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quarta-feira, 16 de maio de 2018

Cinema Universal – Pelotas


A.F. Monquelat

Dentre os vários cinemas que a cidade de Pelotas inaugurou e hospedou durante o decorrer de sua história, pelo menos um deles, ao que nos parece, não foi percebido pela lupa daqueles que se dedicaram e se dedicam a escrever sobre estas casas de entretenimento e diversão, ainda hoje, tão ao gosto de muitos, que foi o Cinema Universal.
Anúncio do Cinema Universal na imprensa pelotense

Das poucas notícias que encontramos sobre o Cinema Universal, a primeira delas foi a do dia 29 de dezembro de 1916, na qual era dito que a nova casa de entretenimento seria inaugurada no domingo próximo, dia 31 de dezembro daquele mesmo 1916, no salão situado à  Rua 15 de Novembro nº 728,  quadra entre as ruas Dr. Cassiano e Voluntários.

O estabelecimento, segundo notícia de época, estava montado com gosto e decorado de forma singela, mas elegante, dispondo de vários ventiladores, sendo que um deles possuía aparelho de sucção para extração do ar quente da sala.

Possantes lâmpadas elétricas forneceriam farta iluminação. A cabine era forrada de zinco, a fim de prevenir qualquer acidente, e o aparelho projetor, completamente novo, como não havia igual no Estado.Havendo ainda uma sala de espera, entre duas portas que davam para o salão.

A inauguração do novo cinema estava marcada para as 14h30, com uma soberba matinê dedicada ao mundo infantil.

À noite aconteceriam novas sessões com filmes desconhecidos do público, mas segundo a direção de apurado trabalho artístico.

Durante as projeções, seria ouvida uma afinada orquestra.

Em 30 de dezembro era anunciado que, dia seguinte, às 14h30, seria inaugurado o novo Cinema Universal, no salão à Rua 15 de Novembro nº 728.

Àquela hora, haveria atraente matinê e a noite, novas sessões com selecionadas películas.

A entrada custaria 1$000.

Sobre o ato de inauguração, não encontramos registro algum nos jornais da cidade.

É provável que a inauguração tenha ocorrido dias depois da data prevista, pois, segundo notícia encontrada no Diário Popular: inaugurou-se anteontem [07-01-1917] o novo salão Cinema Universal, a Rua 15 de Novembro nº 728.

Nas duas sessões, à tarde e à noite, foram passadas interessantes fitas, que agradaram ao numeroso público que ali acorreu.

A próxima nota sobre o novo cinema, publicada em 9 de janeiro de 1917, diz que prometiam grande sucesso as sessões daquela noite.

Seria exibida a empolgante fita “Essas mulheres”, em 10 longas partes.

Aos 17 dias do mês de janeiro de 1917, o jornal O Rebate   comentava que “A Caixa Misteriosa” era uma concepção cinematográfica pertencente ao gênero dos dramas policiais e, dividida em 30 partes, repetidas por 15 séries.

Era no ramo a que se propunha o trabalho mais completo até então saído das fábricas cinematográficas.

O Cinema Universal, “ainda de curta vida, mas de largo conceito”, querendo oferecer aos seus habitués um filme, como esse de real valor, embora com sacrifício, mostrava assim o desejo que tinha de servir ao público da melhor maneira.

A breve exibição de “A Caixa Misteriosa”, era disso prova incontestável.

O público, por certo, saberia retribuir os nobres intentos da empresa do Universal. Filme este cuja exibição fora uma homenagem ao “valoroso Clube Brilhante”.

Não muitos meses depois de sua inauguração, as notícias sobre o Cinema Universal na coluna dos jornais da cidade, “Theatros e Cinemas”, cessaram por completo. O que nos leva a supor que a vida do Cinema Universal tenha sido curta.



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Fonte de pesquisa: Bibliotheca Pública de Pelotas/CDOV
 Revisão do texto: Jonas Tenfen
Tratamento de imagem e postagem: Jonas Tenfen

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Primeira Guerra Mundial em Pelotas Parte III – A noite das fogueiras

Primeira Guerra Mundial em Pelotas
Parte III – A noite das fogueiras 


Adão Monquelat
Jonas Tenfen

    

    
    Terminado o longo texto “Explosões patrióticas”, o jornal O Rebate colocou uma pequena nota sobre preterição de matéria, ou seja, era comunicado que devido ao acúmulo de originais e à falta de espaço fora preterido ao próximo número várias notícias, reclames, contestações e a crônica de “football”. A noite de 30 e madrugada de 31 de outubro de 1917 foram particularmente agitadas na cidade de Pelotas, marcadamente pela comoção causada pelo abandono da parte do Estado brasileiro da posição de neutralidade para declarar guerra contra o Império alemão.
    Destaque-se, ainda, o espaço dado à patriótica iniciativa dos estudantes da Academia de Direito de Pelotas: a promoção de uma coleta a fim de levantar fundos para oferecer um aeroplano ao Exército nacional. Para alcançar tal intento, os acadêmicos solicitaram apoio do Esporte Clube Pelotas. Iniciativa esta que “merece o apoio incondicional de todo bom brasileiro e, certamente, se converterá breve em brilhante realidade.”
     Logo após o título “Explosões patrióticas”, o redator apresenta um resumo topicalizado do que será lido: O fogo purificador – Jornal alemão destruído pela segunda vez – O Tiro Alemão também em ruínas – Agitação popular – Movimento das ruas – Vários detalhes. Se não bastasse pelo título em si, a índole de toda a matéria, e representante do espírito da época, se encontra no adjetivo “purificador”. Quem há poucos dias era vizinho, conhecido ou cliente passou a ser inimigo de guerra.  
    A primeira parte da matéria é uma espécie de editorial. Doze parágrafos onde a única frequência é a contradição interna: desejava-se justificar e louvar os acontecimentos, sem, no entanto, endossá-los. Como nenhuma pessoa fora ferida na “noite do fogo purificador”, pareceu ao jornalista cabível de embeber sua caneta na tinta mais patriótica para classificar as depredações como inevitáveis, legítimas e justificáveis. Esta primeira parte é iniciada mencionando “uma calmaria enervante que acolhera a notícia da declaração de guerra”; nervos à flor da pele, nota-se, porque a declaração fora feita quatro dias antes. E é encerrada falando da necessidade de congregação para o extermínio do imenso polvo germânico [repare na letra “l” para não se utilizar assim a palavra “povo”], pois

Quem semeia ventos, colhe tempestades! / Já é tempo do mundo inteiro congregar-se para o extermínio do imenso polvo germânico. / O desaparecimento dessa raça hoje maldita, escorraçada de toda a parte, é presentemente uma necessidade de vida ou de morte para os povos cultos. / Urge eliminar da civilização universal a grande nodoa da barbárie teutônica, vergonha do século que atravessamos!

        Pode-se subdividir o relato dos fatos ocorridos “ontem à noite” em três grupos: incêndio do jornal “Deutsche Wecht”, depredação de casas comerciais, incêndio do Tiro Alemão. Embora o jornal dê o horário dos incêndios, e a partir deles organize uma cronologia, não se pode afirmar que os ataques às casas comerciais tenham todos ocorridos neste intervalo, tampouco que sejam atos da mesma turba. 
         O jornal bissemanário “[Die] Deutsche Wacht” (que pode ser traduzido como “A sentinela alemão”) era de propriedade de Ruddy Schaef e circulava exclusivamente em língua alemã. Nos dias de hoje, costuma ser referência freqüente em pesquisas sobre educação, pois publicava relatórios escolares, em especial do Colégio Alemão. Aparentemente, o jornal já havia sido incendiado, acontecimento do qual não levantamos mais dados. Após a declaração de guerra, o jornalista recebera intimação para cessar a publicação do jornal, depois de alguma negociação, fora decidido por suspensão das impressões até seu retorno em língua portuguesa apenas. Na tarde de 30 de outubro, para espanto dos cidadãos pelotenses, o “Deutsche Wacht” circulou como costumava fazê-lo: apenas em língua alemã.
        Um grupo bastante indignado começou a se reunir em frente dos jornais da rua XV de Novembro. Com o passar da tarde e o acirramento dos ânimos, às 20 horas, essa massa se dirigiu à rua Voluntários, em direção à sede e tipografia do jornal alemão, que ficava no prédio n. 412. Sem muita conversa ou discurso, as portas e janelas foram arrombadas, e o prédio fora invadido. A ação fora sistemática: papel, maquinário, móveis, tudo o quanto possível, fora arremessado à rua e amontoado. Devido à abundância de material comburente, sem esforço as chamas foram acessas, ganharam força e corpo até se tornarem labaredas. Estas “eram vistas à grande distância, através dos telhados” da cidade. Curiosos começaram a se juntarem à massa dos incendiários, criando reunião de pessoas que, pelas contas do jornalista, “quase atingiam a mais de mil”.
         Convocadas pelas chamas também foram as autoridades. Com o intuito de dispersar a turba, demandou-se a Alberto Gigante que se dirigisse às pessoas. Em uma das janelas da residência de Ottoni Xavier, também à rua Voluntários e não distante do local do ocorrido, o acadêmico de direito realizou discurso veemente e patriótico, proferido em nome do sr. coronel delegado de polícia e do subintendente municipal. Depois de conquistada a simpatia da multidão, pediu que se dispersassem em paz, no que fora atendido, não sem antes finalizar com um “viva ao Brasil!”
        Os bombeiros compareceram ao local e executaram trabalho para refrescar as paredes dos prédios próximos com objetivo de evitar mais incêndios. A família Schaef não sofrera nenhum dano físico e fora hospedada na casa do major reformado Pedro Lourival, residente à rua Voluntários, esquina Marechal Deodoro. Se olhasse para trás, a família veria no meio da rua um amontado de cinzas fumegantes e de materiais irreconhecíveis a serem limpos no dia seguinte pelas carroças de limpeza da cidade.


          Às 22 horas, toda a multidão se dispersara pela cidade. Gritos de repúdio aos teutos e de vivas ao Brasil eram ouvidos. Pela primeira fogueira ou pelos gritos, os ânimos exaltados, uma leva de depredação de casas comerciais de alemães ou de brasileiros germanófilos teve início. Além de depredações de pequena monta, a maior parte destes ataques foi à base de tinta: seja para reescrever dizeres de placas em alemão, seja para sinalizar com dizeres vários os inimigos da pátria. Não esgotando a matéria, o jornal lista algumas das casas comerciais e estabelecimentos vários: major Pedro Lourival, ferragem do sr. João Teixeira de Souza, sociedade Concórdia, Walter Rhein, Livraria Krahe, Viuva Behrensdorf & Cia, joalheria Hirs & Gros, depósito Bromberg & Cia.

continua...

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Fonte de pesquisa: CDOV – Bibliotheca Pública Pelotense
Imagens: acervo Família O'Sheridan von Platen-Hallermund; Pexels (free stock)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Chafariz das Nereidas, Sereias e Walt Disney


Chafariz das Nereidas, Sereias e Walt Disney

A. F. Monquelat
Jonas Tenfen



            O texto de hoje foi motivado por uma pergunta feita durante uma caminhada. Cortando pela Praça do Chafariz, fui interpelado sobre a razão de as figuras em forma de sereia terem duas pernas, mesmo que com escamas, no lugar daquele formato de corpo de peixe, como estamos acostumados a ver em filmes e animações. Recorrendo à história de Pelotas, mitologia clássica e aos estúdios Disney, a explicação se mostra fácil.
            O livro “Fontes d’Art no/au Rio Grande do Sul”, de José Francisco Alves, nos informa que “A instalação deste chafariz foi aprovada e, 23 de abril de 1873, para a então Praça Dom Pedro II, atual Praça Coronel Pedro Osório, a Principal de Pelotas. Seu funcionamento efetivo – fornecer água potável – ocorreu em 1874, conforme comunicado da Companhia Hidráulica à Câmara, em 4 de abril. O chafariz, instalado até hoje no mesmo local, foi o principal desses equipamentos que a cidade recebeu, sendo mais conhecido como ‘Chafariz das Nereidas’. Trata-se do mesmo modelo, em “escala reduzida”, do famoso chafariz apresentado pelas Fundições DURENNE na Exposição Universal em Londres (1862), lá instalado até 1872. Posteriormente, esse mesmo chafariz teria sido transladado para a capital da Escócia, Edimburgo, transformando-se naquele que é hoje um dos mais divulgados cartões-postais daquele país: o Chafariz Ross [Ross Fountain]. O notável modelo foi criado pelo escultor ornamentista Jules Klagmann, com a colaboração de Ambroise Choiselat.”
            Algumas páginas adiante no mesmo livro, encontramos a descrição de todo o chafariz, mas vamos citar apenas da Base: “no centro do tanque principal (interno, de ferro) ergue-se a estrutura central, vertical, do chafariz propriamente dito. Sua larga base com um diâmetro de aproximadamente 1,5 m e altura de 1,2 possui quatro nichos. Em cada um deles, consta um par de ninfas e uma carranca de leão no centro. Os pares de ninfas, em pose simétrica, vertem água das ânforas que apoiam em seus ombros para dentro de conchas com bordas rebuscadas. Das bocas dos leões também verte água para as mesmas conchas. As ninfas, que estão recostadas na estrutura sobre as conchas, estão seminuas e têm cauda de peixe em lugar das pernas, como bem devem ser essas típicas entidades mitológicas do reino de Tritão [Netuno]”.
            Ao autor da descrição faltou um pouco de atenção ao detalhe de que estas ninfas, como notou a autora da pergunta que nos motiva a escrever este texto, não têm caudas de peixe no lugar das pernas. Dois pares de pernas para cada uma, com saliências que lembram escamas e nadadeiras no lugar dos pés.
            Havemos de falar sobre nereidas, ninfas e sereias. A tradução do dicionário de mitologia de Pierre Grimal manteve a versão mais afrancesada da palavra, por isso encontramos na obra a entrada “nereides” (embora apresente como válida a versão aportuguesada). Filhas de Nereu e Dórias, netas de Oceano, sua quantidade é bastante variada, havendo assim entre 50 e 100 destas entidades. Seria muito interessante descobrir se as quatro figuras do Chafariz da Praça representam alguma nereida específica, como Tétis, Cálice ou Iera. Segundo o dicionário, “elas personificam, talvez, as inúmeras vagas do mar.”
            As ninfas, por sua vez, são representações várias dos campos, bosques e das águas, no mais das vezes, das águas doces. Sua ascendência muda dependendo do pesquisador, mas a versão mais corrente é que são filhas de Zeus. Divindades secundárias, estão no mundo, se cronologia é possível, a menos tempo que as nereidas e intervém mais nos afazeres e acontecimentos humanos.


            Por fim, as sereias. Ainda com Grimal, “as Sirenes viviam numa ilha do Mediterrâneo e, com a sua música, atraíam os marinheiros que passavam nas redondezas. Os barcos aproximavam-se perigosamente da costa rochosa da ilha, despedaçavam-se e as Sirenes devoravam os imprudentes. Conta-se que os Argonautas passaram perto das Sirenes, mas Orfeu cantou tão melodiosamente enquanto o navio Argo este ao alcance da sua música que os heróis não sentiram qualquer tentação de abordar a ilha [...] Quando por lá passou, Ulisses, prudente e curioso ao mesmo tempo, ordenou a todos os marinheiros que tapassem os ouvidos com cera e o amarrassem ao mastro, proibindo aos seus homens que o soltassem quaisquer que fossem os pedidos que ele lhes fizesse”.
            Os mitos mais antigos sobre as sereias as representam como parte humana, parte ave. Com o tempo, talvez por se tratar de uma ilha no mediterrâneo o lar dessas criaturas, pareceu mais conveniente aos artistas atribuírem a elas feições de peixe. Contudo, papel importante para a passagem de ave para peixe tiveram os marinheiros ao longo da história, pois vendo grandes mamíferos nadando – como a beluga – à noite, acabaram por enxergar ali formas femininas.
            Voltando às pernas, é muito mais comum encontrar representações para sereias como as ninfas do chafariz, do que da maneira como estamos condicionados a imaginá-las. O problema de imaginar um ser aquático feminino nadando é o inconveniente moralista de imaginá-las despidas. Parece que é algo muito antigo, mas é mais recente do que muitos imaginam: a marca da rede de café Starbucks é baseada em uma representação escandinava de uma sereia. Como o passar do tempo, a marca foi ficando mais estilizada e cada vez mais próxima da face da entidade mitológica, tentando disfarçar o exercício de flexibilidade que esta fazia.
            Problema semelhante enfrentou Walt Disney quando quis fazer uma animação com sereias para suas Silly Simphonies. Um monarca do fundo do mar tem suas amadas sereias sequestradas por piratas e a narrativa se desenrola para o resgate. Mas como fazer um desenho animado para crianças sobre sedutoras figuras femininas nadando sem vestimenta? A solução foi dar a elas cauda de peixe da cintura para baixo: ainda femininas, mas assexuadas. Esse é o enredo do episódio “King Neptune”, da série Silly Simphonies, de 1932. Essa animação popularizou o formato ocidental mais aceito da entidade mitológica, sendo à exaustão reproduzido em livros infantis, filmes e séries de televisão. De forma algum se quer afirmar que foram os Estúdios Disney os primeiros a desenharem sereias do modo como estamos habituados, basta olhar para o Brasão de Armas de Varsóvia, que é baseado em imagens do século XV. Afirma-se que, tal qual o monstro de Frankenstein, foi um filme que popularizou uma forma de uma personagem de ficção.

            Se hoje o Chafariz das Nereidas fosse montado, é possível que as figuras que despejam águas nas conchas tivessem outro formato, mais familiar a nós. Por falar em familiaridade, talvez seja esse o espanto da interlocutora ao questionar sobre as figuras do Chafariz: ela mesma nunca antes havia notado que elas possuíam pernas.
            Para encerrar, uma nota filológica. A palavra “sereia” como utilizamos vem do português arcaico “sereã”, que, por sua vez veio do latim, “sirena, -ae”, que por sua vez veio do grego. É raro o uso em português de “sirene” para “sereia”, embora a tradução do dicionário de Pierre Grimal a utilize. “Sereia” e “sirene” têm o mesmo radical, e, digamos, sempre prestamos atenção ao canto de ambas. “Serenata” e “seresta”, contudo, têm outra origem etimológica.

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Fontes: Consultamos a 5º edição do Dicionário de Mitologia Grega e Romana, de Pierre Grimal, publicado no Brasil pela Bertrand, e também o “Fontes d’Art no/au Rio Grande do Sul”, de José Francisco Alves. A imagem do Brasão de Armas de Varsóvia é wikcommons.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Pelotas e “O livro no Brasil: sua história”


Pelotas e “O livro no Brasil: sua história” 

A. F. Monquelat
Jonas Tenfen



            Publicou-se muito na cidade de Pelotas. Bastante corriqueiro encontrar em livrarias de novos e usados (os sebos), edições que foram impressas na própria Princesa do Sul. Também é bastante presente no imaginário a atuação de várias editoras, cujos nomes ainda hoje são sinônimos de boas edições, boas traduções ou azar. Vários escritores, há época famosos e hoje canônicos, aceitaram convite de colégios e instituições para proferir palestras e lançar livros nesta cidade. Algumas dessas visitas, até que se ache trilha nas páginas de jornal, seguem sendo mitos, mesmo assim, mitos muito presentes e cotidianamente recuperados.
            O “Dicionário de História de Pelotas”, recuperando uma ideia frequente das aulas de literatura, relaciona os livros no Brasil à história do jornal, mais especificamente, às tipografias. Onde havia jornal, havia público leitor. A presença das tipografias em uma determinada região aumentava a oferta de material impresso a preços mais reduzidos. Apesar de uma ou outra experiência malfadada, foram os jornais que sustentaram tipografias em várias cidades há época. A demanda criada, as tipografias passaram a aproveitar o tempo ocioso para produzirem livros. Criou-se assim outra demanda: a de escritores, incluindo-se nesta categoria tanto os prosadores como poetas, bem como os tradutores.
            Falando em pioneirismo, o mesmo Dicionário nos informa: “É bastante provável que a mais antiga obra editada em Pelotas tenha sido ‘Resumo de História Universal’, também o livro de estreia do professor alemão Carl von Koseritz. Foi impresso em 1852 na tipografia de ‘O Noticiador’, o segundo jornal em circulação na cidade (Tipografia Luiz José de Campos).”
            Depois da apresentação, dos objetivos deste artigo. Apresentaremos aqui a presença da cidade de Pelotas na obra “O livro no Brasil: sua história”, de Laurence Hallewell. José Paula de Ramos Jr afirma que ao “finalizar a leitura da esplêndida obra do inglês Laurence Hallewell, o leitor brasileiro certamente será persuadido de que é possível, sim, conhecer muito melhor o seu próprio país e a sua cultura por intermédio da história de seus livros.” Por extensão, muito da história de Pelotas está nos livros, não necessariamente no escrito em suas páginas, mas nos meios e acontecimentos que permitiram que eles fossem publicados e consumidos. Facilmente reduzimos tecnologia a computadores, esquecendo que uma das maiores revoluções tecnológicas da humanidade foi a impressão em papel distribuída por meio de encadernação.
            São cinco as menções de Hallewell à cidade de Pelotas, sendo as duas primeiras as mais importantes. A primeira dela, no capítulo sobre Pirataria dos Direitos autorais, é a seguinte: “É claro que é sempre mais tentadora a pirataria de obras de autores mortos; talvez seja esse o motivo de uma segunda edição, clandestina, de ‘Memórias de um Sargento de Milícias’, de Manuel Antônio de Almeida, impressa em Pelotas em 1862, menos de doze meses após sua morte.” Satisfeito o autor com a menção a esta obra literária, direciona seu trabalho seguinte para a primeira Convenção Pan-Americana de Direitos Autorais (1889), mas, destacamos, que é pouco laborioso levantar outros exemplos semelhantes de atuação editorial na cidade.
            Acrescentamos uma consideração de Hallewell: “Embora o advento da República tivesse fortalecido, assim, os direitos legais formais da autoria literária, sua importação da doutrina americana dos direitos dos estados membros da União tornou a execução da lei quase uma questão de opção local. Em nenhum outro lugar isso foi mais evidente do que no Rio Grande do Sul, onde, até as primeiras décadas do século XX, a principal atividade de algumas editoras foi a publicação ilegal de autores de fora do estado sulino.” A assertiva é sucinta e dura. Embora não neste parágrafo, mas a única cidade do estado sulino mencionada nominalmente por esta atividade foi Pelotas.
            Nas vagas literárias, a Princesa do Sul foi Rainha da Pirataria.
            Justificativas e debates à parte, essa postura permitiu às editoras expandirem seus catálogos com mais facilidade, bem como tornar mais ágil o processo do feitio do livro. Parte do capital investido na compra de direitos autorais está no tempo despendido em negociações; abrindo-se mão desse “inconveniente” temporal, há ainda mais o óbvio incentivo financeiro, em alguma medida barateando custos. Essa flexibilidade explica alguns pioneirismos no campo da tradução, como exposto por Denise Bottmann: “também do Rio Grande do Sul vem o primeiro volume de Dostoiévski traduzido no Brasil. Foi ‘O Jogador’, em tradução de Alcidez Cruz, publicado pela Livraria Americana de Pelotas, de Costa Pinto [sic], em sua coleção ‘Nova bibliotheca economica’. O livro saiu, calculo eu, por volta de 1895-6: avento essa data porque foi em 1896 que o ‘Almanak litterario e estatístico do Rio Grande do Sul’ publicou o anúncio de página inteira da Livraria Americana, com ‘O Jogador’ entre os três títulos já publicados em sua referida coleção.”
            A segunda menção a Pelotas, cento e sessenta páginas adiante, ainda às voltas com a mesma questão. Antes de começar com a história da Livraria do Globo, Hallewell dedica-se a explicar este espírito empreendedor para além da questão econômica trazendo à tona as posturas do positivismo. Na citação de Rubem Borba de Moraes: “No século XIX, foram os belgas os grandes piratas das edições francesas. No Brasil, em fins do século XIX e princípios deste, os editores rio-grandenses, protegidos por uma constituição positivista, imprimiram toda sorte de livros sem autorização dos editores legítimos e sem pagar por direitos autorais.”
            No parágrafo seguinte, Hallewell explicando Borba de Moraes é mais taxativo: “Não se faz menção a nenhuma firma, mas o principal culpado era a editora gaúcha mais importante da época, a Livraria Americana, de Carlos Pinto, estabelecida, desde a década de 1880, em Pelotas, no extremo sul do estado. Sua série Bibliotheca Econômica, de baixo preço e formato de bolso, publicava traduções de Bourget, Alphonse Daudet, Dostoiévski, Elslander, irmãos Goncourt, de Kock, Maupassant, Sacher-Masoch, Turguêniev e Zola [dentre outros].”
            As três menções seguintes a Pelotas estão nas tabelas do apêndice I. Não cabe aqui reproduzir todos os dados, segue, contudo, os títulos: “Tabela 14. População das cidades mais importantes do Brasil comparada com a de cidades de outros países, 1920-1950”, “Tabela 23. População das cidades mais importantes do Brasil comparada com a de cidades de outros países, 1950-70”, e, por fim, “Tabela 39. População das cidades mais importantes do Brasil comparada com a de cidades de outros países, 1980-2004”.

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Foi consultada a verão on-line do “Dicionário de História de Pelotas”, um .pdf bastante fácil de ser localizado. As citações do livro de Laurence Hallewell foram retiradas da terceira edição da obra, publicada pela EdUSP. O texto de José de Paula Ramos Jr., “Lição de inglês sobre o livro brasileiro”, é da Revista USP, n° 81, também disponível on-line. Não se espante o leitor ao ler o blog de Denise Bottmann, www.nãogostodeplagio.blogspot.com, pela falta de maiúsculas. Foto de ilustração é de Jonas Tenfen, da Livraria Monquelat.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Simões Lopes Neto, o Club Cyclista e o carnaval de rua

(parte 3)



A.F.Monquelat

A participação do Club Cyclista no carnaval de 1898

         O jornal A Opinião Pública, de 26 de fevereiro de 1898, em matéria divulgada sob o título de “A Pinhata”, noticiava que o Club Cyclista também desfilaria no carnaval de rua, com a participação, talvez, de 30 ciclistas, em sua máquinas adornadas, pretendendo abrir o corso [desfile], que se organizava para o dia seguinte.
         A reunião dos ciclistas seria em frente à Intendência [hoje Prefeitura Municipal], às 17h30.
         O corso, durante trajeto, deveria obedecer às evoluções dos ciclistas, para melhor andamento da diversão e se evitarem atropelos.
         Sabia o jornalista que algumas senhoritas, em suas máquinas, prometeram abrir a marcha do Club, a qual seria fechada por um elegante carro ornamentado.
         Seria este, possivelmente, o melhor momento naquele ano do carnaval de rua.
         Encerrando a matéria era dito que o Club Cyclista, por aquele jornal, faria em suas páginas uma declaração a propósito de sua passeata no domingo da pinhata.


A comunicação do Club Cyclista

         “O Club Cyclista no seu e em nome dos amadores que acederam ao seu convite, resolveu fazer uma passeata e, para a boa ordem e regularidade da mesma, estabeleceu o seguinte programa, que pede para ser observado:
         Os ciclistas se reunirão às 17h30 em frente à Intendência.
         O itinerário será o seguinte: da Intendência pela Rua 15 de Novembro, Voluntários, Andrade Neves, General Neto e 15 de Novembro, por onde descerá até à Intendência, onde se dissolverá o préstito.
         A distribuição dos pares e direção da marcha ficam a cargo do Club”.
         O Club dos Cyclistas convidava as famílias, que tomassem parte do corso a acompanharem o préstito, seguindo rigorosamente o movimento deste, devendo estacionar os seus carros também junto à Intendência, para dali procederem a organização da marcha, pois, assim, não só evitariam a dispersão, desordem e qualquer atropelo, como aproveitariam melhor os atrativos, pela movimentação e abundância do corso.
         O Club rogava ao público não atirar serpentinas sobre os ciclistas, a fim de evitar quaisquer embaraços.




O ciclismo visto pelo carnaval de rua

         Embora o carnaval de 1898 estivesse bastante chocho, à noite, do dia 28 de fevereiro, a coisa melhorara, com o tempo que parecia se firmar, havendo grande aglomeração de povo pelas ruas, muito especialmente à Rua 15 de Novembro, desde o Hotel Aliança [hoje Galeria Zabaleta] até a Praça da República [atual Pedro Osório], em que esteve iluminado o Café Java, a Casa Modelo, a Livraria Universal e a Notre Dame de Pariz.
         Nesse trecho, hoje Voluntários até a Marechal Floriano, entretanto, havia mais vibração, mas o jogo de confete e serpentinas fora pequeno.
         Fizera um passeio alegre um grupo de rapazes, num bonde expresso, com rodas circundadas de cordões de algodão, revelando todos, nesse cortejo burlesco, bastante espiritualidade.
         Estes rapazes distribuíram prospectos análogos à crítica que faziam.
         Junto a estes endiabrados ciclistas fritz mack vinha uma tremebunda orquestra de rufos e tambores, capaz de ensurdecer o próprio diabo.
         Os “nossos ciclistas”, que andaram em maré de contratempos, tiveram ainda uma crítica num cágado, que andava montado num pau, com duas rodas, tocando campainha como um doido...

O desfile do Club Cyclista

         Apesar da tarde chuvosa do dia 28 de fevereiro de 1898, não desanimou a “destemida e distinta mocidade” que fazia parte “deste futuroso” Club.
         Os jovens ciclistas, conforme o anunciado, levaram a efeito o tão esperado passeio em suas bicyclettes, percorrendo as Ruas 15 de Novembro, Voluntários, General Neto e voltando pela 15 de Novembro, indo, todos os seus sócios e sócias em suas “lindíssimas” máquinas, enfeitadas com tão apurado e esmerado gosto que, ousava o jornalista de A Opinião Pública afirmar, não poderiam ser excedidas.
         Após uma pequena pausa da chuva, que impertinente desafiava o entusiasmo dos ciclistas, saiu o préstito, às 20 horas, da Biblioteca Pública, rompendo uma multidão que os saudava com palmas prolongadas e ovações entusiásticas de “bravo!” que, dizia o jornalista, realmente mereciam.
         Assim desfilou o préstito: na frente, os comissários do Club, na direita, Sr. Carino de Souza, na esquerda Sr. Mirtyl Franck, logo em seguida o porta-estandarte, o jovem Bidam, depois o grande atrativo da festa, as “gentilíssimas meninas” Firmina Oliveira, filha do negociante Sr. Pompílio Oliveira, e Nilsa Pinto, filha do Sr. José Pinto, coproprietário da Livraria Americana, ocupando o centro de ambas, num ponto distanciado para a retaguarda, o ciclista Sr. Heráclito Brusque, cuja vestimenta e máquina, “incontestavelmente eram as mais belas e ornamentadas, pelo seu apurado bom gosto e extraordinária vista”.
         Descrever minuciosamente um por um todos os ciclistas e suas riquíssimas máquinas seria um trabalho longo, dizia o jornalista, limitava-se então, a citar alguns que mereceram aprovações gerais.  
         Sr. Heráclito Brusque, no qual não sabia o que admirar, se sua custosa e elegante vestimenta, de camiseta de seda, com listras de cores ouro e preta, calção preto e meias de seda, cores também iguais à camiseta, ou a sua soberba Monarch, que bem merecia figurar num desses famosos concursos que, a propósito de festas iguais, costumava-se fazer nas capitais do velho mundo.
         Além deste, havia mais as seguintes máquinas: as das meninas Firmina Oliveira, ornada de flores de seda, e Nilsa Pinto, também de flores artificiais, ambas luxuosamente vestidas de seda branca e bonés, manejando com perícia suas máquinas, dando assim a essa festa um efeito surpreendente e admirável; a do Sr. Carino de Souza, caprichosamente enfeitada com flores naturais e largas fitas de seda grená e branca e uma profusão de laços e fitas nos eixos e nos pedais de sua experimentada máquina La Française; a do jovem José Areas, com fitas e laços de seda branca e azul, vestido com iguais cores; a do Sr. João Simões Lopes Neto, salientando “a belíssima borboleta de seda na frente do guidon”; a do jovem Bidam, com flores naturais e bandeirinhas nacional e francesa; a do Sr. Fritz Boyunga com o cadre [quadro] e guarda-lama totalmente ornados; a do Sr. Mirtyl Franck, ornada de flores naturais: a do Sr. Eduardo Almeida, com muitas rosas e os raios com laços de fitas; a do Sr. Dr. Rasgado, com flores naturais pelo guidon e cadre [quadro]; as dos Srs. Tonny Costa, Dr. Ildefonso Simões e seu filho Sílvio, as dos jovens Cássio Tamborindenguy, Adolfo Maia, Lúcio Lopes Júnior; e, as dos Srs. Pompílio Oliveira, Eleutério P. Pinto e mais as dos moços Chapon, Marques, etc.
         Era de causar muita pena o tempo não ter permitido que o público melhor apreciasse essa festa, para a qual não só havia geral ansiedade, como também ser a primeira, que neste gênero se organizava nesta cidade.
         Os extraordinários esforços e grandes despesas que haviam feito aqueles moços poderiam ser mais bem recompensados, se não fosse o estado de muitas ruas, mesmo a rua principal, cuja lama e mau calçamento em muitos trechos era de lastimar, não permitindo que os ciclistas fizessem algumas evoluções, dando assim mais um atrativo à sua festa.
         As casas comerciais da Rua 15 de Novembro, à passagem dos ciclistas, acenderam suas gambiarras [luzes] e muitas senhoritas e moços empunhavam fogos de bengala, concorrendo desta maneira para maior deslumbramento do cortejo.
         Concluindo, dizia o jornalista que, com franqueza os destemidos ciclistas mereciam um “bravo!”.
        
                                                                                                                                                                                                               Segue...
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Fontes: acervo da Bibliotheca Pública Pelotense - CDOV
Revisão do texto: Jonas Tenfen

Tratamento de imagens: Bruna Detoni