quarta-feira, 17 de julho de 2019

Carlos Ritter e a contribuição industrial para Pelotas (parte 4)

Carlos Ritter e a contribuição industrial para Pelotas
(parte 4)



A.F. Monquelat
Jonas Tenfen


Conselho sobre a qualidade da cerveja, dado pelo Sr. Carlos Ritter & Irmão

          Como fabricantes, sentiam-se na obrigação de informar ao público consumidor que nem sempre a cerveja muito espumante era prova de sua boa qualidade: este excesso de espuma se dava geralmente quando a cerveja era velha, desaparecendo em grande parte a seiva nutritiva, bem como o aroma tão grato ao paladar, que se evapora na fermentação.
          Comunicavam ainda que a Sociedade Musical União tocaria, naquela tarde, as melhores peças de seu repertório, regida pelo hábil maestro Sr. G. Hungott, que por primeira vez executaria em seu trombone a grande peça Roberto do Diabo e a ária do Trovador.
Quanto à entrada: grátis para o belo sexo, pagando o sexo forte 500 réis, que daria direito a uma garrafa de cerveja simples.
     Ao que tudo indica, com relação à música, não houve reclamação alguma, porém, quanto à cerveja, houve quem enviasse carta ao Diário de Pelotas pondo dúvidas sobre a qualidade. Prontamente respondeu o Sr. Carlos Ritter, via jornal A Nação, como se pode ver da edição de 21 de março de 1884, nos seguintes termos: “Sr. Redator da Nação. – No seu noticiário de 20 do corrente, em referência à cerveja por mim fabricada dizem que eu posso declarar se é ou não de inteira confiança o cavalheiro que lhes deu a informação.
         Cumpre-me dizer que sempre tive no melhor conceito o nome do cavalheiro que informou a essa digna redação, mas também como fabricante de cerveja corre-me o dever de dar certas explicações.
          Há pessoas que ao abrir uma garrafa de cerveja, e esta não fizer espuma dizem logo, antes mesmo de prová-la, que a cerveja não é boa, no entanto, os entendedores a preferem com espuma.
Na minha mesa, onde ao almoço e jantar se senta minha família e empregados, no lugar do vinho se toma cerveja, e eu seria um criminoso e um mau esposo e pai, consentindo que nela e em outros momentos do dia, minha mulher e filhos tomassem uma droga que lhes prejudicasse a saúde. Têm os meus filhos, um quatro anos e o outro dois anos e meio, bebem ele cerveja às refeições e durante o dia, e pode se ver que estão bem desenvolvidos, e isto graças as partes muito nutritivas, que contém a cevada.
          A Baviera é a parte da Alemanha onde mais consumo se faz da cerveja, e o resultado é que seus filhos são os de melhores cores, robustez e saúde.
      É um engano supor que a cerveja velha, que tem mais fermentação e que produz mais espuma seja a melhor, tudo tem o seu tempo natural, e os entendidos são unânimes em afirmar que aquela não é a melhor, nem ao paladar e nem ao estômago.
        Finalizando, dizia o Sr. Carlos Ritter que era fácil e até mesmo natural que entre mil garrafas se encontrasse alguma delas choca, em razão de defeito da rolha, mas essa era muito conhecida já ao cair no copo, fato que era inevitável ao fabricante.

O anúncio do Sr. Carlos Ritter sobre a sociedade com o irmão


“Aviso: Carlos Ritter, estabelecido com fábrica de cerveja à Rua Marques de Caxias [Santos Dumont] nesta cidade, esquina São Jerônimo [Marechal Floriano] (ponte de pedra), cientifico ao respeitável público, aos seus fregueses da província e aos de outras, com cuja confiança tem sido honrado, que deu sociedade de 1º de setembro em diante ao seu irmão Frederico J. Ritter, o qual tendo voltado da Alemanha, onde foi propositalmente aprender o fabrico teórico e prático da cerveja, o habilita a bem continuar a angariar a confiança que sempre tenho merecido de meus numerosos fregueses.
A nova firma gira daquele dia em diante sob a razão de C. Ritter & Irmão. Pelotas, 6 de novembro de 1884. C. Ritter”.

Só a dinheiro

     Sob o título de Ritter, os proprietários desta fábrica cientificavam ao público e aos seus fregueses que a partir do dia 31 de janeiro de 1885, só venderiam a dinheiro (à vista), pelos preços seguintes: Lager-Bier, dúzia, 3$600 (réis); Columbacher, dúzia, 3$000 (réis) e Simples, dúzia, 2$000 (réis).
          E  mais uma nova marca, 1$500 (réis) a dúzia, superior as que outros fabricavam e vendiam a 1$800 (réis).


A cervejaria Ritter vista pelo jornalista da comitiva imperial

          Em abril de 1885, o jornalista da comitiva imperial em visita a cidade, dizia que diante da importância industrial da cidade de Pelotas, quase que, por vezes, esquecia as pessoas imperiais, a sua comitiva e os passeios que pela cidade faziam, para tratar de assuntos que mais ou menos pudessem dar ideia do progresso que encontrava em cada uma das cidades por onde tinha passado nesta viagem imperial.
       Não pretendia ele tratar de todos os estabelecimentos industriais de Pelotas, apenas queria salientar aqueles mais importantes. Daí naquele dia ocupar-se, dentre outros, da fábrica de cerveja do Sr. Carlos Ritter, cujo estabelecimento era o mais importante no gênero, dos que existiam na cidade.
          O Sr. Ritter é teuto-brasileiro, natural da florescente cidade de São Leopoldo, e, dizia o jornalista, achava-se estabelecido em Pelotas há doze anos.
          Grande parte da descrição feita pelo jornalista Maximino repetia, quase que ipsis literis a descrição que anteriormente fizemos, daí deixarmos de fazê-la e transcrevermos apenas o que nos pareceu novidade: ao fundo da fábrica havia um magnífico jardim, onde, aos domingos, se reuniam as principais famílias da cidade, que ali iam tomar cerveja e ouvir música, tal qual faziam no Passeio Público, por certo uma referência a praça central.
          A cerveja fabricada na casa do Sr. Ritter, dizia o jornalista, era a melhor que ele tinha visto e bebido desde que visitava esta província, e até mesmo na corte, em fábricas congêneres.
        Visitando a cervejaria, em companhia “do amável e inteligente guarda-livros” [contador, contabilista], o Sr. José de Azevedo Souza Júnior, que lhe mostrara todas as dependências, teve ele ocasião de verificar a limpeza com a qual era fabricada a cerveja, na qual era empregado somente o lúpulo e a cevada como matérias prima, e esta de primeira qualidade.
     O Sr. Ritter, industrial laborioso e inteligente, amável cavalheiro, proporcionara-lhe o ensejo de assistir a fabricação de sua cerveja, “para mostrar-me que tem em muita consideração à sua e à saúde do próximo”, concluía o jornalista, o que tinha lhe valido a grande exportação que fazia do seu produto, não só para esta província, como para outras províncias do império e paquetes.


Continua...

 __________________________________________________________________________
Fonte de pesquisa: CDOV – Bibliotheca Pública Pelotense
Imagens: acervo de A.F. Monquelat
Postagem: Jonas Tenfen

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Primeira Guerra Mundial em Pelotas Parte III – A noite das fogueiras

Primeira Guerra Mundial em Pelotas
Parte III – A noite das fogueiras 


Adão Monquelat
Jonas Tenfen

    

    
    Terminado o longo texto “Explosões patrióticas”, o jornal O Rebate colocou uma pequena nota sobre preterição de matéria, ou seja, era comunicado que devido ao acúmulo de originais e à falta de espaço fora preterido ao próximo número várias notícias, reclames, contestações e a crônica de “football”. A noite de 30 e madrugada de 31 de outubro de 1917 foram particularmente agitadas na cidade de Pelotas, marcadamente pela comoção causada pelo abandono da parte do Estado brasileiro da posição de neutralidade para declarar guerra contra o Império alemão.
    Destaque-se, ainda, o espaço dado à patriótica iniciativa dos estudantes da Academia de Direito de Pelotas: a promoção de uma coleta a fim de levantar fundos para oferecer um aeroplano ao Exército nacional. Para alcançar tal intento, os acadêmicos solicitaram apoio do Esporte Clube Pelotas. Iniciativa esta que “merece o apoio incondicional de todo bom brasileiro e, certamente, se converterá breve em brilhante realidade.”
     Logo após o título “Explosões patrióticas”, o redator apresenta um resumo topicalizado do que será lido: O fogo purificador – Jornal alemão destruído pela segunda vez – O Tiro Alemão também em ruínas – Agitação popular – Movimento das ruas – Vários detalhes. Se não bastasse pelo título em si, a índole de toda a matéria, e representante do espírito da época, se encontra no adjetivo “purificador”. Quem há poucos dias era vizinho, conhecido ou cliente passou a ser inimigo de guerra.  
    A primeira parte da matéria é uma espécie de editorial. Doze parágrafos onde a única frequência é a contradição interna: desejava-se justificar e louvar os acontecimentos, sem, no entanto, endossá-los. Como nenhuma pessoa fora ferida na “noite do fogo purificador”, pareceu ao jornalista cabível de embeber sua caneta na tinta mais patriótica para classificar as depredações como inevitáveis, legítimas e justificáveis. Esta primeira parte é iniciada mencionando “uma calmaria enervante que acolhera a notícia da declaração de guerra”; nervos à flor da pele, nota-se, porque a declaração fora feita quatro dias antes. E é encerrada falando da necessidade de congregação para o extermínio do imenso polvo germânico [repare na letra “l” para não se utilizar assim a palavra “povo”], pois

Quem semeia ventos, colhe tempestades! / Já é tempo do mundo inteiro congregar-se para o extermínio do imenso polvo germânico. / O desaparecimento dessa raça hoje maldita, escorraçada de toda a parte, é presentemente uma necessidade de vida ou de morte para os povos cultos. / Urge eliminar da civilização universal a grande nodoa da barbárie teutônica, vergonha do século que atravessamos!

        Pode-se subdividir o relato dos fatos ocorridos “ontem à noite” em três grupos: incêndio do jornal “Deutsche Wecht”, depredação de casas comerciais, incêndio do Tiro Alemão. Embora o jornal dê o horário dos incêndios, e a partir deles organize uma cronologia, não se pode afirmar que os ataques às casas comerciais tenham todos ocorridos neste intervalo, tampouco que sejam atos da mesma turba. 
         O jornal bissemanário “[Die] Deutsche Wacht” (que pode ser traduzido como “A sentinela alemão”) era de propriedade de Ruddy Schaef e circulava exclusivamente em língua alemã. Nos dias de hoje, costuma ser referência freqüente em pesquisas sobre educação, pois publicava relatórios escolares, em especial do Colégio Alemão. Aparentemente, o jornal já havia sido incendiado, acontecimento do qual não levantamos mais dados. Após a declaração de guerra, o jornalista recebera intimação para cessar a publicação do jornal, depois de alguma negociação, fora decidido por suspensão das impressões até seu retorno em língua portuguesa apenas. Na tarde de 30 de outubro, para espanto dos cidadãos pelotenses, o “Deutsche Wacht” circulou como costumava fazê-lo: apenas em língua alemã.
        Um grupo bastante indignado começou a se reunir em frente dos jornais da rua XV de Novembro. Com o passar da tarde e o acirramento dos ânimos, às 20 horas, essa massa se dirigiu à rua Voluntários, em direção à sede e tipografia do jornal alemão, que ficava no prédio n. 412. Sem muita conversa ou discurso, as portas e janelas foram arrombadas, e o prédio fora invadido. A ação fora sistemática: papel, maquinário, móveis, tudo o quanto possível, fora arremessado à rua e amontoado. Devido à abundância de material comburente, sem esforço as chamas foram acessas, ganharam força e corpo até se tornarem labaredas. Estas “eram vistas à grande distância, através dos telhados” da cidade. Curiosos começaram a se juntarem à massa dos incendiários, criando reunião de pessoas que, pelas contas do jornalista, “quase atingiam a mais de mil”.
         Convocadas pelas chamas também foram as autoridades. Com o intuito de dispersar a turba, demandou-se a Alberto Gigante que se dirigisse às pessoas. Em uma das janelas da residência de Ottoni Xavier, também à rua Voluntários e não distante do local do ocorrido, o acadêmico de direito realizou discurso veemente e patriótico, proferido em nome do sr. coronel delegado de polícia e do subintendente municipal. Depois de conquistada a simpatia da multidão, pediu que se dispersassem em paz, no que fora atendido, não sem antes finalizar com um “viva ao Brasil!”
        Os bombeiros compareceram ao local e executaram trabalho para refrescar as paredes dos prédios próximos com objetivo de evitar mais incêndios. A família Schaef não sofrera nenhum dano físico e fora hospedada na casa do major reformado Pedro Lourival, residente à rua Voluntários, esquina Marechal Deodoro. Se olhasse para trás, a família veria no meio da rua um amontado de cinzas fumegantes e de materiais irreconhecíveis a serem limpos no dia seguinte pelas carroças de limpeza da cidade.


          Às 22 horas, toda a multidão se dispersara pela cidade. Gritos de repúdio aos teutos e de vivas ao Brasil eram ouvidos. Pela primeira fogueira ou pelos gritos, os ânimos exaltados, uma leva de depredação de casas comerciais de alemães ou de brasileiros germanófilos teve início. Além de depredações de pequena monta, a maior parte destes ataques foi à base de tinta: seja para reescrever dizeres de placas em alemão, seja para sinalizar com dizeres vários os inimigos da pátria. Não esgotando a matéria, o jornal lista algumas das casas comerciais e estabelecimentos vários: major Pedro Lourival, ferragem do sr. João Teixeira de Souza, sociedade Concórdia, Walter Rhein, Livraria Krahe, Viuva Behrensdorf & Cia, joalheria Hirs & Gros, depósito Bromberg & Cia.

continua...

_____________________________________________________________________

Fonte de pesquisa: CDOV – Bibliotheca Pública Pelotense
Imagens: acervo Família O'Sheridan von Platen-Hallermund; Pexels (free stock)

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Carlos Ritter e a contribuição industrial para Pelotas (parte 3)

Carlos Ritter e a contribuição industrial para Pelotas
(parte 3)



A.F. Monquelat
Jonas Tenfen

         
Ponte no Santa Bárbara
          
          Dali, voltava-se para os subterrâneos [é provável que estes subterrâneos, aos quais se refere o jornalista, tenham dado origem aos mitológicos túneis pelotenses, que até hoje povoam o imaginário da cidade] passando para a casa de lavar garrafas, onde, em uma máquina de pedal da marca Boldt & Vogel, Hamburgo, podia um único operário lavar trezentas e tantas garrafas por hora.
      Nestes serviços, eram empregados quatro operários: dois lavavam as garrafas exteriormente e os outros dois lavavam-nas interiormente, na máquina.
          Depois, passava-se para a primeira adega onde estavam três tonéis, podendo caber, em cada, de mil a mil e duzentas garrafas, e cinco tonéis menores, com capacidade cada para seiscentas garrafas.
          Esta adega era destinada ao engarrafamento da cerveja, para o qual tinha uma máquina de fabricação Boldt & Vogel, que podia encher quatro garrafas por vez; e outra, do mesmo fabricante, para arrolhá-las.
          Logo após a visita na adega, o Sr. Ritter mostrou ao jornalista uma segunda adega, destinada à fermentação da cerveja.
        Esta adega era a mais importante e a que mais cuidados exigia.
     Sobre pilares de pedras estavam colocadas seis tinas de madeira, comportando cada qual mil e duzentas garrafas; em frente, achavam-se três tonéis iguais aos da outra adega, e oito menores.
          Ao fundo, estava uma máquina pneumática que conduzia a cerveja desta adega para a outra.
        Havia ainda outra máquina Boldt & Vogel, destinada a conduzir a cerveja de um tonel para outro.
          Perto da porta, tinha um bom termômetro centígrado que marcava a temperatura da adega. 
        Por um corredor, chegava-se aos depósitos de cerveja engarrafada.
          Os dois depósitos tinham capacidade para armazenarem cinquenta mil garrafas de cerveja.
          O corredor e os depósitos possuíam trilhos de ferro onde, sobre um carro, eram conduzidas as garrafas para as carroças da fábrica.
          A estes depósitos, seguiam-se outros dois: um destinado às garrafas vazias e outro para barris, onde era transportada a cerveja para a campanha.
          Daquele local, o repórter e o S. Carlos Ritter deram um passeio pelo jardim, que, segundo o jornalista, era bem delineado, com algumas flores mimosas, produzindo uma ótima sombra.
          Por todo o jardim havia mesas e bancos onde, à sombra, se podia usufruir de um ar fresco e agradável.
          Uma rampa conduzia às cocheiras e ao depósito das carroças.
      A fábrica possuía duas carroças e empregava quatorze operários.
          Encerrando a visita, dizia o jornalista que por toda a fábrica ele presenciara uma limpeza e ordem impecável.
          O produto fabricado na cervejaria e a amabilidade com que a todos recebia o simpático Sr. Carlos Ritter era um bom exemplo para aqueles que se dedicavam ao trabalho industrial.
          A cerveja Ritter fora premiada na exposição Brasileira-Alemã, com a medalha de prata.

Concertos musicais no Jardim Ritter


Ponte no Santa Bárbara

          Pelo menos desde o ano de 1881, o jardim Ritter tinha por hábito promover concertos musicais, como foi o caso daquele concerto executado na tarde de domingo, dia 13 de março de 1881.
          Tal ato, divulgado pelo Correio Mercantil, informava que, naquela tarde, na importante fábrica de cerveja do Sr. Carlos Ritter, à ponte do arroio Santa Bárbara, a banda de música alemã, que recentemente havia chegado de Porto Alegre, executaria algumas das melhores peças de seu repertório.
          Na capital da província, aquela música fora muitíssimo apreciada e aplaudida.
        Portanto, recomendava-se ao público aquela agradável diversão.
          Dois dias depois do concerto, o Correio Mercantil, dando notícia, dizia que a excelente banda de música alemã, que atualmente se encontrava nesta cidade, efetuara dia 13, de tarde, no bonito jardim do Sr. Carlos Ritter, próximo à ponte do arroio Santa Bárbara, um concerto instrumental, atraindo grande público, no qual se destacavam muitos das principais famílias da localidade.
          O local escolhido para a recreativa diversão não poderia ter sido melhor, dizia o jornalista.
          A banda de música era composta por 14 músicos de reconhecido talento e, que foram além da expectativa. Todas as peças executadas, do seu vastíssimo repertório tinham a marca da perfeição, e recebera, ao término, gerais salvas e palmas dos presentes.
          Segundo a opinião de profissionais, Pelotas até então nunca teve em seus quadros uma banda de música tão bem organizada e de componentes tão habilitados.
          A diversão prolongou-se até as 23 horas, conservando sempre um grande público.

          E, no Jardim Ritter, a música continua


          Como se poderia ver, dia 9 de novembro de 1884, na reabertura daquele local de diversão, depois deste ter sofrido uma reforma e ter sua área ampliada, pois ali:

Há bancos para todos
Ninguém ficará de pé,
Salvo o impaciente
Ou tomador de rapé.

Alerta!
- brada a sentinela.
Quem vem lá?
Insiste ela.
É de paz...é Lager Bier,
Deixai passar o progresso,
E se me quereis provar
No jardim tereis ingresso

         Aproveitando a reabertura, o Sr. Carlos Ritter participava ao respeitável público que incorporara mais uma marca de cerveja às já conhecidas de sua fábrica: a Lager Bier, que seria apresentada e ele esperava que fosse ela bem recebida pelos apreciadores, naquela tarde.
          Informava também ser a Lager Bier de muito bom preço, pois pela garrafa só seria cobrado 600 réis pela garrafa e 3.600 réis pela dúzia.


Continua...


______________________________________________________________________________
Fonte de pesquisa: CDOV – Bibliotheca Pública Pelotense
Imagens: acervo de A.F. Monquelat

quarta-feira, 26 de junho de 2019

A Primeira Guerra Mundial em Pelotas Parte II

A Primeira Guerra Mundial em Pelotas

Parte II – Imigração Alemã


A. F. Monquelat

Jonas Tenfen


Militares da Província de São Pedro, Herrmann Wendroth, 1852

           A expressão “imigração alemã”, em se tratando dos fluxos migratórios ocorridos para e no Brasil durante os séculos XIX e XX, se refere a um conjunto de acontecimentos multifacetados, mais ou menos próximos entre si, que a historiografia e estudos contemporâneos estão mostrando melhor a sua complexidade. Diversos grupos, de aproximação étnica, geográfica ou cultural, foram identificados sob o nome de “alemães”, principalmente quando destinados a colonizar as terras do Brasil. Em Pelotas, iremos encontrar dados de migrantes para além daqueles que vieram sob a égide de companhias colonizadoras, o que será mais raro em regiões de serra, por exemplo, e o que causará algumas dificuldades para organizar cronologias estáveis sobre o tema. Ainda usaremos, mesmo conscientes da limitação, o termo “alemão” para diversos grupos que para cá migraram, pois é termo gregário e se refere aos usos frequentes da mídia impressa à época estudada.
           A imigração alemã para Pelotas pode ser entendida em três períodos, reitera-se a facilidade de encontrar exceções por se tratar de uma cidade – e região – com grande fluxo de bens e serviços, bem como servida de zona portuária. O primeiro dos períodos é ao redor das charqueadas, onde comerciantes e industriais montaram estabelecimentos para ou abastecer o mercado com víveres ou para aproveitar matéria-prima até então tratada como descarte pelas estâncias produtoras de charque. Citamos, como exemplo, o empreendimento de Luiz Eggers: a Fábrica de Velas e Colas, fundada em 1841. A professora Maria A. P da Fonseca indica que Avé-Lallemant, em viagem por Pelotas em 1858, fez descrição da fábrica:

Bem perto da margem do pequeno e navegável Pelotas, foi construído um espaçoso e apropriado edifício, de acordo com um plano inteligente, dotado com uma cuidadosa escolha de aparelhos a vapor, como caldeiras para fundir, máquinas de cortar e provido de trilhos à margem do rio, de modo que os produtos do hábil fabricante podem ser exportados diretamente em embarcações próprias [...]

           Podemos facilmente entender as vantagens competitivas que Luiz Eggers possuía na época: produzia um produto de alta demanda – lembrando que não havia iluminação à energia elétrica e que alternativas à vela eram querosene é óleos, como o de baleia -, matéria-prima a baixo custo e maquinário a vapor que permitia produzir mais que fábricas artesanais de vela.
         O segundo dos períodos está relacionado diretamente com os Brummer. Eram estes mercenários contratados a soldo pelo governo brasileiro para lutar na Guerra contra Oribe e Rosas, e, em 1851, eram um contingente de cerca de 1.800 indivíduos. A alcunha brummer diz respeito ou ao hábito deles resmungarem muito sobre as condições da vida militar ou sobre o dialeto que utilizavam entre si. Muitos destes eram indivíduos com formação técnica e elevado nível de estudo para a época, decorrência da necessidade de capacitação para tratar com artilharia: costuma-se indicar que estes mercenários foram equipados com fuzis dreyse, “a primeira arma realmente moderna (usando como padrão o vindouro século XX) a ser adotada pelo Exército Brasileiro”.


       Os Brummer se dispersaram muito rapidamente. O contingente inicial contratado entrou em conflito durante a viagem de vinda ao Brasil, iniciando suas atividades neste país com deserções. Ao fim dos conflitos, poucos retornaram às origens, sendo absorvidos como mão-de-obra para diversas atividades no sul do Brasil, muitos tendo sido assentados como colonos, também. Carlos von Koseritz foi o brummer que, sem dúvida, alcançou mais renome pelas atividades que exerceu em solo brasileiro: fundou escolas, trabalhou em jornais, escritor prolífico, organizou a Exposição Brasileira-Alemã, de 1881, e entrevistou Don Pedro II, mencionando apenas alguns dos feitos em uma vida bastante movimentada. Além de Koseritz, citamos também Wilhelm Ter Brüggen, Hermann Rudolf Wendroth, Carlos Jansen, Viktor von Gilsa.
           O terceiro dos períodos está relacionado à colonização da serra dos Tapes. Como observado até então, e como irá se reafirmar nessa campanha colonizadora, os esforços da vinda de alemães a Pelotas foram em sua maioria por via de iniciativa privada. Em sociedade com José Antônio de Oliveira Guimarães, o comerciante e empreendedor Jacob Rheingantz fundou a Colônia São Lourenço. Alguns meandros burocráticos foram vencidos pelos dois sócios, afinal, mesmo privada, era necessária autorização do governo para construir uma colônia. A chegada de cerca de 90 pessoas em 18 de janeiro de 1858 marca o início deste terceiro fluxo migratório a Pelotas.
           Rheingantz administrava a colônia de dentro, pois residia ali com a família. Mesmo essa proximidade não impediu rebelião dos moradores, o que também acontecera na colônia Santo Ângelo. Esses dois levantes foram pacificados em 1867 pelo Barão von Kahlden, um brummer de relevo que não fora mencionado na lista acima. Rheingantz, reintroduzido à administração da colônia, possuía planos de expansão, o que motivou outra viagem à Europa em 1877, onde, acometido de mal súbito, faleceu. A abertura da estrada do Monte Bonito, ligando Pelotas a Serra dos Tapes, permitirá o assentamento de comerciantes alemães, frequentemente ex-colonos, moldando o bairro Três Vendas.
           Apresentados estes três períodos, observemos agora um caráter frequente dos migrantes alemães à região: o caráter gregário. Não se nega, de forma alguma, as rusgas e brigas que eram frequentes, vide os brummer e as revoltas nas colônias do parágrafo anterior. Contudo, a frequência do caráter gregário foi maior que as contendas e se mostra além das reuniões religiosas. Várias agremiações, por assim dizer, surgiram criadas e mantidas por imigrantes para imigrantes. Desde a Associação Auxiliadora de Colonização, até clubes de caça e tiro, escolas diversas, jornais; além de empreendimentos industriais e as vendas que também permitiam convívio e esboço da ideia de grupo.


           Isto explica notícia do Jornal do Commercio, em novembro de1880, sobre distribuição do primeiro número da Deutsche Presse, uma “folha consagrada à defesa dos interesses dos alemães residentes nesta cidade”. O jornal foi de propriedade de Julius Kurtius, que fora proprietário do jornal Der Bote, de São Leopoldo, e trabalhara no Jornal do Commercio, agora lançava empresa própria em Pelotas. Ideia era de publicar o Deutsche Presse às quartas e aos sábados, porém temos a confirmação da publicação do primeiro número em um domingo.
           Isto explica também o convite feito, também no Jornal do Commercio em novembro de 1880, um pequeno retângulo em língua alemã cercado pela língua portuguesa: “Associação Alemã de Canto e Ginástica / Domingo, 14 de novembro, pela manhã, às 8 horas / Assembleia Geral Extraordinária no salão de canto / Agenda: apresentação das regras de sucessão e aditamento aos estatutos.”

continua...

Imagens: Acervo Biblioteca Pública, domínio público
Referência: artigo “Presença alemã em Pelotas-RS”, de Maria A. P. da Fonseca; sobre o fuzil Dreyser, as informações estão disponíveis no blog Armas Brasil (http://www.armasbrasil.com/SecXIX/Exercito_profissional/dreyse.htm); livro “A colônia de São Lourenço de seu fundador”, de Vivaldo Coaracy; “Dicionário da história de Pelotas”, vários autores e disponível on-line. Para saber mais sobre a atuação dos Brummer nos conflitos na Guerra contra Oribe e Rosas, recomenda-se a leitura do número 85 da revista “O Tuiuti”, disponível on-line.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

A Primeira Guerra Mundial em Pelotas: Parte I - Notas iniciais

A Primeira Guerra Mundial em Pelotas
Parte I – Notas iniciais


A. F. Monquelat
Jonas Tenfen
Kaiser Guilherme II

          No palco dos impérios, antes do fim da segunda década de um século que acabara de iniciar, ocorreu a “guerra para acabar com todas as guerras”. Como os acontecimentos futuros iriam demostrar, essa alcunha daria lugar para o nome atual dos eventos, deixando uma esperança de pacifismo perene para dar lugar a uma contagem megalomaníaca e terrificante: Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 1914 e 1918.
          Ano passado, houve uma série de eventos para rememorar os cem anos do fim dos conflitos; há clássicos tratando do assunto como filmes e livros (o romance “Nada de Novo no Fronte”, de Erich Maria Remarque, por exemplo), bem como mídias mais contemporâneas (videogames e canais no youtube); estuda-se, em bancos escolares, os eventos da Segunda como necessariamente originados na Primeira. Apesar disto, pouco carregamos na memória sobre os eventos, exceto o assassinato de Francisco Ferdinando, as guerras de trincheira e os circos voadores.
          Embora haja acesso a diversificado conteúdo, o afastamento temporal e geográfico faz com que esta seja uma temática pouco presente na nossa memória, ao ponto de esquecermos, ou mesmo desconhecermos, a participação brasileira no conflito. A saber, a participação militar do Brasil foi através de alguns pilotos de avião que integraram a Royal Air Force, seis navios (a Divisão Naval de Operações Guerra, ou DNOG), grupo de médicos e enfermeiros foi enviado para montar hospital em Paris com intuito de auxiliar no combate à gripe espanhola, e oficiais que integraram o exército francês.
          Maior destaque teve DNOG. Primeiramente, por reunir o maior grupo de indivíduos e equipamentos, depois pelos percalços que enfrentou. Enviada para patrulhar a costa da África, bombardeou um grupo de animais marinheiros com a impressão de serem submarinos alemães. O maior inimigo, porém, fora a gripe espanhola: um surto dessa doença matou quase uma centena dos tripulantes. Com algum exagero, atribui-se ao retorno da DNOG para o Brasil como a causa da epidemia de gripe espanhola que assolou o país.
          Nas palavras de João Daniel L. de Almeida: “Foi uma participação limitada, mas não irrelevante.” As maiores conquistas do envolvimento militar brasileiro foram no campo da diplomacia, pois permitiram que o Brasil integrasse a Liga das Nações como membro fundador. A comitiva brasileira da conferência de Paris (1919) foi chefiada por Epitácio Pessoa que depois seria eleito presidente do Brasil. O intuito brasileiro era de que as vitórias fossem brindadas com café, se possível a um preço mais elevado do que se praticava ao grão à época.

Venceslau Brás 

          Antes do fim, o começo. A participação brasileira só fora possível após a declaração de guerra. Durante maior parte dos conflitos, o Brasil se manteve neutro, bastante interessado em fazer comércio com maior número de países possível. Esta posição política se desgastou por pressões internas e por ataques de submarinos alemães a navios mercantes brasileiros (em especial, o vapor Paraná que estava carregado de café). No decreto n° 3.361, o presidente Venceslau Brás pôs fim a neutralidade brasileira com os seguintes termos: 
“Artigo único: Fica reconhecido e proclamado o estado de guerra iniciado pelo Império Alemão contra o Brasil e autorizado o Presidente da República a adotar as providencias constantes da mensagem de 25 de outubro corrente e tomar todas as medidas de defesa, nacional e segurança pública que julgar necessárias, abrindo os créditos precisos ou realizando as operações do crédito que forem convenientes para esse fim; revogadas as disposições em contrário.”
          Dois inimigos a serem combatidos aqui. O primeiro deles era o kaiser Guilherme II, pois, como mostra o texto do decreto, depois de iniciar guerra na Europa resolveu comprar briga com o Brasil. O segundo - mais sútil - era quem ameaçasse a segurança pública. Logo após o fim da Guerra do Contestado (1912 a 1916), Venceslau Brás enfrentou aquela que é tida como a primeira greve brasileira: a Greve Geral de 1917. Havia muito mais inimigos internos do que externos.
          O convite à guerra, já endereçado aos brasileiros em diversas campanhas jornalísticas, fora aceito. As batalhas disponíveis eram contra os alemães e descendentes que viviam no Brasil: onde antes havia animosidades pela proximidade do cotidiano e pelo afastamento da língua, passou haver passeatas, apreensões, saques. Estas ações se concentraram principalmente em dois estados, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, e, neste, encontramos vários casos na cidade de Pelotas.
          É este o tema da série que se inicia: uma coleta da internalização da Primeira Guerra Mundial tendo Pelotas como palco. Usaremos como fonte primária, principalmente, os jornais publicados na cidade à época. Um passeio às claras sobre eventos que aconteciam às escondidas, mostrando como o verniz de cordialidade resiste muito pouco a mais leve intempérie.
          Buscaremos responder a uma pergunta antiga: Foi o assédio do Kaiser à Princesa real ou não?

Continua...

____________________________________________________
Imagens: Domínio Público
Referência: Manual do Candidato: História do Brasil, de João Daniel Lima de Almeida (Brasília: Funag, 2013).

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Carlos Ritter e a contribuição industrial para Pelotas (parte 2)

Carlos Ritter e a contribuição industrial para Pelotas
(parte 2)


A.F. Monquelat
Jonas Tenfen


Antes de nos atermos a descrever a fábrica do Sr. Ritter, gostaríamos, ainda que de forma sucinta, trazer algumas informações sobre a famosa Exposição Brasileira-Alemã ocorrida em Porto Alegre entre os anos de 1881/1882, inclusive sobre o incêndio ali ocorrido.
Aos 23 de setembro de 1881, lia-se, no Diário de Pelotas, que a indústria pelotense seria dignamente representada pelos Srs. Jacob Klaes, Ruiz Dias & Irmão, Cincinato Soveral, Eduardo da Silva Carvalho, Carlos Ritter, João Guilhermet Schreiber, F. C. Lang, Gustavo Hugo Elst e vários outros que enviaram seus produtos para participarem da Exposição Brasileira-Alemã.
Os Srs. Carlos Ritter, João Guilhermet, Schreiber & Filho e Ernesto Eifler mandavam também diversas qualidades de cerveja fabricadas em seus estabelecimentos. A cidade de Pelotas, naquela época, contava com 5 fábricas de cerveja.
Além dos citados, outros industriais da cidade participariam, honrando dessa forma a indústria pelotense e tornando-a ainda mais conhecida, no entender do redator da notícia.
Informa a imprensa de Porto Alegre que constava do Catálogo da Exposição Brasileira-Alemã - catálogo este impresso pela Typographia do Deutsche Zeitung, de Porto Alegre, e traduzido para o idioma alemão pelo jornal Deutsche Post ,de São Leopoldo -, mais de 11.000 objetos expostos.
Dentre outros tantos trabalhos expostos que chamaram a atenção do júri e do redator da Gazeta de Porto Alegre, destaque obteve os dois grandes quadros, representando as armas brasileiras e alemãs, feitos de borboletas e coleópteros, dos quais se via um sobre a mesa, que o jornalista acabara de examinar, e outro na posição “correspondente ao outro lado da praça d’armas”.
Esses trabalhos do Sr. Carlos Ritter, de Pelotas, prosseguia o jornalista, eram ao mesmo tempo obras de arte e subsídios à ciência, e, como tais, dignos de especial distinção.
Em tal ramo, ele jamais vira coisa melhor, e o Sr. Ritter podia orgulhar-se com razão da distinção que obtivera em comparação com outros idênticos trabalhos, também de primeira ordem.

A medalha de ouro do Sr. Carlos Ritter na Exposição

Aos 20 dias do mês de janeiro de 1882, o jornal Gazeta de Porto Alegre noticiava que, no dia anterior, o júri terminara os trabalhos de julgamento dos objetos que compunham a secção científica.
Na secção brasileira, foram premiadas, com medalha de ouro, as coleções de borboletas e coleópteros do Sr. Carlos Ritter (Pelotas), as coleções de pássaros do Sr. Schaun (São Lourenço), do qual falaremos posteriormente, as coleções do Sr. João Schroeder e a coleção etnológica que se achava exposta.

Os distúrbios e o incêndio do prédio da Exposição

Em virtude das desordens e distúrbios ocorridos no dia anterior (09.02.1882) no recinto da Exposição, por ocasião da distribuição de prêmios, com prejuízo da propriedade alheia, que ainda se encontrava no prédio, requereu a diretoria da Sociedade Filial de Geografia Comercial ao Presidente da Província a nomeação de uma comissão especial, encarregada de dar o seu parecer sobre a premiação, suspendendo a entrega dos mesmos até que tenha sido dado e publicado o parecer da respectiva comissão, segundo notícia divulgada na imprensa de Porto Alegre. 
À noite do dia posterior ao dos distúrbios e desordens, ardeu o prédio onde até então estava instalada a Exposição Brasileira-Alemã.
Desde a manhã do dia 23 de fevereiro, havia ajuntamento de pessoas.

Em vista dos distúrbios promovidos no dia anterior, por causa dos prêmios de pequeno valor, que no sorteio preencheram o lugar dos bilhetes em branco na loteria, resolvera o diretório da Sociedade Filial pedir ao Exmo. Sr. Presidente da província, a nomeação de uma comissão de sindicância, para dar parecer sobre o valor dos prêmios e a moralidade do sorteio além de suspender a entrega destes até a divulgação pública do julgamento da comissão.
O Sr. Dr. Joaquim Pedro Soares nomeou, imediatamente, uma comissão composta dos Srs. Lavra Pinto, Júlio Furtado e Joaquim Carvalho Bastos, sendo o fato comunicado aos portadores de bilhetes, através de um aviso por escrito, colado na porta do prédio, destacando o governo da província um guarda ao mesmo prédio.
Às 17 horas, começaram a juntar-se muitas pessoas e, dando-se as manifestações costumeiras em tais momentos, tentaram demolir o prédio, quebrando todas as janelas. Por volta das 20 horas, mais ou menos, rompeu o fogo. Dentro de uma hora estava o palácio da Exposição reduzido a cinzas com tudo quanto havia dentro em mercadoria estrangeiras e objetos da secção brasileira, prêmios da rifa, livros, papéis, diplomas, etc.
A perda em objetos foi de inestimável valor não somente para os seus proprietários, mas, em especial, para as ciências.

A fábrica de Carlos

No primeiro subterrâneo, estavam estabelecidos dois enormes fornos caldeiras, de cobre, que serviam para aquecer a água, cerveja, etc., cada um com capacidade para cinco mil e duzentas garrafas.
No centro, havia uma enorme tina de madeira destinada à infusão da cevada.
Ao lado, uma bomba aspirante, movida a braço, que conduzia a cerveja do tanque para o resfriadouro, que estava colocado no alto do prédio.
Por uma escada caracol, subia-se para o primeiro andar e ali via-se um bom moinho, fabricado por Kleyer & Beck de Darmstadt, Alemanha, destinado a moer a cevada, e outro da marca Penney & C., de Lincoln, estados Unidos, para a seleção deste cereal, em seguida estava o depósito de cevada, e que servia também de carpintaria para o serviço do prédio.
Voltando à escada, subia-se ao 2º andar, onde se via um enorme tanque de zinco destinado ao resfriamento da cerveja, podendo comportar de doze à treze mil garrafas.

Continua...


_______________________________________________________________________________
Fonte de pesquisa: CDOV – Bibliotheca Pública Pelotense
Imagens: acervo de A.F. Monquelat
Postagem: Jonas Tenfen

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Carlos Ritter e a contribuição industrial para Pelotas

Carlos Ritter e a contribuição industrial para Pelotas
(parte 1)


A. F. Monquelat
Jonas Tenfen

         

         Os alemães e, por vezes, seus descendentes estiveram desde cedo bastante presentes na vida, tanto rural quanto urbana, da cidade de Pelotas. São eles os responsáveis pelo desenvolvimento da indústria do Rio Grande do Sul, em especial através das cidades de Porto Alegre, Rio Grande e Pelotas.
         A província do Rio Grande do Sul deve, em grande parte, seu desenvolvimento industrial à nacionalidade alemã ou teuto-brasileira. No segundo momento da sua imigração ao território mencionado, deram início ao processo de modernização que, até então, além da primitiva e rudimentar indústria do charque vivia apenas da agricultura e pecuária.
         Na década de 80 do século XIX, Porto Alegre se encontrava entre as cidades mais industriais da América do Sul, e, salvo não muitas exceções, quase todas as indústrias existentes na província do Rio Grande do Sul se deram por iniciativa dos imigrantes alemães, ou por seus descendentes, prova da forte influência exercida por esta imigração sobre a indústria das regiões onde ela concentrou.
         A província do Rio Grande do Sul, segundo dados obtidos sobre as décadas de 70 e 80 do século XIX, produzia poucos produtos.
         A exportação para fora do país se limitava a um milhão de couros secos e salgados, duzentas mil arrobas de fumo e um pouco de erva mate, cuja fabricação se desenvolvia consideravelmente. Se a estas mercadorias agregássemos alguns carregamentos de guano artificial, chifres de boi, cola e crina, algumas centenas de barricas de pedra ágata, línguas em conserva e um pouco de seda, teríamos todos os produtos que compunham a exportação da província para o exterior.
         Em compensação, e constituindo-se a agricultura na principal riqueza da província do Rio Grande do Sul, esse setor da produção fornecia além da graxa e do charque, o feijão, a farinha e o milho para a maior parte das províncias do império. Fato possível e incrementado a partir da chegada dos 12.000 colonos alemães recebidos no Rio grande do Sul desde as primeiras décadas do século XIX.
         No sul da província, podemos destacar na cidade de Rio Grande, sem nos determos em descrevê-la ou acrescentarmos maiores detalhes, a importante fábrica dos Srs. Rheingantz & C., única do Império no seu gênero.

O Rei (e deus) Gambrinus
        
      Em Pelotas, além de várias outras, podemos citar a fábrica de guano artificial e outros produtos do gado vacum, de propriedade do Sr. Gustavo Hugo Elst, industrial alemão, situada na Costa - Arroio Pelotas -, no centro das charqueadas, ali instaladas por volta do ano de 1876.
         É ainda necessário salientar e destacar as fábricas dos Srs. Lang e a do Sr. Carlos Ritter. É deste último que trataremos neste trabalho.
         O Sr. Carlos Frederico Jacob Ritter, oriundo da cidade de São Leopoldo, provavelmente tenha se instalado, segundo o historiador Alberto Coelho da Cunha, em1870 em Pelotas, onde, neste mesmo ano fundou uma cervejaria, em modestíssimas instalações à  Rua 24 de Outubro [atual Rua Tiradentes] sobre a margem esquerda do Arroio Santa Bárbara, em um casebre situado no interior de um terreno de propriedade do Sr. Procópio Gomes de Oliveira.
         Segundo palavras do próprio Sr. Carlos Ritter, a cervejaria por ele fundada teve o início de seu funcionamento no ano de 1872 e ali permaneceu até o ano de 1879/1880, quando então se transferiu para a Rua São Jerônimo [atual Marechal Floriano], esquina Rua Marquês de Caxias [atual Santos Dumont], em um bonito prédio construído especialmente para tal fim, com a denominação de Fábrica de cerveja Ritter.
         Era seu proprietário o industrial Sr. Carlos Ritter, teuto-brasileiro, estabelecido em Pelotas há doze anos, conforme nos informa o jornal Diário de Pelotas no ano de 1883.
         Antes de conhecermos as instalações da Cervejaria Ritter daquele período, é preciso dizer que apesar da exaustiva pesquisa nos jornais sobre a possível inauguração da indústria cervejeira, não foi possível localizar notícia alguma sobre tal fato.
         O registro mais antigo encontrado foi o anúncio, que aqui vai a título de ilustração, publicado no Jornal do Commercio em 4 de julho de 1880.

         
         Ao entrar na cervejaria, deparava-se com uma pequena sala contendo cinco mesas de tampo de mármore, rodeadas de cadeiras.
Ao fundo, uma copa onde um empregado esperava as solicitações dos frequentadores da fábrica para atender aos seus pedidos.
      Ao centro da parede da direita, havia um enorme quadro representando Gambrinus, patrono não oficial da cerveja, e duas medalhas obtidas na Exposição Brasileira-Alemã de 1881, em Porto Alegre, exposição esta que premiou vários outros industriais alemães e teuto-brasileiros de Pelotas.
         Daquela sala, passava-se para um enorme salão onde, em treze mesas também podiam os frequentadores do estabelecimento saborear seus “deliciosos e bem fabricados” produtos e apreciarem três magníficos quadros de história natural resultado da paciência e apurado gosto artístico do Sr. Carlos Ritter.
         Um dos quadros representava, feito de insetos, as armas brasileiras, outro as armas alemãs; e o terceiro, para o jornalista o de maior beleza e arte, representava o prédio da fábrica de cerveja.
Sobre uma pequena mesa existia um armário onde, artisticamente colocado, se encontravam diversos animais empalhados.
         Por aqueles trabalhos sobre história natural, o Sr. Ritter obteve uma das medalhas na Exposição de Porto Alegre, a medalha de ouro. Infelizmente, os quadros que mereceram tal distinção foram consumidos pelas chamas que reduziram a cinzas o edifício onde se realizara a exposição.
        Pelas paredes daquele salão, viam-se também diversos animais perfeitamente empalhados. No centro, existiam duas ótimas mesas de bilhar.
         Dali passava-se para um pátio que comunicava com a fábrica e servia de passagem para o jardim.
Continua...


_______________________________________________________________________________
Fonte de pesquisa: CDOV – Bibliotheca Pública Pelotense
Imagens: acervo de A.F. Monquelat
Postagem: Jonas Tenfen