quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Primeira Guerra Mundial em Pelotas XII - O ano de 1918 [Encerramento]


Primeira Guerra Mundial em Pelotas XII


O ano de 1918 [Encerramento]


 
Hinderburg em discurso radiofônico, 1932
         
         
         A “Grande Guerra” ou a “Guerra para acabar com todas as guerras” (como se pensou à época) ainda se arrastaria por todo o ano de 1918 pela Europa. O ponto culminante, a abdicação do Kaiser Guilherme II, só ocorreria em novembro daquele ano. Depois vieram uma série de tratados que acabariam por fomentar sentimentos revanchistas: o estofo daquilo que viria a se tornar a Segunda Guerra Mundial.
         Em Pelotas, contudo, os desdobramentos foram menores neste ano. Seja pelo esgotamento de pautas, seja pela certeza de que não haveria um levante boche que tomaria toda a América. O inimigo acuado na Europa deixava de demostrar perigo nas terras da metade sul. Demissões e ostracismo também auxiliaram, pois a presença de falantes de língua alemã arrefeceu consideravelmente no centro da cidade, diminuindo, por consequência, os atritos.
         Como de hábito, as notícias que seguem são do jornal O Rebate, sempre atento aos desdobramentos da guerra e veículo para denuncismos. Damos destaque a dois dados que desenham a importância deste jornal ao período: a cobertura da Noite das Fogueiras e, em segundo lugar, o fato de que este veículo ficou à margem da campanha de propagandas contra a (e as defesas da) Cervejaria Ritter.
         No mais, as miscelâneas.
         Sob o título de “Assim não vai... nada com o s boches”, no mês de janeiro, temos a notícia de um casamente que quase não fora realizado por causa do general Hindenburg. A saber, o Henrique d’Ávila se dirigiu à casa de Ricardo Peckmann para celebrar o casamento da filha deste. Na residência, d’Ávila percebeu pendurada na parede o retratado de Paul von Hinderburg, o comandante do exército imperial alemão. Em protesto, assumiu que não realizaria cerimônia alguma à sombra de semelhante olhar e, não difícil de imaginar, um bate-boca deve ter sido iniciado. Ao fim, Peckmann aceitou retirar o retrato da parede, e a cerimônia de casamento ocorreu normalmente.
         Ainda em janeiro, quase no fim daquele mês, ao lado da longa matéria sobre a coroação da rainha do Club Diamantinos (nos preparativos do carnaval), a notícia de uma briga de bar. O título da matéria, contudo, é um pouco mais épico: Chopps, vivas e pancadaria: boche imprudente, a represália do povo”.
         Domingo passado, começa a matéria, foi aniversário de nascimento de Satanás, atendendo na Terra por Kaiser Guilherme II. No “Bar Sul Rio Grandense” (nome que recentemente adotara o estabelecimento “WatherRhein” para evitar represálias), encontravam-se diversas pessoas a beber chopps da conceituada cervejaria Haertel.
         Vários patrícios ali presentes começaram brindes e vivas ao Brasil, à França, à Itália e aos demais países aliados. Entoaram também o patriótico hino do valoroso Tiro 31. Um dos presentes, contudo, viu oportunidade começou a dar vivas ao Kaiser e à Alemanha.
         A confusão teve início. E fim bastante rápido.
         Aos socos e pontapés, o indivíduo foi expulso do bar e deixado à sarjeta, ferido e aos trapos. Os demais presentes lamentaram a imprudência dele enquanto que os donos do bar se desmanchavam em desculpas, tentando apaziguar os ânimos para que a briga não virasse generalizada.
         Correu notícia pela cidade, e ganhou ares de exagero: não era mais um boche, mas um grupo que no referido local havia entoado o hino “Deutschland uber alles” em homenagem ao Kaiser. O jornal O Rebate fez questão de dizer que isto foi invencionismo, pois apurara com um dos presentes ao acontecimento e nada passou de um viva e de uma surra. Mas era tarde...
         Ontem, o “povo reunido” foi ao referido estabelecimento para depredá-lo a pedradas e golpes de cacetete, quebrando muitos dos vidros e ameaçando ir além: em breve as chamas iriam ganhar vida. Outro grupo de “povo reunido”, também de patrícios, assumiu a postura apaziguadora, argumentando que era para ser evitada a represália enquanto todos os fatos não fossem apurados. Uma força da Brigada Militar chegou ao local para encontrar apenas o bar depredado: os revoltosos já haviam se retirado.
         Encerrando a matéria, “Oxalá sirva este fato de exemplo a uns tantos boches que por aí anda assanhados, sem lembrar-se da crítica situação que se lhes depara...”
         Em março, o desfecho em briga dos desdobramentos de uma notícia que poderia ser falsa. “Pugilato por causa de uma notícia” é título elegante para descrever uma briga de rua onde os envolvidos eram distintos cavalheiros.
         O jornal Echo deu notícias de festa para comemorar o regresso a cidade do Francisco Beherendorf, negociante. A festa fora de caráter íntimo, na residência deste cavalheiro, e, para animar os convidados, um gramofone executou várias peças em alemão.
         O jornal A Opinião Pública fez correção ao fato, por meio de informações prestadas pelo Leopoldo Maciel. O jornal, sem dar naquele momento a fonte, contestou a matéria de Echo, não passava tudo de engano e mentira no que se refere às músicas em alemão.
         Em contragolpe, o Echo reafirmou o exposto, alegando inclusive ter ouvido testemunha presente ao local. Fonte sem nome também possuía o Echo.
         Em resposta, Leopoldo Maciel empenhou seu nome nas páginas de A Opinião Pública, assumindo a responsabilidade pelo afirmado nas páginas deste jornal, assegurando a integridade das informações do veículo.
         Acuado mas não rendido, a resposta do Echo pôs em dúvidas a integridade da honra e da palavra de Leopoldo Maciel. Fim do primeiro round em papel, início do segundo round ao vivo.
         Indignado por ser difamado,  Leopoldo Maciel se dirigiu à redação do Echo para tomar exigir maiores explicações, o que iniciou um acalorado debate com o diretor do jornal, Almeida Peres. Não demorou para este debate se transformar em pugilato, atraindo a atenção dos olhares de quem passava pela rua. Devido a uma queda, Almeida Peres teve um ferimento na face.
         No Diário Popular, uma declaração lacônica tentava dar ponto final aos desentendimentos:

Declaração

Os abaixo-assinados declaram, sob palavra de honra, por isso que se achavam presentes, ser a expressão da verdade o que pela imprensa local publicou o sr. Leopoldo Maciel, relativamente ao falso boato levantado contra a pessoa do Sr. Francisco Behrendorf, por ocasião de sua chegada do Rio de Janeiro.
Pelotas, 14 de março de 1918
Joaquim Luis Osorio
Paulo Gastal.



Fim da série “Primeira Guerra Mundial em Pelotas”.

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Referências: CDOV – Bibliotheca Pública. Fonte da imagem: wikimedia commons.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Primeira Guerra Mundial em Pelotas XI - A batalha entre Brahma e Gambrinus

Primeira Guerra Mundial em Pelotas XI
A batalha entre Brahma e Gambrinus


A. F. Monquelat
Jonas Tenfen



Rei, padroeiro, "santo" Gambrinus


         É objeto de debates a origem termo Brahma para nomear a empresa de cervejas brasileira. Há quem diga que o fundador da empresa, o suíço Joseph Villiger, quis fazer uma homenagem ao compositor alemão Johanns Brahms, a quem diga que a homenagem foi para o britânico Joseph Bramah, engenheiro responsável por inventar a “torneirinha”, a válvula manual para facilitar a venda de chope em bares.
          Ficaremos com a terceira hipótese: o nome da cervejaria e, posteriormente, da marca faz referência ao deus do hinduísmo. Utilizamos imagem do rei e padroeiro – um deus aos apreciadores – Gambrinus para ilustrar matéria sobre Carlos Ritter. Assim, mantendo as alegorias, este texto trata sobre a batalha entre Brahma e Gambrinus.
         Acompanhar a história da Cervejaria Brahma pode dar a nós, facilmente, um panorama do mercado de bebidas no Brasil. Não exatamente pelo seu pioneirismo, pois a empresa fora fundada em 1888, enquanto que os primeiros relatos de consumo e produção de cerveja neste país datam da ocupação holandesa. Esse panorama é dado pela própria atuação da cervejaria na criação e expansão de mercados de consumo para bebidas: formação da Ambev, vitória jurídica para continuar utilizando a palavra chope – embora seja tecnicamente uma cerveja -, investimentos na PepsiCo, as campanhas de marketing dos anos 80 e 90, compra de cervejarias de médio porte. Agora a narrativa começa a se aproximar a Pelotas, e de Porto Alegre.
          Como visto no texto anterior, o décimo desta série, teve início em Pelotas campanha de difamação contra a Cervejaria Ritter, mais uma entre tantas outras. Agora, contudo, não se tratava da qualidade do produto, mas de quem o produzia: como uma fábrica brasileira pode ser gerida por alemães, alguns deles, oficiais do Kaiser? Era preciso, logicamente, que brasileiros produzissem cervejas para brasileiros. Esta semente foi plantada, apesar de alguma demora, iria frutificar. 

Brahma, deus da religião hindu

         A importância da Cervejaria Ritter para a cidade de Pelotas era visível. De projeção nacional, chegava a produzir cerca de 4,5 milhões de garrafas por ano e, em 1911, metade da arrecadação da Mesa de Rendas do município vinha desta indústria. É referência constante que esta fora primeira empresa com iluminação elétrica no estado do Rio Grande do Sul, e uma das primeiras do Brasil. Fabricava e vendia, à grande população, gelo. Além de refrescar as bebidas de reuniões nos anos 1930 e 1940, servia para conservar alimentos nas rudimentares geladeiras disponíveis à época. (Estas caixas refrigeradas possuíam um compartimento na parte superior onde as peças de gelo eram depositadas; por terem isolamento térmico, os compartimentos inferiores eram resfriados. Uma vez derretido o gelo, era necessário adquirir uma nova peça.)
         Ato com grau de ineditismo teve o sr. Alcides de Oliveira quando assinou manifesto que fora publicado no jornal O Rebate, em novembro e 1917, onde aventa várias formas de tratar os males da terra à época, a saber, o perigo alemão e de “todos que fossem súditos de nações aliada da mesma categoria”. O ineditismo de Oliveira termina em não usar pseudônimo, todo o demais da carta é uma reiteração longa e cansativa do que já estava sendo veiculado na imprensa. Destaque, contudo, a dois trechos. 
         O primeiro deles é o tópico “b” deste manifesto:
b) Confiscaria propriedades, fábricas, casas de comércio, farmácias, laboratórios, etc, de alemães e faria que esses estabelecimentos continuassem a funcional sob a direção de brasileiros honestos e idôneos com proveito à nação.

          O segundo deles é o encerramento, uma transcrição em francês da Marselhesa congregando os amantes do justo, do belo, do alevantado e do verdadeiro à ação, pois “Le jour de glorie est arrivé”.
         Ao lado deste manifesto, mais um desdobramento da Cerveja Brazil, sob o título de “Ainda o caso da cerveja Ritter”, lembrando que era preciso tornar de verdade brasileira a cervejaria, bem como seus funcionários. Abaixo deste, o apelo do governo a todos os brasileiros para que “respeite a pessoa e os bens alemães; só ao governo incumbe punir aqueles que atentarem contra a defesa nacional”.
         Não há relatos de agressão física contra Carlos Ritter nem de invasão e depredação das instalações de sua cervejaria. O clima, contudo, estava muito pesado para a veiculação e distribuição de seus produtos, sem contar o encarecimento da matéria-prima devido à inflação à época. Sem conhecer a falência, Carlos Ritter faleceu no entre guerras, no dia 11 de outubro de 1926.
          As sementes da nacionalização de empresas plantadas no imaginário coletivo do brasileiro durante o período da Primeira Guerra iriam frutificar durante a Segunda Guerra. Várias empresas receberam aportes para expansão de sua atuação em território nacional, incluindo a Cervejaria Brahma que, na década de 1940, comprou a Cervejaria Ritter. Depois de comprada, as atividades e as marcas foram descontinuadas, pois a ideia era a de criar uma grande marca – Cerveja Brahma – e não de administrar várias marcas menores.
         Usando a espada do capital e atacando no momento certo, Brahma venceu Gambrinus. 
         Percebe-se com facilidade a presença de Ritter na cidade de Pelotas. O Museu de Ciências Naturais que leva seu nome está novamente aberto à visitação. A presença também está na fala do pelotense, que ainda se orienta usando a “antiga cervejaria” como ponto de referência, bem como a memória do gelo: é bastante corriqueiro esbarrar em relatos de pessoas que compraram gelo naquelas instalações. 


Rei, padroeiro, "santo" Gambrinus

         Um adendo: o sobrinho de Carlos Ritter, o mestre cervejeiro Frederico Augusto Ritter, fazia parte da Cervejaria Continental, de Porto Alegre, que congregava algumas cervejarias menores, quando esta também foi comprada pela Brahma. Frederico passou a investir na produção de alimentos, dando origem a Ritter Alimentos, marca ainda hoje encontrada nas prateleiras dos supermercados. 

continua...

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Referências: CEDOV – Bibliotheca Pública Pelotense. Sobre a história da Brahma, além do verbete na wikipédia, foram consultadas a página oficial da cervejaria e a página da Ambev, em particular a aba “Histórico”. Sobre a arrecadação da Mesa de Rendas de Pelotas em 1911, ver a dissertação de mestrado “Estrangeiros e Modernização”, de Marcos Hallal dos Anjos (PUC-RS, 1996). Sobre a Ritter Alimentos e sua história, ver o livro “Frederico Augusto Ritter: de cervejeiro a doceiro”, de Ana Cristina Pires Beiser (EdipucRS, 2009). Fonte das ilustrações: Wikimedia Commons.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Primeira Guerra Mundial em Pelotas X - Ainda o caso da Cervejaria Ritter

Primeira Guerra Mundial em Pelotas  X -
Ainda o caso da Cervejaria Ritter


A. F. Monquetat
Jonas Tenfen



    Como relatado na edição anterior, circulou pela cidade de Pelotas, em novembro de 1917, um panfleto para fazer propaganda de um novo produto da Cervejaria Ritter, a saber, a cerveja Brasil. É pouco provável que houvesse alguma mudança substancial na receita do produto, alterando a qualidade tradicional com a qual a cervejaria trabalhava ou acrescentando novo ingrediente; a novidade estava no nome e na ideia de propaganda em gravar o nome “Brasil” com as cores da bandeira alemã. Houve quem visse nisso que “nosso país está por baixo do pavilhão teutônico”.
    A capa de O Rebate, do dia 26 daquele mês, destacou a Primeira Guerra Mundial, principalmente no que dizia respeito aos seus desdobramentos aqui na região. Encontramos uma carta escrita por J. L., endereçada de Rio Grande e datada do dia 22 daquele mês, onde é reiterado os chavões constantes: defesa da nação, agir em nome do direito, destaque ao indubitável fato do perigo alemão (“os habitantes das colônias formam um verdadeiro exército em disciplina e em preparo militar”), o Deus Kaiser, a insistência de que a desafronta é justa, custe o que custar.
    Ao lado da carta, a matéria principal com o título autoexplicativo “Canalhismo Boche: Ainda o caso da Cervejaria Ritter”; caso houvesse ainda alguma dúvida do posicionamento da matéria, antes do texto principal, uma chamada: “Para trás, farsantes!”. O leitor apressado que se contentasse apenas com um passar de olhos por esta edição de O Rebate sairia, com toda certeza, com má impressão da Cervejaria Ritter, talvez questionando se devesse consumir os seus produtos.
    A matéria, assinada por “Um grupo de brasileiros”, descreve a defesa que a Cervejaria Ritter fez nos jornais locais contra os ataques e mal-entendidos suscitados depois das propagandas acerca da Cerveja Brasil. O primeiro parágrafo reduziu as respostas a um pedido de desculpas, não somente por erro cometido, mas “postos diante do adversário capaz de enfrentá-los, curvam-se até o chão para pedirem misericórdia”.
    Sem dar nomes, o texto afirma que a defesa foi escrita por algum “brasilicus-boche”, tão insidioso quanto seus contratantes. Há menção a alguns cartazes onde a palavra Brasil, ou na grafia da época: Brazil, teria a letra Z de seu nome substituída pela cruz de ferro, uma imagem associada ao Kaiser Guilherme II, bem como ao exército alemão. Exceto por esta menção, não há outra notícia destes cartazes em Pelotas. Entende-se, é preciso destacar, que a propaganda da Cervejaria Ritter não fez uso da cruz de ferro, sim das cores da bandeira alemã.
     A partir dos contra-argumentos do texto “Canalhismo Boche” podemos perceber sendo quatro as linhas de defesa escritas pelo “brasilicus-boche”: a inocência da propaganda, o brasileirismo de Carlos Ritter, o tesouro Nacional e Estadual, e, o sustento de muitas famílias.
    Quanto à inocência da propaganda, foi alegado que tais cartazes despreocupados em relação às questões da cor e outras disposições artísticas. O objetivo não era outro que fazer propaganda à cerveja Brasil.
    Em resposta, foi pechada esta explicação de balela, lembrou também que “os ‘bugres’ deste país [...] não são tão ingênuos como pensa o escrevinhador da insultuosa defesa e seus sugestionadores.” Afinal, uma empresa tão poderosa, única em Pelotas com relações comerciais com a fábrica Ypiranga, bem como outras litografias, tinha conhecimento e experiência para entender o que estava almejando com a propaganda.
    Quanto ao brasileirismo de Carlos Ritter, esse deveria ser indiscutível. Descendente, é verdade, mas brasileiro e patriota, ciente de suas responsabilidades de cidadão e sustentáculo da comunidade.
     Em resposta, foi alardeado que dois dirigentes da fábrica são alemães de nascimento (na expressão usada no texto: “legítimos”), e, um deles, era oficial de forças armadas alemães. Assim, a Pátria Brasileira não via como patriota quem contratasse oficiais do exército de país inimigo, ainda mais em pleno estado de guerra. Semelhante ato semeava espiões por todo o território.
    Quanto aos Tesouros, a Cervejaria Ritter afirmou que “derrama” somas de dinheiro aos cofres nacional e estadual.
    Em resposta, a lembrança da obrigação: não fazia nada mais que o dever com o fisco. Sem cumprir esta elementar obrigação, a cervejaria teria as operações encerradas devido às ações legais da autoridade do fisco.
    Quanto aos brasileiros, a Cervejaria Ritter era o sustento de muitas famílias.
    Em resposta, resposta alguma. O “grupo de brasileiros” deixou de dar atenção ao argumento econômico: perguntou se a cervejaria estava confundindo salário com esmola. Afinal, os brasileiros que ali estavam, exerciam labores à espera de pagamento. Pensar que isto era esmola tratava-se de insulto que “precisa de enérgica repulsa na devida forma”.
    A defesa da Cervejaria Ritter encerrava com um ataque aos indivíduos, melhor: ao grupo, que explora o patriotismo por interesses pessoais. A resposta é bastante confusa, parece, em resumo, assumir que é melhor os brasileiros serem explorados por outros brasileiros que por estrangeiros.
    Ilustração da matéria “Canalhismo boche” é um clichê: imagem de um indivíduo de costas descendo para uma galeria subterrânea. Na legenda: “Entrada d’um posto de socorro, alemão, na floresta d’Ourocamps”. No site “past-to-present.com”, de onde tiramos a imagem que ilustra nosso texto, é dito que o autor da foto é desconhecido e que a data é de 1918. Em relação à autoria da foto, nada podemos dizer; quanto à data, o site que a veicula está equivocado, pois já no ano de 1917 esta foto circulava pela imprensa brasileira.
    No dia 27 de novembro, O Rebate noticiou novamente matéria de outros jornais pelotenses. Do “Opinião” sabemos que, sábado, de última hora, os dois alemães que ocupavam cargo de diretoria na Cervejaria pediram suas respectivas demissões ao conselho fiscal; e, do “Diário” sabemos que “já foram convidados para diretores dois apreciáveis conterrâneos”. A matéria de O Rebate afirma que “já é alguma coisa, embora não seja ainda tudo!” : a dispensa de dois diretores era insuficiente, era preciso que dentro de uma companhia brasileira tudo fosse brasileiro. Pois “só assim poderemos descansar e ter certeza de que não somos mais mistificados e de que na verdade é ‘de verdade’ brasileira a Companhia de Cervejaria Ritter”.
    Esta segunda matéria de O Rebate não leva assinatura, apenas três asteriscos ao seu fim.

Continua...
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Fonte: CEDOV – Bibliotheca Pública Pelotense. Imagem oriunda do site <past-to-present.com>.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Primeira Guerra Mundial em Pelotas IX - Ritter e a Cerveja Brasil


Primeira Guerra Mundial em Pelotas IX - Ritter e a Cerveja Brasil


A. F. Monquelat
Jonas Tenfen

            
          No que tange à imigração europeia ao Brasil, principalmente de origens alemãs e italianas – lembrando mais uma vez que estes adjetivos são espécie de guarda-chuva onde se reúnem vários grupos e culturas – sempre há exageros. Parece ser hábito do exercício da interpretação histórica, parece ser herança do pensamento de Von Martius no projeto de país após sua independência de Portugal. De todo modo, é sempre difícil escrever um texto sobre o tema sem que pareça propaganda ou que pareça menosprezo.
           No que tange a história de Pelotas, foi este tipo de imigração que trouxe um impulso industrial, ainda de pequeno porte. À margem das charqueadas, pequenos investidores adquiriam o que era descartado da produção do charque, a saber, língua, patas, os ossos; transformavam essa matéria-prima e exportavam como língua enlatada, cola, gelatina, guano.
            Com a estabilização do centro da cidade, muitos imigrantes que estavam na agricultura, mas que possuíam outras habilidades além do cultivo da terra, acabaram por migrar à cidade e montaram pequenas oficinas e fábricas nos fundos de casa. Sem contar que a pujança da cidade sempre atraiu todo tipo de vendedor, engenheiros, arquitetos, escritores. A derrocada do charque traria tão profunda crise porque chegou antes que esses setores da economia pudessem se sustentar para além do capital proveniente da fonte bovina.
           Destes indivíduos que iniciaram pequenas fábricas na cidade, era espontâneo que um ou outro ganhasse mais mercado e acabasse por se tornar indústria de porte. Na memória de quem lê este texto aparecem nomes que servem de exemplo ao exposto, vamos trabalhar com um em especial: a Cervejaria Ritter.
            O histórico de fundação desta cervejaria remonta ao ano de 1872. Época de instalação da primeira cervejaria de Carlos Frederico Jacob Ritter na Rua 24 de Outubro [atual Rua Tiradentes] às margens esquerdas do Arroio Santa Bárbara. Cerca de 8 anos depois, a empresa ganha prédio construído exclusivamente para este fim, mostrando os resultados financeiros do labor deste teuto oriundo de São Leopoldo. A sede própria era nomeada Fábrica de Cerveja Ritter; os frequentes do blog “Pelotas de Ontem” já fizeram um passeio pelo interior desta fábrica.
           Carlos Ritter dava diversos destinos aos ganhos provenientes da fábrica. No que diz respeito a si próprio, possuía excelente casa com ampla área, várias dependências e jardim, onde hoje se encontra a Faculdade de Medicina. No que diz respeito à comunidade, patrocinava vários concursos em clubes, por exemplo, dando prendas a concursos de tiro ao alvo. No que diz respeito à fábrica, mantinha sempre o maquinário o mais moderno o possível, sendo esta uma das primeiras a ter energia elétrica.
O exemplo de cartilha do jovem pobre vindo do interior que se tornar um grande industrial na cidade. Até a vinda da Primeira Guerra a Pelotas, quando Ritter gradativamente passou a ser visto como inimigo, ou antes, como boche.
Há uma suspeitava de que a casa de Ritter poderia ser alvo da turba enfurecida durante a Noite das Fogueiras, em Pelotas. O Clube de Tiro Alemão que fora depredado era próximo da residência do industrial e parece lógico que este fosse o próximo alvo. Como os revoltosos acabaram por se dispersar com a vinda de forças de segurança, deixaremos este episódio da Noite das Fogueiras à especulação.
Em edição de 20 de novembro, o jornal O Rebate traz um Reclame inconveniente, cujo subtítulo é mais expressivo: “O Brasil por baixo da Alemanha”. Transcrevemos o reclame abaixo:

“Distinto amigo enviou-nos dois reclames que a Companhia Cervejaria Ritter está distribuindo pelas casas comerciais, como propaganda da marca de cerveja ‘Brasil’.
Esse reclame ostenta um fundo com as cores da Bandeira Brasileira; mas, o nome ‘Brasil’ traz as cores da bandeira alemã, parecendo, embora, não tenha sido essa a intenção como é de supor, que o nosso país está por baixo do pavilhão teutônico.
Devemos convir que esse reclame torna-se inconveniente, por isso que pode dar margem às más interpretações e quiçá a fatos desagradáveis.
A companhia Cervejaria Ritter deveria ter se abstido de empregar, neste momento grave, as cores da bandeira germânica, amaldiçoadas por todos os brasileiros e por quase todo mundo, máxime tendo sido nacionalizada a mesma companhia.
O reclame a que aludimos nem se quer traz a rubrica da litografia que o imprimiu. Isso, se não demonstra a intenção da obra, pelo menos autoriza que se suponha preconcebida e ofensiva ao nosso amor próprio.”

Pelo contexto, entendemos que a palavra reclame quer dizer “propaganda”. A palavra, “máxime”, por sua vez, é advérbio sinônimo a “principalmente”.
Não podemos deixar de notar a ambiguidade do título, afinal, quem estava sendo mais inconveniente: a Cervejaria Ritter ou a atmosfera denuncista do “distinto amigo”? Toda justificativa parecia válida, pois precisava de muito menos para dar margem a “más interpretações e fatos desagradáveis”.
Notamos também o desproporcional quanto à necessidade do anonimato. A reclamação do último parágrafo sobre a falta de identificação da empresa que fez a propaganda deixa clara a busca por identificar todo e qualquer apoiador boche, seja pela atividade que for. Em contrapartida, um patriota, um cidadão, um amigo podem continuar mandando cartas aos jornais – embora só tenhamos encontrado estes textos em O Rebate – sem que seja cobrada a honesta identificação de quem acusa, ou mesmo provas mais coerentes quando se falava de levantes contra a soberania nacional. Protegidos pelo anonimato, essas pessoas se tornavam corajosas na tentativa de insuflar no peito dos leitores o desejo de repetir a Noite das Fogueiras. Afinal, um detalhe como estes é o suficiente para concluir que “se se suponha preconcebida e ofensiva”.
Este reclame foi o que chamamos hoje de “flyer” ou mesmo panfletinho: pequenas propagandas impressas distribuídas de mão em mão, quase sempre por pessoas contratadas para este fim, ou deixados em ponto específico para os interessados. Vemos nesta propaganda uma tentativa de Ritter salvaguardar seus negócios, seu patrimônio e, de conclusão fácil, a própria segurança pessoal. Como veremos, a guerra de propaganda está só começando.

Continua...
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Fonte: CEDOV – Bibliotheca Pública Pelotense. Os dados biográficos sobre Ritter estão mais bem trabalhados na série “Carlos Ritter e a contribuição industrial para Pelotas”, disponível no blog Pelotas de Ontem

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Primeira Guerra em Pelotas VIII - Miscelânea

Primeira Guerra em Pelotas VIII
Miscelânea 

A.F. Monquelat
Jonas Tenfen

Kaiser Guilherme II e Nicolau II

    Dos jornais que circulavam à época, o que mais bem acompanhou os desdobramentos da Primeira Guerra Mundial em Pelotas foi O Rebate, sob a direção de Frediano Trebbi. Através das páginas deste periódico, temos os dados sobre a Noite das Fogueiras (tanto nesta cidade quanto na cidade de Rio Grande), o denuncismo dos cidadãos pelotenses contra o inimigo então declarado, a movimentação de tropas pela Europa. Em miscelânea de pequenas informações durante os últimos meses de 1917, o jornal sempre nos recorda de que a Grande Guerra também ocorre por aqui.
             A saber:
          Reencaminhando notícias de “Correio da Serra”, em 20 de novembro, sabemos que ontem as comunidades de colonos alemães localizadas em Paiol Grande e Baliza organizaram um levante e mataram o delegado e o comissário de polícia locais.
Na mesma edição, nota sobre o fechamento da escolar dirigida por um súdito alemão. Na escola, localizada no bairro das Três Vendas, era lecionado apenas em língua alemã. A ordem fora da superintendência e parece ter sido cumprida sem maiores atritos. Ao que tudo indica, pelo esvaziamento de notícias do gênero, ter sido esta a última escola a ser fechada por este motivo durante a Primeira Guerra.
       Também na mesma edição, é apresentada a queixa do jornaleiro Clementino de Macedo. Mesmo estando empregado como rondador da fábrica Lang, acabou por atrasar o aluguel do modesto quarto que ocupa com esposa e filhos; quarto este localizado defronte ao armazém Schimidt. Como retaliação, o proprietário do imóvel de nacionalidade alemã e de nome João Siemer organizou um grupo para destelhar o pequeno imóvel, deixando sob as intempéries os poucos bens e os membros da família. 
          Sem poupar palavras a Siemer, o jornalista destaca o fato de a vítima ser brasileira, o que explica o desmedido do ato cometido pelo cidadão alemão, ato que “bem demonstra a aspereza de que é revestido o coração insensível destes fanáticos do ‘Deus” Kaiser”. A nota é encerrada pedindo amparo dos leitores patrícios ao pobre homem.
      Na primeira página do início de dezembro de 1917, duas notícias de longe. A primeira, do Rio de Janeiro, tratando do padre alemão Miguel Siebler, acusado de espionagem. Vigário na paróquia de Santa Cruz, naquela capital, teve busca pela casa onde foi encontrada móveis em muita quantidade. O ajudante do padre, este italiano, explicou ao delegado que o padre esperava que sua casa fosse queimada pela população de Santa Cruz por causa da guerra, o que se mostrava um engenhoso golpe. Andava sempre com a lista de móveis e bens no bolso, pois como a Alemanha, até o fim do ano iria vencer a guerra, almejava conseguir grande indenização do governo brasileiro pelos bens que fossem queimados.
          A segunda, uma tradução encaminhada para o jornal. Carta dirigida ao ilustre patrício F. Trebbi relata o acaso em que o autor viu cair em suas mãos o número 24 do jornal alemão “Der Pipoken”, onde há uma notícia de destaque. Claro tratar-se de sátira, pois não há dados sobre um jornal publicado em Berlim com este nome, bem como a natureza da matéria que, para o entendimento de todos, fora traduzido pelo autor da carta:
          “Nascimento fenomenológico. Nasceu hoje [27 de janeiro de 1859] o príncipe. Ele já trouxe farto bigode, louro como uma espiga de cevada madura, ou como as flores do lúpulo (seco). A sua dentadura é belíssima e compacta, acrescendo ainda que ao nascer, S. A. recriminou a parteira por não atendê-lo em seus desejos, chamando-a de imbecil e sem ‘kultur’.”
       O redatora-tradutor da pilhéria acresce parágrafo onde assegura, depois de ter verificado o Almanaque de Gota [publicação onde era listada todas as casas reais reinantes à Europa], tratar-se de notícia sobre o nascimento do Kaiser de hoje.
          Na mesma edição, os encaminhamentos de uma denúncia. Existiam dados de que no depósito colonial de Alberto Boern, localizado na avenida 20 de setembro, havia estoque em grande quantidade de armas e munições. Ontem à noite, sob as ordens do comissário Mira, o subchefe da polícia da região, com auxílio da Brigada Militar e auxiliados pela polícia administrativa, organizou o cerco ao depósito. 
    Depois das buscas, foi encontrado apenas um revólver, propriedade de um brasileiro, nenhum depósito de armas ou munições. O jornalista levantou que a denúncia foi feita por um menor que possuía munição de calibre pouco comum. Questionada a origem da munição, disse o menor ser o depósito colonial, onde havia muito mais dessas.
          Contudo, três dias depois, na edição de O Rebate que traz em primeira página o fuzilamento da célebre Mata Hari, é dado notícia de munição apreendida. Ontem à tarde, o subchefe de polícia fez apreender 257.216 cartuchos de vários calibres na firma Bromberg & Comp, localizada à rua Marechal Floriano. Depois da apreensão, a munição foi remetida para o 3° posto.
       Matéria encerra em tom preocupado à época, mas que se tornou jocosa aos dias de hoje: - Não nos saberão dizer para que a casa Bromberg tinha armazenadas tantas balas?
          No último dia de 1917, O Rebate noticia atuação de alemão perverso em Pelotas, e não se trata do Kaiser. Uma égua de propriedade de Vasconcelos e Filhos fugiu de seus pastos efoi encontrar abrigo na porteira aberta dos fundos da fábrica de fumos do sr. Guilherme Adam. O funcionário da fábrica, Richard de tal, de origem alemã, foi incumbido de afugentar o animal. Por ordem ou por má ideia, este atou uma lata de querosene com um pouco de combustível à cola do animal. Depois da fuga, o animal ficou em péssimo estado. Os donos do animal prestaram queixa contra o alemão perverso e se sabe que o mesmo disparara três tiros contra uma vaca fugitiva dos mesmos comerciantes.
          Para encerrar o texto, um apelo do governo veiculado várias vezes na imprensa, imaginamos que não só pelotense:
Apelo do governo

A todos os brasileiros

Respeita a pessoa e os bens alemães; só ao governo incumbe punir aqueles que atentarem contra a defesa nacional.
Nenhum brasileiro deixará de cumprir o dever alistando-se nas linhas de Tiro e reservas navais, trabalhando pela produção dos campos, velando contra a espionagem e estando alerta aos apelos da nação.

continua...
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Fonte de pesquisa: CEDOV – Bibliotheca Pública Pelotense

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Primeira Guerra Mundial em Pelotas VII - 5 perguntas e 2 aviões

Primeira Guerra Mundial em Pelotas VII
5 perguntas e 2 aviões



A. F. Monquelat
Jonas Tenfen


          Em tempos de crise, as inocências afloram. A guerra estava declarada e, sem a menor sombra de dúvida, era preciso tomar um lado, assumir uma posição. Caso contrário, corre-se o risco de boatos e comentários sem fundamento acabarem por classificar os indivíduos a contragosto destes. Guerras, crises, grandes debates: o preço de ficar isento é não ser isentado. Alguns dirão que perseguem os outros por amor a uma causa maior, outros porque não tiveram a menos alternativa. Já o protagonista do texto  assumirá seus atos com a consciência limpa de um inocente, cujas consequências dos atos não lhe pesariam.
          “Um inocente patriota” dirige, em carta aberta ao redator do jornal O Rebate, FredianoTrebbi, 4 perguntas inocentes. A carta é datada de 9 de novembro de 1917 e fora publicada não muito depois pelo jornal. Se o autor da carta é autoproclamado inocente, ao redator do Jornal é dirigido a saudação de “amigo e patrício”. 
As respostas para as perguntas se perderam nos anos de 1917. Nem por isso elas perderam importância para nós como instrumento que permite desenhar o cotidiano desta cidade à época. Assim sendo:
          “1ª pergunta: saberá o digno patrício dizer-me porque motivo se conserva ainda na estação telegráfica desta cidade um funcionário alemão, que quase todas as noites é visto na companhia de alemães e germanófilos em longas conferências?! (em lugares ermos).”
     Seguindo o Dicionário da História de Pelotas, em uma informação lacônica dentro de um verbete maior, sabemos que a estação telegráfica se localizava no, também,  ponto turístico Casarão da Banha. Imaginar porque este funcionário alemão continuava empregado é fácil: ele deveria ter conhecimentos técnicos importantes para o funcionamento da estação, uma expertise não facilmente substituível. O Casarão da Banha se localiza no Centro de Pelotas, lugar difícil para atividades subversivas de natureza boche, daí aventar reuniões nos arrabaldes com intuito obscuro.
          “2ª Que caixotes são aqueles com alças de ferro, que foram guardados à rua Marechal de Caxias n°..., uns com 1,20m x 0,5mm outros com 0,4m x 0,2 m, mais ou menos, de comprimentos e larguras, e bastante pesados?!”
          Sobre essas caixas de Pandora, pouca especulação nos cabe. Pela descrição, pode ser qualquer coisa exceto alimentos. Ferramentas, peças de maquinário, armas de fogo...
“3ª Por que os agentes da fábrica de pólvora marca “Elephante” (A melhor do Brasil)  passaram a agência aos Srs. Ferreira & Fernandez se os ditos agentes continuam na posse do estoque e fazendo fita com petições para retirarem explosivos de seu depósito à rua Voluntários (fundos da ferragem)?!”
          Fim do século dezenove e início do século vinte, era fácil de encontrar várias fábricas de fundo de quintal – como chamaríamos atualmente – pela cidade de Pelotas. Algumas ganharam corpo, outras se mantiveram sob o aspecto de artesanais, muitas se tornaram esmaecidas lembranças familiares. Tomemos, a exemplo de mera ilustração, a marca de cigarros Diabo: empresa gerida pela João Simões & Cia, lançada em 1901, cuja fábrica de cigarros ocupava os fundos da casa do autor pelotense. Tempos depois, mudando de ramo, o autor passa a vender um extrato chamado Tabacina, a entender que a fábrica ocupava espaço semelhante. 
          O espanto de uma fábrica de pólvora no centro da cidade é entendível, mas são as atuais regras para o fabrico do produto que originam o estranhamento. 
       “4ª Em que se baseia um alemãozinho, que lhe falta o indicador da mão direita, para dizer que, muito breve, terá o prazer de encilhar uns brasileiros que estão já em sua lista vermelha?!”
          Interessante o verbo usado pelo alemãozinho da inocente denúncia para indicar seu modo de vingança: encilhar. Um modo de subjugar reduzindo à qualidade de animal aquele que for alvo da prática. A descrição poderia ser muito clara à época, mas um alemãozinho sem o indicador da mão direita deveria ser facilmente encontrado em uma época onde os trabalhos fabris não ofereciam muita segurança, quando ofereciam. 
          Dois aspectos a serem destacados das perguntas inocentes.
O primeiro deles, quanto à forma, mostra apenas um verniz de questionamento, quando o que se revela é o denuncismo. Tomemos ao fim de cada uma das perguntas. Primeiramente, o ponto de interrogação, devido e esperado no que diz respeito a questionamentos, inocentes ou corrompidas. Logo depois, o ponto de exclamação: o grito, o brado, o alarde de que algo estava acontecendo. Não parecem menos inocentes as perguntas por usarem os dois sinais gráficos?!
     O segundo deles, quanto à forma, mostra uma estrutura articulada na denúncia que tentava fazer. O inocente patriota estava denunciando um levante que se mostrava ante seus olhos. Observemos que havia alguém nas comunicações que estava organizando o grupo (1ª pergunta), armas e munição (2ª pergunta), pólvora (3ª pergunta), um líder ou um plano já orquestrado para entrar em ação (a lista vermelha da 4ª pergunta). As perguntas eram inocentes, mas encadeadas mostravam que o perigo boche era real e presente; Pelotas não iria ficar de fora da guerra de trincheiras...
       Imaginação inocente ou informação privilegiada, cabe dizer que não há notícias de um levante germanófilo deste porte na cidade de Pelotas. A pergunta inocente que fazemos deve ser a mesma do leitor, a quinta: era tudo invencionice ou uma grande articulação boche fora desmantelada secretamente em Pelotas?
          Um adendo sem conexão imediata com as quatro perguntas inocentes. No jornal O Rebate, no mesmo mês de novembro de 1917, é noticiado que pessoas do Monte Bonito notaram a passagem de dois aeroplanos suspeitos, com procedência da direção do município de São Lourenço. Questionados, “o pessoal da Companhia Francesa [...] também viu os referidos aparelhos nas imediações da Boca do Arroio, próximo desta cidade.”
        Denuncismo, conspirações, informações parciais, revanches... Tempos difíceis em Pelotas.

Continua...
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Fonte de pesquisa: CEDOV – Bibliotheca Pública Pelotense

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

O homem com chifres, em Pelotas

O homem com chifres, em Pelotas


A.F. Monquelat

Ilustração fictícia
Fantasmas, lobisomens, baleias, jacarés, feiticeiros, almas de outro mundo, homem de chapéu cinzento, mulher com barba, casas apedrejadas... Uma variedade de outros casos envolvendo seres deste e até quem sabe, de outro mundo já aconteceu no transcurso da história da cidade, mas homem com chifres é um caso que precisamos olhar de perto, e, para tal, nos reportaremos ao ano de 1921:
Dia 27 de agosto de 1921, a imprensa da cidade, sob o título de “Curioso”, dizia que dentro de breves dias seria exposto nesta cidade um extraordinário fenômeno.
Tratava-se de um homem com chifres, que o Sr. Fred Bernardi encontrara no lugar denominado Caverna do Inferno, à margem do rio Camaquã.
Sobre o fato, recebeu o jornalista a informação de que o Sr. Fred Bernardi passara em Canguçu, com destino a Pelotas, no carro de praça nº 241, conduzindo o fenomenal homem com chifres, encontrado nas montanhas denominadas Caverna do Inferno, à margem do rio Camaquã.
O fenômeno iria despertar, por certo, muita curiosidade, pois se tratava de um caso raro.
Dois dias depois, já em Pelotas, seria o homem  cornígero examinado pelos Drs. Edmundo Berchon, Victor Russomano e Ernesto Ronna.
Dia 31 daquele mesmo mês, “o curioso fenômeno” seria exposto na confeitaria A Predilecta, à rua 15 de Novembro, próximo ao Hotel Aliança.

Um homem com chifres!

Estava despertando grande curiosidade o fenômeno que o Sr. Fred Bernardi iria expor na confeitaria A Predilecta, do Sr. Eduardo Macalão, à rua 15 de Novembro.
E, por se tratar de um caso raríssimo, jamais visto, os jornalistas foram ouvi-lo:
Disse ele, a um dois jornalistas, chamar-se Feliciano Joaquim e contar 61 anos de idade.
Nascido no lugar denominado de Santaninha da Boa Vista distrito de Caçapava, e que há mais ou menos 20 anos fora residir no lugar denominado de Coxilha do Fogo, onde casou com a Sra. Xxxxxxx, havendo desse matrimônio 12 filhos, sendo 10 mulheres e dois homens.
Há dez anos, mais ou menos, apareceram-lhe os primeiros chifres, tendo, então, consultado vários médicos de Porto Alegre, Bagé e outras localidades, os quais o examinaram, julgando-o um caso extraordinário.
Feliciano acrescentou que esse fenômeno o incomodava bastante, pois a custo conseguia dormir em virtude das dores que sentia na cabeça quando estava deitado, o que não acontecia estando de pé.
Quando o tempo ameaçava chuvas, sentia vertigens e fortes ferroadas nos chifres, os quais tendiam a se multiplicar, pois estavam lhe aparecendo outros.
Feliciano possuía uma chácara no lugar onde residia. Mostrando-se satisfeito com sua estada em Pelotas, disse ao jornalista estar sendo muito bem tratado pelo Sr. Fred Bernardi, sentindo apenas saudades da família e do seu sítio.

As indagações de um jornalista sobre o homem cornígero

“Um homem com chifres! Um homem com chifres! Hoje! Hoje! Às 2 horas na rua 15”, assim anunciavam pelas ruas de Pelotas os reclamistas [propagandistas].
Um jornalista, indagando sobre o anunciado soube que um indivíduo morador na Caverna do Inferno, nas margens do rio Camaquã, seria exibido como um fenômeno, mostrando ao público protuberância ou excrescência córnea [vulgarmente chamada de chifre ou corno] que lhe saíra do lado direito da cabeça.
Constrangido e chocado com o que ouvira, exclamou o jornalista: Coitado! Pobre homem!
Logo passou a se interrogar: Não seria ele um produto natural do meio em que nascera? Os habitantes do Inferno ou da Caverna, de onde ele viera, não apresentariam esses apêndices córneos com que se diferenciariam dos outros seres reais ou imaginários? O Diabo ou Lúcifer ou Satanás – que era o personagem por excelência, e que encarnava toda a maldade e toda a desgraça do mundo – não teria chavelhos ou chifres como distintivo ou insígnia do seu poder real? Não seria aquele pobre homem, por um fenômeno qualquer, filho do próprio Diabo vindo à terra para dar o que fazer aos homens, para que eles pensassem, para que meditassem, para que quebrassem a cabeça diante do seu caso, à vista dos seus chifres?
Assim imaginando, refletindo e reflexionando, com a mente preocupada e cheia de conjecturas acerca de chifres, resolveu o jornalista ver o homem cornígero.
Viu-o, falou-lhe, e até tocou na córnea causadora de toda aquela agitação que tomara conta da cidade, e que, de fato, bem merecia o nome que lhe davam, confessou o jornalista.
Ao mesmo tempo se sentiu desiludido, ou mais convicto da realidade de coisas que julgava serem imaginárias, porque, com as noções que tinha da História Natural, sabia ele que essas excrescências eram inerentes a certos irracionais, e por isso levava à conta de fantasia o que ouvia dizer de humanos que eram vítimas desses caprichos da natureza.
Agora, com a aparição desse homem, via-se que, de fato, não havia regra sem exceção, a qual, neste caso, provava que havia gente que possuía qualidades ou atributos de bicho! Exclamava o jornalista.
Durante a conversa mantida com o homem de chifres, teve o jornalista a convicção de que este estava satisfeito com tudo aquilo a seu redor. Acreditava o entrevistador que essas manifestações córneas o haviam trazido à civilização, ao convívio da sociedade. Sem elas, sem essas esquisitices, ele continuaria a vegetar pelos brejos da Coxilha do Fogo, a matutar pelos matos da Camaquã. Morreria ignorado, dizia o jornalista.
Agora não: tinha o futuro garantido e o seu nome percorreria o mundo inteiro. Não somente o nome como ele próprio iria ao Rio de Janeiro, a Montevidéu, Buenos Aires, Paris, Londres, Berlim, Viena, Roma, Lisboa. Iria também à Índia, ao Japão, à China etc. E, por todo o mundo, satisfeito da sua desdita, risonho da desgraça (para ele uma riqueza).

O homem dos chifres, novamente em Pelotas

No ano seguinte, voltava o homem cornígero ao noticiário da imprensa pelotense, dizendo esta que, empresado pelo Sr. Fred Bernardi e com destino às capitais platinas, onde seria examinado pela Sociedade de Medicina de Montevidéu, a convite desta, apresentar-se-ia naquele dia, 9 de fevereiro de 1922, à noite, no Circo Imperial Japonez instalado na cidade.


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Fonte de pesquisa: CDOV – Bibliotheca Pública Pelotense
Imagens: acervo de A.F. Monquelat
Revisão de texto e postagem: Jonas Tenfen