter lido a Bíblia quatro vezes. Falou que a pintura da cúpula sobre o altar-mor representava Elias. A seguir, reparou que os quatro evangelistas pintados por Locatelli encontravam-se escrevendo.
Depois, observando uma imagem em que São Vicente está ensinando uma criança a ler, Carolina, que era livromaníaca, voltou então a afirmar o seu ponto de vista de que era imprescindível que todo o brasileiro aprendesse a ler: “Se não a gente fica desconhecendo tanta coisa bonita e valiosa”, afirmou a escritora.

Do carro da rádio patrulha para o carro do prefeito
Quando do passeio pela cidade, Carolina, de um momento para outro, soltou uma gostosa gargalhada. Contou ao repórter que se lembrara de seu tempo de favela, quando, no máximo, o que conseguia era andar em carro de polícia (Radiopatrulha): “Agora, vejam só como estou importante, até no carro do Prefeito eu já ando”.

“Favelados são apáticos porque não têm cultura”
A conversa preferida de Carolina, - que para ir visitar o prefeito colocara um vestido azul, de bolinhas brancas, usando um colar de cristal e brincos fantasia - versava sobre favela e livros.
Contou ela ao jornalista que, certa feita, a Secretaria da Agricultura de São Paulo ofereceu aos favelados, seus vizinhos, terras para plantar, além de um pequeno crédito agrícola. Nenhum aceitou, preferindo permanecer na situação de penúria. “Eles são apáticos”, afirmou a escritora, “porque eles não têm cultura para compreenderem”.

Quanto ao casamento...
No almoço que lhe foi oferecido na Taverna do Willy, Carolina teve a oportunidade de desmentir a notícia de que estaria em vias de casar-se com um desembargador aposentado da Guanabara. Afirmou ela que o referido jurista, cujo nome não quis revelar, apenas era muito amigo seu, tendo-lhe presenteado muitos livros. Nada de casamento, porém. No entanto, disse ela, não pensassem que quando mais moça tivesse aquele aspecto, pois: “Fui bonita”.
Por outro lado, a autora de “Quarto de Despejo” afiançara que tinha obras para publicar até o ano dois mil. Afiançara também que, em direitos autorais, ganharia mais de dezessete milhões, esperando chegar à casa dos vinte milhões, quando tivesse seu livro editado nos dezoito diferentes idiomas em que seriam traduzidos seus originais.

Não bebia álcool porque poderia falar demais
Carolina comeu bem, não tendo, no entanto, tomado qualquer bebida alcoólica. Pediu uma água mineral, achando-a muito gostosa.
Revelou à reportagem que tinha músicas compostas, com letra correspondente, e que talvez viesse a gravá-las em breve: “Quem decide isso, é o meu pai-branco, o Audálio”.
Tratava-se do repórter da revista O Cruzeiro, Audálio Dantas, que fora quem descobriu Carolina e seus escritos em plena favela.

O cafezinho no Nacional, a queijadinha da Nogueira e Pelotas, onde até as malocas eram bonitinhas
Depois do almoço na Taverna do Willy, Carolina foi tomar um cafezinho no Nacional [atual Café Aquário], onde cumprimentou todos que por lá estavam. Por fim, dirigindo-se a um senhor corado, que se encontrava ali sentado, disse a escritora em voz alta: “Gostei muito disto aqui, todo mundo é robusto, corado, forte...”.
Do Nacional, Carolina foi levada até a Confeitaria Nogueira onde, Joãozinho, o relações públicas do local, desfez-se em gentilezas e ofereceu-lhe uma queijadinha. A escritora mastigou, mastigou e falou: “Não é fama, não. Os doces são bons mesmo”.
Ainda dentro da Confeitaria Nogueira, a ex-favelada revelou que, quando saíra do Rio de janeiro, amigos tinham-lhe dito que tivesse cuidado em Pelotas, porque o povo de lá era muito bairrista e vaidoso.
E eles tinham razão, acrescentou Carolina: “porque todo mundo anda tão limpinho nesta terra. Até as malocas são bonitinhas”.

“Não me sobra tempo para pensar em esportes”
Quanto às suas preferências esportivas, por este ou por aquele outro clube de futebol, replicou ela ao repórter: “Ora, meu filho, eu tenho tanto que escrever e que ler, que não me sobra tempo para andar pensando em esportes”.

“Como é que eu vou governar sem verba?”
Em visita ao presidente da câmara municipal, Sr. Wolney Vieira, Carolina disse que já lhe haviam proposto a “Prefeitura da favela”. Não iria aceitar, disse ela: pois como é que vou governar, sem verba?”. Soltando, logo após, uma gargalhada bem espraiada.

Quadrinhas e leis trabalhistas
Quando de sua visita ao prefeito e mais tarde no almoço, a ex-favelada, de 46 anos de idade, cantou suas inspirações poéticas, com uma voz lânguida. Os presentes ouviram então, Carolina dizer das desventuras do negro, das qualidades de Getúlio Vargas, que, segundo Carolina de Jesus, deveria ter sido o presidente nacional desde Cabral, e da importância das leis trabalhistas.
Disse o jornalista que Carolina em sua poesia demonstrava e manifestava um cunho social, como seus demais escritos, tendo como mote principal a favela e seus pesadelos diuturnos.

A sessão de autógrafos e a recepção no Clube Fica Aí
Dia 30 de novembro, às 14h30, Carolina instalou-se na Feira do Livro, dando autógrafos.
Ainda naquele dia, véspera de sua partida, à noite, a escritora Maria Carolina de Jesus foi recepcionada pelo Clube Cultural Fica Aí, local onde se encontravam várias autoridades representativas do município, tendo a festa decorrido em um clima bastante animado. 
O presente de Carolina ao repórter Aldyr Garcia Schlee
Durante sua estada no apartamento nº 504 do Hotel Rex, do qual Carolina teve ótima impressão e achou moderno e bastante higiênico, escreveu em seu Diário sobre o dia vivido em Pelotas, presenteando os originais ao repórter Aldyr Garcia Schlee, a quem dedicou tais impressões.

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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
Foto: Acervo da Livraria Mundial. 
Revisão do texto: Jonas Tenfen
Postagem: Bruna Detoni

sábado, 28 de outubro de 2017

Pelotas: prostitutas e seus senhores (3)


                                                                      A.F.Monquelat




Prisão do “souteneur” polonês Eduardo Sommastre
         Sob a denominação de “cruzada de saneamento social” que passou a ocorrer na cidade, resultado das denúncias feitas em primeira mão pelo jornal A Opinião Pública foi que ocorreu a primeira prisão de um cáften, o polonês Eduardo Sommastre.
         A prisão aconteceu graças a hábil condução feita pelo Sr. delegado de polícia, coronel Otacílio Fernandes, a partir da denúncia feita pela prostituta Adenita Deniz, que cansada dos maus tratos que o delinquente explorador de hetairas lhe infringia, além de constantemente exigir-lhe dinheiro, resolveu denunciá-lo à polícia.
         De posse das informações prestadas pela decaída, pode o delegado Otacílio usar o estratagema do “sapo inchado”, expressão da gíria malandra daquela época, que era utilizada pela polícia para prender criminosos.
         Dia 5 de gosto de 1929, a vítima do cafetão, que assustada vivia até então escondida, devidamente instruída pela autoridade que pretendia prender em flagrante Eduardo, fato muito difícil de ser executado em se tratando de proxenetismo, ligou desde a Pensão Réne, localizada à Rua Felix da Cunha nº157, ligou para o hotel Vulcão de Napoli, onde estava hospedado o souteneur, chamando-o para se reconciliarem.
         Eduardo, mais do que depressa correu à Pensão René e, já no quarto de Adenita foi logo aceitando as explicações que esta lhe ia dando, instruída que fora pelo delegado para fazê-lo abrir-se, e assim permitir que fosse dado o flagrante no cáften polonês, que foi preso no ato.
          Segundo o jornalista, Sommastre iria naturalmente ser deportado.
         E o foi, pois dia 7 de agosto era anunciada pela imprensa a expulsão de dois “cafifas” que, segundo declarações prestadas pelo Sr. Otacílio Fernandes, delegado judiciário do município, seriam eles deportados, por trem, com destino a Argentina.
         Tratava-se dos poloneses Eduardo Sommastre e Jack Sanches, nomes que deixaram inscritos nos cadastros da polícia e que há não muito haviam aportado em Pelotas, passando desde então a extorquirem dinheiro de mulheres hospedadas na “Pensão Réne”.     
 
Proxenetismo e entorpecentes
Em matéria veiculada na edição de 9 de agosto de 1929, o jornal A Opinião Pública mais uma vez chamava a atenção das autoridades competentes para as práticas de bas-fond [área de uma cidade marcada pela prostituição] que, como efervescências dos grandes centros, estavam sendo transplantadas para esta cidade, por elementos indesejáveis e “sórdidos cuspidos da maré cinzenta do fluxo e refluxo do humano oceano de outras civilizações...”
Apontava então, o indecoroso e criminoso espetáculo das escravas brancas, dizendo que o proxenetismo vestia-se não somente de retalhos e farrapos imundos, como também de seda e finas pedrarias...
Forçoso era convir que o grito de alarma já produzisse seu efeito, em parte, pelo menos, pois que, há bem poucos dias, o Sr. delegado de polícia efetuara a prisão de um daqueles “repelentes” indivíduos, seguida por certo, da competente deportação.
Nova prisão acrescentava o jornalista, efetuara-se vinte e quatro horas mais tarde.
Queria dizer ele com isso, que o jornal não exagerara e nem errara quando aludira à presença, nesta cidade, de personagens dadas à prática do proxenetismo, quase que a olhos vistos.
Porém, a campanha que o jornal encetara não deveria terminar ainda; antes pelo contrário; aproveitando-se da boa vontade das autoridades locais, clamava por novas investigações nos meios suspeitos, onde se descortinariam, talvez, episódios mais sombrios ainda, como o processo de conquista do “pó da ilusão”, o delicioso veneno branco [alusão à cocaína?], entorpecente maligno, que ao proxeneta proporcionava a recompensa polpuda...
O jornal aguardaria, para o caso, a ação da polícia, na objetivação de uma campanha tenaz.
Ressaltamos aqui um episódio ocorrido às 9h30 do dia 19 de janeiro de 1928, que nos faz crer que o “pó da ilusão” já era bastante difundido antes do ano de 1929, pois a mulher Isabel Lopes, conhecida por Belinha, moradora à Rua Voluntários, depois de ingerir a “sua costumeira dose de cocaína”, dirigiu-se ao corredor do Ernesto, à Rua 13 de Maio [atual Princesa Isabel], nº302 A, onde promoveu grossa baderna, tentando arrombar a porta de um dos quartos do local, que acabou penetrando, pulando a janela, a procura de seu ex amante..
Passando no momento pelo local o guarda nº4 do 1º posto, que foi chamado para conter a desordem, tendo Belinha desrespeitado o policial, que acabou levando-a para o xadrez, onde ela “acalmou um pouco os efeitos do tóxico”.

A expulsão dos indesejáveis cáftens

Voltava o jornal  A Opinião Pública, em 12 de agosto de 1929, desta vez apontando as falhas da polícia que, na sua repressão ao caftismo estava empregando todos os esforços, que o jornal reconhecia como um ato elogiável.
Havia, entretanto, um ponto a que o jornal queria em especial se referir.
Tratava-se da expulsão dos indesejáveis caftens, que não era feita com a precisa segurança, pois, os indivíduos expulsos já se encontravam novamente no seio da sociedade pelotense e, naturalmente, continuando com a sua sanha criminosa.
Por isso, segundo o autor da matéria, não deveria a polícia, ao expulsar esses indivíduos, deixá-los no Fragata ou nas estações próximas como estava fazendo.
A repressão precisava ser a mais enérgica.
Era a defesa da moralidade social, a qual, dizia o jornalista, não podia estar a jogo, entregue às mãos daqueles indivíduos repelentes que mereciam o franco repúdio.

Cáften preso
O tenente-coronel delegado de polícia prendeu dia 20 de agosto de 1929, à noite, um conhecido cáften de nome Alfredo Boris, que, além de ser cáften, não trazia consigo documento algum de sua procedência.

Toma-se ópio em Pelotas?
         Sob este título, o Diário Popular de 8 de dezembro de 1929, em sua coluna denominada “O que se passa na cidade”, noticiava que Jacqueline, “embalada”, dera entrada na Santa Casa.
         O motivo, segundo o jornal, era que, em uma pensão [prostíbulo] “chic”, por aborrecimento ou vício a Jacqueline, cantora do Dancing Pigalle, situado à Rua Sete de Setembro, ao recolher-se ao cotorro [pequeno quarto], ingerira 15 cms. de ópio.
         Isso bastou para que Jacqueline ferrasse no sono e fosse bater com os costados na Santa Casa.
         Ali estava ela, no quarto nº 1, ainda sob a ação “extravagante do terrível tóxico”.
         Onde Jacqueline obtivera o ópio? – indagava o jornalista.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                Continua...
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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
Revisão do texto: Jonas Tenfen

Postagem: Bruna Detoni

sábado, 21 de outubro de 2017

Pelotas: prostitutas e seus senhores (2)





         Dia 9 daquele mês, segundo o boletim de ocorrências do 3º posto, fora recolhida à prisão Ângela Rodrigues, moradora à Praça Piratinino de Almeida. À reportagem do O Dia procurando saber do que se tratava, na delegacia de polícia, foi-lhe informado que a famosa caftina fora detida para averiguações.
         O jornal, sabendo que se tratava de caso deveras interessante, que daria margem à autoridade para agir eficazmente, já que era suficiente para constituir prova incontestável de que Ângela estava fora da lei, e a sua permanência em Pelotas bem como a de outras criminosas, constituía um verdadeiro atentado à moral.
         Que é que iria acontecer ou já acontecera? Indagava e também respondia o jornalista: Ângela voltaria a praticar o seu comércio, repelente e miserável, sem que, nem ao menos o representante da justiça tivesse conhecimento do fato para uma ação enérgica, em defesa da sociedade.
         Mas para que insistir? Se o fizesse era muito capaz de Ângela encontrar uma pena de aluguel, que castigasse a insolência e fosse ela depois instalar, à porta do seu negócio, alguma placa de parteira...
         A repercussão do editorial sobre o caftismo em Pelotas, segundo o jornalista, calara fundo no espírito público, o que era representado claramente nas manifestações de apoio que eram feitas, de viva voz ao jornal, por conceituados representantes da sociedade.
         De fato, acrescentava o editorialista, era para pasmar que a polícia local, de posse das provas esmagadoras de que o lenocínio se estava exercendo livremente -conhecedora que era das figuras sinistras que o praticavam, “umas gordachudas pretas envelhecidas no vício e na alcovitice”- tolerasse o indecoroso tráfico e deixasse livre os seus repugnantes industriais.
         Só com uma descrição sucinta, documentada por flagrantes, que para a reportagem do O Dia seria fácil colher, se demonstraria o que de sinistro ocorria na lama de Pelotas, nos seus oblíquos desvãos.
         Evitava o jornal, porém, tais detalhes, pois o respeito próprio lhe impunha o mais absoluto silêncio em torno das práticas do caftismo. O que não passava despercebido, contudo, eram os exemplos que eram públicos e para os quais se olhava não com rubor nas faces, mas com pena, diante de dezenas e dezenas de criaturas impúberes, já envelhecidas pelo meretrício.
         E a quem se devia tal desgraça? Aos traficantes da honra, aos proxenetas que infestavam a cidade, aos malandros que viviam à custa de velhas hetairas, e se encarregavam de serem os intermediários dos D. Juans da alcova junto das indefesas criaturas candidatas à prostituição.
         E a polícia conhecia os tristes personagens aos quais se aludia o jornal . Tanto os conhecia que, periodicamente os chamava a sua presença para adverti-los.

Uma garçoniére de polacas, na zona do meretrício
         Com o título “Vida fácil e pagamento difícil”, o jornal Diário Popular informava aos seus leitores que, dia 23 de abril de 1929, estivera na subintendência, danada e vociferante, a polaca Eugênia. Esta mantinha uma humilde garçoniére [lugar destinado a encontros amorosos: matadouro] à Rua Dr. Cassiano, nº272.
         Eugênia, revoltada, disse cobras e lagartos de suas inquilinas e patrícias Cecília e Marta, as quais não pagavam a hospedagem e, também, não pretendiam abandonar o local.
         Segundo o jornal, Marta e Cecília não queriam outra vida.
         Sob o título de “O comércio de escravas brancas em ebulição”, lembrava o jornal A Opinião Pública de 12 de julho de 1929 que, a campanha de saneamento moral que aquele jornal dera início, chamando a urgente atenção da polícia para o torpe comércio do proxenetismo que desgraçadamente ia tomando vulto, tinha o jornal, através daquela edição novos aspectos do problema da repressão, que seriam convenientemente abordados sob a segura e ativa ação da reportagem daquele periódico.
         O sucesso alcançado pela campanha iniciada pelo jornal incentivava-o a incrementá-la ainda mais.
         Na véspera daquela reportagem recebera o jornal uma carta, assinada por alguém que se denominou de “João Observador”, cujo teor era o seguinte: “A campanha iniciada contra o torpe comércio de escravas brancas é merecedora de fervorosos aplausos”.
         Aqui em Pelotas, centro relativamente pequeno, já é extenso o número de indesejáveis que se dedicam à vil exploração, extorquindo o vicioso dinheiro das infelizes decaídas.
         A cidadania, porém, quer e exige, por parte da autoridade competente, uma campanha enérgica e eficaz de saneamento social.
         É preciso que nós, os pelotenses, extirpemos o terrível cancro, enquanto o mal está se ensaiando entre nós.
         Outro assunto, que pode ser anexado ao presente comentário, é o da necessária proibição de frequência de menores em casas suspeitas.
         Como era fácil de deduzir-se, a cruzada de saneamento social que o jornal desencadeara atingia uma verdadeira aspiração coletiva no civilizado núcleo social em que viviam.

O êxodo do proxenetismo visto pelo A Opinião Pública
         Porto Alegre, que era o paraíso dos exploradores de profissionais “beautés” [profissionais da beleza: prostitutas] estava, na época, sendo aliviada do torpe comércio, à proporção que a polícia empreendia uma necessária e enérgica campanha de repressão.
         Não se tratava agora de um combate simulado, mas sim de uma ação eficaz que obrigasse a camorra [alusão à antiga associação criminosa de Nápoles] ignóbil dos proxenetas a fazer as malas e buscarem lugares mais amenos.
         Foi assim que Pelotas, de súbito, se viu infestada por um exército de cáftens, que aqui se radicava e desfrutava a suavidade de um ambiente onde a polícia, ao parecer do jornalista, ignorava a existência daquele clandestino e nocivo comércio.
         Entretanto, aquela era uma verdade incontestável, os “souteneurs” aqui domiciliados, afastados que foram pela repressão que se estabelecera contra eles na capital do estado, em Pelotas já podiam ser apontados a dedo.
         Encerrando a matéria, dizia o periódico que no interesse de prosseguir na útil cruzada, aquele jornal movimentaria a sua equipe de reportagem, apresentando os elementos que deveriam urgentemente ser deportados.
         E, enquanto o jornal pedia a imediata ação da polícia contra os cáftens, cada vez mais presentes no cotidiano da cidade, algumas famílias chamavam a atenção, através de carta dirigida à imprensa, para as imoralidades praticadas pelas prostitutas nas ruas ocupadas por estas, principalmente na Dr. Cassiano, entre Andrade Neves e General Vitorino [Anchieta], e Voluntários, entre Felix da Cunha e Gonçalves Chaves. Segundo os reclamantes, se entregavam elas a toda a sorte de excessos, provocando, diariamente, escândalos públicos, que ofendiam o pudor das famílias que eram, por aqueles trechos, obrigadas a passar.
         Especialmente à noite, até tardias horas, o espetáculo que apresentavam aquelas áreas era deveras deprimente “da nossa civilização e afrontoso às próprias autoridades”.
         Até há pouco, diziam os autores da denúncia e reivindicação, a Rua Dr. Cassiano era policiada à noite, sendo que naqueles últimos dias haviam retirado o policial que ali rondava, sem que eles entendessem o motivo.
         Não somente cobravam, e com urgência, que o policiamento fosse restabelecido, bem como fosse ele estendido à Rua Voluntários no trecho por eles indicado, a bem da moralidade pública, sem falarem na Rua Três de Fevereiro [Major Cícero], cujo trânsito há muito estava impedido às famílias, por motivos ainda mais sérios e graves       .

                                                                                              Continua...
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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
Revisão do texto: Jonas Tenfen
Postagem: Bruna Detoni

sábado, 14 de outubro de 2017

Pelotas: prostitutas e seus senhores (1)






         Diz-nos Yvette Trochon, referindo-se ao tráfico de brancas para o Brasil, que nas últimas décadas do século XIX desciam dos navios não mais escravos negros, e sim as moças europeias – a “carne blanca” – que vinham para engrossarem as fileiras do já velho meretrício brasileiro.
         Dez anos depois da chegada das meretrizes europeias ao Brasil, iniciou a substituição da prostituição doméstica, instituição agregada à sociedade patriarcal, pelo meretrício urbano e estrangeiro, que vinha quase sempre acompanhado do proxenetismo profissional, fenômeno novo na vida do país.
         Ainda ancorados em Yvette que, ao citar Gilberto Freire, diz-nos que essas europeias, na maioria das vezes, substituíram as nativas como iniciadoras sexuais dos jovens brasileiros.
         Essas moças que no Brasil aportavam vinham dos mais diversos países da Europa, sendo que os portos de embarque mais utilizados, segundo Trochon eram os de Odessa, Marselha e Nápoles, mesmo sendo habitual que muitas dessas  estrangeiras procedessem de Buenos Aires, que operava como um mercado distribuidor de prostitutas para toda a América do Sul.
         Disse certa vez uma antiga meretriz de São Paulo que muitas daquelas “polacas” que no meretrício paulista ingressavam não vinham diretamente do Velho Continente, e sim que a grande maioria delas vinha da Argentina, porque lá a mulher com mais de 25 anos, tinha dificuldade de ganhar a vida como prostituta. Os argentinos gostavam de mulheres jovens, já os brasileiros não, eram mais conservadores.
         Durante muito tempo, a antonomásia de polaca, empregada pela imprensa de Pelotas toda vez que esta se referia à prisão de uma ou outra prostituta, em especial nas primeiras décadas do século vinte, me chamava a atenção do porquê de por tal apelido serem elas conhecidas.
         Inicialmente, achei que era por serem muito brancas e com cabelos claros ou até mesmo louros. Posteriormente e por ocasião de um texto que produzi, denominado de O projeto de branqueamento das charqueadas pelotenses, achei que eram essas mulheres, vez por outra citadas nas colunas policiais, remanescentes de famílias polonesas para cá trazidas para o trabalho nas charqueadas. Depois, relendo a obra de Yvette Trochon, que eu havia adquirido em Montevidéu em 2006, entendi que não, ou pelo menos é o que me parece, ainda hoje.
         A partir desse meu novo olhar, e influenciado ainda pela obra do Aldyr Garcia Schlee, Contos da vida difícil, ficou tudo muito claro: Pelotas, a exemplo de outras cidades, ainda que em menores proporções, esteve entre a rota internacional dos cafetões responsáveis pelo famoso tráfico de escravas brancas, e que neste trabalho os denominarei de senhores das prostitutas.
         No entanto, é preciso ressaltar que embora Pelotas de um momento para outro se visse empestada por uma quantidade enorme de gigolôs, não esteve diretamente incluída na rota internacional do tráfico de “escravas brancas”, pois esta rota, pelo menos no Brasil, tinha como alvo apenas algumas capitais.
         Aquele fenômeno, que dera início em Pelotas no ano de 1929, foi consequência da varredura que as autoridades policiais de Porto Alegre desencadearam contra os barões da “carne branca” que lá existiam, perturbando a ordem e atentando contra a moral e os bons costumes.
         É importante salientar que o ano de 1929 não foi pioneiro em inaugurar a presença expressiva de cafetinas e cafetões em Pelotas, pois, já no ano de 1906, no mês de março, o subchefe de polícia, Sr. coronel Cristóvão José dos Santos, deu início ao que a imprensa, na época, denominou de “campanha moralizadora”, cujo propósito era extirpar do meio social o “horrível cancro do caftismo”.
         Dizia, então, um jornalista que em Pelotas, como no Rio de Janeiro e em todas as cidades populosas, as velhas hetairas, já impossibilitadas de comerciarem seus corpos, por velhice, e os rufiões [proxenetas] sevandijas [seres desprezíveis] entregavam-se ao abominável comércio de mulheres jovens que, incautas ou de “índole fraca e pervertida, se deixavam levar à perdição total e ao vício”.
         Entretanto, aquela autoridade que vinha observando, há algum tempo, aquele movimento e comércio na cidade, resolvera pelo menos diminuí-lo, através de uma enérgica repressão àquela ilícita atividade, dizia o jornalista.
         Que não lhe doessem às mãos naquele meritório trabalho, pois bem certo era que, com o extermínio de cáftens e caftinas, faria com que diminuísse a lista de infelizes e exploradas prostitutas.
         Na matéria seguinte, dia 10 de março daquele mesmo ano, como resultado da ação desenvolvida pelo Sr. coronel Cristóvão José dos Santos, era noticiado terem sido presos e recolhidos ao xadrez do 3º posto as famigeradas e temíveis caftinas Avelina Dutra, moradora à Rua 3 de Maio; Isabel Dias, Rua Dr. Miguel Barcelos; Joaquina Machado, Rua Marechal Deodoro; Epomina dos Santos Coimbra, Rua Marechal Deodoro;  Maria das Dores Cunha, Rua Tiradentes; Eliza Balarine, Rua Tiradentes [ex restaurante da célebre Catarina Cuniga, a qual, segundo o jornal: felizmente já longe desta terra].
         Outras velhas alcoviteiras haviam fugido, bem como uns indivíduos que vilipendiavam o próprio sexo e também serviam de alcoviteiros.
         Essas miseráveis criaturas, dizia o jornalista, deveriam ficar sob as vistas do Dr. promotor público, tendo em consideração que o delito cometido por elas estava previsto nos artigos 277 e 278 do código penal, que estipulava penas de 1 a 2 anos de prisão e multa de 1.000$000.
         O Sr. coronel Cristóvão daria aos cáftens de ambos os sexos a punição merecida dentro da esfera de suas atribuições, estando disposto a deportar aqueles que reincidissem naquele crime.
         Três dias depois da prisão dos cáftens e caftinas, foram estes soltos sob a condição expressa de não prosseguirem mais naquela “infame profissão”. A polícia judiciária exerceria rigorosa vigilância.
         Era, também, ao final da notícia dito que havia sido presa outra caftina, Maria da Conceição, vulgo Baianinha.
         Desde aquela operação   contra o caftismo, desencadeada em 1906, até o ano de 1916,  não encontramos nenhuma outra cruzada registrada pela imprensa. Não estamos com isso pretendendo dizer que a exploração de mulheres tenha cessado, e sim, que tal prática deve ter ficado em níveis que as autoridades não tivessem de tomar providências.
         Já no ano de 1916, o editorial do jornal O Dia de 10 de outubro de 1916, chamava a atenção para o caftismo em Pelotas, que estava progredindo a passos largos graças à inépcia da polícia, cujas ações não passavam do limite banal de ouvir queixas, todos os dias, a toda hora.
         E sabia-se que uma indústria progredia, quando se via os produtos desta disseminados no mercado e entregue ao largo consumo público.
         O produto do repulsivo comércio do caftismo era o meretrício vivo, que pela cidade se exibia com representantes de menos de 15 anos de idade, e que tinham iniciado seus passos de vício e infelicidade passando nos antros fétidos das muitas megeras que tinham oficina montada com o propósito de desenvolver a prostituição.
         Bastava que um canalha qualquer se enamorasse de uma infeliz, cuja inexperiência estava em razão direta da sua falta de educação e de outros maus elementos de família e de sociedade, e a sua desonra era comprada à caftina, a preço estipulado.
         Era uma miséria, mas era uma verdade, ainda mais que aquilo tudo ocorria sem que a polícia tomasse providência alguma.
         Não há muito, o jornal Opinião Pública fizera denúncia em volta de um caso de sedução e defloramento, citando a casa da “preta” asquerosa onde o crime se havia consumado.
         E o que fizera a polícia? Nada, absolutamente nada, afirmava o jornalista.
         Era espantoso.
                                                                                              Continua...
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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
Revisão do texto: Jonas Tenfen

Postagem: Bruna Detoni