sábado, 17 de outubro de 2015

Simões Lopes Neto e os nucas-rapadas





                                                                                    
                   Mesmo sem a intenção de fazê-lo Simões Lopes Neto através de sua obra, a Revista do 1º Centenário de Pelotas, acabou contribuindo para a origem de algumas das lendas urbanas que permeiam a história da cidade.
                   A revista organizada e lançada por Simões Lopes Neto não sendo, latu sensu, uma obra de história, pois é o acolheramento de fatos que o autor entendeu merecer coleta e ficar à disposição das gerações futuras, diríamos até, malgrado a comparação, uma espécie de Cancioneiro Guasca, no qual Simões faz a recolha de fatos históricos acontecidos, segundo ele, não somente em Pelotas, mas também em outros municípios vizinhos.
         Perde com isso a obra deixada pelo autor de Contos Gauchescos?
         Não. E não por um motivo que nos parece relevante qual seja: ser a revista deixada por Simões, para registrar a passagem do primeiro centenário da freguesia, a primeira obra impressa a registrar os fatos históricos ocorridos em Pelotas e em outras localidades.
         Não é por demais supor, que a Revista a nós legada por Simões Lopes Neto não muito depois de sua circulação, tenha servido de referência a outras obras que trataram da história da cidade. Até aí tudo bem, desde que os que a usufruíram não praticassem o dito popular: quem conta um conto aumenta um ponto. Outro aspecto a observar, evitando sempre que possível, é a reprodução daquilo que não tem embasamento confiável, fidedigno ou documentável. A não observância disso leva a perpetuação do equívoco e acaba contribuindo para o surgimento de mitos e lendas.
         Muito dos registros feitos por Simões Lopes carecem de uma investigação mais acurada, pois, acreditamos que tais informações tenham chegado a ele através da tradição ou história oral sem que tivesse tempo ou fontes para investigar e confirmar o isso e aquilo ou, o aquele outro.
         Bem, mas nosso propósito, pelo menos por ora, é falar de um fato do qual tratou Simões na Revista de nºs 7 e 8, datados de abril-30-maio de 1912, às páginas 102-103, no que denominou Lopes Neto de Notas Diversas que, desde a primeira vez que o li, despertou-me curiosidade e vontade de saber mais detalhes sobre o episódio do qual Simões diz o seguinte:

 “Pela era de 1860... ocorreu um estranho boquejar, e era que estava preparado um levante em massa, da escravatura das xarqueadas.
       Era viável, talvez, essa revolta.
A escravatura das xarqueadas, calejada no trabalho, endurecida na faina de matar e esfolar as boiadas, habituada a usar e destramente, a faca, o machado, os paus do serviço; vivendo em contato com os capatazes e os seus senhores, sem dúvida levaria de vencida o atrevido lance.
Os escravos da cidade empregados no serviço doméstico, seriam informantes e agentes e também executores, no movimento.
A escravatura assim alçada meter-se-ia na Serra dos Tapes, em lugar já determinado por um grupo de parceiros que andavam fugidos (caiambolas), talvez já com esse fim de pesquisa, e que sigilosamente o comunicavam ao cabeça do movimento, em cada xarqueada.
Formar-se-ia um quilombo [couto de escravos fugidos]. Seria uma repetição dos Palmares, de Pernambuco.
Os conjurados – os mais responsáveis – conheciam-se entre si por um único sinal: usavam o cabelo (carapinha) raspado na nuca. Era tão pouco de notar esse distintitivo, para olhos ignorantes, que ele perdurou até a descoberta da conjuração.
O chefe era um crioulo, que viera da Bahia após a epidemia do coléra aqui (1855) que dizimou a escravatura, vendido pela conhecida firma da época, o armador Marinho. Esse crioulo poucos anos depois de chegado, fugou, e não foi mais apreendido.
Residia então em Pelotas um forte negociante, de origem espanhola, espírito liberal, exaltado, a quem se atribuiu, com ou sem razão, a inspiração e direção secretas da conspirata.
Esse negociante, antimonárquico extremado, levava a sua malquerença ao ponto de haver adquirido o retrato do imperador D. Pedro 2º somente para colocá-lo em compartimento desairoso [é provável que Simões esteja se referindo à casinha; privada], de sua casa, montada aliás com aparato. Soube-se desta depreciativa demonstração, houve intervenção enérgica de alguns cidadãos e desta resultou que o incriminado retirou-se da localidade, transferindo-se para Montevidéu.
Por ocasião desse sucesso é que avolumou-se aquela vaga acusação, talvez maligna, por interessada.
Era de toda a necessidade não deixar tomar publicidade o arranjo da conspiração, antes de sufocá-la sigilosamente, pois o alarme poderia provocar logo a explosão dela, e então seriam incalculáveis as desgraças decorrentes.
Trataram portanto os dirigentes da época de não alardear o conhecimento que tinham do caso, porém imediatamente avisados, reservadamente, os xarqueadores e outros senhores de escravos, foi quase simultaneamente jugulada a combinada revolta, pela prisão – em tronco – dos cabeças e a sua lenta e silenciosa remessa para outras províncias, além do inexplicado fim de alguns; em suma, os nuca-raspadas [sic] desapareceram, e os capitães do mato, auxiliados por gente mandada pelos interessados, com conhecimento das autoridades, bateram o quilombo serrano, aprisionando, matando e pondo em fuga os acoutados.
Assim, em obscura atmosfera, passou-se este obscuro caso. Temos sobre ele ouvido alguns antigos: uns afirmam, negam outros a veracidade do sucesso”.

Embora equivocado quanto a década de 60 do século XIX e alguns outros pormenores, mas não de um todo afastado do fato ocorrido, deixou Simões Lopes Neto uma pista para que a tal rebelião viesse a ser esclarecida pois,  duas por três nos indagávamos: não teria, considerando o sempre expressivo número de escravos em Pelotas, realmente ocorrido em algum momento, uma rebelião de escravos, por menor que fosse?
Do  registro feito por Simões Lopes sobraram duas únicas informações: a primeira, é a de realmanente ter ocorrido, na Pelotas das charqueadas, uma rebelião de escravos; a outra, é a de que os rebeldes usaram como “distintivo” ou sinal de indentificação comum, a nuca rapada.

A REBELIÃO DOS MINAS DE NUCAS-RAPADAS

A notícia sobre uma rebelião de escravos em Pelotas ocorreu no dia oito (08) de fevereiro de 1848 e aquela informação chegou ao redator de um jornal rio-grandino através de tripulantes da barca a vapor Brasileira, oriunda dessa cidade no dia seis (06) daquele mesmo mês.  Os passageiros disseram ter sito descoberto um levante, que pretendiam fazer os escravos das charqueadas, o qual deveria ter acontecido na noite de domingo, dia sete (07); porém, que graças à enérgica atitude tomada pelo delegado de polícia, o Sr. José Vieira Vianna, se devia a salvação de milhares de vidas “que estavam destinadas a perecer debaixo do ferro assassino dos cativos”.
“À Divina Providência”, a cidade de Pelotas que não tinha para a sua guarnição e defesa mais do que um (01)destacamento de 70 ou 90 homens do 8º batalhão de Caçadores, e uma meia dúzia de policiais, “criançolas” na sua maior parte, “como se nos asseveram – não está hoje nadando em sangue!”, dizia o redator da notícia.
Aquela carnificina, de acordo com os passageiros da barca, projetada contra os brancos da cidade de Pelotas, já deveria ter acontecido no dia 30 de janeiro. Transferida que fora para o domingo seguinte, dia sete, é que no entrementes pôde ser descoberta, o que se deu da seguinte forma, dentre as muitas versões que circularam na cidade de Pelotas, e a que pareceu ao jornalista bem fundamentada qual seja: Um escravo do Sr. Francisco Manoel dos Passos foi o primeiro que a seu senhor revelou o projeto do levante. Outros dois escravos, um do Sr. Antônio de Oliveira Castro, e outro do Sr. Luiz Manoel Pinto Ribeiro, iguais informações ou avisos prévios transmitiram àqueles, tendo “se feito notável em insistir nessas revelações”, o escravo do Sr. Pinto Ribeiro, que a princípio nenhum crédito lhe quis dar.
O que, em resumo, disseram os escravos foi: que eles haviam sido convocados para esse levante; que os principais aliciadores do levante eram os escravos do Sr. Manoel Rodrigues Valadares e, em especial os da charqueada do Sr. Manoel Batista Teixeira, e que alguns outros escravos da cidade, inclusive um, de certo cuteleiro [fabricante ou vendedor de instrumentos de corte] e outro, de certo ferreiro, estavam também envolvidos, inclusive se comprometendo a abrirem, na hora aprazada, as portas da casa seus senhores a fim de que os revoltosos se abastecessem de armas que ali houvessem em condições para o evento. E acrescentaram que todos os negros conjurados deviam ser conhecidos pela nuca rapada, que era o sinal distintivo que usavam os envolvidos na rebelião.
Todas essas informações dadas pelos delatores da conspiração dos Minas foram levadas ao conhecimento do Sr. delegado Vieira Viana, que imediatamente expediu circulares a todos os charqueadores que de imediato se puseram de sobreaviso; e trataram de encerrar à noite seus escravos, que a tal não se opuseram nem tampouco ofereceram resistência alguma.
Na manhã de sábado, véspera da projetada insurreição, algumas lavadeiras, no arroio Santa Bárbara, trabalhando e cantando, diziam entre si: “– Hoje lavamos para os brancos, e não tarda que os brancos lavem pra nós”.
Já tendo sido presos, logo após as ações do Sr. Delegado de polícia, uns 60 ou 80 escravos; dentre esses, dois sabiam mais a fundo sobre o plano do levante, e conheciam o lugar onde se achava depositado – ou escondido – algum armamento de que se haviam premunido. Porém, não tinham eles, até então, feito confissão alguma satisfatória, e estavam incomunicáveis na cadeia.
A isto tudo, acrescentava-se o boato de que todo o plano fora arquitetado e manipulado por alguns partidários de [Manuel] Oribe, que se achavam disseminados por Pelotas. Dizia-se ainda, já se achava preso na cadeia de Pelotas um tenente-coronel de [Juan Manuel de] Rosas.
As pessoas que se diziam bem informadas, e que estavam a bordo da barca a vapor Brasileira, ao desembarcarem em Rio Grande, asseguraram que tal imputação ou desconfiança não tinha fundamento algum, acrescentando ainda que todos os negros de nuca rapada que fossem vistos pela cidade de Pelotas eram imediatamente capturados pela polícia.
Dois dias depois do desembarque, a vizinha cidade de Rio Grande permanecia sem novidades outras se não aquelas levadas pelos passageiros da Brasileira, quando então um conceituado cidadão rio-grandino deu a conhecer um trecho da carta recebida de Pelotas, enviada por um amigo, onde a certa altura lia-se o seguinte:
 “Temos por aqui estado incomodados com a insurreição dos negros, dos quais já estão presos mais de 100. Ao que parece, eles se propunham a evadir-se de seus senhores e, segundo dizem, irem em direção ao estado vizinho [Uruguai]. Ontem [09.02.1848] começaram a castigá-los com a intenção de descobrirem o plano [de insurreição e evasão], mas nada se tem conseguido saber.
Parece que todos os implicados na insurreição tinham, por sinal, rapada uma parte da cabeça à maneira dos frades.
Veja vosmecê em que condições não deveria de estar todo este povo se fosse a noite que acontecesse o barulho [a rebelião], e que consequências não se seguiriam!
Felizmente tudo foi descoberto por denúncia de um negro, que nos livrou desse garrote.

O OFÍCIO DO DELEGADO DE POLÍCIA DE PELOTAS

Em ofício encaminhado aos nove dias do mês de fevereiro de 1848 ao delegado de polícia de Rio Grande, major Manoel Joaquim de Souza Medeiros, disse o delegado de polícia de Pelotas, José Vieira Viana:
Ilmo. Sr. – Como o termo [subdivisão de um território ; comarca] em que V. S.ª exerce o emprego de delegado de polícia divide com o [termo] em que eu exerço o mesmo emprego, julgo conveniente comunicar-lhe que, desde princípios do mês de janeiro último tive suspeitas e denúncias de que havia um plano entre os negros minas desta cidade, das charqueadas e olarias e de suas imediações, para uma insurreição, a qual, pela última e mais bem fundada das ditas denúncias, deveria acontecer no último domingo, 06 do corrente mês; em conseqüência, tomei desde o início as medidas de prevenção que julguei necessárias: no sábado, véspera da insurreição, dei as mais terminantes providências para evitar a projetada, que seria de terríveis resultados, se não a houvesse sufocado a tempo.
Têm sido presos perto de 50 escravos, todos de nação mina, que estão sendo castigados, entre os quais há somente um forro, que está igualmente preso, mas sem processo, por não ter denunciado o que depois confessou saber.
Das indagações que tenho feito pessoalmente, e de outras que tenho mandado apurar, está exuberantemente provado o plano de insurreição, que era nada menos do que matar brancos, ficarem forros e fugirem para o estado vizinho [território uruguaio].
Por ora, não há certeza em confissão de ter participado no referido plano pessoa nacional ou estrangeira, nem tampouco notícia de que ele se estendesse para além deste município; contudo, V. S.ª com a perspicácia e zelo que lhe são próprios, e que tantas vezes tem empregado a bem da tranqüilidade pública, tomará as medidas necessárias para que o contágio não se espalhe.
Nos apuros em que me vi, valeu-me a presença do sr. major Pecegueiro, com a tropa de seu comando, e a atividade do sr. comandante de  polícia que, com os seus soldados fizeram todas as prisões e desempenharam as minhas ordens; só tenho a lamentar a escassez destes recursos, para impor respeito em um município de mais de 3.000 escravos e onde, diariamente, entra grande quantidade de peões e gente de todos os pontos da campanha. Deus guarde a V. S.ª/ Pelotas, 09 de fevereiro de 1848”.

NOVAS NOTÍCIAS SOBRE OS REVOLTOSOS, EM FUGA

Foi divulgado também que teve a polícia de Pelotas, por denúncia, de que havia na Serra dos Tapes em torno de 200 negros, os quais supunham terem para lá fugido em conseqüência de saberem do fracasso do plano de insurreição, ou aterrorizados pelos castigos que estavam aplicando aos insurretos, que já estavam presos.
O delegado Viana, na impossibilidade de dispor de qualquer força de cavalaria, oficiou imediatamente à autoridade competente e logo rumou à Serra dos Tapes.
No dia 09, às três (3) horas da tarde, o tenente-coronel da guarda nacional de cavalaria, Serafim Ignacio dos Anjos, com uns 40 ou 60 cidadãos a cavalo, se reuniram para fazerem o que consideraram ser  um importante serviço, visto que ainda não estava nem organizada ou fardada a guarda nacional naquele período.
Até a saída da barca do dia 10, com destino a Rio Grande, e que poderia levar novidades sobre a expedição à Serra dos Tapes, não sabiam do resultado da incursão que partira de Pelotas no encalço dos fugitivos.
         A década de 60 do século XIX estabelecida por Simões Lopes perdurou, como o possível período da insurgência dos negros minas, até, pelo menos, o ano de 2.001, ano em que o relato legado por Lopes Neto é, ainda, reproduzido na obra História de Pelotas em quadrinhos (p.20), sem sofrer a menor alteração ou observação por parte do autor do texto.
         É possível que a narrativa deixada por Simões Lopes tenha permanecido ipsis litteris, em parte, por não constar tal episódio das Atas da Câmara Municipal de Pelotas que, durante o período, não se reuniu e, ainda, por não contar a cidade com jornais naquela época; época da insurgência.
         Vejamos outras informações recolhidas em nossa busca de elementos que no esclarecessem a frustrada insurgência dos escravos minas, os nucas-rapadas.

O ofício do tenente-coronel interino da legião de Pelotas

         Aos 12 de fevereiro de 1848, o tenente coronel Serafim Ignacio dos Anjos informava ao comandante superior Thomaz José dos Campos que, em virtude da requisição do Sr. Delegado de polícia de Pelotas, reunira uma força de guardas nacionais no distrito da Serra dos Tapes, nos dias 09 e 10 de fevereiro, a fim de impedir e prender uma quantidade de escravos, que o delegado dissera ser em número de 200, e que ele, não os encontrando, tampouco tendo visto indício algum de desordem, fez dispensar a força policial no mesmo dia, à noite, como tudo poderia ser notado nos que por cópia remetia, sob os números 1 e 2.
         Tinha ainda a satisfação de dizer que, com maior prontidão, não era possível reunir um grupo de cidadãos tão bem dispostos a cooperarem;  acrescentava que os sustos de que se achava o povo tomado com a notícia do levante de escravos minas, e outras notícias não menos aterradoras, que no entender dele, estavam todas acabadas.

O pedido do delegado Viana ao tenente-coronel

         Aos 19 de fevereiro de 1848, o delegado Viana endereçou ao tenente-coronel Serafim Ignacio dos Anjos, chefe da legião da guarda nacional, um ofício no qual informou que tendo chegado a ele a notícia de um grande número de escravos, do termo de Pelotas, haviam se reunido e estavam seguindo, ou já haviam seguido, para a Serra dos Tapes, em número pouco mais ou menos de 200, daí deprecar ao tenente-coronel a força necessária e todas as providências que julgasse necessárias para acautelar, prevenir e prender, sob as suas ordens os fugidos, aliciadores e demais implicados no episódio, se ele existisse naquele distrito ou no Cerro da Buena, de onde partira a notícia, ainda que não oficial, merecendo, contudo, ser averiguada.

O ofício do tenente-coronel ao delegado Viana

         Dizia o tenente-coronel que, em virtude do ofício enviado com data de 09 de fevereiro, no qual o delegado pedia força policial e providências com o propósito de evitar e prender um grupo de escravos que se achavam reunidos no 2º distrito de Pelotas, mandara ele, na mesma hora em que recebera o ofício, ordem para se reunirem os guardas nacionais da Costa da Serra, nos pontos de Monte Bonito e Passo do Retiro, onde amanheceram do dia 09 para 10 mais de 100 homens reunidos e bem dispostos; e que seguira, no mesmo dia 09, pela costa do Arroio Pelotas acima, a perguntar onde é que estava a reunião de escravos, mas que não lhe fora possível descobrir, e tampouco constava tivessem se evadido escravos das charqueadas daquela Costa, e que ali, estavam todos acautelados. Dera ele, então, as providências para que a Costa fosse patrulhada pelos moradores da mesma, ao que todos se propuseram com muita disposição.
         No distrito do Cerro da Buena, não havia movimento algum de escravos; à vista do que, fez retirar os guardas nacionais para que estes voltassem para suas casas, ficando, porém, prontos para qualquer ameaça que surgisse.
         Encerrava o ofício, datado de 10 de fevereiro, dizendo estar enviando um escravo de nome João Bitencourt, apanhado no Monte Bonito, que disse andar fugido há dois meses, e que pertencia ao grupo dos revoltosos.

O ofício de Thomaz José de Campos a Serafim Ignacio dos Anjos

         Dizendo ter recebido o ofício que o tenente-coronel Serafim Ignacio dos Anjos lhe enviara, respondeu Thomaz José de Campos, comandante superior, que, tendo em mãos o referido, destacando o que o Sr. delegado Viana lhes dirigira, a fim de que V. Sª. ordenasse a guarda nacional, para que esta lhe prestasse serviço diário, ao que V. Sª. não atendeu, sem ter tido ordem superior para aquilo, e tão somente o prestara quando, por urgência, lhe havia sido requisitado; e, bem assim, que para o serviço de vigir a cidade e proteger a cadeia, existia a força de linha sob o comando do major Pecegueiro, e, a de polícia; ao que lhe respondia, que V. Sª, bem cumpriu com os deveres que a lei lhe impunha; assim como, que continuasse recomendando a todos os Srs. oficiais e guardas, se atendessem a qualquer requisição repentina de autoridade competentemente constituída, dando logo parte. Não podendo, todavia, prestar serviço continuando sem ordem expressa de seus comandantes, ordenada pelo Exmo. Sr. presidente da província.
         Se, porém, quisessem prestar voluntariamente qualquer serviço efetivo, por convite de autoridade policial, a bem da segurança pública, o podiam fazer, dando logo aviso para que fosse comunicado ao Exmo. Sr. presidente. Assinava o comando superior interino da guarda nacional da comarca do Rio Grande em Pelotas, aos 15 de fevereiro de 1848.

Periódico divulga ofício do delegado Viana ao Brigadeiro

         No periódico Nova Época, nº 152, vê-se divulgado o ofício do delegado Viana ao Comandante da cidade e fronteira do Rio Grande, no qual diz o delegado Viana que, por denúncias que tivera, haveria um plano para a insurreição dos negros minas de Pelotas e suas imediações, que deveria acontecer no dia 06, domingo, dera, na véspera daquele dia todos os procedimentos ao seu alcance para evitar esse mal, e que até o dia 10, das indagações que fizera a respeito e pelas confissões dos negros castigados, o plano não passava de um projeto dos negros minas; mas que do dia 10 para 11, tinham surgido suspeitas de haver aliciadores do Estado vizinho. Um tropeiro recém-chegado a Pelotas e que de lá viera havia lhe dado notícia que, passando em Arroio Malo há doze dias, ali lhe informaram que os escravos daquele município haviam se insurgido, saqueando a cidade passando para o lado dos Blancos, no sobredito Estado. Ele, Viana, julgava ter sufocado o mencionado plano com as providências que tomara, e com os recursos da cidade: mas, a confirmarem-se aquelas suspeitas, eram esses recursos demasiado pequenos para que ficasse em segurança e tranquilidade um município em que existiam mais de 3.000 escravos, e muitos desordeiros.
         Concluía pedindo ao Brigadeiro que ele levasse em consideração e que desse as providências necessárias, a bem da segurança e tranquilidade pública.

As ações do Presidente da Província

         Dentre outros fatos é também referido nesse expediente, que fora oficiado ao Dr. juiz de direito da comarca do Rio Grande, que em 14 do corrente se oficiara sobre os acontecimentos do dia 06, dos quais nenhuma informação oficial havia naquela data, e que mandara por a disposição deste a canhoneira Caçapava.
         [...]. Deplorava o Presidente que, sendo do conhecimento das autoridades, desde princípios de janeiro, a conspiração dos negros, de tão sério acontecimento não tivessem  comunicado; e, não podendo elas contar com a solução de tão grave problema, tomassem a responsabilidade dele sobre si; lamentava ainda mais que, depois de conhecido e manifestado o plano do dia 06 e, depois de superada a dificuldade, dissessem que era pouca a força simultânea de 1ª linha e de polícia, e que era necessário, além disso, armar de imediato a guarda nacional do município de Pelotas. Quanto a isso já havia ele feito de tudo o que era possível; a comarca estava armada em parte; e novas ordens expedira para continuar o armamento. E que, distando tão pouco de Pelotas à cidade do Rio Grande, podiam, em caso urgente, requisitarem mais força, inclusive à guarda nacional daquele município, que estava completamente armada.
Carta de liberdade: a recompensa dada ao delator

         A carta abaixo reproduzida foi possível graças à gentileza do amigo Jarbas Lazzari, que a cedeu.
“Carta de Liberdade do Preto Procópio passada por Luiz Manoel Pinto Ribeiro, em três de março de 1848.
         Digo, o abaixo-assinado, que sendo possuidor do negro, de nação Mina, de nome Procópio, ao mesmo dou liberdade de hoje para sempre, para tratar de sua vida como liberto que fica sendo, em razão de ter recebido do Ilustríssimo senhor José Vieira Viana, delegado de polícia desta cidade, a quantia de noventa e sete mil réis, que mandou agenciar pela alforria do dito escravo, por haver o mesmo denunciado uma insurreição que estava sendo projetada entre os negros de sua nação, os quais denunciou e entregou àquela autoridade, que mandou prender e corrigir. E, por verdade do expedido, e para que o dito escravo possa gozar de sua inteira liberdade. Pelotas, aos três de março de 1848”.






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Fontes: Revista do 1º Centenário de Pelotas e Biblioteca Rio-Grandense
Revisão de texto: Bruna Detoni e Jonas Tenfen



terça-feira, 13 de outubro de 2015

Os alemães e teuto-brasileiros na indústria pelotense do século XIX

A fábrica de guano do Sr. Gustavo Elst


O Jornal do Comércio de Porto Alegre, no mês de setembro de 1883, em matéria na qual comentava longamente sobre o progresso da cidade de Pelotas, nos diz a certa altura que quanto à indústria folgava em reconhecer ser esta cidade uma das mais adiantadas da Província.
Informava o redator do jornal, que o Sr. Gustavo Hugo Elst, industrialista infatigável, e de “fina educação”, fora completar com a instalação de uma fábrica de guano [adubo preparado artificialmente com substâncias orgânicas, rico em fosfato e nitrogênio] a indústria bovina do rico município de Pelotas.
Em matéria anterior, publicada por volta do ano de 1880, este  mesmo jornal, sem entrar em maiores detalhes, registrava a presença da fábrica de guano já existente em Pelotas. Nesta reportagem, que nos serve de aporte para este artigo, é dito que antes da presença da fábrica as charqueadas atiravam ao rio [arroios e canal], aos pântanos e aos vastos campos da Costa todos os produtos, que passaram a ser aproveitados para o fabrico do guano, da farinha de osso, da refinação do açúcar, da graxa, do azeite [óleo] de mocotó e de muitas outras necessidades que, habilmente, estava desenvolvendo o Sr. Gustavo Hugo.
A grande fábrica de guano do Sr. Elst estava situada na Costa, no centro das charqueadas, desde o ano de 1877, ano de sua inauguração.
Este possuía dois pequenos vapores [barco movido por máquina de vapor] que serviam para rebocar os navios que transportavam os produtos bovinos. Empregava 60 homens e estava exportando, consideravelmente, para o exterior o guano de fígado, de osso, a graxa, o fino azeite de mocotó e até, na época, línguas e mãos de vaca preparadas [acreditamos que fosse uma espécie de conserva aos moldes das línguas, que eram em conserva].
Dentre todas as oficinas importantes da instalação, a que mais se destacava atraindo a atenção dos visitantes era a de preparar a graxa.
O processo empregado nas charqueadas que levava 48 horas, tempo necessário para cozinhar o osso, na fábrica do Sr. Elst era feito em 4 horas e de forma que não se perdesse um só resíduo, sendo tudo aproveitado.
A fábrica de guano foi vista pelo jornalista, no período de sua estada, como um dos maiores “e mais notáveis melhoramentos” ocorridos na cidade de Pelotas.
Em fevereiro de 1885, o Sr. Maximino Zerzedelo jornalista que acompanhou a visita de Suas Altezas, princesa Isabel e conde d’Eu, afirmou  em uma série de artigos enviados à imprensa,  ser Pelotas a mais rica e importante cidade da Província e que era, sem dúvida alguma, a mais industrial sob todos os pontos de vista.
Começando pelas charqueadas, a indústria estendia-se nos seus diversos ramos até a fabricação de vassouras e de tudo o mais que pudesse engrandecer um país que, como o Brasil, possuía as maiores riquezas.
Sobre o fabrico de guano artificial do Sr. Gustavo Elst, que prestava um grande serviço, além da utilidade no saneamento da cidade, aproveitando os miúdos do boi, antes atirados ao Canal São Gonçalo e ao Arroio Pelotas, para, através de um processo criado por ele, extrair o guano e outros produtos industriais de valor.
A matéria prima utilizada na fábrica do Sr. Elst, como já dito, era proveniente das charqueadas. O fígado e outras partes do boi, até então não aproveitados, eram cozidos a vapor depois de cortados aos pedaços e expostos ao sol, em grande terreno, obtendo assim certa consistência, sendo depois recolhidos ao armazém, onde eram depositados e ali permanecendo durante certo tempo, sendo a matéria prima depois levada a um torrador feito de tijolos, com chapa de ferro.
Atingido certo ponto da torração e seco, o material era submetido ao secador, de onde, por meio de um elevador passava para as peneiras, onde era classificado conforme as dimensões. O guano grosso ia para os moinhos a fim de ser transformado em farinha, voltando depois para as peneiras onde era clarificado e preparado para o embarque.

Preparo do óleo de mocotó
As patas dos bois, vindas das charqueadas, eram preparadas da seguinte forma:
Os mocotós [patas de boi sem os cascos] separados das canelas iam aos digeridores e ali ficavam expostos à pressão de vapor durante hora e meia; passado este tempo, colhia-se a gelatina, e a seguir, o óleo.
A gelatina ia, por meio de tubos, para um depósito que estava localizado a certa altura. Deste depósito, ia então para uma grande caixa, forrada de cobre, onde se procedia à evaporação, passando logo depois para outro depósito, onde ficava o tempo necessário para descanso.
Passado aquele tempo, tiravam a gelatina clara e limpa para as formas de metal, que a fábrica tinha em grande quantidade e que eram colocadas sobre grandes mesas de ferro.
Nessas formas, a gelatina coagulava, sendo em seguida cortada em pedaços de quadrado oblongo [alongado] e depois estendida sobre redes. As redes, depois de cheias eram colocadas em um vagonete e, por meio de um elevador, subiam ao andar superior da fábrica, onde eram retiradas e postas em vagões, construídos para tal propósito, em número de 48, cabendo 69 redes em cada.
Ao centro e ao lado do sobrado [construção], havia corredores que levavam ao fundo do prédio, onde estava instalado um ventilador movido por uma máquina de força de 12 cavalos dinâmicos, que dava à roda uma potência de 180 cavalos por minuto, aspirando assim o ar que estava fora do prédio.
Por este modo, obtinha-se  uma corrente de ar, que, passando por entre os vagões e as redes, arrastava consigo a atmosfera, saturada de umidade, que a própria gelatina exalava.
Este mesmo ventilador, expelindo o ar aspirado pelo outro lado e aspirando novo ar, renovava continuamente a atmosfera.
A gelatina ao fim de seis (6) dias estava em estado de ser retirada das redes, salvo algum contratempo, e depois de pronta descia por um tubo para o armazém de depósito, onde procediam ao embarricamento.
O óleo de mocotó era refinado em caldeiras de cobre, com serpentina do mesmo metal e sem processo químico algum, unicamente pelo vapor, o que fazia com que pudesse ser aproveitado, tanto para o tempero da carne como do peixe, substituindo perfeitamente o azeite doce.
As conservas de mocotó eram preparadas com a carne que estava presa às canelas, e o cozimento era feito em latas, contendo os temperos adequados; a conservação era feita por um processo especial desenvolvido pelo Sr. Gustavo Elst.
As canelas eram serradas e limpas, de forma a poderem ser aproveitadas para o fabrico de obras em osso.
A cinco (5) quilômetros de distância, de um estabelecimento a outro, ficava a fábrica de calcinação e continha os fornos adequados e necessários para a calcinação e armazéns, que ocupavam uma superfície de 4.700 metros quadrados, incluindo-se nesta área a fábrica de guano e mocotó. O número de empregados adultos variava de 40 a 50, e 10 crianças.
O pátio, que estava completamente ladrilhado, era cortado por canais subterrâneos que recebiam as águas pluviais e conduziam-nas ao Arroio Pelotas, drenando assim o terreno da fábrica.
Em 1882, o Sr. Gustavo Elst obteve o “privilégio” [autorização] para beneficiar todos os produtos provenientes da pata do animal vacum e, em seu estabelecimento, além do óleo comestível do mocotó, fabricava: gelatina comestível de mocotó em lata e em conserva, carvão animal e cola natural.
Segundo o jornalista, não havia quem ignorasse a importância do guano e os serviços que ele prestava à lavoura, sendo que o Peru, com o seu excelente guano, encontrara no Sr. Gustavo Elst um concorrente de primeira ordem que, em poucos anos, tinha superado com o seu produto, o guano peruano, prestando ainda com a sua indústria um grande serviço à salubridade da cidade de Pelotas, ao aproveitar aqueles subprodutos todos, antes jogados às águas, podendo, daquela forma, por em risco a saúde pública ao causar alguma epidemia. Também era de se levar a crédito do Sr. Elst, ter a sua indústria se  tornado uma importante fonte de renda para o Estado.
O Sr. Gustavo Elst era natural da Alemanha.
Encerrando a matéria, foi anunciado que o Sr. Elst pensava em uma forma de aproveitar o sangue dos animais abatidos nas charqueadas, o qual os charqueadores para nada utilizavam.
Enquanto o Sr. Elst estuda uma forma de aproveitar o sangue dos bois abatidos nas charqueadas, vejamos ao redor de sua indústria o que existia e estava acontecendo, segundo o parecer da comissão encarregada pela Câmara Municipal, formada pelos Srs. Boaventura Barcelos e Manoel Lourenço do Nascimento, através de documento firmado por estes em 1º de agosto de l885, no qual disseram eles que o Areal distava mais ou menos 6 quilômetros da “cidade de Pelotas” e ali notava-se o movimento, animação e vida desenvolvida naquele lugar, onde já havia uma população de 800 (oitocentas almas), com cerca de 100 (cem) habitações, sem contar as charqueadas e o “seu pessoal”; encontrando-se ali 3 (três) ferrarias, 2 (duas) tanoarias, 3 (três) carpintarias, 1 (uma) tamancaria, 10 (dez) tabernas, 1 (uma) farmácia, 2 (duas) aulas públicas, 1 (uma) fábrica de licores, 2 (duas) de calcinar ossos, 1 (uma) de guano artificial e outra de preparar línguas: e, não obstante, os moradores deste arrabalde, parte integrante da freguesia de Santo Antônio da Boa Vista, não tinham um pequeno templo onde pudessem receber “ o pasto espiritual”, visto que estava em completo desmoronamento a casa que servia de igreja. Por todas “estas razões” a Comissão propunha que a Câmara no Relatório que estava prestes a ser enviado à Assembleia Provincial [Estadual], pedisse o produto de meia loteria [estadual], para que a importância recebida fosse aplicada na construção de uma pequena capela onde o povo daquele lugar, tão populoso, recebesse e participasse dos preceitos religiosos.
Bem, pois é...
Em princípios de 1887, o jurisconsulto Dr. Evaristo Ferreira da Veiga, visitando a Província, fez uma detalhada descrição da cidade de Pelotas, trabalho este publicado no jornal Monitor Sul Mineiro, e nos diz o Dr. Evaristo, a certa altura, que Pelotas possuía 1.100 casas de negócio [comércio], e fora do domínio urbano, mas nas proximidades da cidade existiam muitas casas comerciais e 25 estabelecimentos de charqueadas, em que se preparava a carne seca, sendo todas movidas a vapor e empregando-se nelas mais de 1.500 “operários”, ao que parece o Dr. Evaristo não esteve bem informado quanto ao que ele tratou como “operário”, mas isso já é outro assunto.
Os mais importantes desses estabelecimentos, dizia o Dr. Ferreira da Veiga, eram os dos Srs. J. Brutus Cássio de Almeida e o do barão de Santa Tecla.
Nessas 25 charqueadas, abatiam-se, anualmente, 300 mil cabeças de gado vacum, cujo valor excedia de dez mil contos de réis e produziam 18 milhões de quilos de carne seca, 6 milhões de quilos de graxa e sebo, mil toneladas de guano artificial, couros, línguas, chifres e ossos, sendo os ossos pequenos transformados em cinza, que chegava  a mais de 5 (cinco) mil toneladas e que, em barricas, era exportada para a Inglaterra onde a utilizavam no fabrico de louça, atingindo todos esses produtos ao valor de 15 mil contos de réis.
Para o preparo das línguas, havia 4 fábricas e para o do guano uma e seu proprietário [Sr. Gustavo Elst] gozava de privilégio, sendo seu estabelecimento montado com aparelhos modernos, movidos a vapor, empregando nele um número expressivo de operários e, no serviço de recolher os resíduos [matéria prima] das charqueadas era usado um barco a vapor.
 

Fonte de consulta: Bibliotheca Pública Pelotense - CDOV
Revisão do texto: Jonas Tenfen


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Um sambaqui nas proximidades do Canal São Gonçalo

                                                                                                                   A.F.Monquelat

         Em março do ano de 1890, era anunciada uma importante descoberta arqueológica realizada pelo Sr. Arthur Brusque (1860-1932). Tratava-se de dois crânios e diversos “detritos” indígenas, localizados em um sambaqui, “isto é, em um cemitério indígena”, cerca de meia légua do Canal São Gonçalo, em campos, na época, pertencentes à estância Seixas.

         Entre os objetos encontrados, estavam pontas de flechas, maxilares humanos e de mamíferos, assim como fragmentos de bilhas [vasos bojudos e de gargalo estreito, geralmente deste material, usado para água e outros líquidos] de barro que serviam de sarcófagos aos cadáveres dos índios.

         Foi suposto, por pessoas que examinaram o material achado, que os crânios pertenciam a índios da tribo (como era denominado a época o que hoje se chama de povos indígenas) dos Tapes ou dos Guaranis, “que habitavam estas paragens”.

         Dias depois de anunciada aquela descoberta feita pelo Sr. Arthur Brusque, voltava a ser divulgada a notícia, desta vez detalhando “os detritos”: de cozinha (como cinza, carvão, ossos, etc.) e onde os indígenas costumavam, às vezes, depositar os restos mortais de seus companheiros.

         Um dos crânios estava em perfeito estado e, do outro, apenas a abóbada estava em boas condições; havia também no local do sambaqui pequenos fragmentos de talhas de barro, esporões de aves e peixes, pontas de flechas e etc.

         Dando continuidade às escavações, encontraram alguns fêmures, tíbias e um maxilar de conformação diversa da do crânio que estava em perfeito estado.

         Foi dito que ainda não era possível formar uma opinião definitiva sobre a procedência daqueles ossos; apenas conjecturas, mais ou menos aceitáveis, eram o que apresentavam alguns envolvidos com aquela descoberta.

         Como, porém, as escavações continuariam, era bem possível que fosse achado algum objeto que apontasse para uma conclusão razoável.

         Supunham, até aquele momento, que o sambaqui pertencesse à tribo dos Carijós que, segundo a opinião geralmente mais aceita por alguns estudiosos, ocupavam a parte leste do Rio Grande do Sul, entre as duas grandes lagoas e o oceano.

Índios Carijós em gravura de Ulrich Schmidl 


         Pouco sabiam, no entanto, acerca dos hábitos dos Carijós, pois as opiniões que a esse respeito conheciam eram contraditórias, afirmando alguns que eles eram sociáveis, e outros que os Carijós praticavam a selvageria até a ferocidade. Em face disso, seria de grande valor científico a descoberta de qualquer objeto que lhes pudesse orientar na formação de uma opinião definitiva àquele respeito.

         Em novas escavações realizadas nos campos da estância Seixas, foram encontrados, e embarcados por trem para Pelotas, novos crânios e outros objetos.

         Os crânios, pelas características, identificaram como pertencentes a indivíduos da “raça branca” e, um deles era de representante da “raça etíope”.

         Dentre os vários crânios encontrados, um apresentava largo furo na parte superior, como se tivesse sido atravessado por algum pau ou ferro, e, em outros, notavam-se evidentes sinais de golpes feitos com instrumento cortante.

         Foi encontrada também uma lâmina de ferro, já bastante carcomida pela ferrugem, bem como uns objetos redondos de metal amarelo, que supunham terem sido botões, como os de que faziam uso os soldados.

         Diante daquelas novas descobertas, perdiam-se os envolvidos em conjecturas.

         Sobre a imensa quantidade de ossos contidas no sambaqui, pensavam que, na margem direita do Canal São Gonçalo, tivesse habitado uma tribo de índios antropófagos e que os ossos encontrados fossem os restos dos seus festins canibalescos jogados no lugar onde costumavam fazer tais depósitos.

         Confirmavam aquela suspeita com o fato de estar um dos crânios perfurado e outros com brechas regulares.

         O que, porém, não encontravam explicação plausível, era quanto a presença, naquele lugar, da lâmina de ferro e dos objetos de metal amarelo.

         A teoria mais provável, ventilada na época da descoberta do sambaqui, era a de que nas redondezas tivesse ocorrido um encontro entre forças portuguesas e os índios, e que aos componentes da força portuguesa pertencessem os ossos.

        Faziam parte também dos objetos encontrados algumas pedras avermelhadas, que não sabiam ainda o que fossem, mas que supunham de algum valor, “à vista do seu peso considerável”.


* É pouco provável que o episódio tenha ocorrido entre índios Carijós e portugueses, sendo mais plausível que os índios fossem Arachanes. 




Fonte de consulta e imagens: Bibliotheca Pública Pelotense - CDOV
Revisão do texto: Jonas Tenfen