segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A Várzea e suas histórias

        


         Antes de dar continuidade a este trabalho, é preciso destacar que diversos outros pontos de Pelotas tiveram várzeas, por exemplo: a Várzea do Retiro, a Várzea do Pepino, a Várzea da Luz... No decorrer dos anos e tendo elas diminuído ou sumido, deixou a imprensa de fazer referência a elas quando das enxurradas, permanecendo apenas a denominação para a zona do porto da cidade, um dos locais mais repletos de história, desde a sua ocupação.
         Apesar de ser a entrada de Pelotas por via marítima e fluvial, a Várzea vivia a clamar dos governantes um melhor tratamento do que o descaso e a desconsideração que sempre recebera, mesmo em épocas de sua opulência comercial e industrial.
         A qualquer enxurrada,  já estava a Várzea inundada por vastos lençóis de água, como se já não bastasse o sofrimento daquela população com o elevado número de mortes por epidemias, assassinatos, roubos, brigas, assaltos e miséria.
         Não fossem suficientes todos os senões que a Várzea sofria, foi ela, nos primeiros dias de janeiro de 1894, assombrada por um Lobisomem, que  a noite aparecia embuçado em amplo lençol, e que, dando uivos e roncos, investia contra os transeuntes,  alguns dos quais, pegos de surpresa e cheios de pavor, se deixavam despojar pelo Lobisomem espertalhão.
         Conhecido o caso, segundo os jornais da época, a crendice prontamente fantasiou-lhe uma existência estranha, supondo-o uma dessas criações com que a imaginação popular povoava as noites da idade média, e que sob o nome de lobisomem era o terror de gente crédula daquele tempo.
         A autoridade, porém, que era doutro tempo, não se conformando com aquilo, mandou dia 8 de janeiro alguns praças da guarda municipal averiguarem o fato. Constataram que o tal lobisomem não passava de um patife, que durante o dia ocultava-se em uma espécie de alçapão donde fugiu logo que pressentiu os praças, escondendo-se nos potreiros que iam ter à charqueada do Sr. coronel Pedro Osório.
         Assim, pois, tendo sido descoberto o embuste, ninguém mais deveria ter receio, tendo em vista que ele não passava de um “lobisomem Fritz-maquizado” e que qualquer dia cairia em mãos da polícia.
            No dia seguinte, voltavam os jornais, adicionando à notícia anterior e com vistas à polícia, que não era um, mas sim dois os lobisomens gatunos que andavam alarmando a população da Várzea, e, aos quais, alguns patuscos criaram uma tradição de atos miraculosos, que estavam sendo aceitos pela crendice popular.
         Segundo informações obtidas por um daqueles jornais, os dois “lobisomens” da Várzea eram um pardo e “um preto” que residiam à Rua Santo Inácio [atual Gomes Carneiro], onde se ocultavam durante o dia, saindo à noite, para suas “explorações”.
         Afirmava o jornal que aqueles indivíduos eram os autores de vários roubos praticados naquelas imediações, entre os quais os de que haviam sido vítimas os Srs. Generoso Alves Branco, Sayão Lobato, Francisco de Souza Bravo e João Laudem.
         Assim, pois, aí ficava o fio da meada, pelo qual a autoridade poderia prestar um bom serviço ao público trancafiando na cadeia aqueles dois patifes, que não passavam de reles gatunos e que de lobisomens nada possuíam.
         Outra dificuldade, que tanto os moradores quanto os comerciantes da Várzea sempre tiveram, diz respeito ao transporte coletivo. Tanto que no final do século XIX ,fizeram esses uma solicitação à companhia dos bondes para que esta ampliasse o horário do último bonde, que era às 20 horas, para mais tarde, pois as pessoas que moravam naquele extremo se viam obrigadas a voltarem mais cedo do Centro da cidade, para não terem de fazer aquele trajeto a pé.

A tragédia das lavadeiras do São Gonçalo

         Pouco ou quase nada até hoje sabemos de outras lavadeiras que não as do Arroio Santa Bárbara. No entanto, e infelizmente através de uma tragédia ocorrida com duas delas, acabamos tomando conhecimento de outro local onde havia grande concentração dessas mulheres, que faziam de tal atividade um complemento da renda doméstica ou até mesmo a própria renda.
         Nas proximidades da estação do Ramal, margem esquerda do canal São Gonçalo, havia uma área, denominada de Prainha, que era muito usada pelas lavadeiras das redondezas.
         Naquele local, já haviam morrido diversas pessoas. Desde a manhã do dia 8 de fevereiro de 1905, quando ali estavam umas doze ou mais lavadeiras na lida diária de suas atividades, a tragédia começou a dar sinal de sua presença: entre estas se encontrava Marieta Moreira, crioula, de 20 anos, mais ou menos e que, por volta das 9 horas, descuidando-se, caiu na água e logo submergiu.
         Em uma das vezes que voltava à tona da água, foi salva por sua companheira Prudência da Silva.
         A tragédia continuava rondando o reduto das lavadeiras do São Gonçalo, até que, por volta das 2 horas da tarde, o crioulinho João, de 12 anos de idade, tomava banho no local, quando, perdendo o pé, se afogou.
         A mãe, Luzia, e Ana Joaquina, que lavavam na beira do canal, tão logo pressentiram a tragédia, levadas pelo mesmo impulso, jogaram-se na água, na tentativa de salvar o menino.
         Infelizmente, seus esforços não lograram êxito, pois, na tentativa de socorrem João, que se afogava, não avaliando o perigo ao qual se expunham, e, dentro de poucos instantes eram tragadas pela água.
         Foi naquele momento que Cipriano Silveira Duarte, crioulo, empregado da barraca Thonsen & Cia., num impulso de bondade e coragem, atirou-se à água.
         Tardiamente chegou ele ao local do sinistro, só lhe sendo possível salvar o menino, causa da dupla desgraça.
         Mais tarde, o Sr. Bernardino Barcelos, auxiliado por pessoal do Ramal [terminal da linha férrea da Southern no porto] e alguns catraieiros [tripulantes, também chamados de barqueiros, ou os proprietários de uma catraia, ou de qualquer embarcação de pequeno porte, movida a remo ou a vela], retirou do São Gonçalo o corpo de Luzia, a mãe de João, que ainda apresentava sinais de vida.
         Entretanto, inúteis foram os esforços para fazê-la voltar a si.
         Luzia era casada, ficando seu filho, que chorava desesperadamente, cercado das atenções de suas companheiras, que o entregaram ao pai.
         O corpo foi removido para a Santa Casa.
         Quanto a outra afogada, foi ela, mais tarde retirada da água, e levada ao necrotério da Santa Casa.

Jacarés apavoram a zona da Várzea 
        O primeiro registro do aparecimento de um jacaré na zona da Várzea, ocorreu dia 20 de fevereiro de 1906, às 4 horas da tarde, na chácara do Sr. Bernardo Monteiro, à Rua São Francisco [atual Rua Princesa Isabel], fundos da fábrica de sabão e velas do Sr. F. B. Borraz, quando, capineiros que ali trabalhavam encontraram em uma sanga um jacaré.
         O animal foi perseguido e morto. Media metro e meio de comprido e possuía aguçada serrilha na cabeça e lombo.
         Outro registro foi o ocorrido no final de março do ano de 1954, quando Eurico Guerra e Gerson Pereira capturaram, próximo a ponte, um enorme jacaré após uma série de peripécias, medindo este 2.10 metros de comprimento.
         O enorme sáurio, depois de imobilizado, foi manietado.
         Após todas as dificuldades encontradas, os dois responsáveis pela captura ataram o jacaré na capota da camioneta, que deixaram estacionada à Rua Álvaro Chaves, esquina Rua Uruguai, onde residia Eurico Guerra.
         Aconteceu que, embora aparentemente imobilizado, o jacaré lutava desesperadamente por sua liberdade. E, assim, já altas horas da madrugada, após usar por muito tempo os seus afiados dentes nas cordas que o prendiam, libertou-se e, fugindo do alto da camioneta, saiu arrastando-se pela via pública...
         Várias quadras distante da frente da casa de Eurico, local onde se encontrava preso, um transeunte teve inesperada e desagradável surpresa quando, em uma esquina, topou-se cara a cara com o jacaré, que he mostrou longos e agudos dentes em atitude pouco cordial.
         Aos gritos do transeunte, acorreram outras pessoas ao local e, em poucos minutos, ninguém mais dormia naquelas imediações.
         “Olha o jacaré! Olha o jacaré!” – este era o grito dominante. E, enquanto o jacaré, indiferente à gritaria e à massa humana, continuava a se arrastar em direção ao porto, um dos presentes teve a ideia de telefonar para a polícia.
         As autoridades policiais compareceram ao local. Diversos policiais da Brigada Militar, munidos de cordas, com o auxílio de outras pessoas, conseguiram, depois de várias tentativas, laçar outra vez o animal, que, novamente manietado, voltou para o mesmo lugar, sobre a camioneta, de onde escapara em busca da liberdade.

O pão-duro do Beco da Praça da Alfândega  
       No final dos anos trinta do século XX vivia, miseravelmente, em um cortiço localizado no beco nº8 da Praça Domingos Rodrigues, também conhecida por Praça da Alfândega ou Pracinha do Porto, um indivíduo de nacionalidade portuguesa.
         Salvador R. de Sá, o morador do cortiço, tinha 70 anos de idade, fora tanoeiro e era parcialmente cego.
         Os vizinhos de Salvador, todos operários, já estavam acostumados com ele. Viam-no sempre sujo, sebento e julgavam-no paupérrimo.
         Acometido, provavelmente, por erisipela e tendo a doença se agravado dado à falta de higiene e, em consequência da moléstia exalar um cheiro fétido, os vizinhos se distanciaram do indesejável morador.
         A doença se agravou e os padecimentos também, o que levou Salvador a ficar acamado.
         Não havendo quem dele se aproximasse passava ele fome e apodrecia vivo.
         Uns dias depois, contudo, um menor apiedou-se de Salvador e lhe levou um pouco de alimento.
         Como a situação piorasse, a vizinhança apelou para a polícia, pedindo a esta que retirasse Salvador do cortiço.
         Naquele mesmo dia, compareceu ao local o inspetor Rubens Pereira Dias, acompanhado pelo cabo Benício Braga e por representantes da imprensa.
         De chegada, o inspetor abriu a porta do cortiço de Salvador, e aquele cheiro nauseabundo espalhou-se. Os presentes tiveram um momento de indecisão, pois em cima de um velho catre, no qual se viam alguns sacos de estopa, um vulto de gente vivia em adiantado estado de podridão.
         Os policiais, contudo, vencendo a repugnância, penetraram no cortiço e falaram com o homem.
         Salvador disse ser sócio remido da Beneficência Portuguesa, declarando a seguir que possuía algum dinheiro na Caixa Econômica e que estava inquieto por esse dinheiro.
         De fato, tal como dissera o miserável, pouco depois a polícia encontrava uma caderneta da Caixa Econômica com a quantia de 6:340$000 e uma latinha contendo a importância de 160$000 em dinheiro.
         Sabedora de que o “pão- duro” do cortiço da Praça era sócio remido da Beneficência, a polícia chamou o carro Ambulância para transportar Salvador ao hospital daquela instituição.
         Com surpresa, porém, foi cientificada de que os dois automóveis da assistência estavam em conserto e que, portanto, não poderiam atender ao chamado.
         Nesse meio tempo, a Beneficência, avisada, mandou um auto de praça para transportar o enfermo. Entretanto, o chofer do carro ao ver o estado asqueroso do paciente a ser transportado, negou-se a levá-lo para o hospital, alegando que Salvador lhe ia sujar o carro.
         Dessa forma, Salvador ainda esperou até tarde da noite, quando finalmente apareceu a Ambulância para transportá-lo.
         A imprensa, que acompanhara o caso desde a parte da manhã, denunciou em suas páginas a falta de higiene do beco, que era muito grande, pois este, além de ser formado por cubículos imundos, possuía ainda uma cocheira da qual exalava forte mau cheiro e uma instalação sanitária em ruínas.
         Histórias como estas, e outras centenas, fazem parte da linha do tempo da Várzea, pois é esta uma região com muitas e muitas histórias para contar. São poucas as linhas para descrever tantos mistérios de histórias da Várzea.
         Histórias essas que pretendo narrar com mais especificidade em momento futuro.


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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas-CDOV
Revisão do texto: Jonas Tenfen

Postagem: Bruna Detoni

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Uma infância sem bairro








         “Andando pela Rua Osório no sentido-bairro-centro, se é que deveria chamar de bairro o local onde morava, pois, sua cidade era a cidade onde quase todos os habitantes se diziam moradores do Centro, por mais longe que dele distassem, o que fazia dela a cidade com o maior centro territorial do estado, quiçá, do mundo. Reflexo da antiga e falida opulência ou falta de melhor planejamento urbano? De qualquer forma, a pobreza do comércio local era evidenciada pela proliferação das lojas do Um e Noventa e Nove”.
         Ao reler este texto, publicado em 1997 como parte integrante do livro Maiêutica, fiquei a refletir sobre o bairro onde nasci o que me daria a oportunidade de falar sobre ele. No entanto, ao tentar recuperar aquele tempo, uma espécie de em busca do tempo vivido, me deparei com algo que até então eu não percebia: tive uma infância sem bairro.
         Naqueles e durante longo tempo mais, não se morava em bairros, e sim, lá nas Três Vendas, lá no Areal, lá no Porto, lá no Fragata e por aí a fora...  e, tanto era pra fora, que a chácara do Dr. Chiquinho, que ficava confronte a casa onde nasci, era onde é hoje o Hospital de Clínicas de Pelotas, Rua Marechal Deodoro, entre as Ruas Dr. Amarante e Padre Felício.
         Quase tudo que se precisava, era preciso ir ao Centro para adquirir, mas isso era tarefa para os adultos. Às crianças restava aguardar ansiosamente uma oportunidade, e, aí então ouvir: “Hoje tu vais ao Centro com a mãe”, ou “hoje o pai vai te levar no cinema do Centro”.
         Nas férias escolares, não durante todo o período, a expectativa era grande quanto à casa de quem passaríamos uns dias. As opções não eram muitas, de vez em quando uma ida ao Laranjal, de caminhão. Este pertencia a alguém, que dele fazia, em um que outro domingo, uma espécie de “Excursão para o Laranjal”. E lá iam as pessoas, sentadas em tábuas que eram postas na carroceria, com intervalos entre uma e outra. Punha-se ali, em um canto da carroceria algumas coisas, incluindo uma boia que era uma câmara de ar de pneu de automóvel ou de caminhão. Saía-se muito cedo, era uma viagem longa ou pelo menos muito demorada, e cheia de imprevistos.
         Voltando então para as férias, passava-as dividido entre a chácara de uma tia, a leitaria de um tio ou na casa da minha avó, locais esses que hoje eu diria ficarem os dois primeiros no Areal, e a casa da minha avó na Castilhos, que naquele tempo se dizia que ficava lá na Vila Castilhos, 1ª entrada. Essa referência de 1ª entrada era importante, pois dava certo status ao local. Morar antes dos trilhos ou depois dos trilhos do trem, lá na Vila Castilhos, fazia diferença. De qualquer forma, quando alguém fazia algum frege ou esculhambação pelas ruas, as pessoas logo diziam: “só podem ser lá da Castilhos”.
         A cidade, depois de um tempo começou a ser dividida em distritos, mas as referências continuaram a ser por locais, tipo: “nas imediações da ponte de pedra” ou senão “próximo à ponte de madeira”. Era assim que a imprensa se referia e que as pessoas se localizavam: próximo a cacimba do mato (que ficava na Rua 3 de Maio esquina Liberdade [atual João Pessoa], no Beco da Muquirana (Rua 7 de Abril -atual D. Pedro II- entre as Ruas Gonçalves Chaves e Santa Cruz]), Beco da Fumaça (era um corredor localizado na Avenida Vinte de Setembro nº464, pouco além do Cemitério), perto da olaria tal, no popular Cortiço do Francês Grande [Rua Marechal Deodoro entre Avenida Bento Gonçalves e General Argolo], próximo ao Sobrado Azul, no Beco do Pimpão (localizado na Rua Dr. Urbano Garcia), depois da igrejinha da Luz... e tantos e tantos outro locais que serviram por décadas como pontos de referência.  
         O tempo passou, mas as referências continuaram: ali pros lados do Forno do Lixo, na Curva da Morte, adiante do Entreposto, antes da Chácara dos Padres, logo adiante do Cinema Apolo, ou do Avenida, ou do Fragata, ou do Esmeralda, na descida do Guarany, “ah, isso fica passando o Cemitério” ou então, adiante do campo do Bancário.
         - Vamos jogar futebol.
         - Aonde vai ser?
         -Lá no campo do Oriental.
         O campo do Oriental ficava nas imediações da Cohabpel, que ainda não existia para servir de moradia ou referência.
         Um dos meus tios, irmão de meu pai, tinha banca na Feira da Avenida.  Duas por três, eu era companheiro dele pra ir aos matadouros da Avenida Argentina, que depois mudou de nome para Avenida Fernando Osório, em direção às terras Altas, apanhar derivados do porco e carne. Íamos de madrugada. Da charrete de meu tio, eu ia avistando os operários das fábricas de conservas, todos de branco. Aquela visão era um verdadeiro contraste com o resto da paisagem. Eram filas e filas de operários, quase que mulheres em sua maioria, todas de branco a exceção das botas, que eram pretas.
         Durante o trajeto o tio costumava indicar e comentar sobre os locais, inclusive um que outro que as pessoas acreditavam serem mal-assombrado.
         Certa feita, a curiosidade me levou a mais uma aventura. Consistia esta em atravessar a cidade, a pé, pois eu não tinha bicicleta e as bicicletas eram caras, e ir até a zona das fábricas: de óleo, linhaça, papel e, talvez, outras que não lembro quais eram, se é que eram. Lá, uma região inteiramente nova, com imagens bem diferentes das que eu até então conhecia e a câmera fotográfica que a minha mente registrara.
         Um daqueles registros guardados no arquivo da minha idade era quanto à surpresa e admiração ao ver, em um lado de uma daquelas ruas, algumas casas, de madeira, cujas paredes externas estavam revestidas com latas de óleo, abertas e esticadas, pregadas lado a lado, formando uma espécie de mural multicolorido.
         Fiquei deslumbrado com aquela visão. Verdadeiro contraste ao que representavam aquelas fábricas. Refletiam aquelas paredes, de lata, o mundo de miséria que as fábricas gestavam, e que eu, naquele olhar, ainda sob o fascínio daquelas multicoloridas paredes, não conseguia enxergar.
         Por certo que por detrás daquelas paredes viviam operários com suas famílias, mas ainda era uma existência digna, sem miséria. As latas enferrujaram e as casas desapareceram. Nada foi preservado. Tudo foi literalmente tombado, pois afinal eram apenas casas de gente simples, gente do povo, de pessoas que não foram homenageadas com nomes de ruas, bustos ou praças.
         Desse tempo pra cá, a cidade mudou e muito. Surgiram novas divisões e outras referências. Mas, pelo menos até bem pouco tempo, as pessoas continuavam dizendo que moravam no Centro, e assim colocavam nos seus endereços para correspondência. Nunca ouvi até hoje alguém dizer que morava na Várzea, não sei se por força do hábito de dizer que morava no Centro, ou vergonha de dizerem: “Eu moro na Várzea”.
         Como eu nasci e me criei na Rua Marechal Deodoro, também conhecida como Rua do Canalete, entre as ruas Dr. Amarante e Padre Felício, e não se morava em bairros porque esses ainda não haviam sido batizados, sigo sem saber se aquele local era Centro ou Zona Norte, bem como, continuo até hoje com a sensação de que tive uma infância sem bairro.



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Revisão do texto: Jonas Tenfen
Postagem: Bruna Detoni 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Pelotas dos Excluídos (Vol.2) Parte 2
                                                                           A.F. Monquelat


1889

 A varíola hospeda-se em um cortiço da cidade
   O Sr. Dr. Vicente Cypriano da Maia, médico nomeado pelo partido, dirigiu à Câmara municipal de Pelotas o seguinte ofício: “Em resposta ao ofício de V. Sªs. datado de 19 de fevereiro de 1889, cumpre-me informar à ilustríssima municipalidade, que não grassa epidemicamente a varíola nesta cidade.
   Cumprindo o que me foi determinado no mesmo ofício, dirigi-me imediatamente à Praça da Constituição [atual Cipriano Barcelos], a fim de verificar quais e quantos doentes existem ali, atacados do vírus varioloso.
    Ainda desta vez, como se evidencia, a origem do flagelo nos foi importada.
   José Gonçalves, português, recentemente aqui chegado, foi hospedar-se em casa de José Fernandes, num cortiço situado à Praça da Constituição.
   Três dias após sua chegada, José Gonçalves foi atacado da varíola, a qual seguiu a marcha regular, restabelecendo-se o enfermo completamente, sob os cuidados médicos do ilustrado clínico Sr. Dr. Alves Requião.
   Alguns dias depois, dois filhos de seu hóspede foram atacados do mesmo mal, José de 4 anos de idade, que restabeleceu-se, e Conceição de 2 anos, que faleceu.
   O tratamento das duas crianças foi dirigido pelo mesmo facultativo.
   No mesmo cortiço, outro indivíduo contraiu o mal; é este o menino Arnaldo de 7 anos de idade, filho de Ramão Lopes da Silva, o qual está sendo medicado pelo ilustrado facultativo Dr. Francisco de P. Amarante, assegurando-me este colega que o pai do seu doentinho também tivera a varíola descrita.
    O menino Arnaldo acha-se em boas condições de curabilidade.
   No hospital da Beneficência Portuguesa, também existe um doente com a mesma afecção, segundo as informações ministradas pelos ilustrados Srs. Drs. barão dos Santos Abreu e Joaquim Rasgado.
   Na clínica domiciliária não existe mais doente algum afetado da referida como se dignaram de atestar os [...].
   As medidas sanitárias a propor à ilustre municipalidade, para impedir a propagação do mal, devem consistir principalmente no isolamento daquele cortiço, onde começou a mesma moléstia, e na desinfecção do mesmo pelos meios antissépticos, medidas estas que desde ontem já foram postas em prática, segundo as instruções do ilustre presidente desta municipalidade, mandando colocar uma guarda na entrada do cortiço onde só permanecerá o bexiguento e os pais que lhes servem de enfermeiros.
   Arbitraram-se em 40$ as despesas a fazerem-se com o tratamento do doentinho, para medicamentos, dieta e serviços de enfermeiro, visto tratar-se uma família extremamente pobre.
   Resta-me agora tratar da vacina.
   Foi mal informado o ilustre redator do Diário de Pelotas, pois apesar da rebeldia dos pais em apresentarem seus filhos ao vacinador, para serem vacinados e revacinados, não me tenho descuidado em inocular num maior número de indivíduos possível, o poderoso antídoto, estando sempre à disposição da população nos domingos numa das salas do edifício municipal e nos dias úteis em meu consultório.
    Aí estão os mapas apresentados à municipalidade que provam exuberantemente o que afirmo.
   Não há muitos dias que forneci ao distinto vereador Dr. Gervásio Alves Pereira excelente linfa vacínica, da que tenho em meu poder, assegurando-me o ilustre médico ter ela produzido ótimo resultado em crianças de sua clínica.
   Ultimamente tenho experimentado a vacina cultivada no Rio de Janeiro pelo Dr. Pedro Afonso Franco e, infelizmente, das três remessas vindas por intermédio da casa do Sr. Eduardo Sequeira nenhuma me deu resultado satisfatório.
   Novo pedido fizemos para a Europa e Rio de Janeiro a fim de podermos ter sempre linfa nova.
   É quanto me cabe informar à ilustríssima câmara municipal. [...]”.
   Daí o Sr. delegado de polícia acompanhado de escrivão e o alferes da seção policial terem se dirigido dia 24 de fevereiro ao Capão do Leão a revistarem os cortiços lá existentes “repletos de vagabundos”.
   Segundo o jornalista do jornal A Pátria, o serviço foi tão bem feito, que em menos de duas horas os cantadores de violão dispersaram-se em procura de emprego, e outros foram presos e recolhidos à cadeia civil.
  Ao que parece, os moradores daquele lugar, em agradecimento, felicitaram as autoridades pela limpeza.

E a limpeza continuou
   O Sr. delegado e subdelegados percorreram dia 26 de fevereiro alguns cortiços da cidade no “louvável” intuito de compelirem os vagabundos a tomar “ocupação honesta”.
   Naquele “benéfico propósito as dignas” autoridades se fizeram acompanhar pelos alferes e praças da seção policial.

Caso necessário, abaixo os cortiços
   A câmara municipal de Pelotas em 6ª e última sessão realizada em março de 1889, sob a presidência do Sr. Dr. Artur Maciel e presentes os Srs. vereadores Dr. Antônio Soares Dias Viana, Marins, Lúcio Lopes e Dr. Assumpção, iniciou seus trabalhos com a leitura e aprovação da ata da sessão anterior, na qual o Sr. presidente  dava conta das providências que tomara para a alimentação dos imigrantes, e sobre a higiene da cidade, pedindo a aprovação dos atos que praticou.
   O Sr. Dr. Assumpção, louvando as providências do Sr. presidente, aprovando-as propôs que a câmara pedisse o auxílio da polícia para proibir que os imigrantes andassem pelas ruas da cidade esmolando a caridade pública, quando tudo lhes era fornecido com a “maior generosidade”.
   O Sr. presidente fez considerações, demonstrando que a polícia nada podia fazer a esse respeito, e que o corretivo estava na população não estimular a vadiagem dando esmolas a quem delas não necessitava. O que foi aprovado, assim como louvadas, foram as providências tomadas pelo Sr. presidente.
   Presente o médico de partido e delegado da higiene, Sr. Dr. Maia, o Sr. presidente declarou que se tornava necessário providências higiênicas para que não se propagasse a febre amarela, introduzida na província pela imigração ultimamente vinda do Rio de Janeiro.
   O Sr. Dr. Maia declarou que o que mais necessitava a cidade de Pelotas para a sua salubridade eram os esgotos. Declarou também que os cortiços eram também um foco de infecção, que cumpria fazer desaparecer demolindo aqueles que não possuíssem as condições higiênicas.
   A câmara, depois das considerações de vários Srs. vereadores, autorizou ao Sr. delegado da higiene pública a fazer a sua custa as despesas necessárias para a demolição ou despejo dos cortiços que ele julgasse conveniente, e de outras medidas em relação à saúde pública.
   Foi também nomeada uma comissão composta pelos Srs. Lúcio Lopes, Marins e Assumpção para, tendo às suas ordens o fiscal geral, fazer visitas sanitárias e auxiliar o delegado da higiene pública.

                                                                                              Continua...

Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública Pelotense-CDOV
Revisão do texto & Postagem: Jonas Tenfen

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Pelotas dos Excluídos (Vol.2) Parte 1



A.F. Monquelat


       

Tratamos aqui, neste segundo volume do Pelotas dos excluídos (subsídios para uma história do cotidiano), de dar continuidade ao nosso projeto de levar ao conhecimento do leitor alguns fatos ocorridos na Princesa do Sul e que, até então, não haviam merecido a atenção da história tradicional.
  Em nosso trabalho anterior, enfocamos os fatos ocorridos entre os anos de 1875 a 1888, encerrando assim, ainda que de forma fragmentada, um período da história de uma cidade forjada na força do trabalho escravo.
 A partir de agora terá o leitor em suas mãos um novo período, terá também a oportunidade de ver e avaliar o que mudou se é que algo mudou na vida de nossos personagens, os excluídos da história e, principalmente do negro que a partir de 13 de maio tornara-se livre.  
Segundo o Onze de Junho de 15 de maio de 1888, em Pelotas, ao ter se conhecimento de que havia passado em terceira discussão, no Senado, o projeto abolindo a escravidão no Brasil, o Sr. Dr. Piratinino de Almeida dirigiu-se à charqueada do Sr. José Bento de Campos Filho e, reunindo os contratados daquele estabelecimento, fez-lhes a comunicação em um “eloquente e tocante discurso” que daquela data em diante eram livres, estimulando-os “à prática do bem, a fim de que se tornassem cidadãos úteis a si e a sociedade”.
Logo após, o Sr. José Bento de Campos declarou-lhes que os seus serviços, em seu estabelecimento, seriam remunerados e que ali não havia mais senhor nem escravos. 
Revela-nos ainda a matéria que o contentamento que se apossou dos contratados, ao receberem a notícia, foi indizível e muitos deles o manifestaram pelas lágrimas silenciosas que derramaram.
Na charqueada do Sr. Ataliba Borges, o Senhor Machado procedeu da mesma maneira para com os contratados daquele estabelecimento.
Entendia o jornalista do Onze de Junho que, além de justo, os Srs. industrialistas da cidade deveriam seguir o exemplo “daqueles cavalheiros”, a fim de evitar que os especuladores tentassem transviar do “caminho do dever” aqueles que acabavam de receber o “batismo da liberdade”.
Ora, o Dr. Piratinino de Almeida em seu discurso pediu aos contratados que a partir de então praticassem o bem, para que assim se tornassem cidadãos úteis “a si e a sociedade”; já o jornalista do Onze pedia aos industrialistas da cidade que seguissem o exemplo, com o propósito de evitar que os especuladores tentassem desencaminhar “do caminho do dever” aos que acabavam de se tornarem livres. Em breves palavras, pode ser interpretado da seguinte forma: para o Dr. Piratinino de Almeida, de descendência escravocrata, a partir da liberdade é que o negro poderia e deveria ser útil a sociedade, desde que praticasse o bem. Para o jornalista, a preocupação era que os industrialistas cuidassem para que os que acabavam de receber “o batismo da liberdade” não fossem desencaminhados do “caminho do dever”, ou seja, que continuassem trabalhando, e percorressem o caminho “do bem”.
  E quanto aos ex-senhores de escravos, e grande parte da sociedade, que comportamento deveria ter para com aqueles?
     Que o leitor tire suas conclusões.

1888


Dia quatro de junho de 1888, por volta das 16.30h, um soldado da seção policial tentando prender “um preto”, cujo nome o jornalista do Onze de Junho ignorava, recebeu alguns murros que o fizeram rebolcar no meio da rua com a sua gloriosa espada.
O policial sob o terrível impacto “dos formidáveis punhos do preto, tendo uma lágrima em cada face”, foi procurar o seu comandante, o sargento Cardim, e relatou-lhe o ocorrido.
Ele, o valente, cheio de “meiguices, afeminado”, reuniu a tropa e ordenou que um dos seus beleguins [beleguim: agente policial cruel, violento] fosse com o soldado vitimado prender o insolente que se atrevera a erguer a mão para maltratá-lo... Afinal espancar um de seus comandados era maltratar a si, sargento insigne e único.
O soldado-vítima seguiu com o seu companheiro e, ao chegar ao local do pugilato, acharam mais prudente retrogradar porque viram entre as pessoas que ali se encontravam reunidas alguns cacetes empunhados por indivíduos possantes e acostumados ao manejo de tão terrível arma.
No quartel, o sargento formou novamente a tropa e, à frente dela, impávido, tendo nos lábios um riso de desdém e indiferença, seguiu para o lugar da farsa.
O povo começava a reunir-se instigado pela curiosidade, e o sargento Cardim, de espada em punho, investiu seguido de seus valentes, prendendo um pardo que estava em companhia de dois soldados de linha.
Algumas pessoas protestaram contra aquela prisão ilegal, vendo-se o sargento obrigado a por em liberdade o preso.
- “Enganei-me!”, bradou o comandante corado e ofegante.
- Mal feito fora, pois se ele é zanaga [estrábico]! – gritou um garoto que ali estava e que soltando gostosas gargalhadas fitava o rosto do pigmeu-sargento.
Para terminar a farsa, o herói da polícia dirigiu-se para o quartel, de espada em punho, apressado, como se estivesse disposto a arrasar tudo.
O povo seguiu de longe, temendo a ira do D. Quixote policial.
Ali chegando, amainou-se a cólera do valente sargento ao contato refrigerante de dois ou três goles de água fria.
E assim terminou a farsa...
E conclui o jornalista: “Miséria das misérias!”.  

Ilegalidade policial


O Diário de Pelotas de oito de outubro de 1888 informava aos seus leitores que, por meio insuspeito e merecedor de crédito, chegara ao conhecimento daquele jornal uma irregularidade cometida pela polícia da cidade, que parecia querer secundar [repetir] o procedimento do célebre delegado-palmatória, que daria ao negro fóbico Coelho Bastos [que não conseguimos saber de quem se trata] um excelente rapa-coco de ex-escravos.
Era o caso que estando, dia sete dançando alguns libertos em casa de João André Cardoso da Silva, às 2.30h da madrugada, bateram à porta alguns soldados de polícia pública e vários membros da polícia particular, comandados pelo Sr. Vicente Ribeiro, subdelegado de polícia que, apontando uma pistola que levava, declarou estarem presas todas as pessoas presentes.
Estas se entregaram sem resistir, porque com tais Argos [personagem da mitologia grega] insistir equivaleria a fazer jus a algumas alfinetadas pelo lombo, aplicadas pela ferrugenta durindana [nome da espada de Rolando, herói da Chanson de Roland e outras histórias] daqueles bravos.
Saindo 25 pessoas, calculadamente, para a prisão, acompanhados dos valentes, apenas chegaram ao quartel umas dez, porque as outras preferiram pagar os 2$500 réis que a autoridade lhes exigiu pela sua liberdade.
O pretexto apresentado pelo Sr. Vicente Ribeiro para efetuar semelhante prisão foi que não havia licença tirada na polícia para aquele baile.
Acrescentava o jornalista ser simplesmente... muita ingenuidade; pois acaso ignorava o Sr. Vicente Ribeiro que depois da lei de 13 de Maio não havia mais escravos?
E que por isso tanto podia dar um baile um comendador como um liberto.
Acaso pretenderia S. Senhoria ignorar que a polícia não podia exigir que se lhe pedisse licença para dar um baile particular?
Seria o máximo da ignorância, se não soubesse que era o interesse que falava mais alto e que parecia não conformar-se com “a gloriosa” lei de 13 de Maio, que viera secar na polícia uma de suas mais fecundas fontes de receita.
Em todo o caso, concluía o jornalista, cumpria ele o dever ao registrar aquele ilegal procedimento do Sr. Vicente Ribeiro sobre quem deveriam recair as “bênçãos dos benéficos proventos policiais”; encerrando com as seguintes palavras: “Liberdade! Liberdade!”. 

Furto e ferimento


Tendo o proprietário de uma taverna à Rua Santo Antônio [atual Miguel Barcelos] surpreendendo “um preto” a furtar diversos objetos em sua casa de negócio tentou prender o “preto”, sendo por este agredido.
Para ver-se livre do agressor, o taverneiro acabou ferindo-o levemente. 

Bravuras da polícia


Dia 12 de dezembro de 1888, às 20.00h, a população da cidade foi alarmada pelos repetidos apitos de três praças de polícia que corriam espavoridos pela Rua São Miguel [15 de Novembro], com os chanfalhos [espadas dos guardas municipais e dos agentes de polícia] desembainhados.
Ninguém sabia o que tinha ocasionado aquele barulho, pois os policiais só diziam: “Fugiu! Fugiu!...”.
De repente, pararam em frente a umas obras e declararam às pessoas que ali se aglomeravam em grande número, que tinha sido um indivíduo que entrou no jardim da Praça Pedro II [Pedro Osório], sem licença... e que, ao receber a ordem de prisão, evadira-se.
O fato, porém, dera-se da seguinte maneira:
Um cidadão, decentemente vestido, mas negro, ao sentar-se a uma das mesas do jardim da Praça pediu que lhe servissem uma cerveja, ao que um dos caixeiros [garçom] do Sr. Antônio Scotto, proprietário do estabelecimento, recusou-se a fazê-lo.
Aquele cidadão, negro, julgando-se ofendido com a recusa, trocou algumas palavras com o caixeiro, tendo este exigido o auxílio da polícia. Esta prontamente aparecendo deu voz de prisão ao aludido cidadão negro, porém já de espada em punho e descarregando-lhe alguns golpes, de um dos quais resultou um ferimento de alguma gravidade.
Foi então que o ofendido negro tratou de evadir-se, e daí a grande algazarra provocada pelo arreganho da polícia.
Diante de tal acontecimento, o jornalista do Diário de Pelotas, indignado, diz que se fosse algum gatuno ou algum criminoso de morte, talvez a polícia não se prestasse com tanta solicitude. Mas, tratava-se de um cidadão indefeso, e, por isso, a polícia demonstrara cabalmente o seu comportamento belicoso.
E acrescenta: “É sempre assim, e vamos muito bem”.
Considerando a escassez de jornais deste ano no acervo da Biblioteca Pública Pelotense, não nos foi possível trazer maior quantidade de fatos ocorridos nos primeiros meses da abolição.

Continua...


Fonte de Pesquisa: CDOV - Bibliotheca Pública Pelotense
Revisão do Texto e Publicação: Jonas Tenfen
Tratamento de Imagem: Marília Bas

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Fantasmas, lobisomens e casas assombradas (parte 2 e final)



         Dando prosseguimento às declarações prestadas pela Sra. Figueiredo à imprensa, disse ela também:
         - que no terceiro dia, sábado, começara o apedrejamento ao escurecer, isso era, às 19h30 mais ou menos, sendo sua casa alvejada barbaramente por verdadeira chuva de pedras, até às 2 horas da madrugada;
         - que domingo, indo até o quintal de sua casa buscar uma caneca de água, viu Guilherme Hossel, sapateiro da casa Kruger, do quintal do armazém de Ely arremessar algumas pedras, fugindo logo a seguir;
         - que Guilherme, conversando com Emílio Miller, em voz alta, de maneira que ela pudesse escutar a conversa, ridicularizou o fato do apedrejamento, atribuindo, ironicamente, o acontecido à alma do pai dela, José Marques de Figueiredo;
         - que, dali, ele se dirigiu ao restaurante de João Tavares, vulgo “João Mocotó”, e lá, referindo-se ao episódio do apedrejamento, do qual ele era um dos responsáveis, disse que para a senhorita Conceição Figueiredo não reservava uma pedra e sim o facão que, naquele momento, mostrou;
         - que em sua casa, contígua ao prédio, Hossel narrou à sua mãe a brincadeira de mau gosto, em termos tais que aquela senhora, cujo nome era Alberta Hossel, foi à porta da rua para insultar as suas vizinhas;
         - que. às 23 horas, Hossel novamente insultou a família Figueiredo, ao passar em direção ao armazém, aonde iria se encontrar com o seu incomparável amigo Emílio Miller;
         - que, ao que parecia, depois da descoberta feita pela senhorita Conceição, cessara o apedrejamento da casa de sua família;
         - que a ação prejudicial de Hossel, no entanto, continuara, pois na véspera fora encontrado um bilhete de Guilherme Hossel, assinado com o pseudônimo pelo qual era conhecido, Willy, e dirigido à senhorita Conceição Figueiredo, avisando-a de que não passasse pela sapataria onde ele trabalhava, à Avenida bento Gonçalves, esquina da Rua General Osório, sob pena de ser esbofeteada;
         - que aquele bilhete fora lido por muitos vizinhos da família Figueiredo, e rasgado num acesso de raiva pelo Sr. Armando Neto, cunhado dessa senhorita.
         A senhorita Conceição Marques de Figueiredo levou à redação de um dos jornais da cidade duas enormes pedras, pesando cada uma mais ou menos dois quilos.
         Essas pedras, dizia o redator do jornal, tinham toda a aparência de pedras comuns e, pelo exame, ainda que superficial por ele feito, não pareceram serem pedras de outro mundo, pois ele quase poderia jurar que eram tijolos com restos de concreto.


         Dizia o jornalista também, não ter ele conhecimento até então de outro caso semelhante àquele, já célebre, caso ocorrido no Rio de Janeiro, cujas pedras eram comestíveis, nem tampouco outro caso sensacional, misterioso e tão complicado.
         Entendia o jornalista que tudo não passava de brincadeira de mau gosto e se o fato, bem analisado fosse, não sobraria pedra sobre pedra, caso não tivesse ele em sua mesa de trabalho as pedras, que ali ficavam à disposição do público, em cujo sapato lamentava não poder colocá-las, para intrigá-lo.
         No dia posterior ao da reportagem sobre a casa “assombrada”, o que fez aumentar, e muito, a venda avulsa do jornal, tinha o jornalista a informar aos leitores, que o prédio nº91 da Avenida Bento Gonçalves, em que residia a família Figueiredo, continuava sob o império... da bruxaria.
         Cerradas cargas de pedra haviam sido arremessadas até às duas horas da madrugada daquele dia...
         Dissemos, e aqui repetimos, que o fenômeno das casas apedrejadas, pelo menos em Pelotas, foi, e durante mais de um século fato comum e bastante expressivo. Como exemplo disso, trazemos aqui um  ocorrido no mês de fevereiro do ano de 1935, acontecimento que levou o jornalista a dizer para os seus leitores que, por vezes se verificavam coisas que embora não tivesse nada de sobrenatural, revestiam-se de tais circunstâncias, que faziam reviver em nossa imaginação velhas histórias de assombrações, tão do  agrado de certos criadores de novelas.
         Uma casa apedrejada não era um fato inédito, ao contrário, vários desses casos tinham sido verificados, todos ele, encontrando, por fim, uma explicação que nada tinha de coisa do outro mundo.
         Esses apedrejamentos eram, em geral, ocorrências noturnas.
         O caso que ele se propunha a narrar, no entanto, apresentava uma singularidade: era em plena luz do dia que as pedras “choviam”.
         Foi por isso que a reportagem do jornal, informada daquela ocorrência, dirigiu-se imediatamente ao local do mistério, procurando ouvir os habitantes e vizinhos da casa “assombrada”, o que lhes permitiu relatar que: há cerca de dois anos residia à Vila São Francisco, situada à Avenida vinte de Setembro [hoje Duque de Caxias], defronte ao cemitério, a viúva Bernardina da Silva Calaman.
         Era uma pequena casa de madeira sob nº145, onde, com a viúva moravam suas três filhas, duas já moças e uma de 4 anos, mais ou menos.
         Pouco aquém da casa de Bernardina, no nº143, morava com a família o Sr. João Rocha, empregado no cemitério.
         Tanto a família de Bernardina quanto a de João Rocha, não mantinham relações com vizinho algum.
         Uns cinco dias antes da visita dos jornalistas, até aquele momento, começara a casa da viúva a ser, dia e noite, apedrejada.
         Como era natural, o fato preocupou a vizinhança que, durante o dia acorria à casa alvejada pelas pedras, no intuito de observar de onde as pedras provinham; entretanto, nada conseguiam descobrir.
         Na presença de todos, à plena luz solar, as pedras, algumas de grande porte, continuavam a cair sobre a casa.
         No dia anterior, uma das filhas de Bernardina fora atingida por três pedras.
         O fato, porém, foi além: desde dois dias antes daquele, também a casa do Sr. João Rosa, que morava aquém da casa “assombrada”, vinha sofrendo violento apedrejamento.
         Durante a visita da reportagem, teve esta a oportunidade de ver cair na casa do Sr. João Rocha uma pedra de cerca de 10 centímetros de diâmetro.
         Em vista de ter o fato continuado e do perigo que corriam os habitantes das casas atingidas pelas pedras, especialmente as crianças, resolveram as vítimas levar o fato ao conhecimento da subprefeitura.
         Foram imediatamente tomadas providências por parte daquela repartição, que destacou alguns soldados do policiamento, para observarem o local.
         Entretanto, segundo informações levadas ao jornal pelos habitantes das casas “assombradas”, apesar da presença dos policiais, o mistério continuava...

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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
 Revisão do texto: Jonas Tenfen
Postagem: Bruna Detoni